Quem ensina também aprende? E quem aprende? Também pode ensinar?
Em uma sala de aula, essas respostas são óbvias. Mas, além do espaço acadêmico, em agosto, duas datas reforçam a importância dessa troca.
O Dia Nacional dos Profissionais da Educação, celebrado em 6 de agosto, homenageia não apenas os professores, mas toda a rede de apoio escolar, incluindo diretores, merendeiras, secretários, coordenadores e auxiliares de limpeza, essenciais para o funcionamento das instituições de ensino.
Já o Dia do Estudante, comemorado em 11 de agosto, surgiu a partir da criação dos dois primeiros cursos de ensino superior do Brasil, em 1827.
Porém, mais do que celebrações, essas datas nos lembram que a educação é construída por diferentes pilares, graças ao trabalho conjunto de quem ensina e de quem aprende.
Mas e quando o aprendizado ultrapassa o ambiente estudantil e se transforma em encontros, experiências e criação?
É nesse momento que nascem os projetos de extensão universitária, os quais mostram como o ensino pode conectar conhecimento e comunidade. E foi nessa perspectiva que o C.CRIA, Centro de Criatividade em Arte e Arte Educação, veio ao mundo.
O projeto de extensão, vinculado ao Programa de Extensão Núcleo de Arte e Educação do Curso de Licenciatura em Artes da Universidade Federal do Paraná (UFPR), setor Litoral, originou-se em 2023 e desenvolveu-se a partir da vontade de levar a arte de diferentes formas a diversos públicos.
Coordenado pela Professora de Artes Visuais, Luciana Ferreira, pós-graduada em Metodologia do Ensino da Arte, mestre em Comunicação e Linguagens e doutora em Geografia na área de Cultura, o C.CRIA nasce em resposta às necessidades culturais que existem no litoral paranaense,especialmente em Matinhos.
”A criação do projeto foi motivada pela percepção de que o município ainda possui poucas ações voltadas à cultura e à arte, principalmente para o público infantil”, contou a coordenadora.

A prática artística
O nome Centro de Criatividade em Arte e Arte Educação (C.CRIA) é inspirado nos tradicionais centros de criatividade e centros culturais presentes no ensino da arte, espaços estes que são conhecidos por serem dedicados à produção artística.
Por isso, embora o projeto também trabalhe com metodologias contemporâneas e alternativas, a escolha do nome mais tradicional é para destacar e relembrar o potencial criativo desses ambientes.
Sendo parceiro de mais outros dois projetos, também coordenados pela professora Luciana, chamados Mundo Mágico da Leitura, desenvolvido especificamente para crianças e adolescentes, e o projeto Ser, voltado para a conscientização sobre os animais de rua, o C.CRIA atua com um caráter multidisciplinar, oferecendo a arte não só para as crianças, mas para toda a comunidade.
Já foram realizadas oficinas de gravura, serigrafia, produção artesanal, muralismo e modelagem.
Além de atividades, como leitura, ilustração, diagramação, edição de livros infantis, cursos de mangá, ateliês e produção de almanaques interativos com histórias, passatempos, jogos e tarefas lúdicas.
“A gente sempre tenta associar diferentes linguagens artísticas em uma só, muitas vezes unindo artes visuais, música e teatro” contou Luciana.
Pensado para ser um espaço de aprendizagem mútua, ao mesmo tempo em que o C.CRIA promove ações voltadas a crianças, adolescentes, professores da rede pública, estudantes universitários e a população externa no geral, ele também contribui para a formação dos próprios alunos de Artes da UFPR Litoral.
O grupo tem a oportunidade de cumprir a carga horária de extensão necessária dentro do projeto e também de realizar o estágio obrigatório em um espaço de educação que não é formal.
A coordenadora Luciana contou que muitos estudantes se descobrem como professores durante o projeto. “A gente já teve vários estudantes que não queriam atuar como professores, mas participaram das nossas oficinas e agora são professores e passaram a se interessar pela licenciatura de verdade. Porque uma parcela dos nossos discentes, eles entram no curso de artes por causa das artes e não por causa da licenciatura, mas acabam criando uma ‘paixonite’, dentro da extensão”, explicou ela.
Além disso, o projeto também integra a pós-graduação, pois recebe diversos estudantes de mestrado e doutorado para realizar oficinas e compartilhar os conhecimentos que estão produzindo em suas pesquisas.
