Quando comecei a praticar corrida de rua eu adorava correr no centro da cidade à noite. Algumas coisas em especial me agradavam: o vento fresco, a sensação de descarregar o estresse do dia inteiro, as luzes piscando e o trânsito que começava a se dispersar.
Não demorou para que eu começasse a perceber que, tarde da noite, cruzava com alguns corredores nas quadras pelas quais passava, que eram, em sua esmagadora maioria, homens. E não demorou, também, para que eu entendesse o motivo da ausência de outras mulheres praticando o esporte.
Semanalmente passei a sofrer assédio na rua durante meus treinos de corrida. Tentava tomar algumas precauções: enviar a minha localização em tempo real para contatos de confiança, correr por espaços mais iluminados e com maior circulação de pessoas e não usar fones de ouvido enquanto corria.

Até que, em um determinado momento, o ânimo pelo próximo treino foi sendo substituído pelo medo de sair de casa e precisei passar a correr mais na esteira da academia ou remanejar os treinos para o período da manhã.
Para mim, a preocupação em realizar um treino de corrida nunca era somente a performance ou desfrutar de um hobbie: era a de estar em estado de alerta, pensar em diferentes medidas de segurança e torcer para chegar em casa em segurança.
Assim também é para a maioria das mulheres.
Largada! Localização: Brasil
A corrida de rua é um esporte que cresce a passos largos no Brasil. De acordo com o estudo ‘Por Dentro do Corre’, realizado pela Olympikus em parceria com a Box1824, publicado no início de 2026, mais de 2 milhões de brasileiros começaram a correr em 2025, somando um total de 15 milhões de praticantes. Esse número representa um aumento de 15% no período de apenas um ano.
As mulheres, por sua vez, constituem uma grande parcela desse crescimento: o público feminino passou de 42% para 50% dos corredores entre 2024 e 2025. Dessas mulheres, 56% começaram a correr há menos de um ano.
Em meio a essa expansão, a corrida de rua se destaca por ser, em comparação a outros esportes, uma prática bastante democrática. Isso porque tem um custo relativamente baixo, uma vez que não requer o pagamento de equipamentos ou mensalidades, pode ser praticada individualmente ou em grupo e tem alta acessibilidade, ou seja, pode ser realizada em diversos lugares (praças, parques, ruas, estradas).
Ainda assim, mesmo com todos esses facilitadores, não é igualmente acessível para todos os grupos. Quando falamos em aspectos econômicos e de gênero, as desigualdades ainda impõem barreiras para a prática do esporte, sobretudo para as mulheres.
Foi pensando nessa questão que a fisioterapeuta Gessica Santin, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), realizou a pesquisa “Corrida de rua feminina em Curitiba, Paraná: análise de características individuais, ambientais e potenciais barreiras enfrentadas por corredoras”, como dissertação de mestrado em Saúde Coletiva. A pesquisa foi orientada pelas professoras Talita Zotz e Ana Carolina de Macedo.
Qual o perfil dessas corredoras?
A pesquisa de Gessica analisou, inicialmente, as características individuais e ambientais de mulheres praticantes de corrida de rua na cidade de Curitiba, no Paraná. A partir disso, foi possível traçar o perfil sociodemográfico dessas corredoras e compreender quais são as potenciais barreiras para a inserção e a permanência das mulheres no esporte.

A coleta dos dados foi feita por meio de um questionário on-line que foi, posteriormente, analisado por meio de estatística. O grupo estudado incluiu 414 praticantes de corrida de rua do sexo feminino, residentes na cidade de Curitiba e região metropolitana, com idade igual ou superior a 18 anos.
Os resultados revelaram que a média de idade dessas mulheres é de 41,5 anos, são predominantemente de ascendência branca, casadas, com alto nível de escolaridade (pós-graduação), com renda mensal média superior a 5 salários-mínimos, ou seja, com autossuficiência financeira e, ainda, com emprego em regime de tempo integral.
Somente esses dados já evidenciam desigualdades no acesso à prática da corrida de rua quando pensamos apenas no sexo feminino. “As mulheres de menor renda, de menor escolaridade, que residem em bairros mais vulneráveis, elas praticamente não praticam corrida e ela é, na verdade, um esporte elitizado, de acordo com os resultados da pesquisa”, explica a fisioterapeuta.

