Quando vemos a fotografia de estudantes sorridentes segurando um troféu em uma feira de ciências regional ou nacional, a tendência imediata é olhar para o produto final. Olhamos para a maquete bem estruturada, para o protótipo de robótica que funciona com precisão, para a plataforma digital programada sem erros ou para a paleta de cores sustentáveis desenvolvida a partir do solo da própria região. Celebramos a inovação, a tecnologia e o rigor técnico.
Mas o que existe antes do projeto pronto e apresentado nas feiras de ciências?
A resposta a essa pergunta não costuma aparecer nos relatórios técnicos nem nos banners de apresentação. Ela habita em um território discreto, muitas vezes, invisível aos olhos dos visitantes, mas que determina a diferença entre o aprendizado passageiro e a transformação permanente.
Em Bom Sucesso, pequeno município com pouco mais de 8 mil habitantes no norte do Paraná, a professora Elaine Correa Soares tem trabalhado com os membros do Clube de Ciências Conexão e Sustentabilidade habilidades socioemocionais e cognitivas, as soft skills. Um trabalho interno que contribui para a maturidade, a resiliência e a autonomia dos alunos.
A semente do Manna: do encanto no MON para a sala de aula
Essa virada de chave para focar no “lado de dentro” dos estudantes ganhou contornos definitivos em março de 2025, quando a professora Elaine viajou até Curitiba para participar da segunda edição do Manna no Museu, evento de imersão em ciência, tecnologia e inovação para estudantes e professores, que foi realizado no Museu Oscar Niemeyer (MON).
A experiência vivida nas dinâmicas do Manna no Museu, organizadas pela equipe do NAPI Manna Academy, reforçou uma premissa fundamental: para que qualquer avanço tecnológico, automação ou projeto inovador se consolide na escola, o aprendizado precisa caminhar ao lado do desenvolvimento pessoal e do fortalecimento do senso crítico dos alunos.
Na volta para Bom Sucesso, o clube se reuniu em uma roda de conversa para falar sobre seus sonhos, medos, expectativas e formas de comunicação, e, assim, falar das soft skills. A partir daquele momento, a pesquisa científica e o pensamento crítico ganharam uma camada emocional para fortalecer as conexões humanas.

O cultivo no solo e na mente: a horta como laboratório socioemocional
Para que esse trabalho com as soft skills não ficasse apenas no campo do discurso abstrato, a professora Elaine transformou a própria rotina do colégio em um campo de experimentação científica e aplicada. Entre setembro de 2024 e abril de 2025, o clube colocou em prática a pesquisa intitulada “Horta Escolar como cenário de aprendizagem para o desenvolvimento de Soft Skills e a formação socioemocional na Educação 5.0”.
Enquanto 25 clubistas lidavam com o planejamento, implantação, manutenção de canteiros e estufas automatizadas para o cultivo sustentável, ocorriam em paralelo dinâmicas de grupo e avaliações fundamentadas no modelo internacional difundido pela CASEL (Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning), uma organização norte-americana, sem fins lucrativos, tida como referência internacional em aprendizagem socioemocional (SEL – Social and Emotional Learning). Por meio de escalas de medição pré e pós-intervenção, entrevistas e fichas de observação sistemática, a horta provou ser um poderoso instrumento pedagógico.
O resultado do estudo comprovou saltos significativos em dimensões essenciais para o convívio em sociedade: os alunos apresentaram melhorias expressivas nos níveis de cooperação, empatia, iniciativa, responsabilidade e colaboração. A pesquisa mostrou também que, quando aliadas às metodologias ativas, a terra e a biologia tornam-se ferramentas eficientes para a formação integral do indivíduo.
Para a professora Elaine, lidar com as emoções e com os experimentos que o clube vem desenvolvendo serviram também para transformar a forma como ela mesma pensa sobre o ensinar. “Aprendi que ensinar ciência é muito mais do que passar conteúdos: é despertar a curiosidade, incentivar sonhos e mostrar aos alunos que eles são capazes de criar, pesquisar e transformar ideias em realidade. E me motiva muito saber que, através do Clube, estou deixando um legado. Talvez eu não consiga acompanhar todos os caminhos dos meus alunos, mas espero que eles levem a coragem e certeza de acreditar no próprio potencial para fazer a diferença. Para mim, esse é o verdadeiro sentido de educar”, explica a docente.
A investigação sobre o desenvolvimento humano tendo a horta escolar como espaço para formação socioemocional teve seu reconhecimento na FIciências 2025, quando o projeto do Conexão e Sustentabilidade conquistou a medalha de 3º lugar na categoria Ciências Humanas Júnior, reafirmando que estudar o comportamento e as emoções é fazer ciência da mais alta qualidade.

