Pela primeira vez numa cidade do interior, o Encontro Nacional da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciências (ABCMC) chega a quinta edição, realizada no Museu Dinâmico Interdisciplinar (Mudi), da Universidade Estadual de Maringá (UEM), em parceria com o Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação – NAPI Paraná Faz Ciência. Durante três dias, o evento contou com a participação de mais de 200 inscritos vindos de 13 estados e representando 45 instituições, centros e museus de ciências.
Foram apresentados 135 trabalhos nas modalidades oral e sessão de pôsteres, abordando temas como itinerância, acervo, curadoria, práticas inclusivas, comunicação digital, formação docente, ações comunitárias e voluntariado. Toda a programação e atividades podem ser acessadas, na íntegra e com tradução em Libras, no canal do Youtube da ABCMC.

A professora da UEM, Débora de Mello Sant’Ana, coordenadora do V Encontro e, que també m representa a Fundação Araucária, enfatizou aos participantes o esforço da ABCMC e dos profissionais da área com a popularização da ciência para a realização do evento. “Nosso compromisso é a valorização da memória científica e a construção de políticas públicas que reconheçam os museus e centros de ciência como espaços vivos de aprendizagem, inclusão e cidadania”, afirmou.
Para Débora, é uma satisfação realizar o encontro na cidade de Maringá, no coração do Paraná. “Nossa cidade é reconhecida por sua qualidade de vida, planejamento urbano e compromisso com a educação e com a cultura. É uma cidade que respira inovação e que acolhe com generosidade iniciativas voltadas à ciência, à inclusão e à formação cidadã”, comemorou.
A cerimônia final do evento, conduzida pela presidente da ABCMC, Andréa Fernandes Costa, concentrou-se na escolha da sede para o próximo Encontro Nacional a ser realizado em ano par, retomando assim o padrão pré-pandemia. Apresentaram-se, então, o Museu Paraense Emílio Goeldi em conjunto com Planetário do Pará, e o paulistano Museu Catavento como candidatos.

Por comum acordo entre os presentes, a definição foi de que em 2026 o museu paraense receberá a sexta edição do Encontro Nacional e, em 2028, assim que a reforma interna for concluída no Museu Catavento, o evento irá para São Paulo. Com esta ponderação, o Encontro passa, então, do Sul (Maringá) para o Norte (Belém) do país, e na sequência segue para uma outra região: a Sudeste (São Paulo).
Houve também a proposição da chamada Carta de Maringá, com sugestões endereçadas às universidades brasileiras, aos ministérios federais, ao Fundo Nacional para Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e às agências de fomento, contendo~, em especial, a recomendação para uma robusta Política Nacional de Popularização da Ciência.
Entre as propostas contidas na Carta, estão a garantia de financiamento para a continuidade das ações e, assim, assegurar recursos materiais e humanos para que sejam cumpridos os objetivos de ampliação da cultura científica no país. Sem deixar de considerar critérios de balanceamento entre as regiões contempladas e a equidade, por meio de ações afirmativas para a área.
Interiorização de museus
Andréa Fernandes Costa, na palestra de abertura, enfatizou que é fundamental diminuir as desigualdades em relação à presença de museus pelo país, melhorar a acessibilidade e mecanismos de inclusão, bem como pensar na itinerância como estratégias para alcançar novos públicos.
“É preciso pensar em levar para o interior o que tem nas capitais, levar para o interior e que encontro no litoral. Mas, é preciso olhar também para a realidade das capitais e pensar uma distribuição menos desigual. Essa população, que, a princípio, com números absolutos, tem uma boa oferta de museus, também encontra dificuldade de acessar esses equipamentos, porque eles tendem a se concentrar nas regiões mais ricas das cidades, nos bairros menos habitados”, alertou.

Outro gargalo a ser enfrentado pelo segmento é a escassez de recursos humanos e financeiros para atividades cotidianas dos espaços museais, o que impede a abertura de novos locais e a implantação de projetos de itinerâncias, que levam partes do acervo a localidades onde não há museus.
“O museu é insubstituível no estágio mais importante do processo cognitivo, que é justamente o início, saindo da diferença para a vontade de aprender, abrindo portas e janelas para o conhecimento”, expressou Andrea.
Já a palestra “Museus de Ciências em espaços virtuais: democratização e desafios” foi ministrada por Frieda Maria Marti. A professora falou sobre o impacto das redes sociais e mídias na vida humana e na sociedade, trazendo conceitos como midiatização e plataformização. A partir deles, Marti abordou os desdobramentos ocasionais, como os sociopolíticos (a privatização da regulação do discurso público e a amplificação algorítmica de conteúdos extremistas e desinformação), bem como os econômicos, culturais e cognitivos (capitalismo de vigilância, algoritmo, ação do espaço público e formação de bolhas informacionais).
Além disso, ela focou na desinformação, como prefere denominar: as fake news. “Este discurso falso está ocupando cada vez mais espaço nas redes, em especial potencializadas pela extrema direita, o que pode ocasionar em deslegitimação da imprensa e da ciência, discursos de ódio, criação de realidades paralelas e teorias da conspiração. Tudo isso vem impactando até mesmo os museus de ciência”, alertou.
Vozes das comunidades
Durante o evento, foram realizadas mesas-redondas com pesquisadores e gestores que compartilharam suas experiências. Segundo os organizadores, a discussão democratiza o diálogo, potencializa a construção de uma ciência mais plural, a obtenção de recursos e cria possibilidades e oportunidades de formação de novas pessoas para o mercado de trabalho ou para pesquisa para fazer e ciência.
A professora e pesquisadora Josiane Kunzler, do Museu de Astronomia do Rio de Janeiro, mediou a discussão sobre a interiorização, a partir da proposta de se levar museus para o interior do país como estratégia para a afirmação de identidade do território que ele abrange, refletindo a cultura local, e até regional.

