Se você já passou por uma universidade, provavelmente precisou consultar um mapa para encontrar um prédio, uma sala ou um laboratório. Na Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, o mapa do campus sede organiza uma série de espaços e serviços da instituição, traduzindo a área da universidade em uma representação que ajuda os estudantes, servidores e visitantes a se localizarem.

Essas representações parecem, em um primeiro momento, apenas uma ferramenta neutra para nos orientar. Mas a construção de um mapa parte sempre de uma série de escolhas: o que mostrar, como organizar cada informação e para quais elementos dar destaque.
Ao longo da história da humanidade os mapas serviram como ferramenta de representação dos diferentes territórios e dinâmicas sociais, mas também de registro das transformações e expressão dos diferentes interesses e formas de compreender cada localidade, rota ou interação entre indivíduos.
Quando olhamos, em especial, para a história do Brasil, entendemos que as representações cartográficas acompanharam as mudanças políticas, econômicas e sociais do país e contribuíram para construção da imagem ou, das imagens, que temos do nosso território.
Nesse sentido, vale nos questionarmos: o que um mapa revela? E o que ele deixa de fora? Quem faz as escolhas presentes em cada um deles?
Uma história crítica da cartografia
Foram alguns desses questionamentos que levaram Andréa Doré, docente do departamento de História, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a se dedicar aos estudos da história crítica da cartografia. Docente de história moderna e de teoria da história, Andréa se debruça, principalmente, sobre descrições geográficas, em relatos e mapas.

A professora explica que estudar mapas historicamente não significa apenas verificar se eles representam um território com precisão. Um estudo crítico da cartografia “aborda qual a motivação do autor daquele mapa, por que ele foi feito, quem o encomendou, o que ele diz sobre o espaço que ele está cartografando e o que ele não diz”.
Para a pesquisadora, especialmente em se tratando de ausências, elas podem “aparecer” de duas maneiras: pela falta de determinada informação ou pela representação de um espaço como vazio, mesmo quando havia pessoas e relações sociais naquele território.
Ou seja, “o mapa não é uma descrição que traz informações concretas ou isentas de uma projeção de preconceitos ou de expectativas em relação a esses espaços”, explica Andréa.
A história crítica da cartografia, portanto, desloca o foco da precisão e da métrica para as intenções e os silêncios nos mapas. Isso porque essas representações são capazes de moldar percepções geopolíticas e, ainda, ocultar determinadas realidades sociais. Nesse sentido, essa vertente trata o mapa como qualquer outra fonte histórica: um objeto que pode, e deve, ser questionado, discutido e desconstruído.
Foi levando tudo isso em conta que Andréa organizou, junto da professora Júnia Ferreira Furtado, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o livro ‘História do Brasil em 25 Mapas’, um encontro entre as pesquisas das duas organizadoras e que também dialogou com as comemorações dos 200 anos da Independência do Brasil, em 2022.

A História do Brasil em 25 Mapas
O livro possui 25 capítulos, escritos por 23 autores e propõe revisitar diferentes momentos da história do Brasil a partir dos mapas. A coletânea é fruto das pesquisas desenvolvidas pelas organizadoras e também reúne a contribuição de pesquisadores de diferentes áreas.
Entre os autores estão historiadores, antropólogos, geógrafos e arquitetos. A ideia era que, cada capítulo partisse de um mapa, embora outros apareçam ao longo dos textos, e que fosse feita uma interpretação histórica a partir daquela imagem. O objetivo principal é, portanto, a leitura crítica dessas representações, para identificar interesses, hierarquias ocultas ou apagamentos.
O capítulo que abre o livro, de autoria da própria Andréa, analisa o Planisfério de Cantino, de 1502, que é apontado como o primeiro mapa conhecido a representar uma pequena parte das terras que hoje identificamos como Brasil. Na análise, a professora explica que, na verdade, naquele momento, o país ainda não existia como projeto definido e o mapa é, portanto, um registro de um período em que diferentes futuros ainda eram possíveis.

Além disso, o contexto de produção também revela diferentes interesses e disputas, uma vez que reunia informações sobre viagens portuguesas e trazia as bandeiras de Portugal e Castela, além do meridiano definido pelo Tratado de Tordesilhas, que dividia as terras entre as duas coroas.
“Precisávamos selecionar alguns mapas fundamentais, temas obrigatórios. Então, o primeiro mapa em que aparece o Brasil, que é o Planisfério de Cantino, foi escolhido”, explica a professora sobre a abertura do livro.
A escolha de quais mapas comporiam a coletânea, entretanto, não seguiu um único caminho. Em alguns casos, as organizadoras partiram dos temas que consideravam importantes da história do país e buscaram representações cartográficas que pudessem ajudar a investigá-los. Em outros, foi o próprio mapa que abriu o caminho para a escolha do assunto.
Um dos capítulos se volta justamente para o Paraná. A partir de um mapa ferroviário do Sul do Brasil, o texto de André Reyes Novaes analisa como o Norte do Paraná era apresentado como uma região de terras férteis e promissoras para a chegada de imigrantes. Ao mesmo tempo, a representação não fazia referência à presença indígena nesta região.

