Desde criança, os tornados sempre apareceram para mim como algo distante, quase um medo emprestado dos filmes. Eram aquelas cenas clássicas de cidades destruídas nos Estados Unidos, objetos sendo arrastados pelo vento, pessoas correndo e se escondendo de um fenômeno impossível de controlar.
Às vezes, esse imaginário virava pesadelo, mas eu acordava aliviada, porque acreditava que aquilo não poderia acontecer de verdade onde morava, ou melhor, onde ainda moro: em Maringá, no interior do Paraná. Em minha casa, a sensação era de segurança.
Tornados, ao menos na minha percepção, pertenciam a outro território, a outro clima, a outro mundo. Hoje, entendo que essa era uma visão limitada, já que esses fenômenos já ocorriam no estado, ainda que sem registros ou grande visibilidade. Mesmo assim, para mim, eles só deixaram de parecer distantes quando começaram a ganhar forma no presente.

Nos últimos anos, diferentes regiões do planeta têm registrado um aumento na frequência e na intensidade de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas prolongadas e chuvas intensas. E, aos poucos, esses fenômenos também começam a fazer parte da realidade de estados brasileiros como o Paraná, que, até então, não era cenário de tragédias tão profundas.
É nesse contexto que surge o livreto desenvolvido pelo Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Emergência Climática em parceria com a Agência Escola. A publicação reúne dados sobre eventos extremos e apresenta projeções para as próximas décadas, indicando que essas mudanças não são pontuais e tendem a se intensificar.
O material é resultado de uma articulação entre pesquisadores de diferentes áreas e tem como base os dados analisados no eixo 1 de diagnóstico e prognóstico do NAPI. A partir dessas análises, foi possível identificar padrões e tendências que ajudam a explicar o que já acontece e o que ainda está por vir.
“A gente percebeu que era um tipo de informação que tinha que ir além de ser publicada em um artigo de revista. Essa informação precisava circular entre as pessoas e entre os tomadores de decisão do Estado”, explica a professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Leila Limberger, que integra o grupo de pesquisadores do NAPI.
O livreto se baseia, principalmente, nos resultados de um pós-doutorado conduzido pela pesquisadora Gabriela Goudard, responsável pela caracterização e modelagem dos dados climáticos ao longo de um ano.
Os números utilizados são provenientes de modelos climáticos e de registros históricos de 1979 a 2018, que permitem simular cenários futuros a partir de diferentes variáveis ambientais. Esse tipo de análise possibilita não apenas observar tendências, mas também antecipar possíveis impactos. Agora, em uma nova etapa da pesquisa, o grupo trabalha na incorporação de medições observadas entre os anos de 2019 e 2025, em parceria com o Simepar, o que deve trazer ainda mais precisão e detalhamento aos resultados.
Mas afinal, o que esses dados revelam sobre o estado?
Como o clima está mudando
Os resultados mostram que as mudanças no clima não acontecem de forma uniforme no Paraná. Ao contrário, elas se manifestam de maneiras distintas, dependendo da região, o que evidencia a necessidade de análises mais localizadas e, consequentemente, de respostas específicas.
Segundo Leila, esse processo já pode ser observado. No Norte e Noroeste do estado, há uma intensificação do período seco, principalmente no inverno, e um incremento nas temperaturas máximas. Para ela, isso indica que o clima nessas áreas tende a se tornar cada vez mais quente e seco, aproximando-se de características mais tropicais.

