Lembro da primeira vez que visitei um museu.
O Mudi, Museu Dinâmico Interdisciplinar (Mudi), da Universidade Estadual de Maringá (UEM), hospedou, há alguns anos, uma exposição de orquídeas e bromélias. Lá eram desenvolvidas pesquisas de iniciação científica e da pós-graduação com foco em encontrar as melhores condições para a produção de mudas daquelas espécies. O fascínio por entender o cultivo in vitro das orquídeas lá hospedadas era enorme, a área da botânica em Ciências Biológicas me cativou por anos.
Em visitas futuras ao Mudi, já não havia mais o espaço laboratorial de cultivo, mas a ideia de um Museu de Ciências ter me despertado para aquele universo sempre intrigou minha mente. Hoje, atuando dentro do Mudi, pude entender melhor sobre educação museal e sobre como uma exposição é pensada para um ambiente com alcance de público muito amplo e com grande responsabilidade por levar a ciência à comunidade, despertando o desejo pelo conhecimento… enfim, ‘intrigando nossas mentes’.
Sempre atento aos novos museus, fiquei sabendo sobre a reabertura de um no norte pioneiro do Paraná e fui correndo procurar por detalhes, porque ouvi que se tratava de uma grande coleção disponível em uma cidade próxima da minha.
O resgate de um patrimônio
Instalado na antiga estação ferroviária de Cornélio Procópio, no Paraná, o Museu de História Natural Mozart de Oliveira Valim disponibiliza 300 peças taxidermizadas. A reinauguração do Museu, em junho de 2025, se tornou um dos principais atrativos turísticos e culturais da cidade, permitindo que a comunidade volte a ter acesso a esse rico patrimônio.
Digo volte, porque o acervo exposto pertence à coleção particular do professor, biólogo e dentista João Aparecido Galdino e já esteve disponível à população da região de Cornélio Procópio.
O professor conheceu o processo de conservação de animais mortos, chamado taxidermia, na década de 60, quando cursava Odontologia. São cerca de 5 a 6 mil peças parte mantida na cidade de Andirá, isto é, uma das maiores coleções da América Latina.
Galdino desenvolveu uma fórmula química própria, que é segredo, para o tratamento da pele dos animais. Este processo, popularmente conhecido como empalhamento, garante uma conservação impressionante. Há peças com quase 50 anos que não perderam a cor, os pelos ou a pele.
O processo de Galdino começa com a retirada de tecidos e ossos internos, depois vem a reconstrução do animal com estruturas de ferro. Ele chegou a passar meses, até anos estudando a anatomia e os hábitos da espécie na natureza para reproduzir posições reais de caça e expressões hiper-realistas.
Após a aposentadoria do ‘artista da taxidermia’, a primeira versão do museu permaneceu fechada por cerca de 2 anos. Há pouco, então, o professor de Ciências Biológicas e da Pós-Graduação em Ensino (PPGEN), da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), campus Cornélio Procópio, Lucken Bueno Lucas, liderou um projeto de extensão na Universidade para reabrir o espaço. O trabalhou foi todo em conjunto com a Prefeitura de Cornélio Procópio e a Rede de Museus Paraná Faz Ciência. Assim ressurgiu o Museu de História Natural Mozart de Oliveira Valim. A reinauguração contou com a presença do próprio Galdino.
Trajetória com milhares de taxidermizados
Em entrevista concedida ao portal de notícias BBC Brasil, anos atrás, Galdino recordou um momento que o ajudou muito na carreira. “No bosque havia um professor que fazia taxidermia chamado Mario Lotufo. Colei nele. Observava tudo. Acabei aprendendo de tanto olhar.”
O primeiro animal que João Galdino empalhou foi um gavião. Sua trajetória, que deu origem a uma das maiores coleções de taxidermia do país, começou com uma constatação inusitada: a ausência de cuidados odontológicos para a fauna silvestre. Por causa disso, ele desenvolveu técnicas e ferramentas próprias, e durante 16 anos, o professor dedicou-se a realizar tratamentos de canal e obturações em leões, tigres, ursos e chimpanzés em zoológicos pelo Brasil.
Em paralelo à docência universitária, esse trabalho de campo permitiu que ele recebesse doações oficiais por parte de zoológicos e órgãos ambientais, dando origem a um acervo de milhares de peças taxidermizadas.
