Já faz alguns bons anos que tomei a vacina contra o Papillomavirus humano, mais conhecido como HPV. Nem todo mundo conhece muito bem esse danado, mas eu vou te contar que ele é um vírus sexualmente transmissível e a principal causa do câncer do colo do útero.
Assim como é o caso de muitas pessoas, quando me vacinei também não conhecia muito o HPV. Para mim, era uma vacina importante, claro, como todas as outras que já havia tomado. Porém, não tinha plena dimensão da relevância dessa ação nem de como ela seria essencial para a minha saúde a longo prazo, prevenindo não apenas o câncer do colo do útero, mas também outros cânceres.
Atualmente, sendo bolsista de Apoio à Difusão do Conhecimento da Rede Previna-se, um projeto nacional que desenvolve estudos sobre a autocoleta vaginal para teste de HPV no combate ao câncer do colo do útero, consigo perceber com muito mais clareza a importância daquela decisão tomada lá atrás e como aquela simples picadinha no meu braço contribuiu diretamente para a proteção da minha saúde.
Durante o Março Lilás, campanha nacional de conscientização voltada à prevenção e ao combate ao câncer do colo do útero, eu me pego refletindo ainda mais sobre isso. Esse é um período importante para lembrar outras meninas e meninos, principalmente jovens, mas também adultos, sobre a importância da vacinação e dos exames preventivos. Se antes eu não entendia, hoje faço questão de compartilhar essas informações, porque sei que pequenas atitudes, como tomar uma vacina, podem fazer uma grande diferença no futuro.
Como integrante da Rede Previna-se com formação em Comunicação e Multimeios, tenho conhecido muitas coisas que não fazia ideia sobre o HPV e o câncer cervical. Essa jornada tem sido mega interessante! A minha última descoberta foi sobre o câncer do colo do útero HPV-independente, aquele em que não se detecta a presença do HPV nas células tumorais.
Esse tipo de câncer é tema de estudo da biomédica, doutoranda em Biociências e Fisiopatologia, do Departamento de Análises Clínicas e Biomedicina, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), e pesquisadora da Rede Previna-se, Ana Beatriz Camillo Santos, com orientação da professora e coordenadora da Rede, Marcia Edilaine Lopes Consolaro.

É de conhecimento dos pesquisadores que a maioria dos casos de câncer do colo do útero está ligada à infecção persistente pelo HPV, especialmente os tipos de alto risco carcinogênico1. Porém, existe uma pequena parcela de casos em que o tumor surge sem a presença detectável do vírus. Esses casos ainda são pouco estudados e isso motivou a pesquisa da Ana Beatriz Santos.
De acordo com a doutoranda, o objetivo era “entender melhor como esse tipo de câncer se desenvolve, como ele se comporta e qual é o seu impacto no tratamento e no prognóstico das pacientes acometidas. Trazer informações atualizadas sobre esse tema pode ajudar a melhorar o cuidado e a definição de estratégias mais adequadas para essas mulheres”, explica ela.
O início de tudo: metodologia
O primeiro passo foi realizar uma revisão sistemática da literatura, que é um tipo de estudo que reúne e analisa criticamente pesquisas já publicadas sobre um determinado tema. Ou seja, nesta etapa, as pesquisadoras não fizeram experimentos em laboratório, ela foi voltada para organizar e avaliar o que já se sabe sobre o câncer do colo do útero HPV-independente para entender melhor o cenário e identificar lacunas no conhecimento.
Ainda não existe uma definição totalmente consensual sobre o que é câncer do colo do útero HPV-independente, pois, é preciso ter certeza de que o resultado negativo para HPV não foi um falso-negativo, ou seja, que o vírus realmente não está presente.
“Estima-se que entre 5% e 11% dos casos de câncer do colo do útero sejam HPV-independentes. Com base na literatura, observamos que esses tumores tendem a ter um comportamento diferente dos casos associados ao HPV, em geral, apresentando prognóstico menos favorável. Eles costumam ser diagnosticados em mulheres mais velhas, com maior frequência de câncer do colo do útero do tipo adenocarcinoma2, apresentam estágios mais avançados no diagnóstico, maior chance de recorrência e metástase3, e estão associados a menor sobrevida”, acrescenta a professora Marcia Consolaro.

