Foi em 28 de junho de 1969 que uma noite comum entrou para a história.
The Stonewall Inn, um bar em Nova York, os frequentadores decidiram reagir à violência constante das abordagens policiais e dar um basta a uma rotina marcada por repressão.
“Acabar com a desordem e limpar a cidade” era o discurso que justificava as invasões a bares frequentados por pessoas LGBTQIA+. Mas essa realidade estava longe de ser exclusiva daquele lugar .
A partir desse marco, o mês de junho passou a simbolizar a luta por direitos, visibilidade e respeito, sendo conhecido como o Mês do Orgulho LGBT+.
Ainda que esse marco tenha impulsionado debates e conquistas ao longo das décadas, a realidade de discriminação segue presente em diferentes espaços. É nesse cenário que surgem iniciativas que buscam promover diálogo, acolhimento e acesso a direitos para pessoas LGBTQIA+.
Uma questão de saúde pública
‘Diálogos LGBTrans’ é um projeto de extensão, em desenvolvimento na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE, campus de Francisco Beltrão, coordenado pela professora Melissa Barbieri de Oliveira. A iniciativa surgiu quando ela finalizou sua pesquisa de doutorado, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que foi direcionada à construção do reconhecimento das pessoas trans como sujeitos de direito. Ao retornar à universidade paranaense, a professora se deparou com uma situação que estava posta no município, mas que o poder público não encontrava soluções.

Havia uma rua em um bairro elitizado da cidade na qual algumas travestis realizavam trabalho de prostituição, o que ocasionava constantes reclamações da população direcionadas ao poder público municipal. Foi assim que representantes da Prefeitura, ao tomarem conhecimento da pesquisa da professora, solicitaram ao curso de Direito que pensasse em algo para buscar solucionar essa demanda. Nesse momento, foi proposta a criação de um espaço de diálogo para ouvir tanto as travestis como a população, já dando origem ao nome do projeto.
Foi preciso, antes de tudo, esclarecer aos moradores do município que não seria possível retirar as pessoas dos locais que ocupavam na cidade. Afinal, como cidadãs, todas as pessoas possuem o direito de viver nos espaços da cidade, assim como o direito de usar os equipamentos públicos, como da saúde pública, de segurança pública etc.
Tendo contato com a comunidade LGBTQIA+, Melissa conta que “uma das motivações para elas estarem ali naquela rua, era justamente o fato de estar localizada em um bairro de elite, sendo assim uma rua mais iluminada e que tinha câmeras nas casas, dando a sensação de maior segurança.”
Foi a partir destes primeiros diálogos que as travestis puderam apresentar esses e outros pontos, nas futuras reuniões com a prefeitura, com a Secretaria Municipal de Saúde, com a presença da Polícia Militar, que também era acionada por algumas pessoas nesses momentos. Além, claro, de alguns representantes da comunidade LGBTQIA+, que estavam sendo alvos das denúncias.
Dentro da Unioeste, a iniciativa acabou sendo formalizada como um projeto de extensão. Ganhou um espaço para acolhimentos, onde as pessoas passaram a poder acessar atendimentos diversos. “A gente atua numa perspectiva interdisciplinar, apesar do projeto estar vinculado ao curso de Direito. Já teve bolsistas de cursos como Serviço Social, Psicologia, Geografia, Medicina, além de Direito,” enfatiza a professora.
O diálogo como ferramenta
O projeto segue com o mesmo objetivo desde sua criação: promover diálogos que pessoas no campo social podem considerar difíceis ou desconfortáveis. Seu funcionamento se dá a partir de demandas de entidades públicas ou privadas e a execução de ações, como palestras, oficinas, rodas de conversa. Geralmente, os temas abordados são o uso de nome social, o direito a retificação do nome civil, o uso de banheiros e o direito de ser quem são, no caso das pessoas trans. Também são promovidas discussões sobre discriminação, preconceito e outras formas de violência, que podem violar os direitos constitucionais, conforme as previsões do Art. 3º e do Art. 5º da Constituição Federal: “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.
Atividade realizada em 17 de maio, dia Internacional de Combate à LGBTfobia, à convite do curso de Serviço Social da Unioeste (Foto/Arquivo pessoal) Atividade realizada em 17 de maio, dia Internacional de Combate à LGBTfobia, à convite do curso de Serviço Social da Unioeste (Foto/Arquivo pessoal) Atividade realizada em 17 de maio, dia Internacional de Combate à LGBTfobia, à convite do curso de Serviço Social da Unioeste (Foto/Arquivo pessoal) Atividade realizada em 17 de maio, dia Internacional de Combate à LGBTfobia, à convite do curso de Serviço Social da Unioeste (Foto/Arquivo pessoal)
O projeto leva à prática os direitos e cidadania, e muito da divulgação de direitos da população LGBTQIA+ foram feitos no principal meio de comunicação do projeto, que são as redes sociais. O Instagram do projeto recebe muitas solicitações, de escolas, universidades, entidades para levar suas ações, como forma de conscientização ou por terem se deparado com alguma situação específica dentro dos seus respectivos orgãos.
“Falamos muito sobre preconceito, discriminação e liberdade. Sobre o direito ao uso do nome social no SUS e até mesmo promovemos a retificação de nome de pessoas trans, que, hoje em dia, é feita de forma administrativa”, destaca Melissa.
Desde 2018, existe o Provimento Nº 73, do Conselho Nacional de Justiça, que dispõe sobre a alteração do prenome e do gênero nos documentos de nascimento e casamento de pessoa transgênero no Registro Civil das Pessoas Naturais (RCPN).

