Desde o momento que abrimos os olhos pela primeira vez, sabemos que, tudo a partir dali, será um mundo infinito de descobertas.
É incrível pensar que entre os 18 e 24 meses de idade, o vocabulário infantil expande rapidamente de 50 para mais de 200 palavras. A oralidade é intrínseca à nossa biologia. Basta conviver em grupo para que, de forma natural, as palavras comecem a fluir. Já a escrita é uma tecnologia que a humanidade inventou e, diferente da fala, precisa de ensino, planejamento e mediação de outra pessoa.
É na alfabetização que esse encontro acontece, os sons e letras se conectam… e descobrir o mundo se torna algo mágico!
Você já saiu para dar uma volta com uma criança que está aprendendo a ler e escrever? Qualquer placa, outdoor ou fachada de loja é uma oportunidade de descobrir uma nova palavra! A fonética deixa de ser apenas ruído e passa a ganhar corpo! Para que isso aconteça, é necessário a formação de bons profissionais!
E é aí que o Subprojeto de Alfabetização do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) se destaca!

Conhecendo o projeto
Uma das melhores formas de aprender conceitos é testar no dia a dia, e o Pibid traz essa possibilidade! O Programa do governo federal brasileiro é vinculado à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Oferece bolsas de estudos para estudantes de cursos de licenciatura. Seu principal objetivo é colocar os alunos da faculdade em contato com escolas públicas de ensino básico, unindo teoria e prática!
A Unioeste faz parte do Pibid, que se divide em projetos dentro de cada curso de licenciatura e em subprojetos que contemplam áreas diferentes em cada um desses cursos.
Um dos subprojetos é o de Alfabetização, que funciona em três cidades do Paraná: Cascavel, Foz do Iguaçu e Toledo. O mais interessante é que cada campus tem autonomia e liberdade para desenvolver suas atividades!
A iniciativa conta com reuniões quinzenais, a fim de discutir textos sobre alfabetização, criar propostas pedagógicas e elaborar atividades. “Participam desse encontro os 24 bolsistas do Pibid, quanto as três supervisoras das três escolas onde a gente faz o trabalho”, informa Tamara Cardoso André, professora da Unioeste e coordenadora do subprojeto em Foz do Iguaçu.
Cada um dos campi tem parceria com três escolas municipais, onde os acadêmicos auxiliam as crianças no processo de alfabetização uma vez por semana. Os participantes recebem uma bolsa e, ao final, devem apresentar um relatório com suas experiências. Além disso, são avaliados durante as reuniões e aplicações de atividades e jogos.
A professora explica que o Pibid não funciona apenas como uma experiência prática isolada. Os estudantes discutem textos clássicos de pensadores que abordam o processo de educação e aprendizagem como Lev Vygotsky, Magda Soares e Emilia Ferreiro. A ideia não é apenas “aprender fazendo” e abandonar a teoria, mas olhar para aquilo que acontece na sala de aula com base no que foi estudado na universidade.

Nos encontros do subprojeto de Alfabetização, em Foz do Iguaçu, a aplicação de atividades baseadas em literatura, os jogos e as interações orais, são pensados sempre respeitando a variedade linguística do contexto de fronteira e a individualidade de cada criança.
Por exemplo, enquanto as crianças ouvintes aprendem que cada letra representa determinado som, a abordagem com crianças surdas segue um caminho diferenciado, sendo baseada no letramento por meio do método global.
Tamara, autora do livro “Alfabetização e lições da fronteira”, aponta que diretrizes como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) possuem lacunas severas por pressuporem um falante padrão de português.
Um desafio que cidades que fazem fronteira com outros países lidam com frequência é a realidade multicultural. Os alfabetizadores do Pibid se deparam com o “portunhol” presente em Foz do Iguaçu, em alunos das escolas municipais atendidas: Suzana Moraes Balen, Candido Portinari e Jorge Amado.
Na prática da fronteira, a fonética está longe de ser neutra. Uma criança argentina ou paraguaia pode pronunciar o ‘V’ no lugar do ‘B’ devido à sua memória linguística. E, nesses casos, os bolsistas utilizam os conhecimentos científicos da linguística para mediar a aprendizagem da norma culta.
“Eu falo para os alunos: não adianta você dar uma aula show, as suas aulas têm que ter uma base teórico-prática, que vem da psicologia histórico-cultural, que vem da linguística aplicada, mas que vem, sobretudo, das interações significativas nas quais eu presto atenção no aluno. Eu só consigo alfabetizar se eu presto atenção em como a criança fala”, conclui a professora.
Alfabetizar não é treinar para provas
Antes de ensinar a ler, é preciso despertar o leitor. E com a teoria do Lev Vygotsky, psicólogo muito referenciado para compreender o ensino e a aprendizagem, que a professora reforça seu compromisso em desenvolver nas crianças o pensamento de querer aprender, desenvolver o gosto pela leitura e escrita. Ela acredita que, apenas ao sentir essa necessidade, do exercício como prazer, e não como obrigação, que se cria a possibilidade de aproximação com esses comportamentos.
Vygotsky trouxe para educação um grande pensamento sobre o método de aprendizagem infantil. Ele colocava como primordial o papel dos adultos como verdadeiros mediadores no processo de aprendizagem das crianças. Além de ajudar, oferecer o apoio e ferramentas que direcionam seu melhor desenvolvimento.
O processo da alfabetização não pode se basear na simples memorização mecânica do alfabeto ou da cópia de sílabas isoladas do quadro, como ba-be-bi-bo-bu. A educadora enfatiza que ele exige interação constante e o entendimento prático. Afinal, não existe alfabetização real sem o ensino das relações entre letras e sons.
“A escola, quando ela sufoca as crianças para as provas, ela acaba tirando delas essa possibilidade de se aproximar da leitura pelo prazer, o prazer do leitor”, adverte a educadora. Para ela, o foco excessivo em testes padronizados reduz o rico processo de ensino-aprendizagem a um treinamento de habilidades mecânicas.
Apoiando-se na psicologia histórico-cultural de Vygotsky, o projeto sustenta que a alfabetização real só acontece quando a criança desenvolve uma necessidade íntima e um desejo genuíno de se apropriar da leitura e da escrita, o que é conquistado através do lúdico e do contato diário com a literatura de alta qualidade estética.

