Esquecer de pagar a conta de luz, não lembrar de colocar sal na comida ou até se perder por um caminho que fez a vida toda. São os sinais que alertaram a família de uma das autoras desta matéria, Carlisle Ferrari, de que algo estava diferente com sua avó. Depois do susto inicial, veio o diagnóstico: ela fazia tratamento para a Doença de Alzheimer (DA) há alguns anos e os sintomas estavam avançando rápido.
Essa, infelizmente, é uma realidade comum no país. No Brasil, 1,2 milhões de pessoas passam pelo mesmo. Alzheimer é um transtorno neurodegenerativo progressivo e fatal, que compromete atividades do dia a dia. A doença provoca a perda de neurônios que controlam a memória, linguagem, raciocínio, sensações e movimentos do corpo. Segundo o Ministério da Saúde, a sobrevida média oscila de 8 a 10 anos a partir do diagnóstico.
A projeção para 2050 é que 5,7 milhões de pessoas sejam identificadas com Alzheimer. A informação foi revelada pela Comissão Intersetorial de Atenção à Saúde nos Ciclos de Vida (CIASCV/CNS), em 2024. É um número muito alto! Por isso, nunca foi tão importante investir em estudos nessa área, visando novos tratamentos, diagnóstico precoce e, quem sabe, a cura para a causa mais comum de demência.
Um ensaio clínico da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), por exemplo, concluiu que a cannabis medicinal pode ajudar a tratar o Alzheimer em idosos. A pesquisa analisou 28 voluntários, de idades entre 60 e 80 anos, durante aproximadamente seis meses. O artigo foi publicado na revista Journal Of Alzheimer’s Disease (JAD), em outubro de 2025. Mas como isso ocorreu, de fato?
Vamos falar de cannabis?
A cannabis medicinal é extraída de substâncias presentes na planta Cannabis sativa. Sim, a mesma da famosa maconha! A diferença está na finalidade, claro. Enquanto a maconha recreativa foca no efeito psicoativo, a cannabis medicinal utiliza extratos controlados, como o THC (tetrahidrocanabinol) e CBD (canabidiol). Ela é indicada para doenças crônicas, graves ou refratárias, isto é, que não respondem a tratamentos convencionais.

Vale lembrar que, em 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que o porte de menos de 40g de maconha é uma infração administrativa, ou seja, não é mais crime. Contudo, isso não significa que o consumo da erva foi liberado. O usuário não vai para a prisão, mas a maconha continua sendo uma substância ilícita e pode gerar multa. A cannabis medicinal, por outro lado, é completamente legal, desde que haja prescrição médica e autorização.
Essa grande aposta na medicina surge porque as pessoas possuem um sistema endocanabinoide (SEC). É uma rede de sinalização celular, essencial para manter a homeostase, ou seja, o equilíbrio interno do corpo. Enquanto envelhecemos, essas substâncias vão se perdendo, causando principalmente inflamação neuronal e estresse oxidativo. Elas são semelhantes aos compostos da cannabis (fitocanabinoides), que interagem com o SEC e podem contrapor esse processo natural.
No Brasil, o acesso à cannabis medicinal é regulado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A liberação para projetos de pesquisas passa ainda por Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) e, quando aplicável, pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP). Além disso, é preciso seguir critérios de segurança, rastreabilidade1, finalidade científica e conformidade legal, segundo Cassiano Gomes, diretor executivo e fundador da Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace).

A Abrace colabora com iniciativas que buscam ampliar o conhecimento científico sobre o uso terapêutico da cannabis no país. Inclusive, atuou como parceira da pesquisa realizada na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila). O estudo faz parte de uma série de projetos desenvolvidos pela instituição, em Foz do Iguaçu. A equipe também recebeu apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Johns Hopkins University School of Medicine, nos Estados Unidos.
Com relação ao fornecimento da cannabis, Gomes reforça que todo o procedimento ocorre dentro das normas legais e regulatórias vigentes. A participação da Abrace envolve suporte técnico, troca de informações e, quando autorizado pelos órgãos competentes, apoio operacional. “O objetivo é garantir que os pesquisadores tenham acesso ao material necessário para conduzir os estudos com segurança, rastreabilidade e controle de qualidade, sempre priorizando a responsabilidade institucional e científica.”
Uma pesquisa inédita
De acordo com o professor Francisney do Nascimento, que liderou o estudo na Unila, tudo começou com um único paciente. Usando a cannabis medicinal, essa pessoa saiu de um estágio moderado da doença para um nível ‘pré-Alzheimer’ de função cognitiva, somando pontos no Mini-Exame do Estado Mental (MMSE2). “A gente simplesmente trouxe o primeiro artigo na literatura mundial que mostrou que a cannabis pode reverter danos na memória de um paciente. Só um paciente. Foi muito limitado, mas foi a primeira vez, em 2022”, relata.

