O arroz e feijão são essenciais no prato brasileiro, mas outro alimento que não fica para trás é o ovo. Ele é rico em nutrientes e também um ingrediente fundamental em diversas receitas. Além disso, dá para fazer ovos mexidos, omelete, ovo frito e, se quiser algo mais doce, a gemada é a pedida certa! Não à toa, o consumo do ovo aumenta mais a cada ano, segundo um relatório da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Conforme os dados divulgados, o consumo por habitante deverá passar de 287 unidades, em 2025, para 307 unidades, em 2026. Um dos motivos é o fato do ovo por si só ser considerado o segundo alimento mais completo do mundo. É uma excelente fonte de proteína e dá sensação de saciedade. Já imaginou, então, poder aumentar os níveis nutricionais das aves para criar ovos ainda mais ‘fortes’, usando um produto totalmente natural?
Pois esse é o estudo da professora Simara Marcato, do Departamento de Zootecnia, da Universidade Estadual de Maringá (UEM). De forma resumida, a pesquisa investiga os efeitos de um blend1 comercial de óleos essenciais na qualidade dos ovos. Conforme a docente, a ideia surgiu com base na tese de doutorado de uma orientanda, cujo tema eram óleos essenciais de pimenta para codornas.

Foi a partir dos resultados desse estudo que Marcato passou a se aprofundar nos óleos essenciais e na junção deles, mistura que também pode levar outros aditivos, como probióticos e taninos. Ela percebeu que a combinação de óleos traz vários efeitos positivos, que vão além do ovo. “O impacto mais importante do projeto é melhorar a saúde intestinal e imunidade das aves, reduzindo o uso de antibióticos. Melhora a qualidade dos ovos, com cascas mais resistentes e, muitas vezes, a qualidade interna dos ovos”, conta.
A preocupação com o bem-estar dos animais é, inclusive, um ponto importante no projeto. Quando utilizados por um longo período, os óleos essenciais ampliam o desempenho produtivo das aves e reduzem o estresse ambiental. Trata-se de uma abordagem integrada, unindo saúde humana e animal. Um conceito conhecido como Saúde Única, que reconhece essa “parceria” como uma forma de prevenir desafios crescentes, tal qual a insegurança alimentar.
Insegurança alimentar
A insegurança alimentar é um problema persistente e tem apresentado aumento alarmante nos últimos anos. Alguns fatores como as desigualdades, conflitos entre países, mudanças climáticas e até a pandemia da Covid-19 são responsáveis por agravar o cenário mundial. Isso quem diz é a própria Organização das Nações Unidas (ONU) ao explicar a meta da Fome Zero, um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
O manifesto revela que, para que haja mudança efetiva, é preciso uma abordagem multidimensional. As soluções devem conectar nutrição, segurança e, claro, sustentabilidade. Ações políticas também são imprescindíveis para criar coordenadas urgentes e transformar sistemas alimentares. O Brasil, por exemplo, conseguiu sair do Mapa da Fome há pouco tempo, como consta no relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025 – SOFI 2025”.
Criado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), o Mapa da Fome é um indicador de países quando mais de 2,5% da população sofre com risco de subnutrição ou falta de acesso a alimentos suficientes. As informações são atualizadas anualmente, levando em conta a média da Taxa de Prevalência da Subalimentação (PoU).

