Quando criança, um dos meus filmes favoritos de animação era ‘Os Sem-Floresta’, de 2006. À época, achava engraçada a forma como os personagens, os animais da floresta, arquitetavam diferentes planos para roubar alimentos das casas dos humanos.
Uma das cenas mais divertidas, pra mim, era do personagem Ozzie, um gambá-da-virgínia, espécie encontrada principalmente nos Estados Unidos, que fingia estar morto após um atropelamento para distrair os humanos e ajudar os amigos na invasão de uma residência.

O gambá-da-virgínia tem um mecanismo de defesa chamado tanatose. O animal finge a sua própria morte para enganar os predadores quando se sente ameaçado. Para isso, entra em estado de paralisia, abaixa a frequência cardíaca e pode, ainda, exalar um odor fétido.
Uma das principais reflexões trazidas pelo filme é a maneira como a expansão humana acaba por invadir áreas verdes e retirar animais de seu habitat natural ou, ainda, limitar seu acesso a recursos. Além disso, a obra mostra a convivência e proximidade entre animais silvestres e humanos, o que também acontece fora das telas.
Embora, na narrativa do filme, o personagem Ozzie utilize da tanatose como recurso para distrair os humanos de um jeito ‘cômico’, na vida real, o atropelamento de fauna é um problema sério que está longe de ser simples como na ficção.
Cuidado por onde anda: OLHA O BICHO!
Quem frequenta os parques de Curitiba, capital do Paraná, talvez não imagine que essas áreas, além de serem espaços de lazer e contato com a natureza, vivem um problema ambiental silencioso. Enquanto os carros, bicicletas e pedestres atravessam as ruas ao redor dessas áreas verdes com tranquilidade, milhares de animais silvestres que vivem ali são vítimas fatais de atropelamentos.
Foi pensando na problemática do atropelamento de fauna em áreas urbanas que surgiu o projeto de extensão ‘OLHA O BICHO! Monitoramento Participativo de Fauna no Entorno de Unidades de Conservação Urbanas’, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no ano de 2023, sob coordenação geral do professor Fernando Passos, do Departamento de Zoologia da UFPR.

A iniciativa do projeto é inovadora, uma vez que direciona o olhar para dentro das cidades. Em geral, os estudos sobre atropelamentos de animais ficam concentrados no contexto das rodovias. Nesse sentido, o OLHA O BICHO! busca compreender como o atropelamento tem afetado a biodiversidade nessas áreas e quais são as formas possíveis de mitigar esse problema.
“Se você tem áreas verdes, como são os parques urbanos, em boas condições de conservação, você também tem fauna ali. Muitas vezes, conforme a cidade vai crescendo, eles ficam ilhados. Dependendo do animal, ele pode desaparecer, porque aquele local já não oferece condições suficientes [para sobrevivência], mas, muitas espécies têm condições de ficar, e tem uma vida naquele ambiente adaptado”, explica Fernando.
Uma vez que esses animais encontram-se ilhados nessas áreas, isso aumenta consideravelmente o risco de atropelamentos, já que muitos tentam atravessar as vias públicas que circundam esses ambientes.
Desde a sua criação, o projeto está estruturado em três eixos: o monitoramento sistemático da fauna atropelada; a ciência cidadã; e as estratégias de comunicação e educação ambiental.
Monitoramento da fauna atropelada: Coleta de dados
O monitoramento realizado pelo projeto OLHA O BICHO! vai muito além das saídas de campo. Antes da coleta dos dados, a equipe define a área de estudo, organiza os participantes (que passam por um treinamento) e estabelece o chamado desenho amostral, ou seja, define o planejamento que determina como esse trabalho será conduzido.
Durante os dois primeiros anos, a equipe do projeto realizou o monitoramento de um trecho de aproximadamente cinco quilômetros no entorno do Parque Tingui, em Curitiba. A cada quinze dias, os membros percorriam o trajeto a pé, registrando e identificando a localização dos animais encontrados.

