Aeronaves autônomas: o futuro está no céu

Ilustração mostra um pequeno avião branco com detalhes em laranja voando baixo em um céu azul com nuvens brancas. A aeronave possui hélice frontal e trem de pouso visível. Abaixo, há uma paisagem curva formada por áreas agrícolas em tons variados de verde, divididas em quadrantes geométricos. Sobre um dos campos, uma figura humana pequena aparece observando. A composição tem estilo gráfico suave, com cores vibrantes e formas simplificadas, sugerindo tecnologia e atividade no meio rural.
Com foco em segurança e inovação no campo, NAPI Aeronaves de Pequeno Porte trabalha no desenvolvimento de avião agrícola remotamente pilotado

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A aviação agrícola, por mais importante que seja para a agricultura paranaense e brasileira, ainda parece pouco discutida por aí, não é mesmo? 

Presente no dia a dia do campo, ela é responsável por acelerar processos como a pulverização de lavouras, cobrindo grandes áreas em pouco tempo. Mas esta é uma atividade altamente exigente, pois voos em baixa altitude, manobras constantes e a necessidade de precisão transformam cada operação em um exercício contínuo de atenção e controle. 

Nesse cenário, o piloto é peça central de uma engrenagem que envolve muito planejamento técnico, desde antes do voo começar. É a partir dessa realidade que o piloto agrícola Maycon Silveira representa a dinâmica e os rigores da profissão.

Maycon cresceu no norte do Paraná, onde teve contato com a aviação ainda na infância, por influência do pai, técnico agrícola. Com o tempo, o interesse virou profissão, mas o caminho até a cabine não foi imediato: Maycon passou por outras áreas até conseguir se especializar e ingressar na aviação agrícola.

Na fazenda em que trabalha, o planejamento é rotina. “Toda semana é feito o monitoramento da lavoura por técnicos, para verificar a incidência de pragas ou doenças. Depois, é elaborado o plano de aplicação, de acordo com necessidade e urgência na lavoura”, diz.

Durante o voo, a atenção precisa ser constante. “Toda a operação em si é arriscada. Devemos estar 100% focados”, destaca o piloto. Isso envolve tanto o controle da aeronave — motor, combustível, GPS — quanto o que está fora dela, como obstáculos e variações do terreno. Ainda assim, a repetição transforma o que parece extremo em rotina. “Precisamos pensar que pilotar é como dirigir um carro. É algo cotidiano, mas que exige atenção.”

A imagem mostra um homem sentado na cabine de um pequeno avião, com a porta aberta. Ele está usando boné escuro, óculos de sol e roupas que lembram um macacão de piloto ou vestimenta de aviação. Ele sorri e faz um gesto de “joinha” com a mão, transmitindo uma sensação de confiança e satisfação. O avião é branco, com detalhes em vermelho na fuselagem, e parte do painel de instrumentos é visível dentro da cabine. Ao fundo, o céu está bastante nublado, com nuvens densas, o que cria um contraste interessante com o branco da aeronave.
Nascido em Rolândia, Maycon cresceu em Porecatu, no Paraná, e hoje trabalha como piloto agrícola em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia (Foto/Arquivo pessoal)

Maycon descreve a atividade como uma operação que envolve múltiplas etapas e uma fiscalização rigorosa. “Muitos pensam que a fiscalização da atividade é fraca, ou nem é feita corretamente. Mas, na verdade, a fiscalização é muito rigorosa”, afirma, citando desde exames médicos periódicos até a obrigatoriedade de relatórios detalhados de cada aplicação.

Com planejamento e controle, o risco deixa de ser um elemento constante no pensamento do piloto. “Quando tudo é bem planejado, o serviço acaba se tornando seguro”, resume Maycon.

É a partir dessa rotina que surge uma nova possibilidade: repensar o lugar do piloto dentro desse sistema. Em vez da cabine, o controle migra para o solo, em uma proposta que combina automação e navegação inteligente. Já comum em drones, essa lógica agora avança para aeronaves de maior porte.

O NAPI Aeronaves de Pequeno Porte

O desenvolvimento de aeronaves remotamente pilotadas para uso agrícola já saiu do papel e começou a ganhar forma… e altitude! Coordenado por pesquisadores de quatro universidades, com participação da indústria paranaense, o Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Aeronaves de Pequeno Porte avança entre testes e a visão de transformação no campo.

