Comemorar o Dia do Professor, em 15 de outubro, nos lembra da beleza e dos desafios dessa importante profissão, não é mesmo?
Nos últimos anos, a série de televisão “Abbott Elementary” tem ganhado destaque em premiações e também nas redes sociais, com recortes divertidos e críticos. A trama acompanha a dura (e hilária) rotina de professores de uma escola pública.
Em um dos episódios, quando a professora Janine finalmente consegue verba para comprar o primeiro computador da escola, uma infestação de ratos acaba com os planos, por conta do custo imprevisto da dedetização.
Entre outros acontecimentos, a série retrata bem as dificuldades dos professores em “tirar leite de pedra” e, principalmente, vemos o amor e a dedicação desses profissionais ao longo dos episódios. Isso resume os desafios da docência, pois, em meio a tantas barreiras, como não deixar de lado uma formação humana, que cuida e se preocupa com o futuro?
Na educação superior isso não é diferente. A formação do professor universitário precisa ir além do domínio de conteúdos específicos: compreender o que se faz, por que se faz e quais são os impactos desse conhecimento sobre a sociedade são pontos essenciais.

Para a pedagoga e professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Jamile Bridi, a formação docente precisa aproximar conhecimento técnico, reflexão crítica e responsabilidade social. Afinal, dominar uma área de conhecimento é apenas parte do trabalho de quem ensina.
Jamile situa parte de suas pesquisas e de sua atuação na formação docente. Para ela, que é doutora em Educação e pedagoga, a educação tecnológica precisa superar uma concepção de ensino centrada exclusivamente na técnica e incorporar dimensões sociais, éticas, culturais e humanas.
Quando o especialista se torna professor
Em uma perspectiva tecnicista, explica Jamile, o foco está no desenvolvimento da capacidade de executar determinada atividade. É o aprendizado de como operar uma máquina, utilizar um computador, empregar uma nova tecnologia ou realizar um procedimento. Já a educação tecnológica parte desse conhecimento para questioná-lo, “é uma pergunta que envolve não só como fazer, mas por quê fazer, como fazer e para que fazer”, resume a professora.
A proposta não significa abandonar a técnica, mas conhecê-la para poder analisá-la criticamente. O desafio está em compreender os valores, relações de poder e consequências sociais presentes nas tecnologias e nas práticas profissionais. A técnica, portanto, deixa de ser um fim em si mesma e passa a integrar uma formação mais ampla.
Segundo Jamile, a educação tecnológica desenvolvida na UTFPR parte desse princípio para pensar uma formação interdisciplinar, capaz de considerar o conhecimento técnico em relação com a sociedade e seus impactos. “Ela vai além do saber técnico, é uma maneira interdisciplinar, que pensa no todo e, sobretudo, na sociedade. Diferentemente da educação básica, em que a formação pedagógica é parte constitutiva das licenciaturas, o ingresso de professores na universidade está tradicionalmente associado ao domínio de uma área específica do conhecimento e à formação acadêmica, como mestrado e doutorado”, explica.
Um profissional pode chegar à universidade depois de construir uma trajetória como engenheiro, arquiteto, cientista ou especialista em outra área e, a partir de então, assumir também a função de professor. A formação específica em sua área é necessária para o ingresso na carreira, mas não necessariamente vem acompanhada de uma formação pedagógica. “Entende-se que esse conhecimento específico da área é suficiente para que ele ingresse como docente do ensino superior”, afirma Jamile.
A questão, entretanto, não termina com a entrada na universidade. A própria experiência docente exige conhecimentos sobre planejamento, metodologias de ensino, avaliação, inclusão e diferentes formas de aprendizagem. É nesse contexto que a formação continuada ganha importância.
A formação continuada
Na UTFPR, essa necessidade levou à criação do Programa de Desenvolvimento Profissional Docente, estruturado em duas etapas: uma formação inicial, quando o professor chega à instituição, e uma formação continuada, desenvolvida ao longo da carreira.

