Você tem ou já teve medo de ir ao dentista? Para muitos, “medo” pode não ser a palavra certa, mas a insegurança do consultório e dos equipamentos odontológicos pode causar uma certa aflição, principalmente, para crianças.
Aliás, o Brasil é o país com o maior número desses profissionais no mundo! De acordo com a publicação Demografia da Odontologia no Brasil em 2026, do Ministério da Saúde, contamos com mais de 665 mil profissionais de saúde bucal.
A formação desses profissionais na Universidade Estadual de Maringá (UEM), em período integral por cinco anos, visa preparar os estudantes para trabalharem no Sistema Único de Saúde (SUS) e reconhecer as diversidades sociais em seu território de atuação. Inclusive, isso é o que justifica a existência do projeto de extensão “Sorrir com Saúde”, que completa 18 anos de atuação em 2026.
O projeto nasceu associado às atividades de estágio do curso de Odontologia da UEM, que possui mais de mil horas de atividades práticas que precisam ser realizadas fora da universidade. A proposta é aproximar os estudantes da realidade da população e levar conhecimentos e ações de saúde bucal a pessoas que nem sempre têm acesso facilitado aos serviços odontológicos.
Com uma equipe pequena e predominantemente feminina, o projeto participa de ações promovidas pela Secretaria Municipal de Saúde de Maringá, além de atuar em escolas, centros de educação infantil, instituições como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), locais de longa permanência para idosos e outros espaços públicos e privados. Também existem parcerias com municípios da região, como Sarandi e Marialva.
Para a professora Tânia Harumi Uchida, que participa do projeto desde que era aluna da graduação, juntamente com a coordenadora do projeto, a professora Mitsue Fujimaki, o Projeto Sorrir com Saúde representa uma experiência de extensão universitária que aproxima a formação acadêmica da realidade da comunidade. “A riqueza e a fortaleza do nosso projeto estão na proximidade que temos, que permite ao aluno compartilhar suas experiências conosco e com a sociedade.”
Para Bruna Maria de Lima, aluna do terceiro ano de Odontologia e integrante do projeto, as experiências proporcionadas pela extensão modificaram sua maneira de compreender o atendimento odontológico: “As vivências do projeto me fizeram mudar a forma como eu percebi que devia tratar aquele paciente”, diz.

Segundo a aluna, o contato com crianças também permite compreender melhor suas necessidades e comportamentos. Em vez de esperar que elas cheguem ao consultório, os estudantes vão até os espaços em que elas estão, o que pode facilitar a interação e a participação nas atividades.
Durante muito tempo, segundo Tânia, a formação odontológica esteve concentrada principalmente nos procedimentos técnicos como extrair dentes, fazer restaurações, tratar canais ou remover placa bacteriana e tártaro. Atualmente, as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos da área da saúde defendem uma formação que prepare o profissional para compreender também o território em que atua e as necessidades da população.
Como exemplo dessa mudança de perspectiva está o Tratamento Restaurador Atraumático (ART), tema de um livro produzido pelo projeto, em 2018. “A técnica ART consiste na remoção do tecido cariado e na restauração do dente com cimento de ionômero de vidro, um material que libera flúor e contribui para o controle da cárie. Além de possibilitar o atendimento em locais mais próximos da comunidade, a estratégia pode diminuir o medo que algumas crianças associam ao consultório odontológico, especialmente por causa da injeção e do barulho do ‘motorzinho’ odontológico”, explica Tânia.

O livro produzido pelo projeto funciona como um guia para profissionais de saúde que desejam implementar o ART em seus municípios. O material foi desenvolvido em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (SESA) e está disponível gratuitamente para consulta e download aqui.
Tânia destaca que muitas pessoas dependem do SUS para conseguir atendimento odontológico, já que o tratamento particular pode ter um custo elevado. Ela também chama atenção para uma mudança histórica na forma de tratar os problemas dentários no país. Durante muito tempo, diante de uma dor de dente, a extração era frequentemente utilizada como solução. Hoje, a perspectiva é priorizar a prevenção, o tratamento e a preservação dos dentes.

A professora cita o Brasil Sorridente, política pública que ampliou o acesso da população brasileira à atenção odontológica pelo SUS. Para ela, porém, não basta haver recursos ou profissionais: a gestão também é determinante para que os serviços funcionem adequadamente. Uma atenção à saúde qualificada depende de pessoas preparadas para administrar os serviços, coordenar equipes e compreender as necessidades de cada território.
Entre as dificuldades que envolvem tratar de saúde pública com orçamento baixo ou quase inexistente, iniciativas de extensão como o “Sorrir com Saúde” ajudam a aproximar os futuros profissionais dessa realidade, ainda durante a graduação. Depois de quase 20 anos, a proposta central do projeto permanece a mesma: colocar a saúde como prioridade. Isso porque falar sobre saúde bucal também envolve alimentação, prevenção, acesso aos serviços, políticas públicas, formação profissional e as condições de vida da população.
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Texto: Guilherme de Souza
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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