Purificadores Naturais: por uma água mais saudável

Ilustração colorida em estilo gráfico mostra uma mulher bebendo água de um copo transparente. Dentro do líquido aparecem cápsulas, comprimidos, microrganismos, manchas e símbolos de toxicidade, como caveiras, sugerindo contaminação. A personagem tem cabelos escuros presos, veste roupa laranja e mantém os olhos fechados enquanto bebe. O fundo rosa contém elementos decorativos espalhados, como estrelas amarelas, formas orgânicas e cápsulas coloridas. Tons de azul, amarelo, laranja e verde predominam na composição, criando contraste vibrante e visual lúdico.
Pesquisadores da UEM desenvolvem métodos para maior eficácia no tratamento de água através de purificadores naturais

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Consegue me dizer uma coisa que todos temos em comum, seja para nós humanos, os animais e, até mesmo, as plantas? Algo que é necessário para a sobrevivência de quase todas as espécies? Uma coisa simples, que, por vezes, passa despercebida dentro do nosso dia-a-dia, mas é algo pelo que o nosso corpo pede? Se você pensou na água, é isso mesmo! 

O ato de beber água é tão necessário para a existência humana, mas pode ser muito danoso para a saúde. Quem nunca, ao abrir a torneira, se deparou com uma água cinza, quando deveria ser transparente? Ou, ao tomá-la, sentiu algo ferruginoso, quando não deveria ter gostos? 

Não sei vocês, mas sempre que isso acontece comigo sinto como se estivesse correndo algum perigo, afinal, aprendi desde pequena que água não deve ter gosto nem cheiro para ser potável.

Em cidades com saneamento básico, isso pode acontecer devido ao próprio tratamento da água. A partir do momento que ela é retirada dos rios, até chegar a nossa torneira, passa por diversos processos para torná-la potável, incluindo a adição de produtos químicos. No vídeo abaixo, você pode conferir como se dá o processo de tratamento da água.

A professora e pesquisadora doutora Rosângela Bergamasco, que atua no Departamento de Engenharia Química da Universidade Estadual de Maringá (UEM), explica que, quando adicionados produtos químicos na água, os elementos naturais presentes nela reagem e podem se transformar em subprodutos da desinfecção.

Pensando nisso, a pesquisadora coordena o Laboratório de Gestão, Controle e Preservação Ambiental (LGCPA), onde desenvolve projetos que estudam purificadores naturais capazes de remover qualquer tipo de vírus da água. 

Atualmente, as estações de tratamento de água seguem as normativas da Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021, que estabelece quais e quantos produtos podem ser adicionados e detectados na água para que ela seja considerada potável. Mas, mesmo com essas normativas e tratamentos, ainda podem ser encontrados muitos contaminantes em nossa água, como é possível observar no site “Mapa da água”.

  • Na primeira imagem, aparece um mapa do Brasil dividido por municípios, com diferentes cores. Há regiões em azul, vermelho e cinza. Ao lado, há uma legenda indicando que: Vermelho representa cidades onde foram detectadas substâncias acima do limite de segurança. Azul indica substâncias dentro do limite permitido. Cinza mostra locais sem dados disponíveis. À esquerda, há um texto explicativo com o título “O que sai da sua torneira?”, informando que a água tratada pode conter substâncias químicas e que o mapa apresenta dados de testes realizados entre 2018 e 2020, com base em informações do Ministério da Saúde.
  • Na imagem, o mapa do Brasil aparece ampliado e com um destaque interativo sobre uma cidade específica (Maringá, no Paraná). Um pop-up informa que, entre 2018 e 2020, foram detectadas: 1 substância com maior risco de causar doenças crônicas, como câncer. Outras 2 substâncias que também apresentam riscos à saúde. Ao fundo, o mapa continua com áreas em vermelho e azul, indicando a distribuição desses resultados.

Sendo assim, a professora reforça que os subprodutos são resíduos do próprio tratamento. “Quando a água chega para ser tratada, ela encontra produto químico para conseguir fazer o tratamento. Assim, haverá uma reação e pode se formar um outro produto.  Como exemplo, pode-se citar um caso bem claro, que é a presença de fármacos. A nossa portaria vigente hoje não traz nenhum tipo de monitoramento de fármacos na água […], que podem ser hormônio, antidepressivos ou antibióticos, que estão presentes na água em pequenas quantidades, é verdade, mas estão presentes”, explica Rosângela.

E, instigada a pesquisar sobre como melhorar essa situação após trabalhar com tratamento de efluentes e realizar um pós-doutorado de três anos no Canadá, ela volta ao Brasil e inicia sua pesquisa, por volta de 2003. Já são, 23 anos de dedicação para encontrar formas de tornar a água de nossa população mais saudável. 

a imagem mostra a professora Dra. Rosângela Bergamasco em um ambiente de laboratório. Ela está vestindo um jaleco branco e usa óculos, com o cabelo preso para trás. A mulher parece estar sorrindo levemente enquanto aponta com o dedo para o interior de um equipamento de laboratório. O equipamento à sua frente é uma espécie de estufa ou incubadora com porta de vidro. Dentro dele, há vários recipientes (parecem frascos ou potes) com tampas amarelas organizados em uma prateleira. A parte frontal do equipamento possui um painel de controle com display digital e botões. Ao fundo, há outro equipamento semelhante sobre a bancada. O laboratório tem bancadas de pedra, armários e uma janela grande com grades azuis, por onde entra luz natural. Do lado de fora da janela, é possível ver vegetação verde, indicando que o local pode estar próximo a uma área externa com plantas.
Professora e pesquisadora doutora Rosângela Bergamasco, da UEM, mostra fases do processo de pesquisa sobre tratamento de água (Foto/Kauane Moraes)

De acordo com Rosângela, a preocupação do projeto consiste em não colocar mais tratamentos químicos na água e, sim, descobrir formas de tratamentos através de elementos provindos da natureza, as pesquisas trabalham com dolomita, zeólita, turmalina, vários tipos de minerais que vão fazer o papel de remoção desses contaminantes. 