Em um segundo momento, inicia-se uma etapa igualmente importante: a curadoria das informações, que envolve a limpeza, organização e análise dos dados obtidos. Para isso, os pesquisadores utilizam softwares específicos para identificar padrões e localizar os chamados pontos críticos ou “hotspots” de atropelamento, locais de agregamento de atropelamentos onde os acidentes mais acontecem.
A etapa de identificação desses animais, entretanto, nem sempre é uma tarefa simples, explica María Torres-Martinez, pesquisadora de pós-doutorado do Programa de Pós-Graduação em Zoologia e coordenadora do eixo de ciência cidadã do projeto. “Em relação à fotografia, o animal não fica na estrutura que a gente geralmente conhece, ele fica completamente desconfigurado. Até para a gente, que é biólogo e trabalha há muitos anos com animais silvestres, é difícil saber identificar que animal é ou era”.
Para isso, o projeto conta com o auxílio de especialistas em diferentes grupos de animais, como mamíferos, aves, répteis e anfíbios, para chegar à identificação mais precisa possível das espécies encontradas.
A partir dos dois primeiros anos de monitoramento no Parque Tingui, a equipe estimou que entre 1.500 a 1.600 animais são atropelados anualmente apenas nesse trecho.
Com base nesses números e considerando a quantidade de parques e áreas verdes existentes na capital, o professor Fernando acredita ser plausível supor que o número total de atropelamentos urbanos, em Curitiba, possa ultrapassar 10 mil animais por ano, um número alarmante.

Os registros mostram que todos os grandes grupos de vertebrados são afetados: mamíferos, aves, répteis e anfíbios. Entre eles, um animal chamou a atenção dos pesquisadores do OLHA O BICHO!: o sapo-cururu é a espécie que apresentou o maior número de ocorrências no monitoramento realizado no Parque Tingui.
Fernando explica que o fato do monitoramento ocorrer a pé aumenta significativamente a capacidade de detectar animais menores, que, muitas vezes, passam despercebidos em levantamentos realizados em veículos.
Atualmente, em uma segunda etapa do monitoramento, a equipe está concentrada em uma nova área: a região do Zoológico de Curitiba, em um trecho de aproximadamente seis quilômetros. O monitoramento será realizado também durante um período de um ano para fins de comparação dos dados entre as duas áreas.
Ciência cidadã: Quem pode fazer ciência?
Um dos eixos do trabalho realizado pelo OLHA O BICHO! é a ciência cidadã, que convida a população a participar de forma ativa na produção de conhecimento. “A gente acredita que as pessoas têm as ferramentas para contribuir na nossa problemática, já que é uma questão que também interessa ao cidadão”, explica María.
Para que isso fosse possível, a equipe se dedicou à construção de ferramentas que permitissem essa participação de forma qualificada. Em parceria com o Programa Institucional de Ciência Cidadã na Escola (PICCE), foram elaborados um Protocolo de Ciência Cidadã e um capítulo de livro voltado a professores, com orientações para trabalhar a temática em sala de aula.
María explica que o protocolo funciona como um guia para pessoas sem formação na área “é um passo-a-passo… A gente orienta pessoal sobre o que fazer quando encontrar uma carcaça e como coletar as informações e nos enviar com qualidade, para que nós consigamos utilizar essas informações junto dos nossos outros dados de pesquisa”.
Além desses materiais, o projeto também passou a utilizar outros canais: um deles é o WhatsApp do OLHA O BICHO! e o outro é a plataforma iNaturalist, plataforma voltada ao compartilhamento de observações sobre biodiversidade, que acabou mudando os rumos da própria pesquisa do projeto.

