Um pinguim de olhar curioso aparece na parede do refeitório do Colégio Estadual Maria Helena T. Luciano, em Pontal do Sul, litoral do Paraná. Nos bancos, cerca de sessenta crianças e adolescentes, iluminados pelo sol do início da tarde, aos poucos silenciam na tentativa de ouvir o que o animal diz. Com voz amigável, o personagem se apresenta como um pinguim-de-magalhães, conta que veio da Argentina e anuncia que vai explicar como chegou ao Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR Litoral.
Aquela era a primeira das duas exibições do documentário Trecho 6 realizadas na segunda-feira (17), na escola. Ao longo da tarde, 131 estudantes assistiram ao filme, que acompanha o resgate, a reabilitação e a devolução ao mar de Mawé, um pinguim encontrado ferido em uma praia do litoral paranaense.

A forma escolhida para contar essa trajetória chamou a atenção de A. C., de 13 anos, estudante do 8º ano. Para ela, conhecer a história de Mawé por meio da combinação entre imagem, voz e personalidade contribuiu para que se aproximasse do que era apresentado. “Foi uma forma que deu para entender, que prendeu a atenção, sabe? Eu achei isso muito interessante.”
M. C., de 14 anos, também estudante do 8º ano, falou sobre o que acontece com os pinguins antes e depois de chegarem ao litoral. Ela mencionou o cansaço dos animais durante o deslocamento, a presença de lixo no mar e o trabalho das equipes que os encontram. Também chamou sua atenção a diferença entre os procedimentos: enquanto os pinguins vivos recebem tratamento para retornar à natureza, aqueles encontrados mortos são estudados para que se descubra o que provocou a morte.
Ao explicar por que considerava esse trabalho importante, M. C. aproximou o que viu na tela de sua própria vida. “Isso fala muito sobre nós, os animais marinhos e a natureza. Se os animais marinhos estão morrendo por causa do lixo, isso pode nos afetar também.” Para ela, as consequências não terminam no oceano, pois muitas pessoas dependem dos animais e do ambiente para se alimentar ou trabalhar.

Quando o pinguim volta ao mar e a imagem desaparece da parede, começa a conversa entre estudantes e pesquisadores. As mãos se levantam, e as perguntas passam da história de Mawé para a vida dos pinguins: quanto tempo vivem? Por que chegam ao litoral paranaense? Mawé conseguiu reencontrar sua família? Podemos ter pinguins em casa? Um pinguim de pelúcia ajuda a organizar a conversa. Quem deseja fazer uma pergunta espera o personagem chegar e, com ele nas mãos, compartilha sua dúvida.
Para Kamila Meier Santos Torres, bióloga do Programa de Educação Ambiental MarMaré, que participa das atividades, esse é um dos momentos em que o envolvimento dos estudantes se torna mais evidente. “Eles se envolvem emocionalmente com o pinguim e então surgem muitas perguntas”, conta.
As dúvidas abrem espaço para conversar sobre o oceano a partir de situações que fazem parte da vida dos estudantes. Praias, animais marinhos e resíduos descartados no ambiente deixam de aparecer somente como informações do documentário e passam a ser relacionados ao lugar onde vivem. Acompanhar a trajetória de Mawé desde o resgate até a soltura também modifica a maneira como esse espaço é percebido. Segundo Kamila, “o oceano deixa de ser algo distante ou apenas uma paisagem ou local de lazer e passa a ser reconhecido como um ambiente com vidas e acontecimentos importantes”.
A reação dos estudantes ao assistirem ao documentário naquela tarde está relacionada a uma escolha feita ainda durante a produção de Trecho 6: apresentar o conhecimento científico a partir do ponto de vista dos animais.
Do laboratório para a tela

