“A natureza nos dá tudo o que precisamos!”. Essa é uma afirmação que, com certeza, você já ouviu diversas vezes. Porém, ela não é dita da boca pra fora. Quando paramos para pensar, vemos que além do ar, da água, do solo e dos alimentos, a natureza também é fonte da matéria-prima que utilizamos para construir nossos lares, roupas, móveis e objetos que nos permitem trabalhar.
Indo mais além, a natureza também é base para a ciência e medicina. Além de já existirem muitos compostos e medicamentos que foram descobertos em plantas e outros organismos, como a penicilina, originada de fungos do gênero Penicillium, continuamente, pesquisadores têm encontrado novos recursos naturais que podem ser a resposta para o tratamento de várias doenças.
É o caso das pesquisas para tratamento dos cânceres, que são tão ou mais relevantes na atualidade, uma vez que as medições do Ministério da Saúde no Brasil apontam aumento muito significativo da doença entre pessoas cada vez mais jovens. Há pouco mais de um mês o Ministério atualizou as diretrizes para o exame preventivo de mamografia, agora indicado no SUS (Sistema Único de Saúde) para mulheres a partir dos 40 anos e não mais a partir dos 50.
Já que estamos no mês da campanha do Outubro Rosa, vamos te apresentar uma pesquisa com um composto natural que está focado no tratamento do câncer de mama. O estudo é coordenado pela professora e pesquisadora Vânia Ramos Sela da Silva, do Departamento de Análises Clínicas e Biomedicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM), e avalia o potencial de um composto encontrado no Própolis Verde brasileiro, o Artepillin C, em inibir o crescimento de células tumorais da mama.

Outubro Rosa
Antes de continuarmos, é importante destacar que, no mês de outubro, os números de casos de câncer de mama no Brasil são atualizados e a população é alertada sobre exames preventivos e a importância do diagnóstico precoce. Esse movimento de conscientização, conhecido como Outubro Rosa, acontece em diversos países e tem como objetivo reforçar os cuidados com a saúde da mulher.
As mulheres são o público-alvo da campanha, por serem as afetadas em 99% dos casos desse tipo de câncer. Homens também estão sujeitos, porém, com percentual de apenas 1% de incidência, conforme o Instituto Nacional do Câncer (INCA), ligado ao Ministério da Saúde.
No Brasil, o câncer de mama só fica atrás do câncer de pele não melanoma em incidência entre as mulheres. O Ministério da Saúde estima que entre 2023 a 2025 mais de 37 mil casos novos a cada um desses anos sejam detectados. O que significa uma média ajustada de 41,89 casos em cada 100 mil mulheres. As regiões Sul e Sudeste têm as taxas mais altas de incidência no país.
Os tratamentos para o câncer de mama atualmente disponíveis são cirurgia (para retirada do tumor), radioterapia (radiações ionizantes que danificam o DNA das células doentes, evitando que se espalhem), quimioterapia (por injeções, por via oral ou tópica), hormonioterapia (bloqueio da ação dos hormônios estrogênio ou progesterona para impedir o crescimento do câncer) e terapia-alvo, baseada no estudo genético do tipo do tumor para tratá-lo com mais precisão e eficácia, reduzindo efeitos colaterais indesejados e demais células saudáveis.
Esperança nos laboratórios da UEM
O interesse em pesquisar o composto Artepillin C veio da análise de outros estudos já conduzidos — inclusive fora do Brasil — que demonstraram o potencial dessa substância genuinamente brasileira frente a outros tipos de câncer. O Artepillin C é quimicamente um ácido fenólico1, produzido a partir da saliva e da cera das abelhas da espécie Apis mellifera (não nativa brasileira) em contato com a planta Baccharis dracunculifolia, popularmente chamada de alecrim-do-campo ou Vassourinha.