Essa ausência também se torna objeto da análise do historiador Tiago Bonato, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), autor de um capítulo sobre os caminhos proibidos entre São Paulo e o Paraguai no período colonial.

Por isso, a seleção feita pelas organizadoras traça uma história do Brasil não necessariamente de maneira cronológica e linear, mas pontuando momentos e temáticas importantes, como a presença africana no país, analisada por meio de mapas de quilombos, em um dos capítulos de Júnia Ferreira Furtado. Ou ainda o estudo de mapas feitos por indígenas, a Guerra de Canudos, a Guerra do Contestado, a Ditadura militar e as disputas de fronteira.
Andréa explica que essas escolhas refletem questões que marcam o passado do Brasil e são importantes hoje, “foi também uma resposta a o que identificamos como pautas atuais”, explica.
Em outro capítulo, por sua vez, a proposta era tratar a relação Brasil-Estados Unidos, tema que segue sendo muito atual. Para isso, as organizadoras chamaram o professor Jörn Seemann, da Ball State University, nos Estados Unidos, para analisar uma charge de um jornal americano do começo do século XX.
Na charge, uma silhueta de Theodore Roosevelt aparece em cima do mapa do Brasil, representando o momento da expedição dele na Amazônia para mapear um rio que, originalmente chamado de Rio da Dúvida, foi nomeado Rio Roosevelt, em homenagem ao ex-presidente americano.

“Então, nós mostramos esse mapa, que é uma charge, para esse historiador americano que estuda esse tema e dissemos: “Olha, a gente queria um artigo que falasse da relação entre os dois países”, explica Andréa sobre o processo de criação do material do livro.
Da pesquisa à sala de aula e à sociedade
A discussão sobre os mapas também ultrapassa as páginas do livro e chega à sala de aula. Na UFPR, Andréa trabalha com o tema em disciplinas de graduação e desenvolve atividades de extensão relacionadas à cartografia.
Em uma dessas experiências, estudantes produziram vídeos sobre disputas envolvendo estreitos estratégicos, como o estreito de Ormuz, utilizando mapas históricos para discutir questões geopolíticas atuais. Os vídeos podem ser assistidos no canal Mapas Importam, no YouTube.

Nesse sentido, o trajeto do livro traça um caminho circular: de volta à universidade e da universidade para as pessoas, em uma rota que segue sendo constantemente alimentada.
Para a professora, levar esse material para diferentes públicos é parte do próprio trabalho acadêmico. Justamente por isso, a produção do livro também envolveu um esforço para tornar os textos mais acessíveis, sem abrir mão das referências e do rigor científico.
“Para você simplificar alguma coisa, você tem que saber da complexidade dela”, afirma Andréa. Mais do que simplificar, o desafio é tornar o conhecimento acessível sem apagar sua complexidade.
Na dúvida, sempre questione
Embora o livro tenha como foco mapas históricos, a maneira crítica de observá-los também pode ser aplicada às representações cartográficas atuais.
No contexto digital em que vivemos, marcado pela circulação rápida de informações, os mapas ainda participam de disputas políticas e geopolíticas, em sites de notícias e redes sociais, por exemplo. Segundo Andréa, eles podem funcionar como uma espécie de linguagem utilizada para representar ocupações territoriais, conflitos e interesses.
Essas representações, por sua vez, podem produzir hierarquias e influenciar a maneira como determinados lugares são percebidos. A escolha dos nomes, por exemplo, também pode estar relacionada a disputas de poder. “A nomeação é, desde o tempo da colônia, uma tomada de posse”, explica Andréa.
Para a pesquisadora, essa é justamente uma das contribuições do livro: “em última instância o objetivo era, também, chamar a atenção das pessoas para o fato de que os mapas não são inocentes e inofensivos”.

Mais do que aprender a interpretar mapas antigos, a proposta, seja na leitura do livro ou em sala de aula na universidade, é desenvolver um olhar crítico que possa ser levado para qualquer representação cartográfica, do mapa histórico ao aplicativo no celular.
Afinal, se todo mapa é uma forma de interpretar o mundo, aprender a questionar é uma maneira de compreender melhor não apenas o que está sendo representado, mas também quem o representa e quais histórias essa representação escolhe contar.
De acordo com a professora, interpretar e ler mapas “é como o aprendizado de um idioma… Você precisa exercitar”. Que tal fazermos esses questionamentos, mesmo que caminhando pela universidade ou checando a rota para o trabalho?
“Desconfie do que você está vendo, sempre”, recomenda Andréa.
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Texto: Camila Lozeckyi
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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