Ciência e governança diante das mudanças climáticas

Ilustração em formato de peças de quebra-cabeça. Na parte superior esquerda, uma árvore com poucas folhas e pequenos insetos aparece sobre um fundo acinzentado. No centro superior, há um megafone azul diante de um sol amarelo. À direita, outra árvore, mais cheia de folhas, abriga aves vermelhas, um pequeno animal alaranjado e peixes azuis próximos às raízes. No centro, mãos erguidas com punhos fechados simbolizam manifestação. Na parte inferior esquerda, uma cidade colorida está sob chuva e nuvens escuras com raios. No centro inferior, uma mão com luva preta segura um tubo de ensaio ao lado de um símbolo de átomo. À direita, outra paisagem urbana aparece sob céu claro, com nuvens, aves e água em primeiro plano.
Pesquisa da Unespar investiga por que a ciência ainda encontra barreiras para orientar políticas para enfrentarmos as mudanças climáticas

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As ruas alagadas, a água invadindo casas e comércios e a rotina interrompida por chuvas intensas já deixaram de ser cenas incomuns. Nos últimos anos, acontecimentos desse tipo se tornaram mais frequentes e passaram a integrar uma realidade compartilhada por diferentes regiões do Brasil. As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, por exemplo, talvez sejam o exemplo mais recente em larga escala e evidenciaram como eventos climáticos extremos podem provocar impactos sociais, econômicos e ambientais em grande escala. 

No litoral do Paraná, episódios como as chamadas “Águas de Março”, em 2011, ainda permanecem na memória da população. Considerado um dos maiores desastres provocados por chuvas intensas no estado, o episódio atingiu principalmente Guaraqueçaba, Antonina, Paranaguá e Morretes. As enchentes e deslizamentos derrubaram pontes, invadiram casas, comunidades ficaram isoladas, ruas viraram rios, pedras deslizaram das encostas e entulhos arrastados pela força da água deixaram um rastro de destruição por quilômetros. Casas foram destruídas ou precisaram ser abandonadas às pressas, e cerca de 20 mil pessoas foram afetadas.

Fotografia aérea de uma propriedade rural cercada por uma extensa inundação durante o episódio das Águas de Março. A água barrenta cobre plantações, pastagens e estradas, isolando um conjunto de casas de telhado avermelhado. Pequenas áreas de vegetação e alguns animais permanecem em partes mais altas do terreno. Ao fundo, há colinas verdes e áreas de floresta.
O desastre ocorrido em de março de 2011 pelo excesso de chuvas no Litoral deixou quatro mortos e mais de dez mil desabrigados (Foto/Arnaldo Alves/Arquivo AEN)

Embora a ciência venha produzindo cada vez mais informações sobre esses fenômenos e seus impactos, uma pergunta continua em aberto: por que esse conhecimento ainda demora a orientar as políticas públicas capazes de reduzir riscos e preparar as cidades para o futuro?

Foi a partir dessa inquietação que o Bacharel em Ciências Biológicas e pesquisador Rafael Décio Souza desenvolveu a dissertação “Pólis – Clima:  Uma análise da relação entre as mudanças climáticas e a governança local em Paranaguá/PR”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ambientes Litorâneos e Insulares (PALI), da Universidade Estadual do Paraná (Unespar). O estudo investiga como as informações produzidas pela ciência climática chegam (ou deixam de chegar) aos espaços onde são tomadas decisões que definem o futuro de Paranaguá.

O que a pesquisa revela

A pesquisa nasceu da própria trajetória profissional de Rafael. Há anos atuando na área ambiental e em iniciativas de incidência política no litoral paranaense, ele passou a observar, na prática, as dificuldades de incorporar a pauta climática às decisões do poder público.

