Há poucas décadas, o Brasil convivia com uma realidade difícil de imaginar hoje: a saúde pública não era um direito universal. Até o fim dos anos de 1980, o acesso aos serviços de saúde dependia, quase sempre, da contribuição ao Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). Quem não tinha emprego formal ficava à margem e precisava recorrer à filantropia, a hospitais de caridade ou, muitas vezes, simplesmente, não conseguia atendimento. Esse fator era um dos principais que evidenciaram o cenário de desigualdade do Brasil, isso porque o acesso à saúde pública se resumia a trabalhadores com carteira assinada e milhões de brasileiros, não tinham.
Essa exclusão começou a ser questionada ainda nos anos 1970, em meio ao surgimento do chamado Movimento da Reforma Sanitária. Profissionais da saúde, pesquisadores, estudantes, sindicatos e organizações sociais uniram-se em torno de uma ideia simples, mas transformadora. A saúde como um direito de cidadania e não um benefício trabalhista. O movimento cresceu, influenciou debates acadêmicos e ganhou força política à medida que o país caminhava para o fim da ditadura militar.
Quando o Brasil iniciou seu processo de redemocratização, a discussão sobre saúde tornou-se central. O país precisava reconstruir suas instituições e redefinir as bases da cidadania. E foi nesse contexto que se plantou a semente do que viria a ser um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo.
A conquista de um direito coletivo
O marco definitivo aconteceu em 1988, com a promulgação da Constituição Cidadã, que estabeleceu no Artigo 196 que “a saúde é direito de todos e dever do Estado”. Com essa frase, o Brasil redesenhava sua compreensão sobre saúde e igualdade. Nascia, oficialmente, o Sistema Único de Saúde (SUS).

Mas o SUS não surgiu pronto. Ele foi, desde o início, um projeto ambicioso e em construção. As primeiras bases legais surgiram com as Leis Orgânicas da Saúde, aprovadas em 1990. Elas detalharam como o sistema funcionaria na prática: descentralizado, participativo, integral e voltado para toda a população. A partir daí, iniciou-se um processo gradual de reorganização dos serviços de saúde em todos os níveis, desde a atenção básica, aos hospitais de alta complexidade.
Num país de dimensões continentais, a tarefa não era simples. Era preciso integrar estados e municípios, fortalecer políticas públicas, ampliar a rede de atendimento e capilarizar o cuidado onde antes não havia serviços. Ao longo dos anos, foi sendo construída uma estrutura que hoje cobre o território inteiro, em todas as unidades da federação, e se tornou parte indispensável da vida dos brasileiros.
A construção da igualdade em um país desigual
Durante os anos 1990 e 2000, o SUS se expandiu e passou a assumir funções cada vez mais amplas. A Estratégia Saúde da Família tornou-se sua coluna vertebral, levando equipes multiprofissionais para dentro das comunidades e garantindo acompanhamento contínuo às famílias. Esse contato direto possibilitou prevenção, diagnóstico precoce, educação em saúde e criação de vínculos entre profissionais e moradores.
Surgiram também serviços que se tornaram referência nacional, como o Samu 192. Essa é a sigla do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. A iniciativa reorganizou o atendimento de urgência e emergência. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) fortaleceram a política de saúde mental e os programas nacionais de imunização transformaram o Brasil em símbolo internacional de campanhas de vacinação eficientes, acessíveis e massivas.
Em paralelo, o SUS passou a coordenar políticas de vigilância epidemiológica, controle de doenças, transplantes (o Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo) e ações de saúde ambiental. Pouco a pouco, o atendimento que antes era privilégio de alguns passou a alcançar milhões de pessoas, inclusive, nos lugares mais remotos do país.
Mas essa caminhada não foi linear. O SUS enfrentou, e ainda enfrenta, desafios estruturais: subfinanciamento crônico, desigualdade regional, falta de profissionais em locais de difícil acesso, filas e limitações tecnológicas.
Universalidade, integralidade e equidade
O SUS é guiado por princípios que traduzem não só um modelo de saúde, mas uma ideia de democracia. O primeiro deles é a universalidade, que determina que todos, sem distinção, têm direito ao atendimento.
A integralidade complementa esse entendimento ao dizer que a saúde envolve todas as dimensões do ser humano. O cuidado não pode ser apenas fragmentado ou pontual. Esse aspecto deve integrar prevenção, tratamento, reabilitação, promoção da saúde e acompanhamento. A ideia é que o paciente não seja visto como um caso clínico isolado, mas como um cidadão inserido em um contexto social.
Já a equidade traz um elemento fundamental da justiça social. O objetivo é oferecer mais a quem mais precisa. Em um país profundamente desigual como o Brasil, tratar todos de forma igual seria perpetuar injustiças. A equidade1 busca reduzir desigualdades históricas ao direcionar recursos e políticas específicas para grupos vulneráveis, regiões mais pobres ou populações tradicionais.
Esses três pilares sustentam a concepção ética e política do SUS e orientam sua atuação cotidiana, influenciando desde a distribuição de vacinas até a organização dos serviços nos municípios.
Além dos princípios, o SUS funciona com base em três diretrizes operacionais.
Descentralização: o poder de decisão e gestão é dividido entre União, estados e municípios. Os municípios, por sua proximidade com a população, assumem grande parte da execução das ações de saúde.
Participação social: conselhos e conferências de saúde garantem que a sociedade civil tenha voz nas decisões do sistema. Usuários, trabalhadores e gestores se encontram para discutir prioridades, avaliar programas e construir coletivamente os rumos da política de saúde.
Regionalização: o país é organizado em Redes de Atenção, permitindo que municípios e estados cooperem entre si. Isso evita duplicidades e facilita o acesso a serviços que exigem maior complexidade tecnológica, como tratamentos especializados.
O SUS que faz parte da vida
A doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Secretária Municipal de Saúde de Pontal do Paraná, Michele Straub, contou para o C² sobre como o SUS é parte essencial na preservação da vida da população brasileira. “Ele salva e muda a vida das pessoas, e garante dignidade. Não é perfeito, mas ele existe e faz diferença”, afirma Straub.