Sim, a saída do Mapa da Fome é um reflexo de decisões políticas do Governo Brasileiro. A retirada do país se deu, oficialmente, no triênio de 2022-2024, conforme a FAO/ONU. Em dois anos, o Brasil conseguiu reduzir a insegurança alimentar para menos de 2,5%, uma baita conquista! Um tanto quanto recente? Talvez, mas isso tem motivo: o formato do cálculo da PoU só considera a média dos últimos três anos.
De qualquer forma, é importante lembrar que a maneira como produzimos e consumimos os alimentos também impacta diretamente nesse contexto. Por isso, o combate à insegurança alimentar exige não só participação política, mas social e, sem dúvidas, científica. O monitoramento de dados é necessário, principalmente para motivar ações mais eficientes — e esse é um dos motivos pelos quais devemos valorizar pesquisas como a da professora Simara.
No caso do estudo, já se sabe que os ovos são uma das formas mais acessíveis e nutritivas de proteína animal, sem contar o quesito versatilidade. Contudo, Marcato ainda revela que os óleos essenciais auxiliam a produção de ovos mais fortes, podendo ajudar a minimizar o fator desperdício. “[…] um dos pontos que temos notado é que os ovos têm maior tempo de prateleira, ou seja, são ovos que têm um maior tempo de armazenamento”, defende a docente.
Mas o que são óleos essenciais?
Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), os óleos essenciais são basicamente compostos presentes nos órgãos das plantas. Isso significa que podem ser encontrados em folhas, flores, cascas, sementes, raízes e frutos. Tratam-se de uma mistura de substâncias sólidas, líquidas e outras voláteis, isto é, que podem mudar rapidamente de estado físico.

Os óleos essenciais são uma matéria-prima super importante, sobretudo para indústrias farmacêuticas, de perfumaria e de alimentos. Além de serem conhecidos pelas fragrâncias, podem oferecer benefícios terapêuticos, emocionais e até físicos. Por isso, também está cada vez mais comum encontrá-los para uso individual, o que revela o aumento da busca por maiores práticas de bem-estar.
Na Rede de Clubes do Paraná Faz Ciência, há um projeto que estuda exatamente isso. Articulado pela Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), o clube Óleos Essenciais e Aromaterapia, do Colégio Estadual Barão do Rio Branco, na cidade de Inajá, trabalha com o uso de óleos essenciais na área da saúde. A turma investiga o óleo de eucalipto e outras plantas locais que auxiliam em problemas respiratórios, dores musculares e ansiedade.
Os alunos fazem a extração por meio da técnica de destilação por arraste de vapor, que separa o óleo essencial do hidrolato, ou seja, da água aromática. “Trabalhamos no laboratório de ciências da natureza com aulas experimentais, pesquisas teóricas e atividades em grupos, sempre com ênfase na investigação científica e na disciplina de química”, comenta a professora coordenadora, Ana Paula Bim Maldonado.

E sobre nutrição?
No ramo alimentício, os óleos essenciais funcionam como antioxidantes, conservantes, saborizantes e aromatizantes naturais — mesmo não utilizados de forma direta na comida. A pesquisa conduzida na UEM, por exemplo, mostra que podem provocar um aumento no peso dos ovos, melhora na espessura da casca e mais tempo de armazenamento do produto.
Os benefícios desse ovo aperfeiçoado não são só para nós, seres humanos. De acordo com a professora Simara, o uso contínuo dos óleos essenciais também garante o fortalecimento imunológico das aves, auxiliando no combate a vírus e bactérias presentes no ambiente produtivo. Isso acontece por conta da elevação da atividade antioxidante e antimicrobiana, que reduz os microrganismos patogênicos do intestino aviário.
Esse efeito é particularmente relevante em sistemas intensivos, onde há o confinamento total das aves. Neste caso, a saúde intestinal é determinante para a conversão alimentar, isto é, para a absorção correta dos nutrientes. “As pesquisas com frangos, poedeiras e codornas apresentam a importância em função da necessidade de utilizar aditivos que podem melhorar a saúde intestinal, o desempenho produtivo e reduzir o uso de antibióticos”, explica a docente.
Entender sobre os efeitos dos óleos essenciais é muito importante, até mesmo para garantir o uso seguro das substâncias naturais. Por isso, já existem outros estudos em andamento. Marcato conta que há mais pesquisas com blends de óleos e outras com probióticos, simbióticos e minerais orgânicos. Todas relacionadas à nutrição das aves, pois o objetivo é sempre aliar a qualidade da produção com o bem-estar animal.
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Texto: Carlisle Ferrari e Isabella Abrão
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Carlisle Ferrari
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Blend: mistura intencional de dois ou mais óleos essenciais com propriedades parecidas ou complementares, criada para potencializar os efeitos e eficácia. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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