Encontrar locais em que nos sentimos bem-vindos, acolhidos, desejados, amados e valorizados faz toda a diferença na escrita da nossa história. Afinal, o ser humano vive para estar em comunidade, sendo natural criar conexões e se fazer pertencente a um grupo.
Mas, muitas vezes, é difícil encontrar esses espaços e essas pessoas. Para muitos, a dificuldade se potencializa puramente por conta de discrimação e preconceito… Pessoas trans passam por isso frequentemente e acabam se questionando quando e onde irão se sentir abraçados, vistos e ouvidos.
Felizmente, Rudá conseguiu encontrar um espaço assim, quando passou a participar de um coral formado apenas por pessoas trans, a LLista Trans, que acabou gerando uma sensação de pertencimento. Rudá entende que cantar junto de pessoas que possuem vivências semelhantes e que compartilham uma trajetória de vida correlata traz um acalento e auxilia em uma conexão consigo mesmo.

“A música, nesse contexto, ao meu ver, se torna uma ferramenta de resistência, cura e afirmação da identidade. Cada ensaio é uma oportunidade de me descobrir e redescobrir. É como se, a cada nota, eu estivesse refinando não apenas a minha voz, mas também a minha existência, em harmonia com quem eu sou e tenho me buscado ser. Através desse projeto, as cicatrizes emocionais deixadas pela transfobia e exclusão social começam a encontrar alívio. O simples ato de cantar em união é um lembrete de que, mesmo em um mundo que muitas vezes tenta silenciar vozes dissidentes, há potência na diversidade. Há potência em criar música com e para aqueles que compreendem profundamente as nuances da nossa jornada”, conta Rudá.
O coral foi idealizado e criado, em 2023, pela musicista, formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Manu Santos. O primeiro estalo para a criação veio com a sua participação no projeto de extensão Laboratório de Práticas e Ensino de Canto do curso de Música da UFPR (Labvox), coordenado pela professora de Música da universidade, Dra. Viviane Kubo.
O Labvox é um espaço que une a teoria à prática, pensando na formação de regentes, professores de canto e preparadores vocais. Os participantes adquirem todos os fundamentos necessários para uma base teórica sobre ensino de canto, fisiologia da voz e as ramificações existentes na temática, para, posteriormente, aplicá-los na atuação prática pelo Coral Labvox – formado tanto pela comunidade acadêmica quanto pela externa. Foi aí que Manu viu a necessidade de se pensar um formato coralístico que priorizasse as especificidades das vozes de pessoas trans.

Afinal, são vozes que podem passar por processos de transformações e adaptações decorrentes da hormonização. “Em especial para identidades transmasculinas, que usam testosterona, a voz pode sofrer grandes alterações. E, com isso, eu fui percebendo como os corais, no geral, têm bases e abordagens muito tradicionalistas, que acabam sendo excludentes às pessoas trans. Por isso a necessidade de criar um espaço que fosse acolhedor e inclusivo para essa comunidade”, explica a fundadora da LLista e, atualmente, regente do coral.
E aí estreou o primeiro coral trans do Brasil! Um projeto que busca amplificar vozes que são, muitas vezes, silenciadas, oferecendo, não apenas um espaço de ensino e pesquisa, mas também um ambiente de apoio e exaltação à comunidade trans. Tudo isso sendo transmitido desde a identidade visual do projeto, que contou com a participação da designer Letícia Anne Ribeiro Dias.

