Foi ainda criança que a agricultora Ana Andréa teve contato com uma variedade diferente de sementes: as sementes crioulas. No quintal, ajudando sua mãe, aprendeu sobre a história e a importância dessas práticas de cultivo.
Conforme crescia, em um contexto permeado pela agricultura familiar, Ana se encantou pela prática e deu continuidade a história que sua família já vinha escrevendo há muitos anos.
Com isso, a agricultora construiu seu espaço e, ao longo dos anos, foi compondo seu banco de sementes, em uma relação comunitária com outros agricultores e guardiões da região, trocando e compartilhando variedades de sementes.
E é justamente na agricultura familiar e no cultivo pelas comunidades tradicionais que a história das sementes crioulas começa.
Sementes crioulas: herança viva dos povos
As sementes crioulas, também chamadas de sementes tradicionais, são aquelas que foram preservadas e cultivadas ao longo de muitos anos pela agricultura familiar, por povos indígenas e quilombolas e comunidades tradicionais.
Ao longo da história, essas sementes foram selecionadas e cultivadas por agricultores, tendo como principal característica se desenvolverem de forma natural e se adaptarem às condições do local em que surgiram e são semeadas.
Isso significa, em outras palavras, que essas sementes não são controladas por grandes empresas e dispensam o uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes, além de não passarem pelo processo de melhoramento genético industrial.

Isso se destrincha em dois caminhos: essas variedades são, por um lado, menos produtivas pensando num contexto comercial de larga escala. Por outro, são uma fonte rica em variabilidade genética, tem altíssima resistência a fatores climáticos e biológicos, uma vez que são selecionadas naturalmente e com características diferentes, além de serem mais nutritivas.
O processo de modernização e industrialização da agricultura, bem como a busca pelo melhoramento genético de sementes, embora tenha aumentado a produtividade amplamente, trouxe uma série de problemas: a diminuição da diversidade genética dessas plantas, tornando-as menos resistentes à fatores extremos.
Nesse sentido, diante de um crescimento populacional acelerado, explosão de pragas e mudanças climáticas extremas, como os que temos vivido, isso representa um risco à segurança alimentar da população de todo o mundo, presente e futuro.
Por isso, o retorno às sementes crioulas, seu estudo minucioso e multiplicação, se apresenta como uma alternativa promissora. Um dos lugares que vem pensando de maneira aprofundada essas questões são as universidades, por meio do ensino, da pesquisa e a extensão.
LEBAS: multiplicando sementes
Na Universidade Estadual de Maringá (UEM), campus Umuarama, um dos espaços responsáveis por esse olhar atento para as sementes crioulas é o Laboratório de Estudos em Botânica Aplicada e Sustentabilidade (LEBAS), coordenado pelo professor do departamento de Ciências Agronômicas Dr. Valdir Zucarelli.
O laboratório funciona como um projeto guarda-chuva que abrange três diferentes projetos: a multiplicação de sementes crioulas, o horto didático de cultivo de plantas medicinais e o meliponário das abelhas sem ferrão. Se você quer saber mais sobre esse último, não deixe de conferir a matéria ‘Por onde voam as abelhas?’.
Dentro da temática da multiplicação das sementes, o professor e os graduandos realizam o processo de plantio, colheita, seleção e armazenamento das sementes para depois partir para a etapa mais importante: o compartilhamento das sementes crioulas.
“Após a multiplicação a gente distribui gratuitamente para os agricultores que tem interesse… Nós participamos de feiras de sementes, eventos – como a Expo Umuarama – onde nós distribuímos as sementes multiplicadas aqui dentro da universidade”, explica o coordenador Valdir.

O projeto de multiplicação de sementes do LEBAS ainda conta com parcerias com a ITAIPU Binacional, que incentiva o projeto com bolsas para os acadêmicos e com o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR), que auxilia na visitação aos produtores rurais.
“Quando a gente pensa em agroecologia, não dá pra trabalhar de forma individual… É uma rede unindo forças nesse movimento de resistência, uma vez que as sementes crioulas dão ao agricultor independência e autonomia na produção das próprias sementes”, explica o professor.
A universidade de mãos dadas com a agricultura
É nesse mesmo sentido que caminha o trabalho da professora do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus Marechal Cândido Rondon, Drª Andreia Costa.
A professora coordena um projeto de coleção de Sementes de Feijão junto ao Centro Vocacional Tecnológico de Agroecologia, Mandioca e Agricultura Sustentável do Oeste do Paraná (CVT), apoiado pela Itaipu Binacional.
Andreia explica que, no projeto, ela e os acadêmicos cultivam, multiplicam e distribuem esses feijões para os agricultores interessados, fazendo doação em feiras de trocas de sementes, congressos e festas da região.