Para propor uma oficina ou atividade, é necessário apresentar um plano de aula com quesitos básicos como objetivos, tema, metodologia, duração, público-alvo, número de participantes e materiais necessários.
Com isso, a proposta é analisada pela equipe para verificar se está alinhada aos princípios do C.CRIA e, depois de aprovada, passa a fazer parte do planejamento.
Qualquer pessoa, seja da universidade ou fora dela, pode participar. Há também, em alguns casos, a emissão de certificados e declarações para os participantes.
Quem ensina e quem aprende
Ensinar e aprender são processos que fazem parte do ciclo do C.CRIA. Muitas das oficinas realizadas são ministradas por egressos, ex-alunos que antes participavam, agora retornam à universidade para compartilhar seus conhecimentos. Segundo a professora, o impacto dessa troca é medido pela procura constante por oficinas.
“Quem mais dá feedback positivo para gente são as crianças. Elas encontram os integrantes do projeto na rua, porque Matinhos é uma cidade pequena no final das contas, também visitam o campus, frequentemente perguntam quando haverá novas oficinas e sempre pedem por mais cursos” contou Luciana.
Para ela, esse retorno espontâneo é um dos principais indicadores da relevância do C.CRIA, já que muitos, mesmo após o fim da atividade, demonstram interesse em continuar aprendendo.
Além disso, muitas possibilidades de atuação são ofertadas para os bolsistas e voluntários. As atividades são pensadas para que cada um que participa contribua de maneira singular ao projeto. Para isso, eles assumem diferentes responsabilidades.
São os bolsistas e voluntários que produzem os materiais gráficos, fazem a elaboração dos textos, a divulgação, organizam os espaços, preparam os materiais que serão utilizados, realizam o acompanhamento dos oficineiros e montam a preparação de novas tarefas.
Também participam da organização de exposições de trabalhos, desde as etapas de montagem, até a seleção das obras, podendo vivenciar na prática experiências de curadoria e expografia.
Já em relação às práticas artísticas, todas sempre são planejadas com a preocupação de serem adaptadas às realidades das escolas. Na criação, é levado em consideração, como os professores da rede pública vão conseguir reproduzir as técnicas em sala de aula utilizando materiais mais simples e de baixo custo, sem depender de equipamentos específicos, como uma prensa, por exemplo.
E, quando os cursos são finalizados, o projeto sempre busca avaliar como foi o impacto na vida de quem participou, o quanto ela aprendeu e como vai aproveitar desse conhecimento.
Dia do Artista
O maior diferencial no espaço do C.CRIA é fugir da proposta padronizada de ensino formal. Na escola, por exemplo, os estudantes precisam seguir regras, ter a hora de ir ao banheiro, a hora de poder falar e quando chegam no projeto, saem dessa lógica. A coordenadora nos contou que eles também iniciam com muitas questões, como “eu não sei desenhar” ou “quem sabe desenhar que é bom em artes”.
Porém, depois de passarem pelo processo criativo, perdem esses preconceitos. É nesse momento que o participante entende que a arte vai muito além de desenho e pintura e muda completamente seu pensamento, seja de forma consciente ou inconsciente. “A pessoa passa a se divertir fazendo arte, sem se preocupar se o colega está fazendo melhor do que ela”, explica Luciana.
Uma das ocasiões que exemplifica essa ideia é o chamado Dia do Artista, atividade com uma experiência imersiva. A iniciativa é realizada uma vez por ano e leva os participantes, durante uma manhã ou uma tarde, para conhecerem o ateliê de algum artista relevante da região. Nesse encontro, o artista compartilha sua trajetória profissional, apresenta técnicas, materiais e explica as etapas de seu processo criativo.
A maioria dos participantes do Dia do Artista são estudantes de Artes da UFPR e pessoas que já conhecem o projeto e costumam participar das visitas. Muitas acontecem em cidades como Antonina, Morretes, Paranaguá e Guaratuba, além da própria Matinhos.
A professora revelou que eles desejam ampliar essa atividade também para crianças, mas ainda é preciso enfrentar barreiras, como a logística e o transporte desses menores. Mas, mesmo com essas limitações, reúne-se um público muito expressivo a cada edição.
Desafios a serem superados
Atuando em programas de extensão desde 2007, Luciana contou quais as dificuldades para manter um projeto como este. Um dos principais desafios a ser superado pelo C. CRIA é a escassez de infraestrutura disponível para o seu desenvolvimento, pois ainda não há um espaço adequado para atender as demandas de todos os dias.