Alguns estudos indicam que esses tumores têm alterações genéticas diferentes dos tumores associados ao HPV. Foram observadas mutações com maior frequência em genes importantes para o controle do crescimento celular. Essas alterações podem influenciar o comportamento mais agressivo da doença. No entanto, as pesquisadoras explicam que ainda é preciso entender melhor a assinatura genética específica desse tipo de câncer e, assim, identificar biomarcadores que ajudem a prever a evolução da doença e orientar terapias mais direcionadas.
Desafios do estudo
Durante a pesquisa, Ana Beatriz Santos conta que um dos principais desafios foi a grande variação entre os estudos analisados. “Havia diferenças nos tipos de amostras analisadas, nos métodos utilizados para detectar o HPV, nos subtipos de câncer do colo do útero estudados e na quantidade e qualidade das informações clínicas disponibilizadas. Além disso, outro desafio foi a diferenciação diagnóstica segura entre casos verdadeiramente HPV-negativos daqueles falso-negativos no teste diagnóstico do vírus. Isso torna a interpretação verídica dos dados muito mais complexa”, detalha a pesquisadora.
Ainda é preciso entender melhor o real impacto das mutações genéticas encontradas nos tumores estudados, como essas alterações influenciam o prognóstico e quais biomarcadores podem ajudar a prever a evolução da doença. As pesquisadoras afirmam que também é fundamental avançar no desenvolvimento de terapias mais específicas para esse subtipo de câncer do colo do útero.
Aí está um ponto super importante da pesquisa, pois, ela pode contribuir para o aprimoramento do reconhecimento, diagnóstico e manejo desse subtipo de câncer, já que, identificar se o tumor está ou não associado ao HPV no momento do diagnóstico pode ajudar a estimar melhor o prognóstico da paciente e a planejar o tratamento.
A professora Marcia Consolaro explica que, “mesmo com a vacinação contra o HPV, espera-se que os casos HPV-independentes continuem existindo, porque não estão relacionados ao vírus. No entanto, ainda não existem terapias específicas para eles e o tratamento segue protocolos desenvolvidos, principalmente, para tumores associados ao HPV. Nossa pesquisa ajuda a reforçar a importância de reconhecer esse subtipo como uma entidade distinta, que pode exigir abordagens próprias no futuro”, afirma a coordenadora da Rede Previna-se.
A realização desse trabalho inicial representou um passo fundamental para a construção de uma base teórica, permitindo às pesquisadoras avançarem na direção de novas investigações no laboratório. “Ele organizou o conhecimento existente, identificou lacunas e abriu caminho para estudos mais aprofundados sobre a biologia e o comportamento desses tumores”, acrescenta Ana Beatriz Santos.
Confira os próximos passos do estudo:

Confira o artigo completo da pesquisa: “Current insights on human Papillomavirus-independent cervical cancers: a systematic review”.
Saiba mais sobre os estudos desenvolvidos pela Rede Previna-se na matéria “Autocoleta para teste de HPV é caminho para equidade”, também disponível aqui, no Conexão Ciência – C².
Esse estudo reforça a importância de manter o acompanhamento médico regular e os exames preventivos em dia. Assim, qualquer alteração pode ser identificada precocemente, permitindo o início rápido do tratamento e aumentando as chances de cura. Vacine-se e previna-se!
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Texto: Milena Massako Ito
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Beatriz Sayuri
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Carcinogênico – Substância, mistura ou exposição (química, física ou biológica) capaz de causar câncer ou aumentar sua incidência em humanos e animais. ↩︎
- Adenocarcinoma – Tipo de tumor maligno que surge nos tecidos glandulares epiteliais, ou seja, que produzem secreções. ↩︎
- Metástase – Câncer que se espalhou e formou novos tumores distantes do tumor principal. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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