A foto é de Rafael, um homem de cabelos curtos grisalhos e barba aparada que sorri para a câmera durante um congresso científico. Ele veste camiseta preta, camisa xadrez aberta e usa um crachá azul pendurado no pescoço. Ao fundo, há um pôster científico sobre mudanças climáticas e adaptação climática, exposto em um painel do evento.
O pesquisador Rafael Décio Souza durante uma apresentação de pôsteres em evento científico (Foto/Arquivo Pessoal)

“Eu já vinha de um histórico de atuação nessa área, tentando entender as melhores maneiras de interagir com o setor público. Em especial nos últimos anos, fui tendo uma atuação mais intensa dentro do meu cotidiano, me relacionando com representantes do setor público, seja do Executivo, seja do Legislativo, e tendo experiências empíricas que iam me mostrando as dificuldades de sensibilizar o setor público para trazer a lente climática e incorporá-la dentro do seu cotidiano”, conta.

Essa preocupação aparece sintetizada no próprio título da dissertação. Inspirado no conceito grego de pólis, Rafael utiliza a ideia das antigas cidades-estados para discutir a formação dos territórios e defender que essa construção coletiva incorpore uma visão de longo prazo sobre as mudanças climáticas.

Na prática, isso significa reconhecer que os efeitos das mudanças climáticas não podem ser analisados apenas dentro do tempo de um mandato político ou mesmo da vida de uma pessoa. “A gente está falando de uma diferença de escala de tempo que é muito diferente da de um indivíduo. Para um indivíduo talvez não faça tanto sentido analisar o impacto de uma mudança climática pensando em 2100, mas para o município faz todo sentido, porque o município não vai deixar de existir durante esse período.”

Para compreender se essa visão já está presente na gestão pública, o pesquisador realizou uma revisão sistemática da literatura científica sobre governança climática e, em seguida, analisou documentos que orientam o desenvolvimento de Paranaguá, como a Lei Orgânica Municipal, o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado, o Plano Plurianual (PPA) e 131 atas de oito conselhos municipais.

A escolha pela análise documental buscou identificar aquilo que efetivamente orienta as decisões do município. Os resultados revelaram que a dimensão climática ainda aparece de forma limitada nas políticas estruturantes da cidade. Segundo Rafael, a análise identificou a ausência da perspectiva climática nos principais instrumentos de planejamento municipal, mesmo em um contexto em que seus efeitos já são percebidos pela população. “Hoje não é mais algo futuro. A gente tem situações de alagamento em Paranaguá que são quase rotineiras, dado o tipo de chuva que ocorre.”

Além da pouca presença do tema nos instrumentos de planejamento, a pesquisa buscou compreender por que o conhecimento científico encontra dificuldades para chegar aos espaços de decisão. A revisão da literatura apontou três desafios recorrentes: a comunicação entre universidade e sociedade, a complexidade das mudanças climáticas e a desinformação. Conforme Rafael pontua, houve a consolidação de uma cultura em que boa parte do conhecimento produzido nas universidades permanece restrita ao ambiente acadêmico, dificultando sua incorporação pelas políticas públicas.

Na avaliação do cientista, compreender as mudanças climáticas exige relacionar fenômenos ambientais, sociais, econômicos e políticos que nem sempre são percebidos pela população. “Nunca na história a gente teve tanto acesso à informação, mas, ao mesmo tempo, nunca a gente esteve tão distante das relações de causa e efeito de tudo que chega até a gente.”

Esse cenário é agravado pela circulação de informações falsas e pela polarização em torno da pauta climática. Assim, o pesquisador destaca que a desinformação circula com rapidez e dificulta a construção de consensos sobre a necessidade de adaptação climática, enquanto a divulgação de informações científicas exige processos muito mais lentos e complexos.

Cultura oceânica como ferramenta para mudança 

Aproximar ciência e sociedade depende de uma comunicação científica mais acessível e de processos permanentes de educação ambiental. Nesse contexto, a cultura oceânica surge como uma importante aliada, especialmente em cidades costeiras.