A formação inicial é organizada em oito módulos que apresentam ao novo professor diferentes dimensões da universidade e da docência. Entre os temas estão a própria concepção de educação tecnológica, a profissionalização, as metodologias, a inclusão e as características de uma universidade que tem a tecnologia como parte de sua identidade.
Depois dessa etapa, a formação continua por meio de seminários, oficinas, palestras e outras atividades. A ideia é que o desenvolvimento profissional não seja encerrado depois dos primeiros anos de carreira.
“O desenvolvimento profissional docente acontece ao longo de toda a carreira”, destaca Jamile. “A proposta é criar oportunidades para que o professor reveja sua prática, analise criticamente seu planejamento e suas escolhas pedagógicas, acompanhe as transformações que ocorrem na educação e se aproprie, de forma crítica e responsável, das novas tecnologias. Mais do que conhecer novas ferramentas, é importante refletir sobre quando, por que e para que utilizá-las, considerando suas possibilidades, seus limites e suas contribuições para processos de ensino e aprendizagem mais inclusivos”, completa.
Para a professora, um dos aspectos importantes da experiência da UTFPR é a institucionalização desse processo. Em vez de depender apenas de atividades pontuais de capacitação, a formação passa a fazer parte de um programa estruturado.
Em agosto de 2026, o programa passou por uma reestruturação institucional, que atualizou sua organização e oferta formativa. A nova configuração mantém a divisão entre formação inicial e continuada e reforça a compreensão de que o desenvolvimento profissional docente é um processo permanente, que acompanha o professor ao longo de toda a carreira.
O desafio da reflexão
A adesão dos professores a esse processo, contudo, não acontece sem desafios. O docente universitário precisa conciliar ensino, pesquisa e extensão, além de outras atividades acadêmicas. “Como todos são envolvidos em laboratórios, projetos, publicações e orientações, dedicar tempo à reflexão pedagógica pode representar uma nova demanda em uma rotina já bastante carregada. É uma demanda que concorre com outras”, observa Jamile.
A diferença de perspectivas, como um professor de exatas que precisa enfrentar um texto mais filosófico, também é parte da riqueza da proposta. Ao entrar em contato com questões pedagógicas, sociais e filosóficas, o professor é convidado a deslocar momentaneamente o olhar de sua especialidade para pensar sobre o próprio trabalho.
Para a professora Jamile, a formação continuada também cria oportunidades de encontro entre profissionais que, muitas vezes, vivenciam a chegada à universidade como um processo solitário. “Muitos eram engenheiros num dia e, depois de muito estudo, acordam professores. O programa cria um espaço coletivo para que esses profissionais compreendam a docência, discutam metodologias, compartilhem dificuldades e construam soluções em conjunto”, diz.
As mudanças no perfil dos estudantes também impulsionam a necessidade de formação continuada. A ampliação do acesso à universidade e a presença de estudantes com deficiência e transtornos colocam novos desafios para os professores. Jamile observa que essa realidade tem levado os próprios docentes a buscar formação para compreender como reorganizar suas práticas pedagógicas.

Uma formação que permanece em construção
A experiência da UTFPR aponta para uma concepção de formação docente que não termina com a contratação do professor nem se resume à atualização de técnicas de ensino. Ela precisa acompanhar as transformações da universidade, dos estudantes, das tecnologias e da própria sociedade.
Nesse cenário, dominar conhecimentos técnicos continua sendo fundamental, mas ensinar exige também compreender os contextos em que esses conhecimentos são produzidos e utilizados, refletir sobre suas implicações e fazer escolhas pedagógicas conscientes. As novas tecnologias, incluindo a inteligência artificial, ampliam esse desafio: mais do que aprender a utilizar novas ferramentas, o professor precisa ser capaz de avaliar criticamente quando, por que e para que incorporá-las ao processo educativo.
É nesse movimento que a formação continuada ganha sentido: como um espaço permanente de reflexão sobre a prática, de diálogo com outros professores e de construção coletiva de novas possibilidades para ensinar e aprender.
Ser professor, portanto, não é chegar a um ponto final de formação, mas permanecer em movimento. Como resume uma frase que Jamile guarda de um professor: “ser professor uma vez é ser professor para sempre”.
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Texto: Guilherme de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de áudio: Bernardo Vená
Arte: Carlisle Ferrari
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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