A expansão de horizontes: as soft skills sustentam a diversificação
Com a base emocional fortalecida e a inteligência social consolidada, os alunos do Clube Conexão e Sustentabilidade ganharam maturidade e autonomia para dar um passo além: diversificar a agenda de pesquisas da escola. Afinal, jovens que aprendem a cooperar desenvolvem uma sensibilidade coletiva que expande seu olhar para o mundo, permitindo que o grupo cresça em direções diversas.
O clube Conexão e Sustentabilidade passou a transitar com naturalidade por múltiplos campos do saber. Na química e nas ciências da terra, debruçaram-se sobre o projeto das Geo Tintas, investigando as propriedades dos solos locais para criar pigmentos naturais e sustentáveis voltados à expressão artística e à construção ecológica.

Em paralelo, ao voltarem seu olhar atento e empático para as dores da comunidade e do país, os clubistas desenvolveram a Plataforma Digital para Empoderamento Feminino e Combate à Violência contra a Mulher e Diversidade de Gênero. Essa ferramenta tecnológica que eles criaram conquistou o 2º lugar na Categoria Ensino Médio e Técnico no 6º Vale da Ciência.

A habilidade de transitar e misturar áreas diversas do conhecimento demonstra o êxito em trabalhar as competências humanas nos clubes de ciências, como uma formação de base que permite aos alunos aplicação para resoluções de situações muito além da escola.
E o que permanece depois que os banners são recolhidos ao final das feiras de ciências e voltamos para a escola?
A aluna clubista Fernanda Sincero conta que “participar do Clube de Ciências mudou bastante minha forma de enxergar a escola e o aprendizado. “Participar dos eventos e apresentar nossos projetos me ensinou a ter mais responsabilidade, trabalhar em equipe e falar em público confiando mais nas minhas ideias. E também passei a enxergar os erros como parte do processo. Sinto que o Clube de Ciências me ajudou não só academicamente, mas também a crescer como pessoa e pensar mais sobre o meu futuro”.
Para além das comemorações nas mostras científicas, o verdadeiro aprendizado habita também nas experiências vividas no chão da sala de aula e no processo contínuo de amadurecimento dos estudantes. É nos bastidores que os jovens aprendem a lidar com os percalços e as frustrações, seja quando o experimento não sai como o esperado, seja ao lidar com a frustração de não ter o projeto selecionado para uma feira. Saber lidar com os resultados inesperados, recalcular a rota sem desanimar e apoiar o colega faz parte da transformação desses jovens diante do mundo.
“O Clube de Ciências me fez enxergar que sou capaz de fazer coisas que antes nem imaginava”, conta Nilton Sansivirinati, outro clubista. “Estar nos eventos e ver outros estudantes com seus projetos me fez perceber que a ciência não está tão distante da nossa realidade, está nas pequenas ideias, nos problemas que queremos resolver e na curiosidade de entender o mundo. O Clube me deixou não só conhecimentos, mas memórias, amizades e uma confiança que vou levar para muito além da escola.”
Por trás das conquistas do Clube Conexão e Sustentabilidade, há um processo menos visível e igualmente importante, pois há resultados que não aparecem em troféus ou certificados. Nesse processo, o professor exerce um papel fundamental de mediação e escuta, enquanto habilidades como autonomia, empatia, confiança e colaboração são desenvolvidas no cotidiano do Clube. São transformações menos visíveis, mas que contribuem para a formação de cidadãos mais conscientes e preparados para transformar o futuro.
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Texto: Cassia Naomi
Supervisão de Texto: Ana Elisa Frings
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Natalia Fermiano
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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