Uma coisa muito legal da erva-mate é que ela acompanha diferentes costumes e climas. Nas regiões mais frias do Paraná e em boa parte do Sul do país, o chimarrão ocupa um lugar conhecido nas manhãs, nas pausas e nos encontros compartilhados em torno da cuia em vários momentos do dia. Já nas áreas mais quentes, como o Norte e o Noroeste paranaense, é o tereré que se destaca, circulando gelado entre conversas, rotinas e tardes de calor. Em suas diferentes formas de preparo e consumo, a erva-mate revela uma versatilidade que atravessa territórios além dessas regiões, como no Centro-Oeste do Brasil e na Argentina, por exemplo.
Mas é no Paraná que essa presença ganha contornos ainda mais profundos. A erva-mate constitui a história do estado, participa de sua formação econômica e permanece vinculada à identidade de muitos lugares e comunidades. Sua imagem figura, inclusive, na bandeira paranaense, como sinal de um vínculo duradouro entre natureza, cultura e trabalho. Nos ervais e nas propriedades rurais, nas práticas cotidianas e na memória coletiva, a planta segue marcando a vida do povo paranaense.
É desse solo histórico, cultural e produtivo que emerge o Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Erva-mate: Inovação e Valorização. A iniciativa articula instituições de ensino e pesquisa, setor produtivo, poder público e parceiros internacionais em torno de um objetivo comum: fortalecer a cadeia da erva-mate no Paraná.
De acordo com a articuladora do Arranjo e professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Vânia de Cássia da Fonseca Burgardt, a produção paranaense de erva‑mate tem passado por mudanças significativas que afetam técnicas de cultivo, beneficiamento, perfil dos produtores, demanda de mercado e inovação no setor.
“O cerne das iniciativas do NAPI está no aprimoramento da qualidade, suscitando diversificação no uso, promoção à saúde, inovação e, consequente, valorização. Além disso, o Arranjo pretende contribuir para o aumento da competitividade e da atratividade do produto no mercado internacional”, destaca Vânia.
Eixos e parcerias
O NAPI Erva-Mate se estrutura como uma articulação ampla entre diferentes setores envolvidos na cadeia produtiva da erva-mate no Paraná. A iniciativa reúne representantes do setor produtivo, da sociedade civil, de instituições de ensino e pesquisa e do poder público, formando uma rede colaborativa voltada ao fortalecimento desse patrimônio paranaense.

O projeto está organizado em quatro eixos temáticos interconectados, pensados para contemplar diferentes etapas e demandas da cadeia da erva-mate. Segundo Vânia, essa estrutura busca integrar pesquisa, inovação e aplicação prática, aproximando conhecimentos científicos, necessidades do setor e estratégias de valorização do produto. “O NAPI Erva-Mate está estruturado de forma colaborativa, reunindo diferentes instituições e áreas de atuação em eixos que se conectam e se complementam”, diz a professora.
O primeiro eixo, de Produção Primária, é coordenado pela Embrapa Florestas e tem como foco a validação de genótipos com características diferenciadas, a implantação de sistemas de cultivo inovadores e a análise de viabilidade econômica.
Já o eixo de Processamento, coordenado pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) com apoio da UTFPR e da Embrapa Florestas, concentra esforços na otimização de processos industriais e no desenvolvimento de protocolos de classificação sensorial. No eixo Produto e Consumidor, liderado pela UTFPR e pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) em parceria com a Sustentec e universidades internacionais, entram em cena os estudos clínicos, a caracterização sensorial, a pesquisa de mercado e o desenvolvimento de novos produtos, ampliando o olhar sobre o consumo e as potencialidades de inovação.
O quarto eixo, de Treinamentos e Devolutivas, é coordenado pela UTFPR com suporte técnico do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR). Essa etapa envolve capacitações voltadas aos diversos segmentos da cadeia produtiva e a implementação de um plano de comunicação para divulgar os resultados obtidos de forma simples e acessível a diferentes públicos.
Produtos e resultados parciais
A participação do NAPI Erva-Mate na Semana Araucária de Ciência e Tecnologia, em março de 2026, funcionou como uma vitrine para ampliar conexões e apresentar ao público parte do trabalho que vem sendo desenvolvido no Arranjo. Para Vânia, o evento teve um papel importante justamente por reunir diferentes projetos em um mesmo espaço. “Nossa participação foi bem interessante porque conseguimos articular muitas coisas, inclusive alguns parceiros internacionais”, afirmou. Segundo ela, a experiência também foi proveitosa pela possibilidade de aproximação com o público externo, o que ampliou a visibilidade da iniciativa.

