Eu já fui estudante da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e lembro das noites mal dormidas, do estresse acumulado nas semanas de prova e de como, em alguns períodos, cuidar da alimentação, dormir bem ou praticar atividade física acabavam ficando em segundo plano.
Essa é uma rotina familiar para muita gente que passa pelos corredores universitários: virar madrugadas estudando, fazer refeições rápidas na cantina, alguns trabalhos acumulados e pouco tempo para se cuidar. Mas o que esses hábitos dizem sobre a saúde de quem estuda, e também de quem trabalha, dentro de uma universidade?
Foi buscando entender essa realidade que o Grupo de Estudos em Saúde, Saúde do Trabalhador e Exercício Físico (GESTEF), ligado ao Departamento de Educação Física (DEF) da UEM, começou a atuar, voltando seu olhar à pesquisa e à promoção da saúde.
GESTEF: Um grupo que cresceu junto com a UEM
Antes de chegar ao formato que tem hoje, o GESTEF passou por diferentes fases e ampliou, aos poucos, o seu campo de atuação. Quem acompanhou essa história de perto foi a professora Ana Silvia Ieker, vice-coordenadora do grupo, que trabalha ao lado do professor Wilson Rinaldi, atual coordenador.
A trajetória acadêmica da própria Ana tem como cenário de longa data a UEM: foi na universidade que ela passou pela graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado e também onde chegou à atuação como docente no Departamento de Educação Física.
Segundo a professora Ana Ieker, o GESTEF foi se consolidando a partir de diferentes experiências desenvolvidas ao longo dos anos dentro da instituição. Inicialmente, o olhar estava mais voltado apenas aos trabalhadores da UEM, com a oferta de atividades como natação, futebol, ginástica laboral, corrida e caminhada no Projeto +UEM – Promoção da Saúde.
“Por muito tempo, o foco era atuar junto dos trabalhadores e, para isso, a gente promovia práticas dentro da universidade, com o intuito de estimular os trabalhadores em seu autocuidado”, relembra.

Esse campo de atuação se ampliou durante a pandemia de Covid-19. “Na época da pandemia foi muito intensificada a questão da saúde mental, do isolamento e de outros transtornos psíquicos dos alunos”, explica a professora, e isso fez com que o GESTEF se aproximasse de outras áreas, como a Psicologia e o Serviço Social.
A partir dali, o grupo passou a olhar não apenas para os trabalhadores, mas para a comunidade universitária como um todo. Hoje, além das ações desenvolvidas pela Educação Física, o GESTEF firmou parcerias com outros grupos, como o Laboratório de Psicologia Sócio-Histórica (LAEPSO) em nome da Professora Renata Heller, coordenadora coletiva da SACODI (Estratégia de Promoção da Saúde, Convivência e Diversidade).
Para a professora Ana Ieker, essa combinação entre diferentes campos é parte importante da proposta do grupo: conhecer melhor a realidade de quem estuda e trabalha na universidade para pensar maneiras de promover saúde antes que os problemas apareçam ou se agravem, focando, principalmente, na prevenção.
Saúde se promove em movimento
Se uma das preocupações do grupo é entender como anda a saúde dentro da universidade, outra é, justamente, colocar a comunidade em movimento.
Atualmente, o GESTEF mantém duas atividades físicas na UEM. Uma delas é a ginástica funcional voltada aos trabalhadores, realizada duas vezes por semana e com cerca de 25 participantes na Sala de Rítmica e Dança do Departamento de Educação Física da UEM. A outra é o grupo de corrida e caminhada que reúne estudantes e trabalhadores, com cerca de 50 pessoas inscritas, que ocorre no campo em frente ao MUDI UEM.

Antes de começar os treinos, os participantes passaram por avaliações da aptidão física, englobando componentes como composição corporal, força/resistência, flexibilidade e aptidão cardiopulmonar. Depois de três meses de atividades, os testes serão refeitos para que os pesquisadores possam comparar os resultados. A ideia é, nesse sentido, que além dos benefícios gerados pela própria prática da atividade física, essas ações forneçam importantes dados de pesquisa.
“Nós trazemos esse olhar da atividade física como um determinante social de saúde, com reflexos na prevenção de doenças e para a socialização”, explica Ana Ieker. Nesse sentido, a promoção da saúde passa também pela autonomia. “Promover saúde é capacitar esse sujeito, aluno(a) ou trabalhador(a), para que ele entenda sobre a sua saúde e tome decisões conscientes.”
A professora completa que “não tem como a gente falar para a pessoa que ela precisa cuidar da sua saúde se ela não entendeu o que ela tem, o que ela pode fazer e o impacto do estilo de vida dela”.
É hora do check-up completo
E foi de todo esse interesse em conhecer melhor quem circula diariamente pela UEM que surgiu uma das frentes mais recentes do GESTEF: o Sistema de Indicadores de Saúde (SIS).
Desenvolvido em parceria com o Núcleo de Processamento de Dados (NPD), da universidade, o sistema é um mapeamento da saúde de estudantes e trabalhadores. “Não tem como produzir ciência sem dados. E, quando a gente fala de promoção da saúde, é importante mapear, tomar decisões com os dados e subsidiar políticas públicas institucionais”, afirma Ana Ieker.
O SIS reúne informações sobre diferentes dimensões da saúde e do cotidiano da comunidade universitária. O questionário é organizado em blocos que contemplam dados sociodemográficos, prática de atividade física, tempo de tela, alimentação, sono e presença de doenças, além de aspectos relacionados à saúde mental.
Entre as questões investigadas estão indicadores de depressão e ansiedade, avaliados a partir de instrumentos validados pela Psicologia, bem como situações vivenciadas dentro da própria universidade, como assédio, racismo, homofobia e capacitismo. No caso dos trabalhadores, o sistema também permite incluir informações de exames laboratoriais.
Mais do que identificar doenças já diagnosticadas, o levantamento busca reconhecer comportamentos e fatores de risco que possam contribuir para o desenvolvimento de problemas de saúde a longo prazo.
Esse é o caso das doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão, diabetes e obesidade. Para Ana Silvia, conhecer esses indicadores permite que a universidade pense, principalmente, em prevenção, antes que determinadas condições se agravem.