Já no que diz respeito a treinos e competições, a maioria das participantes pratica corrida de rua há mais de um ano, com frequência semanal média de três treinos por semana, preferindo o turno da manhã. Nos dados coletados por Gessica, a principal motivação dessas mulheres é “saúde e qualidade de vida”.
Tendo o perfil dessas mulheres traçado, a segunda etapa da pesquisa buscava entender as barreiras que impedem as mulheres de praticarem ou de permanecerem no esporte. “A corrida é dita como uma prática acessível e democrática, que você pode praticar em qualquer lugar… Mas isso serve para os homens, para as mulheres, não funciona dessa maneira”, argumenta Gessica.
Uma rota com inúmeras barreiras
Quando se trata das barreiras, a insegurança aparece como um dos principais fatores que afasta as mulheres da prática do esporte. Na pesquisa, as participantes relatam o receio de correr sozinhas, principalmente em determinados horários ou locais da cidade, o que faz com que precisem adaptar trajetos, horários de treino ou ainda, optarem por correr acompanhadas.
“Mais de 60% delas já sofreram algum tipo de assédio durante a prática da corrida, desde buzinas até comentários… Algumas comentam sobre serem seguidas ou fotografadas. São vários tipos de violência”, explica a fisioterapeuta.
E esse medo se confirma quando olhamos para as estatísticas de violência contra mulher no Brasil. De acordo com o Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de feminicídios cresceu 4,7% de 2024 para 2025. Ano passado, foram registradas 1.568 mortes por feminicídio em território nacional.
De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, 87.545 estupros foram registrados no Brasil, em 2024, o maior número já registrado no país. Além disso, as taxas de violência e assédio sexual seguem crescendo no Brasil mesmo com a subnotificação de casos e denúncias.

Outro ponto que também foi identificado no estudo é a influência do ambiente urbano na prática. A falta de iluminação adequada, calçadas irregulares, trânsito intenso e ausência de espaços apropriados para atividades físicas são fatores limitantes.
A disparidade de gênero ainda aparece quando o assunto é rotina: a jornada dupla ou tripla realizada pelas mulheres (trabalho formal, trabalho doméstico, cuidado com os filhos) reduz o tempo que elas dispõem para a prática.
Existem rotas alternativas?
Gessica explica que pensar a corrida para as mulheres, portanto, é pensar em saúde de forma mais ampla “O fato da mulher ter essa barreira para correr também é uma barreira de promoção de saúde para ela, tanto saúde física como saúde mental… Então, é uma barreira também à saúde pública como um todo.”
A fisioterapeuta aponta que a corrida é uma ferramenta barata de prevenção ao desenvolvimento de doenças crônicas. Portanto, quando fatores que dificultam a prática esportiva impedem as mulheres de correr, isso acaba gerando um aumento dos custos do Estado com tratamentos futuros em saúde.
Esses fatores envolvem aspectos de natureza socioeconômica, étnica, demográfica, de acessibilidade, segurança e suporte social e familiar. A solução, nesse sentido, não é simples nem única. Mas compreender essas condições possibilita pensar em políticas públicas e ações de promoção à saúde.
Algumas iniciativas, especialmente do poder público, podem contribuir para transformar esse cenário, como o investimento em segurança urbana, a melhoria da iluminação, a revitalização de espaços públicos e a criação de trajetos mais seguros para a prática esportiva.
Além disso, a formação de grupos comunitários voltados para mulheres e a implementação de programas de incentivo ao esporte, com acesso gratuito a ações e eventos, sobretudo em bairros periféricos, podem não apenas favorecer a prática da corrida de rua com mais tranquilidade, mas também ampliar o acesso das mulheres ao esporte de forma geral.
É fundamental, mais do que apenas incentivar a prática esportiva, estruturar ações que contribuam para promoção de saúde, autonomia e ocupação mais segura dos espaços públicos pelas mulheres.
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Texto: Camila Lozeckyi
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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