Para aprofundar a discussão sobre os desafios no processo de alfabetização, preparamos um podcast sobre o tema. Conversamos com a professora Tamara sobre a importância da leitura, da escrita e dos caminhos para tornar esse processo mais significativo para as crianças.
O impacto em toda a cadeia
O Subprojeto de Alfabetização da Unioeste realiza a troca de experiência com os próprios alunos. Como demanda deles, em março deste ano, foi realizado um evento para formação de professores, em que foram convidados professores psicólogos para falarem sobre educação inclusiva. Ao final do encontro, os estudantes também puderam apresentar suas experiências no Pibid com a literatura, a importância dos jogos de alfabetização e a pedagogia histórico-crítica nesse processo, temas que resultaram em textos que se transformaram em Anais do evento.
Para quem está dentro do projeto, a vivência na sala de aula transforma a teoria em aprendizado. É o caso de Maria Eduarda Morais Schlikmann, graduanda do 3º ano do curso de Pedagogia, na Unioeste de Foz do Iguaçu, que atua com turmas do 1º ano do Ensino Fundamental I e conta que a experiência prática mudou sua perspectiva profissional.
“Bom na sala de aula é quando conseguimos colocar a teoria que aprendemos em prática. Eu não fiz o magistério, então não tinha nenhuma percepção da sala de aula em si. Por meio do Pibid consegui ter uma visão diferente da alfabetização, dos níveis de escrita e da própria sala de aula”, afirma Maria Eduarda.
Além disso, foi atuando no projeto que a aluna enxergou que cada um pode ajudar da sua maneira, já que todos possuem o mesmo objetivo de auxiliar cada criança a descobrir sua própria história. “O Pibid foi um divisor de águas na minha formação, me trouxe mais conhecimento, confiança e compreensão dentro da educação. O projeto nos coloca dentro da sala de aula com o objetivo de ajudar as crianças e o professor, e acaba que ajuda e evolui a nós mesmos. Hoje, consigo fazer uma contação de história, algo que para mim era uma grande dificuldade”, encerra Maria Eduarda.

Atualmente, a professora Tamara e seus alunos estão envolvidos em uma iniciativa para o desenvolvimento do gosto pela leitura infantil. Eles trabalham gêneros literários e abordam textos de literatura africana e indígena, para marcar a importância de se pensar a diversidade cultural.
Tamara destaca que, “mais importante do que uma ação é um conjunto de ações que transformam o cotidiano da escola”. O projeto alcança muitas pessoas e os encontros, sejam entre os acadêmicos, sejam com os alunos, não precisam passar por uma superprodução pedagógica. O mais importante é conseguir tornar o cotidiano das crianças mais significativo.
É importante destacar como projetos junto à educação básica, ao fundamental e ao ensino médio têm se tornado cada vez mais um elo entre a universidade e as escolas. Eles promovem a colaboração de profissionais de ambos os lados com foco em resolver desafios que a educação enfrenta.
O grande significado do trabalho desenvolvido a respeito do projeto do Pibid está em transformar o cotidiano escolar em uma vivência marcada pela literatura.
Afinal, como bem pontuou Paulo Freire, no livro Pedagogia da Indignação: Cartas Pedagógicas e Outros Escritos, “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”
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Texto: Bernardo Vená e Guilherme Nascimento dos Santos
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Madu Tenório
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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