As pesquisas da Agronomia são fundamentais para a manutenção da prática do cultivo de sementes crioulas “com as pesquisas nós podemos validar aquelas metodologias participativas dos agricultores familiares, a forma de conservação e armazenagem dessas sementes”, explica Andreia.
“A pesquisa é importante também porque ela vai gerar dados científicos. E esses dados científicos vão demonstrar os benefícios econômicos, sociais e culturais do uso dessas sementes crioulas. Com isso, fortalece a defesa de políticas públicas que incentivem a proteção desses saberes tradicionais e ajudando na segurança alimentar”, complementa a professora.
Andreia ainda explica que a pesquisa e a extensão universitária auxiliam também na assistência técnica e capacitação de agricultores, fornecendo cursos de manejo e conservação das sementes, melhorando ainda mais o processo que já era realizado.
Além dos inúmeros benefícios ambientais da produção de sementes crioulas, a professora explica que elas são muito rentáveis para os agricultores “Elas geram renda, uma vez que ocorre a redução do custo de produção. São sementes livres de agrotóxico e que reduzem a dependência de insumos externos, ou seja, o agricultor cultiva de forma agroecológica”.

Andreia ainda finaliza explicando que essas sementes representam um produto diferenciado no mercado “existe uma valorização desse produto… Com isso vai abrindo nichos de consumo especializado, como feiras agroecológicas e restaurantes que buscam produtos de qualidade”.
Nesse sentido, o papel da universidade vem para somar a um conhecimento ancestral de famílias e povos tradicionais que já é muito rico, sempre no sentido de potencializar um ciclo de produção sustentável que é capaz de repensar as lógicas de mercado e consumo.
Guardiões de sementes: garantindo a soberania alimentar
A história de Ana Andréa Jantara, agricultora e guardiã de sementes crioulas urbana, representa a trajetória de muitos indivíduos que tiveram como base a agricultura familiar e que seguem escrevendo essa história ao longo de suas vidas.
Atualmente, além de cuidar do seu plantio que ajuda na alimentação e na renda extra da família, Ana também tem uma casa de sementes e participa de feiras e eventos de troca de sementes crioulas, divulgando a importância dessas variedades para a segurança alimentar da população.

“As sementes crioulas são a base da nossa alimentação saudável e são a nossa soberania alimentar. Tendo sementes crioulas, você projeta seu presente e seu futuro […] É importantíssimo essa questão que seja discutida cada vez mais nos ambientes escolares, nos ambientes públicos e levada para a população, pois estamos falando de alimentação consciente e de qualidade”, explica Ana.
A agricultora explica que as sementes que mais cultiva são de hortaliças e que ela tenta resgatar o maior número possível, seja de vagens, pepinos, tomates e favas, e que a troca de sementes e, principalmente, de conhecimento com outros agricultores é fundamental.
“Você tem essa interação de conhecimento e de troca. Porque ele (o agricultor) tem outros conhecimentos sobre ela, como multiplicá-la melhor, como manuseá-la, uma época um pouco melhor para plantar, até um outro cuidado depois com as sementes. Então são importantíssimos esses intercâmbios”, finaliza Ana.
Um povo soberano
O escritor indígena Ailton Krenak diz que o bem viver é “a difícil experiência de manter o equilíbrio entre o que nós podemos obter da vida, da natureza, e o que nós podemos devolver”.
Um fato inegável é que a industrialização da vida e o avanço desenfreado da busca por produtividade tem nos feito retirar da natureza muito mais do que somos capazes de devolvê-la e isso tem sérias consequências, algumas delas que já estamos vivenciando.
A busca pelo retorno aos saberes ancestrais e das comunidades tradicionais, bem como a valorização da agricultura familiar, vem no sentido contrário: de respeitar o solo, de garantir a segurança e a soberania alimentar de um povo, além de fortalecer o senso de comunidade.
Nesse sentido, as sementes crioulas e a união entre os saberes da academia e os saberes da comunidade agricultora podem nos ajudar a encontrar um cenário de equilíbrio e de um futuro possível.
Se você quer saber mais sobre as sementes crioulas e ouvir o que nossos entrevistados compartilharam sobre esse assunto, não deixe de conferir o Podcast Sementes Crioulas, disponível no C² Play.
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Texto: Camila Lozeckyi
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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