No estande apresentado durante o evento, o NAPI levou ao público resultados concretos das pesquisas em andamento. Segundo o presidente da Sustentec, Euclides Junior, a proposta foi expor atividades desenvolvidas pelas instituições parceiras e mostrar como a pesquisa tem buscado responder a demandas do mercado e da cadeia produtiva.
Entre os destaques, estavam mudas de erva-mate desenvolvidas a partir de características específicas relacionadas à composição fitoquímica. “Algumas mudas de erva-mate foram desenvolvidas em função do teor de compostos fitoquímicos, basicamente cafeína, compostos fenólicos, saponinas”, afirmou Euclides.
A exposição também apresentou uma série de produtos elaborados a partir da erva-mate, reforçando um dos objetivos centrais do Arranjo: ampliar o valor agregado da cadeia produtiva. “Desenvolvemos vários formatos de bebidas, de acordo com os hábitos de consumo. Temos o shot, bebida gelada feita com o pó da erva, temos bebidas solúveis com extratos de frutas, todos naturais”, afirmou Euclides.
Pesquisa, inovação e os desafios de produção
O Paraná é o maior produtor nacional da erva-mate e mantém uma relação profunda com a cultura que atravessa gerações, abrindo novas possibilidades de desenvolvimento dentro da cadeia produtiva. De acordo com a professora Vânia, o trabalho desenvolvido no NAPI Erva-Mate busca qualificar diferentes etapas, da produção ao consumo.

Entre os resultados esperados, estão a elevação do valor agregado ao produto, a redução de contaminantes no processamento e o aprimoramento da qualidade sensorial e fitoquímica da erva-mate. Ao mesmo tempo, a iniciativa procura ampliar a disseminação de novas formas de consumo e evidenciar os potenciais benefícios à saúde associados à planta, especialmente por meio de estudos clínicos e ações de comunicação estratégica.
Esse movimento também depende da circulação do conhecimento entre os diferentes elos envolvidos na produção. Por isso, o NAPI prevê capacitações direcionadas a indústrias, produtores, extrativistas e merendeiras, fortalecendo a transferência de tecnologia e a disseminação de boas práticas no setor. A proposta é fazer com que os resultados da pesquisa cheguem de forma concreta a quem atua no cotidiano do cultivo, ampliando as possibilidades de inovação e impacto econômico.
De acordo com Vânia, “embora a erva-mate ocupe um lugar central na história e na produção paranaense, ainda persistem desafios para que sua cadeia alcance um desenvolvimento mais forte e articulado”. Entre as lacunas apontadas, estão questões ligadas à governança, à padronização e classificação da matéria-prima, à rastreabilidade e certificação, à inclusão e capacitação de pequenos produtores, à otimização energética do beneficiamento e ao posicionamento de mercado.
É justamente nesse ponto que o NAPI se projeta como articulador. Segundo Vânia, a iniciativa foi desenhada para atuar em muitas dessas frentes e funcionar como um catalisador estratégico de articulação, transferência tecnológica e governança. Ao reunir instituições de pesquisa, setor produtivo, poder público e parceiros nacionais e internacionais, o Arranjo aposta na construção coletiva de soluções para fortalecer a erva-mate paranaense, valorizando um produto que carrega tradição, mobiliza conhecimento e aponta para novos caminhos de desenvolvimento.
EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto: Guilherme Souza
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

Gostou do nosso conteúdo? Nos siga nas nossas redes sociais: Instagram, Facebook e YouTube.