Após o preenchimento, as respostas são encaminhadas aos pesquisadores de forma anonimizada. Com o apoio do Núcleo de Processamento de Dados (NPD), as informações pessoais são protegidas e a base utilizada nas análises não apresenta os nomes dos participantes.
A proposta do grupo é realizar novos levantamentos ao longo dos anos e, assim, acompanhar as mudanças nos indicadores de saúde de estudantes e trabalhadores. Para isso, uma das possibilidades discutidas pelo grupo é vincular o preenchimento do SIS à renovação da matrícula dos estudantes.
Atualmente, o sistema pode ser respondido por estudantes e trabalhadores de diferentes campi da UEM, incluindo alunos da modalidade a distância.
Os dados alimentam as pesquisas
“É muito importante explorar os dados, porque, senão, a gente deixa guardado, engavetado. E o dado é muito rico, tem muitas informações importantes sobre essa comunidade e esse território”, afirma a professora.
Por isso, o SIS também foi pensado para alimentar novas pesquisas com o intuito de ser um banco de dados aberto. Professores e estudantes da UEM podem solicitar acesso aos dados, indicando o objetivo do trabalho e quais informações serão utilizadas. Após avaliação do grupo, os dados são disponibilizados de maneira anonimizada. Os dados podem ser solicitados via site do GESTEF, na opção “Solicitar Dados”.
A base já vem sendo utilizada em trabalhos de conclusão de curso, doutorado e pós-doutorado, com diferentes recortes e perguntas de investigação.
Entre os estudos em andamento estão pesquisas sobre a relação entre atividade física e indicadores de depressão, fibromialgia e exercício físico e o chamado comportamento de 24 horas, uma abordagem que observa como sono, tempo sentado e prática de atividade física se distribuem ao longo do dia e se relacionam com a saúde.
Os dados também já foram utilizados em uma pesquisa com machine learning, ou aprendizagem de máquina, para identificar quais indicadores poderiam ajudar a prever a obesidade entre estudantes da UEM. É uma frente que o próprio grupo pretende ampliar nos próximos anos, utilizando novas ferramentas de análise para identificar padrões e fatores de risco.
Do ‘diagnóstico’ à ação
Mas existe ainda uma etapa importante nesse caminho: fazer com que aquilo que aparece nos dados volte para a própria universidade. “Quando a gente levanta e mostra esses dados, muitas demandas começam a aparecer depois disso”, explica Ana Ieker.
“Por isso, o nosso objetivo é tentar traduzir o que esses dados estão dizendo e levar para a gestão, para os coordenadores de curso e para os pró-reitores”, pontua a vice-coordenadora do GESTEF.
A partir daí, os resultados podem ajudar a pensar atividades de convivência, ações de promoção da saúde, palestras ou estratégias desenvolvidas em parceria com outros setores da UEM. O grupo também trabalha na elaboração de uma cartilha com o primeiro mapeamento dos indicadores levantados pelo SIS.

Por enquanto, um dos principais desafios ainda é fazer o sistema chegar a mais gente. Para Ana Ieker, não basta disponibilizar um questionário e esperar pelas respostas, é preciso que ele esteja presente no cotidiano universitário. “A principal dificuldade que estamos passando é tornar isso dinâmico e vivo dentro da universidade”, explica.
O GESTEF pretende, ainda, ampliar o uso de inteligência artificial e aprendizagem de máquina para identificar padrões nos dados e trabalhar cada vez mais no caminho da prevenção. O grupo também tem a intenção de transformar a experiência do SIS em um protocolo que, futuramente, possa ser utilizado por outras universidades do Paraná e do Brasil.
No fim, talvez aquelas noites mal dormidas, refeições corridas e horas de atividade física que ficaram para depois digam mais sobre a vida universitária do que eu imaginava. Para o GESTEF, olhar para esses hábitos é também uma forma de entender quem vive a universidade e pensar em maneiras de tornar essa passagem por ela um pouco mais saudável.
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Texto: Camila Lozeckyi
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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