Manu explica que, durante sua trajetória como coralista, muitas vezes não se sentiu pertencente a determinados corais, que são formalizados e categorizados em uma dualidade de “vozes masculinas” e “vozes femininas”. Isto é fomentado por um sistema patriarcal, cis e heteronormativo, desenvolvendo o que, hoje, é a tradição de corais: separar as vozes em gêneros.
Um coral é arranjado pelos naipes vocais, sendo os quatro principais Soprano, Contralto, Tenor e Baixo. Os dois primeiros são entendidos como “vozes femininas”, enquanto os dois últimos como “vozes masculinas”, o que cria uma limitação desnecessária e preconceituosa para organizar corais e harmonias. Mas se vozes são vozes e não possuem gênero, por que não por fim a essa visão binária?
É isso o que a LLista Trans se propõe a fazer! A voz é vista como um instrumento musical, permitindo que mulheres ocupem lugares de tenores e homens de sopranos, por exemplo, evidenciando as riquezas e pluralidades vocais.
“Nós pensamos em resgatar uma relação de funcionalidade da voz, em que você tem que cumprir uma função cantando as notas determinadas, entendendo as vozes como instrumento musical. Essa é uma estratégia que utilizo para pensar com as coralistas sobre a relação de disforia, de que nós não precisamos adaptar a nossa voz para o padrão imposto que foi construído socialmente, que tenta determinar o que é uma voz masculina ou feminina. Então, a gente trabalha considerando apenas a nossa região de conforto”, explica a regente.

O esforço com os ensaios é recompensado com as apresentações, mostrando ao mundo cada uma das vozes especiais que compõem a LLista. O grupo já realizou diversas apresentações atreladas a eventos realizados na UFPR, como a Semana Integrada de Ensino, Pesquisa e Extensão (SIEPE), a Feira do Livro e a Jornada de Agroecologia, bem como em eventos próprios e durante a primeira edição do Festival Gilda, evento de música formado apenas por pessoas trans.
O grupo também comporá a trilha de um filme brasileiro com estreia prevista para 2026, Alice Júnior 2 – Férias de Verão, que conta com uma protagonista trans adolescente. Além disso, também já possuem apresentações marcadas no Estado de São Paulo, junto com o primeiro coral trans da região, o Vozes Trans, formado em 2024.
E o mais legal é que para participar de tudo isso e ter acesso a esses momentos incríveis, não é necessária nenhuma experiência musical prévia. A LLista também se faz inclusiva nesse sentido, permitindo adesão de novos membros a partir de nenhum critério técnico, sendo apenas fundamental a identificação como pessoa trans. Leitura de partitura, uma “boa” voz, preparação vocal, alcance de notas ou canto em grupo… Tudo isso será aprendido em conjunto, durante os ensaios, que acontecem todas às segundas-feiras, às 19h30, no Departamento de Artes da UFPR.
Por conta dessa configuração, o repertório de músicas cantadas pelo coral é escolhido conforme o desenvolvimento técnico do grupo. Nos primeiros ensaios do ano, são escolhidas músicas mais simples e, com o tempo e experiência dos coralistas, os arranjos vão progredindo para canções mais complexas. Além disso, também é função da regente pensar em uma relação pedagógica, unindo o ensino de músicas que se encaixem com o alcance técnico do grupo com o que eles gostem de cantar.

Assim, conforme Rudá afirmou, não é apenas a voz que é atendida e colocada no centro do coral, mas toda a existência de cada um dos coralistas. Uma harmonia perfeita de vozes e pessoas. Por isso, a importância da existência de corais trans, que abram o debate sobre os ensinos tradicionalistas de canto e sejam uma ferramenta para a construção de novos formatos de ensino e exposição da música.
“É muito importante repensarmos os ensinos conservadores, refletindo sobre como a gente trabalha com pessoas e como podemos atendê-las melhor. E a LLista tem esse lugar na parte acadêmica, com muita pesquisa embasando, mas também tem o lado social. Para mim a musicalização gera sempre um impacto social. Trazer música, ensino de canto gratuito e musicalização acessível gera um impacto positivo na vida dessas pessoas e oferece um lugar para que elas aprendam com segurança e sejam priorizadas”, salienta Manu.
Mais de 100 pessoas já passaram pela LLista Trans, encontrando um local de respeito e acolhimento, um grupo de identificação e pertencimento e um projeto que potencializa vozes.
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Texto: Mariana Manieri Pires Cardoso
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Eliesa Nakano e Hellen Vieira
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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