“Os planetários completam 100 anos de existência no mundo, em 2025, e são espaços de encantamento e aprendizado não só sobre Astronomia e Física, mas também outras ciências, tornando um equipamento importante de popularização da ciência”, afirma Guilherme Frederico Marranghello. O planetário inflável coordenado pelo professor tem sido uma iniciativa exitosa para a divulgação científica, no Rio Grande do Sul. “Capacitamos professores com conteúdo e para operar o equipamento e a cada três meses ele fica numa região. Assim, conseguimos suprir a carência de centros e museus de ciências no interior”, completa.
Já Lucia Santana contou a atuação nos grupos de pesquisa em Comunicação, Memória, Educação e Museus na Amazônia e Etnoecologia Amazônica, além de compartilhar sua experiência com o que ela chama de ‘pontos de memória’. “Tenho feito um movimento diferenciado, indo escutar as vozes das comunidades amazônicas e que vivem em diferentes situações, especialmente em comunidades de mulheres, como elas organizam seu patrimônio cultural”. Nesta pesquisa, Lucia enfatiza que considera museus terreiros, escolas, um ponto de cultura, ampliando o conceito de museus e suas tipologias. “Desta forma, nós temos um museu cheio de novidades, como cantou Cazuza”, pontua.
‘Ciência Móvel’
Em outra mesa-redonda sobre Experiências de Itinerância na Interiorização dos Centros e Museus de CIências, o articulador do NAPI Paraná Faz Ciência e coordenador do Laboratório Móvel de Divulgação Científica (LabMóvel), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Rodrigo Arantes Reis, destacou a Rede de Museus Paraná Faz ciência, que nasceu com um mapeamento ativo dos espaços de divulgação científica no estado, identificando 51 centros e museus no Paraná. Essa ação fez surgir o Guia de Espaços de Divulgação Científica do Paraná. “Além disso, contribuiu com o surgimento da colaboração entre algumas instituições. Hoje, a Rede conta com 17 integrantes e se conecta à Rede de Clubes Paraná Faz Ciência, que conta com quase 300 espalhados pelo estado, além das feiras científicas regionais, formando um ecossistema de iniciativas”, informou.
Rodrigo destacou, também, dados da pesquisa de percepção pública realizada pelo NAPI, que revelou que apenas 4% da população do Paraná visitou centros ou museus de ciência no último ano — índice equivalente à média da região Sul, mas abaixo da média nacional (11%). No entanto, quando se incluem atividades itinerantes, o alcance sobe para 17%, mostrando o impacto das ações de interiorização. Entre as principais barreiras à visitação, estão a distância dos museus e a falta de recursos para deslocamento, o que reforça a importância das iniciativas itinerantes.

Ao final, Rodrigo enfatizou que o NAPI Paraná Faz Ciência é uma política que combina capilaridade territorial com diversidade de formatos, e que seu êxito depende tanto de recursos financeiros quanto da articulação entre atores locais. Para ele, a continuidade e ampliação dessas redes podem transformar a relação da população com a ciência, levando conhecimento, curiosidade e engajamento a diferentes territórios do estado.
Educação não formal
Os Centros e Museus de Ciências são espaços de educação não formal, em que o conteúdo é apresentado de forma lúdica e interativa com o objetivo de atrair a atenção e despertar o interesse pela ciência. O V Encontro Nacional da ABCMC promoveu uma intensa troca de iniciativas e experiências de projetos de divulgação científica realizados em diversas regiões do Brasil. Além das apresentações orais, os participantes também puderam expor as pesquisas e projetos bem sucedidos e que reforçam o protagonismo dos museus para a popularização da ciência.

