Ciência em mãos: quando sinais criam conhecimento

A imagem mostra três mãos em primeiro plano, indicando o uso da Libras. Ao redor, há vários elementos que se relacionam com o universo científico e com o clube de ciências do Instituto Londrinense de Educação de Surdos. A imagem possui cores e detalhes lúdicos, reforçando o aprendizado em sala de aula para o Ensino Fundamental e Ensino Médio.
No Paraná, clube de ciências utiliza a língua de sinais para tornar o aprendizado mais acessível a alunos surdos

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Comunicação! Um fator fundamental para a interação social e compreensão das relações humanas. Você não acha? Saber se comunicar é necessário, seja em casa, no trabalho, na escola e até mesmo na hora de exigir os nossos direitos como cidadãos. Imagine só como seria difícil estar em um mundo onde a maioria das informações e serviços não estão acessíveis ao seu entendimento…

Esse cenário “hipotético” é, na verdade, o que muitas pessoas surdas vivenciam diariamente no Brasil. A falha na inclusão traz dificuldade em ações simples, como tentar comprar um pão ou tirar uma dúvida. Também existem barreiras mais complexas, como ingressar no mercado de trabalho, conseguir tratamento de saúde adequado e encontrar educação de qualidade.

É aí que entra a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Ela é reconhecida como meio legal de comunicação pela Lei nº 10.436/2002 e regulamentada pelo Decreto 5.626, de 2005. Compreende uma língua gestual-visual-espacial, que é quando se usa o movimento das mãos, do corpo e expressões faciais. Super completa, tem estrutura gramatical e variação regional, comemorada no dia 24 de abril, o Dia Nacional da Libras.

A imagem mostra um alfabeto em Libras, baseado no alfabeto ensinado para os alunos do Instituto Londrinense de Educação de Surdos, no Paraná. A foto indica a letra e, próximo a ela, o sinal que a representa. O fundo da imagem é rosado.

O problema é que grande parte da população ouvinte não sabe se comunicar por meio de sinais. No ambiente escolar, ensina-se a Língua Portuguesa, mas poucas instituições incentivam o uso da Libras. Isso sem contar as práticas pedagógicas pouco adaptadas, a escassez de professores capacitados e a insuficiência de intérpretes para auxiliar os alunos surdos na compreensão do conteúdo.

Apesar disso, não podemos deixar de comemorar o fato de que a educação bilíngue já está prevista na Lei 14.191/2021. Neste formato, a Língua Brasileira de Sinais é considerada a primeira língua e o português escrito a segunda língua na escolarização. O público-alvo são alunos surdos, surdocegos (Libras Tátil), com deficiência auditiva sinalizantes, surdos com outras deficiências associadas ou que optem pelo método.

Infelizmente, o acesso a essa modalidade de ensino ainda é bem limitado. Outra questão é que nem sempre há sinais-termo, isto é, nomes específicos para se referir a algo em sala de aula. Ensinar ciência, por exemplo, pode ser bastante desafiador. E é esse contexto que um projeto da Rede de Clubes de Ciências do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI)  Paraná Faz Ciência (PRFC) está tentando mudar.

Ciências em Mãos

O Clube Ciências em Mãos, do Instituto Londrinense de Educação de Surdos (Iles), em Londrina, tem como foco a iniciação científica bilíngue e a produção de conhecimento acessível em Libras. A ideia é contribuir para a ampliação do vocabulário científico dos estudantes e, ao mesmo tempo, incentivar o trabalho colaborativo, a autonomia e a aplicação desse conhecimento em situações reais.

A imagem mostra um grupo de estudantes e uma professora dentro de um laboratório escolar. Eles estão reunidos ao redor de uma bancada de trabalho clara, em um ambiente que parece ser de ciências. A maioria dos estudantes usa uniforme escolar em tons de azul e branco, o da frente usa um boné cinza. A professora é loira e usa uma blusa cinza. Alguns estão sentados em bancos altos, outros em pé. Vários fazem gestos de “joinha” (polegar para cima), demonstrando entusiasmo. Um aluno na frente segura um frasco, como se estivesse mostrando um experimento ou material. Sobre a bancada, há objetos típicos de laboratório, como um bico de Bunsen e recipientes. Ao fundo, há armários, caixas e materiais organizados. Na parede, há pequenos cartazes com anotações.
Equipe do Clube Ciências em Mãos (Foto/Isabella Abrão)