Fotos de João Galdino pela BBC (Foto/Sérgio Ranalli/BBC) Fotos de João Galdino pela BBC (Foto/Sérgio Ranalli/BBC) Fotos de João Galdino pela BBC (Foto/Sérgio Ranalli/BBC) Fotos de João Galdino pela BBC (Foto/Sérgio Ranalli/BBC) Fotos de João Galdino pela BBC (Foto/Sérgio Ranalli/BBC) Fotos de João Galdino pela BBC (Foto/Sérgio Ranalli/BBC)
“Essa combinação de uma técnica de taxidermia que tem essa durabilidade e esse capricho, que eu digo científico, mas também estético na peça, é o que deixa todo mundo muito encantado ao vê-las”, pontua Lucken Bueno.
Para o professor, “essa é uma experiência muito bem sucedida de divulgação científica. Essa prática de levar conhecimento científico a todo tipo de público deve ser expandida de todas as formas”.
Bueno destaca que um dos grandes diferenciais do trabalho do professor Galdino é a criação de peças adaptadas à percepção tátil, ou seja, o acervo conta com estruturas preparadas para serem manuseadas por pessoas com deficiência visual, como patas de leão e mandíbulas com dentes de tubarão, permitindo a compreensão da anatomia animal pelo toque.
O acervo conta, ainda, com exemplares de aves em plena postura de caça com qualidade de conservação impecável. Uma coleção de uma vida inteira que reúne uma taxidermia bem complexa por conta da extrema fragilidade da pele.
Formação universitária e roteiro pedagógico
O espaço do Museu também é um local de formação para graduandos da licenciatura de Ciências Biológicas da UENP. A gestão pedagógica e a mediação é feita pelos estudantes, que atuam como monitores das visitas guiadas.
“Nós estamos olhando não apenas como um espaço de popularização da ciência, de educação científica, mas de formação profissional. Os nossos estudantes de licenciatura estão encontrando ali uma outra porta. Em resumo, ao mesmo tempo em que a gente atua na formação do estudante de licenciatura, a gente também faz extensão com a comunidade”, ressalta Lucken Bueno Lucas.
A experiência dos estudantes levou o projeto a desenvolver um ‘Protocolo de mediação’. Trata-se de um roteiro com informações de cunho científico, educativo e organizacional, pensando na monitoria do espaço de educação não formal com ênfase na conservação biológica e nas características das peças do acervo.
A publicação foi feita a partir de informações baseadas em referências bibliográficas vinculadas ao referencial teórico dos Focos da Aprendizagem Científica (FAC). Há também dados sobre outros temas como taxidermia, aprendizagem em espaços não formais e sobre a própria história do Museu Mozart de Oliveira Vallim. E mais: o protocolo é pensado para os diferentes públicos que visitam o Museu, como infantil ou jovem.

A visita dura em torno de 1 hora e a exposição é dividida em biomas brasileiros. Mas também há uma sala com animais exóticos: urso, pinguim e animais da fauna africana, além de um acervo de utensílios de povos originários e ribeirinhos.
Um dado curioso e importante é que as visitas ao espaço normalmente são combinadas com a exploração de outros locais que a UENP de Cornélio Procópio oferece, como o Planetário e o Instituto de Pesquisa em Vida Selvagem e Meio Ambiente (IPEVS).
A importância do pioneirismo
Há mais de 50 anos, enfim, desde quando o professor pioneiro começou seus processos de taxidermia, ações para conscientizar a população sobre a preservação de animais e da biodiversidade fazem parte da vida dos moradores de Cornélio Procópio e região. E isso continua com a reabertura do Museu.
Os primeiros resultados da cooperação da UENP com a prefeitura de Cornélio foram apresentados no V Encontro Nacional da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciências (ABCMC). O trabalho é assinado pelo professor Lucken Bueno, Matheus Ganiko-Dutra e Eduardo Lopes Lavado.
Todas essas atividades reforçam o papel dos Centros e Museus de Ciências na consolidação da interiorização da popularização do conhecimento científico. No caso da iniciativa da UENP, o acervo é um lembrete poderoso de como a ciência pode mover toda uma vida como a do professor Galdino.
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Texto: Guilherme Nascimento dos Santos
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Hellen Vieira
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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