Nascimento é doutor em farmacologia e coordenador do Laboratório de Cannabis Medicinal e Ciência Psicodélica (LCP) da Unila. Fundado em 2017, o LCP tem como objetivo desenvolver pesquisas clínicas e identificar o potencial terapêutico da cannabis medicinal e outros psicodélicos. O resultado daquele primeiro estudo sobre o Alzheimer pode não ter mostrado uma cura, mas tornou-se um avanço importante no laboratório.
A pesquisa serviu de base para o ensaio clínico publicado posteriormente, classificado como randomizado duplo-cego3. Os 28 voluntários recrutados, aprovados nos critérios de inclusão, foram sorteados para receber a cannabis ou o placebo, sem que ninguém soubesse quem ficou com qual. Esse formato é considerado o ‘padrão-ouro’ de ensaios clínicos, pois é imparcial e garante maior eficácia e segurança.
E os resultados foram mesmo surpreendentes, viu? Ao final de seis meses de estudo, a teoria se mostrou eficaz na prática. Os pacientes com o placebo seguiram tendo o declínio normal da doença. No entanto, aqueles que receberam a cannabis medicinal apresentaram certa regeneração na memória. “A cannabis pode tratar a memória em pacientes com Alzheimer, recuperar a memória e, talvez, estabelecer esse tratamento por mais tempo”, detalha Nascimento.

Segundo o professor, isso acontece porque a cannabis medicinal faz nascer novos neurônios no hipocampo4. Essa constatação desbanca um mito antigo, que afirmava que a substância ‘matava’ neurônios, destruindo o cérebro. Foi por isso que a equipe a usou na pesquisa clínica, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. “A gente segue com outros dois estudos em andamento, para estender os dados”, revela.
Mudanças visíveis e invisíveis
Muito além do esquecimento, o Alzheimer altera o comportamento e a qualidade de vida do portador. Durante os anos em que a família cuidou da avó, Carlisle percebeu a mudança da senhora quieta e introspectiva para a senhora ansiosa, agitada e extremamente preocupada, que vocalizava seus medos de forma repetitiva. De fato, ela nunca atingiu um nível de agressão, mas nem toda família tem essa sorte.
Um dos pontos positivos do tratamento com a cannabis medicinal é justamente a melhora na desorientação e no humor. O primeiro paciente do estudo, por exemplo, era avô de uma das alunas de mestrado da Unila. Na época, em 2022, o agricultor já não conseguia realizar atividades simples do dia a dia, como pegar um ônibus sozinho. Poucos meses após usar a cannabis medicinal, recuperou parte da autonomia e a confiança da família para voltar à rotina.
Segundo o professor Francisney, hoje existem quatro principais medicamentos para tratar o Alzheimer, porém não trazem melhora significativa. Assim, o objetivo da equipe é verificar se a cannabis medicinal pode vir a funcionar como um “modificador da doença”, atrasando o máximo possível a evolução do quadro clínico. “Existem medicamentos paliativos sintomáticos, mas também existem medicamentos que podem travar a doença de fato. Essa é a nossa expectativa”, destaca Nascimento.
É importante lembrar que as doses utilizadas no tratamento foram e continuam sendo muito baixas, sem risco de causar qualquer efeito psicoativo. A pesquisa busca fornecer apenas uma “reposição canabinoide”, ou seja, repor substâncias do sistema endocanabinoide que o corpo não produz mais e que podem influenciar o nascimento de novos neurônios. Bastam microdoses contendo THC e CBD para mudar a vida de quem tem a doença.
Um sinal de esperança
Os resultados comentados pelo professor foram expostos em um artigo científico. Eles mostram que os voluntários que tiveram acesso à cannabis medicinal tinham duas vezes mais probabilidade de melhorarem sua pontuação na pesquisa clínica. E isso só comprova como a pequena dose é efetiva para mitigar os efeitos do declínio cognitivo.

O estudo caminha para ser uma terapia de escolha. O laboratório não está de olho só nos pacientes idosos, mas também nas futuras gerações das famílias. Uma pesquisa de tratamento preventivo, com foco nos filhos com mais de 50 anos. Isso porque, conforme explica Nascimento, a perda de neurônios começa anos antes dos sintomas. “Para começar o estudo de 20 anos, [vamos] começar a dose de cannabis todos os dias e avaliar uma vez por ano, para ver se daqui 20 anos desenvolveram [a doença] menos do que outros pacientes”, destaca.
O LCP também faz testes em pacientes com parkinson, autismo, fibromialgia, depressão, doenças neurológicas, psiquiátricas ou reumatológicas. O projeto visa buscar soluções para casos de tratamento limitado e em que o uso de cannabis ainda não está comprovado. Atualmente, Foz do Iguaçu é o centro da pesquisa, mas há interesse em trabalhar com voluntários de outras cidades. As inscrições estão disponíveis no linktree do laboratório.
Uma coisa é fato: o Alzheimer muda a rotina da pessoa e de todos ao seu redor. Saber que pesquisas têm foco em melhorar a vida desses pacientes é um vislumbre da esperança!
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Texto: Carlisle Ferrari e Isabella Abrão
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Carlisle Ferrari
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Rastreabilidade – capacidade de mapear o histórico e a localização de um produto ou lote. ↩︎
- Mini-Exame do Estado Mental (MMSE) – teste de triagem cognitiva utilizado no Brasil para avaliar orientação, memória, atenção e linguagem, com pontuação máxima de 30. Ajuda a rastrear demências como o Alzheimer e é obrigatório no SUS para liberar medicamentos específicos. A pontuação é ajustada pela escolaridade. ↩︎
- Ensaio clínico randomizado duplo-cego – estudo onde os participantes são sorteados (randomização) para receber o tratamento ou um placebo (substância ou procedimento inerte). As pessoas não sabem quem recebeu qual. ↩︎
- Hipocampo – Estrutura no lobo temporal do cérebro, responsável pela formação de memórias e por transformar memórias de curto prazo em longo prazo. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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