Os benefícios do Própolis Verde brasileiro — e é assim mesmo que consta nos estudos estrangeiros: “Brazilian green propolis” — aparecem em estudos com mais de 20 anos no Japão, além de menções em trabalhos conduzidos na Grécia, Estados Unidos, Paquistão, para citar alguns dos que encontramos. São citadas suas propriedades anti-inflamatórias, cicatrizantes, antioxidantes, anestésicas e outras mais.
Na pesquisa da professora Vânia, na UEM, o interesse é verificar se o Artepillin C apresenta diante do câncer de mama, os mesmos resultados já observados em atividades in vitro nos tumores encontrados em outras partes do corpo, como de cólon (final do intestino), próstata, pulmão, rins, cervical (câncer do colo do útero), fígado, oral, gástrico e até leucemia. Nesses, os resultados foram promissores e geraram o processo de morte celular, contendo o avanço do câncer.
A fase dessa pesquisa, como explica a pesquisadora da UEM, ainda é inicial, in vitro (controlada, dentro do laboratório), e precisa ainda evoluir para a fase in vivo, quando é testada em um organismo vivo (animais), para só então seguir para testes em humanos. Este é o estágio decisivo para confirmar se os benefícios encontrados superam os riscos ou efeitos colaterais no corpo humano, ou ainda, se a obtenção do suposto fármaco consegue atingir os níveis necessários para ser eficaz e viável.
As investigações dessas fases subsequentes — in vivo e clínicos — devem comprovar sua real ação no nosso organismo e, a partir daí, verificar se seu uso no tratamento do câncer de mama é uma opção. “Seria uma contribuição direta para a saúde pública no país, uma vez que pode ser uma possibilidade de nova alternativa de tratamento para este câncer, impactando diretamente na redução de morbidade e mortalidade das mulheres”, afirma a professora Vânia. Algo que todos nós podemos desejar para nossa saúde coletiva.
Apesar do entusiasmo com os achados promissores, Vânia nos conta que ainda é precoce falar em evolução na fase dos estudos. “Nosso estudo se baseia no modelo de cultura celular tridimensional, que é um modelo ainda , mas muito importante a ser utilizado nas pesquisas envolvendo o câncer, pois consegue representar maiores semelhanças com o tumor no organismo, quando comparado ao modelo bidimensional”, explica ela.
A professora também acrescenta que é difícil estimar em quanto tempo teríamos uma solução possível com o Artepillin C, por conta da especificidade de pesquisas que ainda devem ser realizadas e o tempo e custo relacionados a elas. “Infelizmente todo o processo de pesquisa é longo, uma vez que é necessário a confirmação dos resultados positivos no tratamento das células cancerígenas, como também verificar se não há danos significativos nas células normais e ter um tratamento seguro”, conta Vânia Ramos Sela da Silva
Resultado e perspectivas futuras
Até o momento, o Artepillin C já se mostrou capaz de diminuir a viabilidade das células de câncer de mama, tanto em experimentos de cultura celular bidimensional, quanto em cultura celular tridimensional, e também consegue alterar a morfologia dessas células, sugerindo que esse pode ser mesmo um ativo anticâncer.

Em andamento, a pesquisa investiga ainda se o composto apresenta poder anti-metastático, ou seja, “se pode ser usado para combater que o câncer se espalhe para outras células do corpo”, conclui a professora.
Apesar de ainda estar em suas fases iniciais, essa é uma pesquisa que traz muita esperança ao futuro dos tratamentos contra o câncer de mama. Ela também destaca a importância da natureza e o trabalho realizado pelos pesquisadores dentro das universidades públicas.
Aqui mesmo, no Conexão Ciência – C², o tema das pesquisas com compostos da natureza é recorrente. Já trouxemos uma reportagem sobre o uso da pariparoba no tratamento da tuberculose, outra em relação ao poder antioxidante, anti câncer, anti fúngica, anti-inflamatório e analgésico das pimentas, e até sobre uma cerveja feita com planta medicinal que pode ser consumida por pessoas que sofrem de diabetes.
Aproveite para conhecer mais sobre outro protagonista desta reportagem: as abelhas, acessando a matéria “Por onde voam as abelhas?”. Não deixe de conferir!
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Texto: Ana Elisa Frings e Milena Massako Ito
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Ácido fenólico – Compostos orgânicos que possuem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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