Como exposto no infográfico, apesar de não precisar mais de um processo judicial e acabar por tornando mais acassível essa mudança, ainda há desafios encontrados, ainda há relatos de alguns homens e meninas trans que encontram dificuldades em relação a preconceito e discriminação.
O projeto também entra nesse suporte de forma gratuita, na busca de documentos, auxílio diante de alguns órgãos públicos, até mesmo a ida junto ao cartório nesse momento tão importante da vida das pessoas trans.
A elaboração de um folder foi realizada pela equipe, ‘um guia pós-retificação de nome’, que orienta as pessoas o que fazer depois que conseguiram a alteração de nome na certidão de nascimento.
Resistência social
Em meio às ações do projeto, histórias individuais ajudam a traduzir o impacto do trabalho na prática. Um dos relatos vem de um estudante que atua como bolsista, mas que, antes disso, procurou o projeto em um momento delicado da vida.
O primeiro contato de João com a iniciativa veio como alguém que precisava de orientação. Após uma situação de violência, ele conta que, não imaginou que precisaria de apoio jurídico, e a decisão veio após o conselho de uma amiga, que o incentivou a procurar o projeto e decidir quais os melhores caminhos a seguir.
O suporte recebido fez diferença não apenas no encaminhamento do caso, mas na segurança de não enfrentar a situação sozinho. “Ali, onde eu achava que não precisava, eu vi que era necessário ter alguém do meu lado, pelo menos. [O advogado parceiro do projeto, Diekson Braian] não só me recebeu e me orientou, como esteve comigo a todo momento durante o processo”, relata João.
A professora Melissa, que também conheceu a história de João, comenta que o projeto já passou por altos e baixos sobre ter e não ter apoio e possuir financiamento. E que, mesmo sem financiamento, se mantém, porque é o único lugar aberto ao público que atende a temática LGBTQIA+ na região.
“A gente já recebeu pessoas de outros municípios, já participamos em outros momentos de outras conferências, como a Conferência da Criança e da Adolescente, e a Conferência Municipal de Saúde. Sempre tentando levar essas demandas e estar à disposição para atender pessoas que eventualmente precisem dialogar sobre esse assunto”, expõe a coordenadora, que já recebeu mães que apoiam os seus filhos, mas que acabam não tendo apoio de outros familiares.
Assim como iniciativas culturais e sociais em outras regiões do país, como o projeto LLista Trans: um coral amplificador de vozes, que utiliza a música como ferramenta de acolhimento e afirmação, o Diálogos LGBTrans evidencia a importância de criar espaços seguros e de pertencimento.
Material educativo
Em 2025, o grupo conquistou um financiamento da Itaipu Binacional, o que proporcionou ao projeto ter mais bolsas e recursos. O dinheiro ajudou a ampliar essas demandas que algumas entidades que acolhem pessoas LGBTQIA+ possuem.
Com o financiamento também foi possível fazer um material impresso, ampliando a divulgação. O projeto disponibiliza cartilhas e folderes com conteúdo que surgiu de perguntas e respostas que surgiram das conversas e palestras realizadas pelo ‘Diálogos LGBTrans’. Um exemplo é uma publicação que explica para a população quem são as pessoas trans e quais suas demandas específicas.
No Instagram é possível encontrar o link para as cartilhas e folders.

Com esses recursos, o projeto ampliou sua atuação em diferentes espaços institucionais da região, estabelecendo parcerias com o Fórum Cível de Francisco Beltrão e o Fórum de Marmeleiro, além de realizar palestras em diversos municípios. As ações também chegaram à área da saúde, com atividades na Secretaria Municipal de Saúde de Pato Branco, em unidades básicas de saúde (UBSs), no Hospital Intermunicipal e em articulação com a 8ª Regional de Saúde. A proposta, segundo a equipe, é levar o diálogo e as demandas da população LGBTQIA+ a esses locais, que, muitas vezes, são portas de entrada para acolhimento e atendimento.
Inclusive, no ano de 2025, o projeto atendeu a maior demanda desde a sua fundação, que foi o apoio para a realização da I Conferência Municipal dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ do Município de Francisco Beltrão. O evento reuniu mais de 200 pessoas participantes.
Atualmente, o projeto não conta com financiamento e possui dois bolsistas apenas, que são financiados pela Pró-Reitoria de Extensão da Unioeste, com recursos da Fundação Araucária. Então, a atuação tem sido um pouco mais restrita. Ainda assim, a demanda não diminui: mensalmente, o grupo recebe pedidos de palestras e rodas de conversa, o que exige organização constante para dar conta das solicitações.
No início deste ano, o projeto realizou, em parceria com a Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), subseção de Francisco Beltrão, uma Reunião Aberta alusiva ao Dia Nacional da Visibilidade Trans. Estiveram presentes dois órgãos relacionados à causa, a coordenação do Paraná do IBRAT, Instituto Brasileiro de Transmasculinidades e a ANTRA, Associação Nacional de Travestis e Transexuais.
No mês passado, o projeto articulou, em parceria com o curso de Serviço Social, uma atividade alusiva ao dia 17 de maio, data marcada pelo enfrentamento à homofobia. Já para o dia 28 de junho, Dia do Orgulho LGBTQIA+, a equipe prepara mais uma iniciativa em conjunto com um estabelecimento local, mantendo uma parceria que se repete há alguns anos.
A continuidade dessas atividades, mesmo diante das limitações, reforça o compromisso do projeto em manter o diálogo ativo e acessível, ocupando diferentes espaços da comunidade e ampliando o alcance das discussões sobre direitos e cidadania.
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Texto: Guilherme Nascimento dos Santos
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Hellen Vieira
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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