O Iles foi fundado em 1959 e, desde então, atua pelo acesso à educação e à saúde auditiva de pessoas surdas, com deficiência auditiva e usuárias de implante coclear. De acordo com a página do Instituto, a missão do colégio ‘é oferecer uma educação bilíngue de qualidade em tempo integral, promovendo o desenvolvimento acadêmico e pessoal de alunos surdos, da Educação Infantil ao Ensino Médio’.

No NAPI PRFC, o Ciências em Mãos é um dos 20 clubes articulados pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Segundo a professora coordenadora do projeto, Alessandra Francisco, a equipe atual é composta por 14 estudantes, incluindo um aluno com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A turma se reúne toda quarta-feira e está dando continuidade às pesquisas realizadas no último ano, articulando teoria e prática em atividades experimentais.

No entanto, fazer pesquisa científica na Educação Básica exige uma estratégia pedagógica específica. Com alunos surdos, a atenção é dupla. “A língua 1 deles é a Libras e transferir isso para o Português é algo que, às vezes, necessita de muito mais empenho, mais horas de estudo, muito mais dedicação e um professor atuante junto com eles, transferindo esse conhecimento”, reforça Alessandra.

Para a docente, a maior dificuldade nesse processo é encontrar os sinais-termo adequados, principalmente quando se trata da área de Exatas e Biológicas. “Você vai procurar e, às vezes, não tem o sinal, que são termos técnicos. E, quando têm, eles sofrem variação. Às vezes, aqui no Paraná não tem esse sinal, mas eu tenho em São Paulo, no Rio de Janeiro, Minas Gerais, e em cada um é diferente”, enfatiza a coordenadora.

Em busca de um sinal

Quem entende bem disso é Vanessa Tedeschi. Ela é surda, sempre frequentou o Iles e atua há 13 anos como professora de Libras. Na busca por fortalecer a identidade surda e ampliar o acesso ao conhecimento, ela tem auxiliado na implementação de estratégias na cidade. “Acredito que essa iniciativa é fundamental para o fortalecimento da educação bilíngue, a ampliação da acessibilidade e a valorização da Libras na sociedade”, destaca a professora.

Vanessa explica que, por muito tempo, utilizou-se classificadores e métodos visuais para a compreensão de determinados conceitos, em razão da falta de sinais estabelecidos. Agora, o foco é debater e elaborar novos sinais. “Diante dessa necessidade, organizei um grupo de estudos [grupo do Estudo Londrinense de Sinais] composto por professores surdos, com o objetivo de discutir e desenvolver sinais-termo”, conta a professora.

Imagem mostra uma sala de aula durante uma aula de Libras (Língua Brasileira de Sinais). Na frente da sala, há uma professora em pé, vestindo roupa escura, explicando o conteúdo enquanto gesticula com uma das mãos — o que sugere o uso de sinais durante a explicação. Atrás dela, um projetor exibe um slide com palavras e expressões em português, incluindo formas afirmativas e negativas (como “querer / não querer”, “gostar / não gostar”), indicando que a aula está focada em vocabulário e estrutura da língua. Em primeiro plano, aparecem alguns alunos sentados, observando a professora. Um deles parece fazer um gesto com a mão, possivelmente tentando reproduzir um sinal aprendido. Em uma camiseta de um estudante está escrito “alfabeto em braile”, o que sugere um ambiente educacional voltado à inclusão e ao aprendizado de diferentes formas de comunicação.
Professora Vanessa Tedeschi lecionando em curso de Libras (Foto/Arquivo pessoal)

Ainda não há registro oficial desse trabalho, conforme indica a professora Vanessa. Isso porque falta apoio para documentar os sinais criados, como na gravação e estrutura de estúdio. Mas não se pode negar que essa movimentação já é um passo muito importante, inclusive no contexto educacional do município. Aliás, a iniciativa é similar a um dos projetos do próprio clube de ciências: um material científico digital bilíngue. 