O SUS é considerado assim, um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, que “atende, acompanha, monitora muitas pessoas e situações, e produz com isso informações, dados e comparações”, destaca Michele Straub. Ele atua diretamente em pesquisas científicas e na elaboração de políticas de prevenção de doenças epidêmicas.
Assim, manter e reforçar a importância do SUS, é garantir que a saúde continue sendo um direito de todos e não um privilégio de poucos!
Logo, o SUS não está presente somente em momentos como consultas médicas. Mas ele vai muito, além disso… abarca serviços de água tratada que chega às casas, vigilância sanitária dos alimentos, campanhas de prevenção, na saúde do trabalhador, na regulação de medicamentos, nas políticas de saúde indígena, na coleta de dados epidemiológicos e em ações que protegem o bem-estar coletivo.
Está, segundo Straub, presente em “cada etapa do nosso dia a dia: na vacina que protege nossas crianças, no medicamento garantido pela farmácia pública, no atendimento de urgência que salva vidas e no acompanhamento das pessoas com doenças crônicas”.
E mais, no agente comunitário batendo à porta para acompanhar uma gestante, ou no atendimento de emergência que chega em poucos minutos pelo Samu. Está nos hospitais públicos e universitários, nos postos de saúde de bairros periféricos, nos laboratórios que analisam exames, nos programas de vacinação que mobilizam o país inteiro.

O SUS é um patrimônio coletivo, construído com o esforço de milhões de brasileiros que acreditam que saúde é um direito, não um privilégio.
Também desempenha um papel fundamental na saúde das mulheres ao garantir acesso universal e gratuito a cuidados essenciais em todas as fases da vida. Desde o acompanhamento no planejamento reprodutivo até a atenção pré-natal, parto, puerpério e ações de prevenção e tratamento de doenças, o sistema assegura que mulheres de diferentes contextos tenham seus direitos em saúde protegidos.
Em um país marcado por desigualdades, a atuação do SUS é decisiva para promover equidade, acolhimento e cuidado integral, fortalecendo a autonomia e a qualidade de vida das mulheres.
SUS e a saúde das mulheres
A pesquisadora professora do Departamento de Análises Clínicas e Biomedicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e coordenadora do Rede Previna-se, Marcia Edilaine Lopes Consolaro, foi uma das integrantes do grupo que elaborou as Novas Diretrizes Brasileiras de Rastreamento do Câncer do Colo do Útero. O material faz parte da atualização apresentada pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), no fim de 2024.

A Nova Diretriz ganhou caráter oficial em 18 de agosto de 2025, quando foi publicada e aprovada pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Saúde. “A mudança marca um avanço importante na prevenção do câncer do colo do útero no país” , destaca Consolaro.
Entre as novidades está a implementação do teste molecular de detecção e tipagem de DNA-HPV2 no SUS, que começou em agosto de 2025, e é considerada muito mais eficaz e moderna para realizar o rastreamento do câncer do colo do útero e faz parte do programa ‘Agora Tem Especialistas’.
A previsão da pasta é ambiciosa e a expectativa é que o teste esteja disponível em toda a rede pública do país até dezembro de 2026. Com essa tecnologia “o Brasil se aproxima de um novo padrão de rastreamento, mais preciso e alinhado às recomendações internacionais”, afirma Marcia Consolaro. Para saber mais e ficar atualizado sobre o assunto, siga a Rede Previna-se, no Instagram.
Outra medida que entrará em vigor e foi anunciada em 2025, e implementada no SUS é a aplicação do método contraceptivo de longa duração, o Implanon. O Ministério da Saúde já iniciou a capacitação nacional para habilitar profissionais da rede pública a inserir e acompanhar o Implanon. A ação prevê treinar mais de 2 mil profissionais, entre médicos, enfermeiros e gestores, em oficinas que combinam teoria e prática com simuladores anatômicos. O objetivo é qualificar a assistência em planejamento reprodutivo e ampliar o acesso a métodos seguros e eficazes.
O Implanon é um implante subdérmico capaz de garantir proteção contraceptiva por até três anos. Apesar da alta eficácia, o dispositivo é considerado caro na rede privada, podendo chegar a cerca de R$ 4 mil com o procedimento de aplicação. Com a incorporação ao SUS, o método passa a ser oferecido gratuitamente às mulheres entre 14 e 49 anos, eliminando barreiras econômicas e ampliando o acesso a opções de longa duração.
Além das técnicas de inserção e remoção, a capacitação inclui orientações sobre acolhimento, direitos reprodutivos e demais métodos disponíveis no sistema público. A iniciativa reforça o compromisso do Ministério da Saúde com a ampliação do planejamento reprodutivo no país e marca um avanço na garantia de autonomia e cuidado integral às mulheres.
Seguimos na expectativa de um futuro no qual o acesso à saúde seja cada vez mais amplo, seguro e garantido para todos pelo SUS.
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Texto: João Luiz Lazaretti e Maysa Ribeiro Macedo
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Equidade: Princípio que busca tratar cada pessoa de forma justa, considerando suas necessidades para garantir igualdade de oportunidades. ↩︎
- DNA-HPV: É um exame molecular que detecta a presença do material genético do papilomavírus humano (HPV). ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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