Lembro como se fosse ontem de passar horas ao lado da minha avó sentado em cadeiras de madeira reciclada que tínhamos em nosso quintal, observando a plantação, as árvores que tínhamos, o canto dos pássaros, e ouvir ela comentar sobre como a natureza é incrível ao nos dar tudo que precisamos.
É ótimo concordar com essa afirmação e saber que existem muitas ideias que surgem com base na pesquisa de encontrar soluções em nosso meio ambiente para problemas que vivemos.
Já parou para pensar no que mais a natureza pode nos oferecer além de alimentos e paisagens? E se um fruto esquecido pudesse embalar o nosso futuro?
Essa sabedoria popular, que valoriza o que a natureza oferece, hoje ganha força na ciência. Pesquisadores têm buscado soluções sustentáveis inspiradas justamente nesse potencial natural, um dos caminhos mais promissores está nas embalagens ativas, que vão muito além de apenas proteger os alimentos.
As embalagens ativas interagem com o alimento, controlando umidade ou retardando a oxidação. Elas contribuem com a conservação e a interação do alimento com o ambiente. Geram benefícios como, por exemplo, as embalagens com umidade controlada, onde libera ou absorve a umidade desse alimento, fazendo com que ele continue fresco.
Outro caso em que a embalagem tem uma função antioxidante, ou seja, que ajuda a retardar ou inibir a oxidação, um processo químico que leva à deterioração e ao, envelhecimento de alimentos, é a embalagem biodegradável feita de macaúba (Acrocomia aculeata). Esta é uma palmeira nativa brasileira, já pensada como alternativa em energia sustentável, uma vez que o óleo extraído dela é destinado à produção de biodiesel. É nesse processo que ainda sobra uma massa desengordurada, sem uso comercial, que vem sendo utilizada na fabricação de embalagens alternativas. Isso ocorre no projeto de Carmen Guedes, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Alimentos, da Universidade Estadual de Maringá (PEG/UEM).
De resíduo a solução: a força da macaúba
Não é de hoje que ouvimos falar sobre embalagens alternativas, dado o consumo desenfreado de alimentos com embalagens de plástico em nosso dia a dia. A conversa sobre esse tema é cada mais relevante e uma pesquisa realizada pela empresa Ticket nos faz um alerta sobre isso: mostra um crescimento de 4% no número de restaurantes por delivery, em 2024, em relação ao ano anterior. Isso se torna um problema quando sabemos que grande parte desses alimentos utiliza, se não um, mais de um tipo de plástico para serem transportados.
A pesquisa se deu em cima desse produto, também chamado de coco-de-espinho ou macajuba, muito por sua composição. Ela possui 26% de pectina em seu peso seco. “A pectina é um polissacarídeo capaz de formar gel, que auxilia na formação da matriz polimérica do material; isto facilita a moldagem de um recipiente. Utilizar a macaúba para fabricação de embalagens, enfim, é uma forma de aproveitar esse fruto que hoje é desperdiçado”, destaca Carmen.

Como dito anteriormente, a extração do óleo da macaúba para obtenção de biodiesel é seu grande chamariz e faz com que a planta se destaque já que, segundo dados da Embrapa, pode produzir até cinco toneladas de óleo por hectare.
Além disso, a pesquisadora destaca o fato de que a espécie é encontrada em diversas localidades do Brasil, precisa de pouca água para a sobrevivência, e vive em torno de cem anos. Esses fatores só contribuem para se pensar nela como uma ótima alternativa, passando, claro, pela produção do biodiesel, mas pensando em como seu cultivo pode gerar renda para os agricultores do nosso país.
A pegada de carbono é outro fator que destaca a macaúba com impacto positivo. Um estudo do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), mostra que a macaúba pode oferecer benefícios para quem cria gado. Afinal, o cultivo da planta melhora a qualidade do pasto e oferece um maior conforto térmico aos animais. E mais: a cultura da planta sequestra cerca de 20 toneladas de carbono por ano, ou seja, beneficia o meio ambiente.
Além disso, a macaúba auxilia efetivamente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU), ações com foco no desenvolvimento global sustentável, em diversos âmbitos. Dos 17 Objetivos, a espécie atua em seis ODS: 1: Erradicação da pobreza; 2: Fome zero e agricultura sustentável; 10: Redução das desigualdades; 11: Cidades e comunidades sustentáveis; 12: Consumo e produção sustentáveis; e 13: Ação contra a mudança global do clima.
Voltando às considerações da pesquisa de Carmen Guedes, entre os achados da pesquisadora está o fato de favorecer também a meta global do ODS 6: Água potável e saneamento; e do ODS 13: Ação Contra a Mudança Global do Clima, por propor alternativas para produção de materiais biodegradáveis e compostáveis.
Resultados, desafios e o que vem pela frente
O grande obstáculo da pesquisa da engenheira Carmen foi realizar os protótipos de uma forma artesanal, visto que não dispunha de equipamentos para confeccionar as peças. Elas foram desenvolvidas no Laboratório de Desenvolvimento de Novos Produtos, coordenado pela orientadora do projeto, a professora Grasiele Scaramal Madrona, e no Laboratório de Embalagens, da professora Monica Scapim, ambos da UEM. Foi um desafio criá-las de forma manual, mas nada que não possa ser resolvido com a criação de uma planta para uma escala industrial. Tanto que o projeto foi selecionado na primeira etapa do 2º Ciclo Catalisa do SEBRAE, cujo objetivo é desenvolver pesquisas acadêmicas com potenciais de inovação e que tragam soluções para problemas socioambientais.
“Já fizemos testes físicos e os resultados nos mostraram que o bioplástico adicionado de polpa de macaúba pode ser indicado para embalagens que precisam ser flexíveis e deformáveis, sem risco de ruptura. Por exemplo, sacolas de produtos leves como cereais, embalagens de alimentos frescos como frutas, vegetais e queijos, e revestimentos internos de embalagens com várias camadas.”, destaca a pesquisadora.
Essas embalagens têm um caráter muito sustentável quando lembramos que funcionam como substitutos de plásticos de uso único, uma vez que estes são derivados do refinamento do petróleo.
Outro impacto extremamente positivo é a geração de renda para produtores da matéria-prima, já que a destinação da macaúba para fins comerciais é um acerto muito grande. “Esse é um dos únicos relatos da literatura que utilizaram a macaúba para desenvolver embalagens. Foi gratificante trabalhar nesse projeto em conjunto com o IDR [Instituto de Desenvolvimento Rural Paraná], que direciona seus trabalhos para o reflorestamento utilizando macaúba. Então, a partir disso, podemos destinar os frutos da planta para uma atividade além da exploração do óleo”, comenta Carmen.
Outra perspectiva do projeto é a utilização da polpa da macaúba no desenvolvimento de outros produtos alimentícios. Ela, por exemplo, pode substituir a gordura adicionada na produção de manteiga e requeijão. A pesquisadora idealiza um futuro em que essa tecnologia possa ser aplicada tanto por empresas especializadas em soluções sustentáveis quanto por produtores rurais que desejam agregar valor ao fruto. Isto é, podem ir além do desenvolvimento de materiais ecológicos e se aventurarem em iniciativas como o turismo rural de base sustentável.
Em um mundo afogado em plásticos, a macaúba pode ser a semente de um novo jeito de produzir, consumir e cuidar. Grande notícia!
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Texto: Guilherme Nascimento dos Santos
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Beatriz Sayuri
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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