Um exemplo veio de Toledo, oeste do Paraná, com a Usina do Conhecimento, uma parceria entre a prefeitura municipal e a Universidade Tecnológica Federal do Paraná, que possui um campus na cidade. Alcilene Evangelista da Costa e Karen Hyelmager Bariccatti mostraram a percepção dos visitantes à Usina do Conhecimento, um centro de ciências inaugurado em setembro de 2024 e que já atraiu mais de 20 mil visitantes.
“A parceria entre a prefeitura e a UTFPR reabilitou o antigo museu municipal, que estava fechado há mais de 10 anos. Agora, atraímos visitantes de todas as regiões e de outros países com um conteúdo preparado para apresentar a ciência de forma interativa para todas as idades”, afirma Alcilene. Na pesquisa feita com os visitantes, a palavra ‘conhecimento’ se destaca, provando que os centros e museus de ciências são importantes para amplificar a ciência.

Como espaço de ensino, pesquisa e extensão, o Museu Dinâmico Interdisciplinar Mudi/UEM apresentou várias pesquisas e experiências desenvolvidas nas duas sessões de pôsteres. Entre elas está o trabalho de Giovanna Ribeiro Ferreira Bachesk, que apurou as sensações de adolescentes entre 14 a 18 anos, que visitaram pela primeira vez um museu de ciências, no caso o Mudi, sendo medo, nojo, surpresa, incrédulo, maravilhado e alegria.
“Através de um formulário, pudemos constatar várias emoções diferentes em cada ambiente, na mesma pessoa. No Mudi, os visitantes observam as exposições e participam de experimentos que despertam curiosidades e transformam receios em aprendizado aplicados ao cotidiano!, explica Giovanna.

Do Rio de Janeiro, Katy de Andrade, do Museu Ciência e Vida (MCV), trouxe detalhes sobre a Insetolândia, oficina para alfabetização científica e consciência ambiental de crianças. “A mediação dos educadores ambientais possibilitou a construção coletiva de conhecimento, estimulando perguntas e promovendo reflexões críticas sobre o impacto ambiental da perda de biodiversidade de insetos”, explica.
Visitas Técnicas
Como atividade no V Encontro Nacional, os participantes fizeram visitas técnicas aos centros e museus de ciências que são vinculados à UEM: Coleção Biológica de Ictiologia, Herbário da UEM, Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História (LAEE), Museu Dinâmico Interdisciplinar (Mudi), Museu de Geologia e Planetário da UEM.
Coleção Biológica de Ictiologia – Nupélia (Foto/Maria Eduarda de Souza Oliveira) Herbário da Universidade Estadual de Maringá (Foto/João Luiz Lazaretti) Lab. de Arqueologia, Etnologia e Etno-História (Foto/Gustav Bartmann) Museu Dinâmico Interdisciplinar (Mudi/UEM) (Foto/Ana Elisa Frings) Museu de Geologia (Foto/Isadora Gomes Ribeiro) Planetário Carlos Alfredo Argüello da UEM (Foto/Mariana Eduarda Tenório Calvi)
Atividades Culturais
Os participantes do V Encontro Nacional da ABCMC que estiveram em Maringá assistiram a peça do Grupo de Teatro Científico da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), conhecido por seu projeto de extensão que utiliza peças teatrais para divulgar a ciência. Foi apresentado o espetáculo “Coração em Chagas”, que aborda a doença de Chagas e a vida do cientista Carlos Chagas. O enredo também explora como fatores sociais e culturais podem influenciar no surgimento de doenças.

Após a última edição remota do Encontro da ABCMC, em plena pandemia, em 2022, este ano, houve uma confraternização entre alguns participantes que estiveram no RedCor Cervejaria e Fábrica Bar, local que sempre apoia iniciativas de popularização da ciência, como o Pint Of Science, na cidade.

Na ocasião, o grupo Abaecatu do Museu Dinâmico Interdisciplinar (Mudi/UEM), que este ano completa 20 anos de estrada, mostrou parte do repertório da palestra show que tem como objetivo unir história, ciência e arte para falar sobre temas importantes da formação do país. A vocalista Mari Tenório, servidora e aluna dos curso de Música da UEM, participou da abertura do encontro, momento em que cantou ‘Maringá, Maringá’, música de Joubert de Carvalho, de 1932, que teria inspirado o nome da cidade.

Com filas maiores que para o coffe break, os carimbos com ilustrações de Lucas Higashi, bolsista do NAPI Paraná Faz Ciências, foram a sensação durante os três dias do evento. Ele é editor de artes do Conexão Ciência – C², projeto de divulgação científica vinculado ao NAPI Paraná Faz Ciência.

Em 2026, nós do Conexão Ciência e do NAPI Paraná Faz Ciència nos encontramos em Belém para o VI Encontro Nacional da ABCMC.
Até lá!
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Texto: Silvia Calciolari com a colaboração de Ana Carolina Arenso Barbosa, Ana Elisa Frings
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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