Ela propõe compreender que o oceano influencia o clima, a economia, a biodiversidade e o cotidiano das pessoas. Isso amplia o entendimento de que eventos como alagamentos, erosão costeira, elevação do nível do mar e perda de biodiversidade não são problemas isolados, mas fazem parte de um mesmo sistema que afeta diretamente a qualidade de vida das populações.

Esse entendimento também fortalece a valorização dos ecossistemas costeiros. Os manguezais, por exemplo, armazenam grandes quantidades de carbono, ajudam a reduzir a força das ondas, amenizam impactos de eventos extremos e servem de abrigo para diversas espécies. Ao mesmo tempo, também são vulneráveis às mudanças climáticas.

Segundo o cientista, o aumento do nível do mar faz com que esses ambientes tendam a migrar naturalmente para áreas mais internas. Quando encontram barreiras impostas pela urbanização, acabam perdendo espaço e tornando-se ainda mais vulneráveis.

Compreender essa dinâmica também faz parte da cultura oceânica. Uma vez que a sociedade reconhece a importância dos manguezais para a adaptação climática e para a proteção das cidades costeiras, ela passa a enxergar esses ambientes não apenas como áreas de preservação, mas como aliados na redução dos impactos provocados pelas mudanças climáticas.

Fotografia de um manguezal com árvores de raízes expostas que se estendem sobre uma lâmina de água escura e calma. A vegetação é densa e predominam folhas em tons de verde. As raízes se refletem na água, evidenciando a característica típica desse ecossistema costeiro.
Manguezais cumprem importante função de contenção de eventos climáticos (Foto/Divulgação)

Nesse processo, a educação desempenha um papel fundamental. Para Rafael, aproximar crianças, jovens e adultos das relações entre oceano, clima e território ajuda a formar cidadãos mais preparados para participar das decisões sobre o lugar onde vivem. “A gente pode ter, no longo prazo, uma geração mais sensível sobre o tema, que passe a integrar isso na sua visão de mundo.”

Esse olhar ainda precisa chegar às políticas públicas. Na concepção do pesquisador, a prevenção deve ocupar um espaço cada vez maior no planejamento das cidades. Em vez de concentrar esforços apenas na resposta aos desastres, os municípios precisam incorporar a adaptação climática ao planejamento urbano, às obras de infraestrutura, ao uso do solo e às estratégias de desenvolvimento.

Para que isso aconteça, Rafael defende uma aproximação constante entre universidades, gestores públicos e sociedade, além da valorização de diferentes formas de conhecimento, incluindo os saberes de comunidades tradicionais, povos indígenas, pescadores e caiçaras, que convivem há gerações com os ambientes costeiros.

O fortalecimento da cultura oceânica cria condições para que cidadãos, pesquisadores e gestores compartilhem uma compreensão comum sobre como o oceano influencia o clima e o desenvolvimento das cidades. Quando esse conhecimento passa a orientar decisões sobre ocupação do solo, conservação de ecossistemas e prevenção de desastres, ele deixa de ser apenas um conceito educativo e passa a integrar a governança climática.

Sendo assim, as mudanças climáticas já deixaram de ser um cenário distante para se tornarem parte da realidade das cidades litorâneas. Em um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes, aproximar ciência, gestão pública e sociedade deixa de ser apenas um desafio acadêmico e passa a ser uma condição para construir cidades mais resilientes e preparadas para o futuro. Nesse caminho, a cultura oceânica contribui para ampliar a compreensão das conexões entre oceano, clima e território, promovendo decisões mais conscientes e sustentáveis. 

Esse material é parte da produção de conteúdo para 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), que teve como tema central “Planeta Água: Cultura Oceânica para Enfrentar as Mudanças Climáticas no Meu Território”, e conta com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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Texto:
Maria Eduarda de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de vídeo: Maria Eduarda Tenório Calvi
Arte: Gabriela Pereira
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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