O filme integra o UFPR Na Sua Vida, projeto criado para mostrar como as ações desenvolvidas pela universidade se relacionam com o cotidiano das pessoas. A proposta de acompanhar o trabalho realizado com os animais marinhos surgiu durante uma conversa da equipe da então Agência Escola de Comunicação Pública e Divulgação Científica da UFPR sobre qual seria a próxima história levada para a linguagem documental.
Segundo Patricia Goedert Melo, vice-coordenadora do Viralume, Laboratório de Comunicação Pública da Ciência da UFPR, a escolha do tema permitiria apresentar o trabalho desenvolvido pelo Laboratório de Ecologia e Conservação e, ao mesmo tempo, observar a participação dos moradores do litoral. Muitas vezes, são eles que acionam as equipes quando encontram animais marinhos nas praias.
Antes de elaborar o roteiro, a equipe visitou o laboratório, conversou com seus responsáveis e acompanhou sua rotina. As primeiras gravações tinham caráter observacional. Em uma das diárias, a produção recebeu a notícia de um acionamento real e registrou o deslocamento da equipe de monitoramento, o resgate e os primeiros procedimentos de atendimento.
Para Thiago Bezerra, diretor de Trecho 6, aquele momento revelou uma parte da história que poderia passar despercebida quando se acompanha somente a soltura dos animais. “Estávamos no dia e na hora certa de um acionamento real. E aí se revela um aspecto fundamental dessas ações: a comunidade. A participação do cidadão também faz parte do trabalho do laboratório e do processo científico realizado ali”, conta.
Depois das primeiras captações, a equipe ouviu especialistas envolvidos no resgate, na reabilitação e no estudo dos animais. As entrevistas, porém, não foram inseridas no filme como depoimentos explicativos. Serviram de base para o roteiro, e as informações científicas passaram a fazer parte das falas dos pinguins. Reais e, ao mesmo tempo, ficcionalizados, eles receberam nomes, vozes e personalidades para narrar o que acontecia a partir de seus próprios pontos de vista.
“A ideia não era ouvir os especialistas para simplesmente usar seus depoimentos narrando o filme. Era que essas falas servissem como material de base para a roteirização e para a construção dos personagens que narrariam a própria história”, explica Thiago.
O diretor acredita que essa escolha contribuiu para a recepção do documentário entre diferentes públicos. “Talvez justamente por esse ponto de vista menos óbvio, mais inusitado, o filme dialogue tão bem com o público infantojuvenil e também com os adultos. Acho que isso cria outra forma de aproximação com o conhecimento científico.”
Uma história que volta ao litoral

Desde que ficou pronto, Trecho 6 passou por escolas, espaços públicos e festivais. Só nas sessões realizadas em escolas e outros espaços públicos, mais de 1.650 pessoas já assistiram ao documentário! E essa conta ainda deixa de fora o público dos festivais e as visualizações no YouTube.
Depois de percorrer outros espaços, Trecho 6 chegou novamente ao litoral paranaense. Nesse retorno, algumas sessões produziram encontros inesperados. Patricia recorda uma exibição anterior na região em que uma criança reconheceu um morador que aparecia durante o resgate. “Ela levantou a mão e falou: ‘Aquele senhor que aparece ali com o pinguim é meu vizinho, conhece meu pai’.”
Isso acontece porque, apesar dos nomes, das vozes e das personalidades dadas aos pinguins, muito do que aparece na tela faz parte da vida das comunidades litorâneas. As praias são conhecidas e, muitas vezes, são os próprios moradores que encontram animais debilitados e avisam as equipes responsáveis pelo resgate.
No Colégio Estadual Maria Helena T. Luciano, essa proximidade apareceu de outra maneira. O litoral citado por Mawé era aquele que circundava a escola e fazia parte da vida dos estudantes. Moradora da região desde os sete anos, A. C. conhece a movimentação provocada pela chegada desses animais. “Quando aparece a notícia de que veio algum pinguim para a praia, enche de gente. Todo mundo quer ver, mesmo que o bichinho não esteja tão bem”, conta. Ao acompanhar a história pelo ponto de vista de Mawé, a estudante passou a pensar também nas condições em que esses animais chegam à praia. “Foi interessante ver esse lado, ter mais compaixão e empatia pelos bichinhos, porque eles também são uma vida.”
Para a adolescente, assistir ao filme pode ajudar quem vive na região a saber como agir ao encontrar um animal marinho debilitado. “Talvez eles comecem a respeitar mais e tenham mais ideia do que fazer caso encontrem algum bichinho na praia, como uma baleia encalhada.”
O oceano começa na escola
Proclamada pelas Nações Unidas para o período de 2021 a 2030, a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável busca ampliar o conhecimento sobre os oceanos e aproximá-lo das decisões e práticas da sociedade. Para isso, não basta produzir conhecimento em universidades e laboratórios. É preciso criar formas para que ele chegue às pessoas e contribua para a relação que mantêm com o oceano.
É nesse esforço que se insere a circulação de Trecho 6 pelas escolas do litoral paranaense, possibilitada por um edital do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação voltado à Década do Oceano. A ação resulta de uma articulação entre o ViraLume, o Laboratório de Ecologia e Conservação (LEC), o Programa de Educação Ambiental MarMaré e a Coalizão Paraná pela Década do Oceano, com o apoio do NAPI Paraná Faz Ciência, por meio da Rede de Clubes Paraná Faz Ciência.
No litoral paranaense, a Rede reúne nove clubes, todos vinculados à Universidade Estadual do Paraná (Unespar). Em agosto, Trecho 6 chegou a duas escolas de Pontal do Paraná: no dia 17, ao Colégio Estadual Maria Helena T. Luciano; e, no dia 31, ao Colégio Estadual Indígena Guavira Poty, que também integra a Rede por meio de um Clube de Ciências voltado à sustentabilidade.
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Texto: Marilaine Martins
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Hellen Vieira
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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