Foi em uma pesquisa de registros de atropelamentos no aplicativo iNaturalist que María encontrou uma concentração de ocorrências na região do Zoológico de Curitiba. Ao investigar quem estava alimentando aquele banco de dados, ela descobriu Adolf, um ciclista e cientista cidadão que registrava animais atropelados encontrados em seu trajeto diário.
A partir desse contato, Adolf foi convidado a participar do projeto e acabou contribuindo não apenas com informações, mas com a definição da nova área de monitoramento. Atualmente, ele participa em diferentes etapas da pesquisa, incluindo monitoramentos, apresentações em eventos científicos e produção de trabalhos acadêmicos.
“Isso é uma evidência da importância da ciência cidadã, no sentido de que o cidadão não só coleta ou envia essas informações… Ele tem a possibilidade de participar em várias etapas e fazer a ciência junto com a gente”, argumenta María.
Todos os registros enviados pela população passam por etapas de triagem e validação antes de serem incorporados aos materiais do projeto. Mesmo assim, esse processo já apresenta o potencial de expansão da pesquisa para além dos muros da universidade e dá protagonismo à população.
Comunicação e Educação Ambiental
O terceiro eixo do OLHA O BICHO! gira em torno da comunicação e ações de educação ambiental, uma vez que o projeto acredita que o conhecimento produzido na universidade deve chegar às pessoas, gerar conscientização e estimular a participação.
Uma das estratégias adotadas foi a criação de materiais educativos, como jogos sobre a temática de atropelamento e outros, entre eles o Guia da Mastofauna da Mata das Araucárias, elaborado por estudantes da Licenciatura em Ciências Biológicas da UFPR, a partir das experiências do próprio projeto. O material apresenta, em linguagem acessível, informações sobre mamíferos desse bioma e pode ser utilizado por professores em atividades de educação ambiental.
Para conhecer mais sobre o Guia, não deixe de conferir o podcast Conexão Fauna em Movimento.

“O conjunto de produtos que o projeto gera vai chegar no professor e ele pode fazer ações junto dos seus estudantes nas diferentes escolas. Isso gera um nível de conscientização muito grande desde a infância, a juventude…”, explica Fernando Passos.
Além do Guia e dos protocolos, o projeto também desenvolveu ações presenciais em parques e instituições de ensino. Nessas atividades, a equipe utiliza animais taxidermizados para apresentar espécies que vivem na própria cidade, despertando a curiosidade do público.
“Nós mostramos alguns animais e eles falam: “não sabia que tinha aqui, pensava que só tinha em floresta!”. Então, o projeto, de certa forma, contribui para divulgar a biodiversidade e a vida de animais silvestres em áreas urbanas. A população gosta bastante, tem uma receptividade muito legal em relação a isso”, explica o coordenador.
Mas a principal ação de comunicação do projeto acontece por meio do perfil no Instagram, o @olhaobicho.ufpr, no qual a equipe publica conteúdos sobre as atividades e pesquisas realizadas, dados relacionados aos atropelamentos de fauna, materiais educativos e informações que ajudam a ampliar o conhecimento da população sobre a temática.
Atravessando a via em segurança rumo ao futuro
Além da conscientização social, os dados produzidos pelo OLHA O BICHO! têm outro objetivo: subsidiar ações concretas para redução dos atropelamentos de fauna na cidade de Curitiba. O monitoramento fornece estimativas precisas além de identificar os pontos com maior concentração de incidentes, informações que podem orientar intervenções do poder público.
Segundo Fernando Passos, o conhecimento gerado pelo projeto pode contribuir para medidas relativamente simples, mas com potencial de impacto significativo. Entre as possibilidades estão a instalação de placas de sinalização, lombadas e radares para redução de velocidade em áreas críticas.

“É importante a gente ter dados robustos para poder chegar junto ao poder público e propor ações baseadas em dados concretos, com rigor científico”, afirma o coordenador.
María também destaca que o desafio é fazer com que as informações produzidas pela universidade cheguem aos espaços onde as decisões são tomadas: “É muito importante que o projeto não fique só na universidade, sabe? Precisamos que as informações, de fato, cheguem a círculos onde estão os tomadores de decisões e a gente consiga contribuir também de uma forma mais efetiva.”
Nesse sentido, o trabalho do projeto caminha lado-a-lado a esses animais que, diariamente, perambulam pelas áreas verdes de Curitiba: em direção a um futuro mais seguro para cada um deles.
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Texto: Camila Lozeckyi
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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