Os clubistas apresentaram a proposta na I Feira de Cultura Científica Paraná Faz Ciência (FECCI), realizada em 2025, em Curitiba. A pesquisa conquistou o 3º lugar na categoria Divulgação Científica Jovem. “A gente já fez toda a parte do sinalário. Alguns sinais-termo estamos refazendo por conta dessa questão de regionalismo e, agora, a segunda etapa é a criação em cima do sinalário, que é fazer um jogo utilizando esse material visual, para auxiliar os alunos”, esclarece Alessandra.

A imagem mostra um grupo grande de pessoas, entre estudantes e adultos, posando para uma foto em um palco de evento. Todos usam crachás, indicando participação oficial. Alguns estão em pé atrás e outros agachados na frente. Dois jovens na frente seguram sacolas de papel, e uma pessoa segura um certificado, sugerindo que receberam algum reconhecimento ou premiação. Ao fundo, há um grande painel colorido com elementos gráficos ligados à ciência e educação, relacionado ao evento FECCI. A iluminação do palco é profissional, com luzes coloridas no chão. A maioria das pessoas está sorrindo, transmitindo um clima de conquista e celebração.
Clube Ciências em Mãos na premiação da FECCI 2025 (Foto/NAPI PRFC)

Mão na massa!

Apesar do prêmio, o material bilíngue continua na fase de protótipo. Por isso, os estudantes têm aproveitado para investigar outros assuntos em sala de aula. Entre os tópicos discutidos, está o uso de plantas medicinais e a produção de sabão ecológico, feito a partir do óleo de cozinha usado. Com esses estudos, o clube promove a conscientização e a educação ambiental na escola.

Para as experiências, a equipe conta ainda com o apoio do professor Thiago Nakahata, responsável pela disciplina de Química no colégio. “A minha participação é orientar os alunos na parte de Química, explicando conceitos como reação química, cuidados e segurança no laboratório, além de incentivar a pesquisa das teorias antes da prática, relacionando o experimento com os fundamentos teóricos”, relata.

Imagem mostra um momento de apresentação em uma culminância escolar, dentro de um ambiente parecido com espaço expositivo. À direita, uma estudante está em pé ao lado de um pôster científico montado em um suporte. Ela sorri e faz sinais com as mãos para explicar o projeto. O pôster tem bastante texto, imagens e títulos, indicando um trabalho de pesquisa; no topo, há referências a um projeto de ciência e inclusão. À esquerda, um estudante e um professor observam a apresentação. O professor segura um objeto alongado como equipamento de apoio e parece atento à explicação. Ambos estão próximos de uma mesa onde o projeto está exposto. Sobre a mesa, há diversos materiais: um notebook, uma caixa de produto eletrônico, pequenos objetos organizados, copos e papéis com informações, além de um código QR, sugerindo acesso a conteúdo digital do projeto. Ao fundo, há uma mesa com computador e uma parede com blocos vazados, permitindo a entrada de luz natural.
Professor Thiago instruindo alunos do clube na Culminância do colégio (Foto/Arquivo pessoal)

O docente é surdo e auxilia na elaboração do relatório científico, que descreve as atividades realizadas nos encontros semanais. Segundo Nakahata, tudo isso é importante para o aprendizado dos clubistas: “Ao final, também desenvolvemos a prática em Libras, com a construção de glossário científico e a tradução do relatório do português para Libras, fortalecendo o vocabulário acadêmico dos alunos”.

E o que os alunos acham disso?

Com a ajuda da professora Alessandra, o Conexão Ciência coletou depoimentos de alguns estudantes que participam do clube. Através da Libras, os alunos compartilharam o que estão aprendendo, como se sentem no projeto e o que motivou a participação no Ciências em Mãos. Muitos fazem parte da equipe desde o ano passado, mas outros ingressaram recentemente na turma e estão ansiosos para colocar a mão na massa! Confira no carrossel:

  • A imagem é um painel verde com depoimento de alunos do clube. Há uma foto para cada, nome, turma da escola e espaço com a fala abaixo. A ordem é crescente, da turma mais nova até a mais velha. O escrito está assim: Sara (6º ano): “Eu quero aprender também a pesquisar porque eu amo conhecer ciência!” - João Pedro (6º ano): “Eu gosto de participar do clube porque vou aprender sobre ciências e fazer pesquisa. Eu gosto, sou curioso!”.
  • A imagem é um painel verde com depoimento de alunos do clube. Há uma foto para cada, nome, turma da escola e espaço com a fala abaixo. A ordem é crescente, da turma mais nova até a mais velha. O escrito está assim: Saulo (7º ano): “Eu acho legal porque eu gosto de pesquisa. Então, eu quero fazer sabão, quero experimentar diferentes coisas. Eu acho muito legal fazer essas experiências dentro do clube!”
  • A imagem é um painel verde com depoimento de alunos do clube. Há uma foto para cada, nome, turma da escola e espaço com a fala abaixo. A ordem é crescente, da turma mais nova até a mais velha. O escrito está assim: Carlos Cardoso (8º ano): “Eu quero fazer sabão, eu quero fazer aproveitamento e diferentes experiências junto com os alunos [...]. No evento, tinha muita gente porque é a primeira vez que um surdo está fazendo pesquisa, está fazendo sabão, está mostrando. Então, isso é um incentivo!”. Pedro Henrique (8º ano): “Eu quero conhecer pesquisa, eu quero fazer experiência em Química, eu quero fazer experiência com sabão!”.
  • A imagem é um painel verde com depoimento de alunos do clube. Há uma foto para cada, nome, turma da escola e espaço com a fala abaixo. A ordem é crescente, da turma mais nova até a mais velha. O escrito está assim: Mikaely (8º ano): “Eu quero fazer horta. No futuro, eu quero viajar para as feiras!. Pedro Cazon (9º ano): “Exemplo: quando você faz mistura, usa flor para experiência, quando você usa para fazer sabão. Então, para saúde é muito importante a gente pesquisar a célula, a gente pesquisar os alimentos, a gente fazer horta medicinal!”.
  • A imagem é um painel verde com depoimento de alunos do clube. Há uma foto para cada, nome, turma da escola e espaço com a fala abaixo. A ordem é crescente, da turma mais nova até a mais velha. O escrito está assim: Marcelle (9º ano): “Vou ser responsável pelo Instagram, responsável pelo Facebook… Umas coisas para fazer sobre o clube no caderno inteligente. É para todo mundo saber, conhecer, ver coisas diferentes!”. Heycon (1º ano EM): “A gente pode moldar o nosso futuro, colocar a ciência para a comunidade surda e também mostrar para a sociedade que as pessoas surdas têm capacidade, conseguem fazer e, para mim, é uma experiência muito boa!”.
  • A imagem é um painel verde com depoimento de alunos do clube. Há uma foto para cada, nome, turma da escola e espaço com a fala abaixo. A ordem é crescente, da turma mais nova até a mais velha. O escrito está assim: Julia (2º ano EM): “Quis participar do clube para saber Química, experimentar, sentir o cheiro das coisas, saber sobre a vida, ajudar, aprender, evoluir, participar, ver a horta e ver diferentes pesquisas.”. Matheus (3º ano EM): “No clube, minha opinião é que fazer o sabão é importante porque você vai ajudar a não poluir a água… É muito importante você salvar o planeta.”
  • A imagem é um painel verde com depoimento de alunos do clube. Há uma foto para cada, nome, turma da escola e espaço com a fala abaixo. A ordem é crescente, da turma mais nova até a mais velha. O escrito está assim: Alisson (3º ano EM): “Eu quero aprender prática experimental de Química também porque é muito difícil. Por exemplo: eu estou lendo e não sei o que é aquilo, aí quero saber qual a importância desse sabonete, que componente ele tem e pesquisar para o que ele é bom.”.

No clube do Instituto Londrinense de Educação de Surdos (Iles), é possível ver como a pesquisa aliada ao ensino bilíngue desperta curiosidade, autonomia e pertencimento. Neste dia 23 de abril, Dia Nacional da Educação de Surdos, é preciso reforçar o quando o uso da Libras é uma ferramenta essencial para o aprendizado e a comunicação dos alunos. 

Os sinais estão aí, basta prestar atenção!

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Texto:
Isabella Abrão
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Hellen Vieira
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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