Já no Sul e Sudoeste do estado, o cenário é outro. Nessas regiões, o que se destaca é o aumento das chuvas, tanto em intensidade quanto em volume total. “São áreas que hoje já são penalizadas por chuvas intensas e por problemas de alagamento e que vão sofrer mais ainda”, afirma.
Essas diferenças regionais revelam que os impactos das mudanças climáticas não podem ser tratados de forma homogênea. Cada território apresenta suas próprias vulnerabilidades e isso exige planejamento direcionado.
Além das variações espaciais, o livreto também evidencia mudanças no comportamento geral do clima. As temperaturas vêm aumentando de forma consistente, tanto nas mínimas quanto nas máximas, acompanhadas por uma maior frequência e duração das ondas de calor. Ao mesmo tempo, episódios de frio intenso continuam ocorrendo, mas de forma mais pontual e, em alguns casos, mais extremos. “Quando a gente tem uma onda de frio, ela pode atingir níveis que nunca tinha atingido antes”, informa a professora.
No caso das chuvas, a principal mudança está na forma como elas se distribuem ao longo do tempo. Embora o volume total anual possa permanecer semelhante, o padrão de ocorrência se altera de maneira significativa. “O total da chuva pode continuar o mesmo, mas ela ocorre de forma muito mais intensa em pouco tempo, seguida de períodos longos sem chuva”, pontua Leila.
Esse novo comportamento marcado por chuvas concentradas em poucas horas e intervalos mais longos de estiagem altera o ciclo hidrológico, reduz o tempo de disponibilidade de água no solo e intensifica processos como evaporação e escoamento superficial.
Impactos no cotidiano
As mudanças climáticas não ficam restritas aos dados e projeções. Elas já impactam diretamente o cotidiano, seja da produção de alimentos à organização das cidades.
Na agricultura, a irregularidade das chuvas tende a comprometer o desenvolvimento das lavouras. Mesmo quando o volume total de precipitação não se altera, a distribuição ao longo do tempo se torna um fator crítico. De acordo com a professora Leila, períodos mais longos sem chuva podem comprometer o desenvolvimento das culturas. Ela cita como exemplo o milho, que depende de condições mais estáveis no início do plantio e pode ser diretamente afetado por essas variações.

Nas cidades, o problema aparece principalmente na infraestrutura urbana, que muitas vezes não foi planejada para lidar com eventos extremos dessa intensidade. Com chuvas mais intensas em curtos períodos, sistemas de drenagem acabam sobrecarregados, aumentando o risco de alagamentos e outros danos.
Já no abastecimento, a preocupação se concentra nos períodos mais secos, que tendem a se prolongar, especialmente durante o inverno. Esse cenário exige planejamento por parte dos municípios, que precisam pensar em alternativas para garantir o acesso à água. “Essas cidades precisam pensar no futuro, em como reservar mais água, buscar outras fontes, se preparar para esses períodos”, reforça a pesquisadora do NAPI.
Planejar para se adaptar
Diante desse contexto, o livreto ainda se posiciona como uma ferramenta estratégica para orientar políticas públicas e ações de adaptação às mudanças climáticas. O conteúdo do material permite que gestores públicos deixem de depender apenas de projeções globais e passem a trabalhar com informações mais próximas da realidade local.
“Se a gente não tivesse essa informação com dados específicos, os tomadores de decisão ficariam trabalhando com suposições”, afirma Limberger.
A produção desse tipo de conhecimento também fez com que o NAPI se aproximasse de órgãos públicos e contribuísse diretamente com ações no estado. Após eventos extremos recentes, como enchentes e desastres em outras regiões do país, o grupo passou a ser mais demandado por instituições como a Defesa Civil e o próprio governo.
No entanto, a professora da Unioeste faz um alerta importante: hoje em dia, não basta apenas pensar em mitigação, ou seja, em reduzir as causas das mudanças climáticas. É preciso, com urgência, investir em estratégias de adaptação.
“Eu acho que hoje já é tarde para pensar só em mitigação. A gente precisa pensar mais fortemente em adaptação”, salienta. Isso significa preparar cidades, sistemas de abastecimento, produção agrícola e políticas públicas para lidar com impactos, que já estão em curso e que tendem a se intensificar nos próximos anos, visando proteger especialmente as populações mais vulneráveis.
“Não pode ser só tomar medidas na hora que acontecem os eventos. Precisa ter planejamento antes e também depois”, acrescenta.

Tendo isso em vista, voltar a pensar naqueles pesadelos de infância hoje já não parece tão distante.
Se antes os tornados, para mim, existiam só nos filmes e bem longe da minha realidade, agora eles começam a aparecer em um cenário que também nos inclui. Não porque tenham se tornado comuns no Paraná, mas porque o mundo está mudando, e o estado faz parte disso. E talvez esse seja o ponto mais importante, pois não é um evento isolado, é um processo que já está em andamento.
Para a professora Leila, o momento pede muita atenção, pois estamos vivendo uma emergência climática e isso significa que não dá mais para adiar decisões. “É quando você precisa tomar medidas para o paciente não morrer”, exemplifica.
Nesse sentido, o livreto elaborado pela equipe do NAPI funciona como um alerta e, também, como uma ferramenta. Ele organiza informações que ajudam a entender o que já está acontecendo e o que ainda pode acontecer.
Porque, no fim, aquilo que parecia distante já começa a fazer parte do presente. E ignorar isso pode tornar o futuro ainda mais difícil e desafiador para nós.
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Texto: Maria Eduarda de Souza Oliveira
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Maria Eduarda Tenório Calvi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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