“A gente trabalha também com carvão vegetal de várias fontes como carvão de babaçu, casca de coco, carvão de açaí, entre outros. Estamos agora, também, começando a trabalhar com a moringa1, onde usamos a semente da moringa. Então, é tudo voltado para bioadsorventes2 naturais”, completa a pesquisadora.

Nesse processo, os elementos naturais são utilizados como um filtro em camadas ‘imitando’ a natureza, já que a água subterrânea se encontra em estado puro por passar através de camadas rochosas. A professora cita o exemplo do carvão vegetal, que faz o papel de adsorver3 e absorver4 esses contaminantes.

Na imagem, há várias amostras de materiais organizadas sobre uma bancada de granito cinza. Cada amostra está colocada em uma pequena placa de vidro (tipo placa de Petri) e identificada com etiquetas escritas à mão. Os materiais estão dispostos em duas fileiras. Na fileira de cima, aparecem substâncias como zeólita natural (um pó claro), dolomita (grânulos brancos), casca de pinus (material amarelado), carvão ativado de coco (grãos pretos) e sementes e cascas de moringa (pedaços irregulares claros e marrons). Na fileira de baixo, há quartzo (cristais brancos), casca de soja (granulado bege), casca do tronco de sapucaia (material marrom escuro), maravalha (fragmentos de madeira clara) e casca de árvores (pedaços marrons mais grossos). No geral, a imagem mostra uma coleção de diferentes materiais naturais e minerais, provavelmente utilizados em experimentos ou estudos, possivelmente relacionados à filtragem, adsorção ou tratamento de água.
Purificadores Naturais (Foto/ASC UEM)

Os estudos são realizados no Laboratório de Gestão, Controle e Preservação Ambiental (LGCPA) e envolvem muitos níveis da universidade, desde graduandos, até pós-doutorandos e pesquisadores convidados. E as pesquisas, que começaram a cerca de 23 anos, não têm previsão de término.

Ainda segundo a professora, os projetos não param: “A gente está tentando estabelecer novas parcerias, cada vez mais com universidades no exterior. Já temos com o México e com a Espanha. Tinha um projeto também, que já acabou, com a Austrália. Temos agora também cooperação com a Argentina”.

Neste contexto, o objetivo é aprimorar cada vez a capacidade técnica, principalmente para realmente saber o que está sendo produzido e conseguir visualizar melhor o  produto das pesquisas. “Este é nosso plano de expansão, que conta ainda com a participação de pesquisadores do Brasil. Mas não ficamos só aqui, a gente tenta também expandir tudo isso, com outras instituições no exterior”, enfatiza Rosângela.

O Laboratório também conta com a colaboração de empresas que recebem os resultados da pesquisa e criam o produto final, que chega à população por meio da comercialização. A professora, inclusive, destaca a importância dessa parceria entre universidades e empresas para o melhor desenvolvimento de pesquisas e pelo alcance social, através dos benefícios gerados à sociedade.

Por fim, outro ponto de destaque é a importância da divulgação científica para levar os resultados das pesquisas à população em geral. Ela destaca que existem três núcleos dentro das universidades: ensino, pesquisa e extensão. “A academia não é apenas um espaço para formação profissionalizante. A UEM, assim como muitas outras universidades, trabalham em prol da população para além das aulas, realizando pesquisas em todas as áreas, fazendo descobertas e tornando-as acessíveis através de seus projetos de extensão”, reforça a pesquisadora. 

Assim, fica demonstrada a importância de defender a universidade pública, que cada vez mais desenvolve projetos em benefício da sociedade, e de ficarmos ligados no que consumimos no dia-a-dia, evitando ‘perigos silenciosos’ a nossa saúde. 

Será que a água que consumimos é saudável? Por via das dúvidas, já estou com meu novo purificador de água!

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Texto:
Kauane Moraes Bernardo
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Edição de vídeo: Maria Eduarda Tenório Calvi
Arte: Hellen Vieira
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

Glossário

  1. Moringa – A moringa, conhecida como “árvore da vida”, é uma planta tropical originária da Índia. Ela é amplamente reconhecida por ser extremamente nutritiva, possuindo todas as suas partes (folhas, raízes, sementes e flores) comestíveis ou utilizáveis para fins medicinais e industriais. Suas sementes são utilizadas na pesquisa para filtrar a água. ↩︎
  2. Bioadsorventes – são materiais de origem biológica (biomassa) utilizados para remover contaminantes de líquidos ou gases através de um processo chamado adsorção. ↩︎
  3. Adsorver – A substância fica presa apenas na superfície do material. Ela não penetra no interior. Ex: O carvão ativado ou as sementes de moringa. Eles atraem as impurezas da água para a sua superfície externa e para os seus poros superficiais, mas a sujeira não ‘entra’ na estrutura do grão. ↩︎
  4. Absorver – A substância é incorporada e distribuída por todo o corpo do material. Ela atravessa a superfície e preenche o interior. Ex: O material funciona como uma esponja, ‘bebendo’ a substância. ↩︎

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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