Muitas das práticas artísticas precisam ser adaptadas devido às limitações dos ambientes em que ocorrem, como as salas que são utilizadas, por exemplo, elas não possuem pia, um recurso que é muito básico para realizar atividades de arte. “São coisas muito pequenas, mas que causam grande impacto”, resume a coordenadora.
Um outro desafio está em conseguir manter a mesma formação de equipe durante muito tempo, já que há uma rotatividade muito significativa de participantes. Quando os bolsistas e voluntários concluem a graduação, mudam de projeto ou interrompem o curso, exige que novos integrantes sejam capacitados para fazer parte da equipe. E, com a renovação constante de pessoas, o projeto sempre precisa estar orientando e acompanhando esses membros. Luciana relatou que, normalmente, eles já atuam com um número reduzido de pessoas e, isso, acaba limitando a forma que são distribuídas as tarefas.
Há também a falta de materiais e recursos financeiros, muito do que se é utilizado nem sempre consegue ser adquirido com facilidade. Tintas, papéis, ferramentas, instrumentos específicos, muitas vezes dependem de editais de financiamento, que são longos e burocráticos, para assim serem obtidos.
A limitação orçamentária é uma das questões que mais afeta o C.CRIA, já que mais investimentos possibilitaria ampliar mais as ações do projeto, como convidar mais artistas e professores de outras cidades para ministrar oficinas e facilitar o transporte em atividades externas, como o Dia do Artista, por exemplo.
Além dos impasses estruturais e financeiros, há também o desafio que a gestão administrativa do projeto passa. Frequentemente, a coordenação fica responsável não só pela parte pedagógica, mas também por todos os outros problemas que surgem.
Questões com documentação, prestação de contas, organização de inscrições, emissão de certificados, contato com escolas e acompanhamento dos participantes são algumas das funções que ficam concentradas com a coordenação, mas que deveriam ter uma equipe administrativa por trás, composta de secretários, por exemplo.
Porém, apesar de tudo, a professora Luciana destacou que o comprometimento dos estudantes com o projeto, faz com que ele se mantenha vivo, mesmo com essas adversidades que surgem.
Próximos passos
Para o futuro, o C.CRIA traça novos caminhos para ampliar seu impacto. Uma das vontades da equipe do projeto é criar uma feira de artes, com nome de Escambo, não só para reunir artistas, estudantes e comunidade para troca de experiências artísticas, mas também para ser um polo de conexão entre diferentes formas de arte.
A ideia consiste em um evento que seja para a comercialização e troca de obras, como fotografia por pintura, por exemplo. Isso contribuirá para o fortalecimento da produção cultural da região, já que fará com que uns conheçam os trabalhos dos outros. Também, proporcionará a possibilidade de novas parcerias e oferecerá um espaço diferente da universidade para exposições e divulgação.
Além disso, uma nova edição do Dia do Artista está sendo preparada e exposições dedicadas aos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) dos estudantes de Licenciatura em Artes serão realizadas.
Já em relação às crianças, a coordenadora nos revelou que é um público que permanece como uma das prioridades do projeto. Serão organizadas mais oficinas divididas em etapas, para que assim a capacidade de atender mais crianças seja possível. Para o próximo semestre já estão sendo programadas oficinas de entalhe, produção de objetos com papel e provavelmente uma sobre o Afrofuturismo.
Também serão explorados diferentes espaços da universidade, como a biblioteca, áreas externas e laboratórios de ciências, ampliando ainda mais as experiências proporcionadas. O objetivo é levar as oficinas para além do C.CRIA e aplicar dentro das escolas da região, a fim de aumentar o alcance do projeto e aproximar ainda mais a universidade da educação básica.
Para Luciana Ferreira, a entrevista em que realizamos foi algo motivador para a continuação do projeto e que cada uma dessas iniciativas representa um passo importante para fortalecer o C.CRIA. “Esses são pequenos passos, mas que no montante do que a gente faz, alcança bastante resultados em nossas atividades”, concluiu a coordenadora.
Mais do que oferecer oficinas e atividades artísticas, o C.CRIA é um exemplo de projeto de extensão que desenvolve e fortalece o aprendizado e o ensino, bem como mostra a importância da união entre universidade e comunidade. Mostrando que quem ensina também aprende e quem aprende também passa a ter novas possibilidades de ensinar.
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Texto: Vitória Luiza Gomes de Oliveira Pimentel
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Nathalia Montalvão
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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