À frente dessa articulação está o professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Douglas Paulo Bertrand Renaux. Também fazem parte do Arranjo a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), o Instituto Federal do Paraná (IFPR), além da empresa curitibana IPE Aeronaves.

A equipe da IPE Aeronaves e o AgroVANT, avião que está sendo desenvolvido em parceria com o NAPI Aeronaves de Pequeno Porte (Foto/IPE Aeronaves)

Segundo Douglas, a equipe do NAPI, em parceria com a IPE Aeronaves, optou por uma solução eficaz para começar os trabalhos de uma construção tão complexa: o desenvolvimento de um protótipo em escala reduzida, cinco vezes menor que o modelo real. “Esse modelo tem 2 metros de asa, enquanto a do avião real terá 10 metros”, detalha. Ainda assim, a construção da aeronave completa, a AgroVANT, está em plena atividade.

Foi com esse protótipo em escala reduzida que o projeto alcançou um de seus marcos mais importantes até agora: o primeiro voo-teste. “Realizamos o primeiro teste de voo em março. O avião voou muito bem neste teste de cerca de 15 minutos”, relata.

Os testes também já revelaram desafios importantes. Durante o voo, realizado em um local com rajadas de vento, o piloto, em solo, enfrentou dificuldades para manter a estabilidade. “Em dado momento, uma rajada de vento conseguiu empurrar a aeronave”, descreve. É justamente nesse tipo de situação que entra o papel da inteligência embarcada: “Precisamos reduzir dificuldades como essa, colocando inteligência a bordo que ajude o piloto a estabilizar o voo”, completa.

Mas e o piloto?

A proposta central do projeto, no entanto, trata de redefinir o papel do piloto. Como destaca Douglas, “o nome tecnicamente correto é um avião remotamente pilotado, ou seja, o piloto continua sendo essencial, mas fora da aeronave”.

Essa mudança tem implicações diretas na segurança, já que esse é um trabalho marcado por voos rasantes, manobras intensas e condições operacionais muitas vezes adversas.  Ao retirar o piloto da cabine, o projeto reduz drasticamente qualquer risco e a aeronave pode transportar mais carga.

Outro avanço está na possibilidade de incorporar múltiplos sistemas computacionais especializados, lembrando que a legislação brasileira ainda impõe limites. “Não é permitido, pela legislação atual da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), que um avião voe sozinho”, ressalta. Por isso, a presença de um piloto em solo continua sendo obrigatória.

O projeto não elimina a profissão, mas a transforma: “Você precisa de um piloto que vai ter um treinamento um pouco diferente”, explica. A experiência prévia, inclusive, continua sendo extremamente valorizada.

Funcionamento e procedimentos

No campo operacional, o modelo pensado também traz mudanças logísticas. As aeronaves serão transportadas desmontadas até as propriedades rurais. A lógica de funcionamento envolve planejamento prévio e automação parcial. “A ideia é pré-programar o percurso que o avião fará”, explica, descrevendo o padrão em zigue-zague típico da pulverização agrícola.

Um dos diferenciais em relação a drones agrícolas está na capacidade de carga e autonomia. Enquanto drones operam com cerca de 40 litros de insumo e poucos minutos de voo, a aeronave em desenvolvimento pode atingir outro patamar, carregando até mil litros de produto.

A imagem mostra o professor Douglas Renaux durante uma apresentação do NAPI Aeronaves de Pequeno Porte em um evento. Ele está à esquerda do palco, segurando um microfone e usando fones de ouvido, enquanto fala para o público. Ao fundo, um grande telão exibe um slide com o título “Apresentação do NAPI” e o destaque “Foco no Agrovant”. No centro, há a ilustração de uma aeronave, acompanhada de dados técnicos em destaque: capacidade de 1000 litros, envergadura de 10 metros, velocidade de operação de 170 km/h e peso máximo de decolagem de 1,45 tonelada.
Douglas Renaux apresenta o NAPI Aeronaves de Pequeno Porte durante a Semana Araucária 2026, destacando o desenvolvimento da AgroVANT (Foto/Arquivo pessoal)

Outro ponto estratégico do projeto está no modelo de negócio. Em vez de vender aeronaves, a ideia é oferecer o serviço. “A empresa está dando preferência para prestação de serviço ao invés de vender aviões”, explica. Isso amplia o acesso à tecnologia: “Um pequeno produtor que jamais teria condições de comprar um avião poderá ter total condição de contratar um ou dois dias de serviço”.

Na rota certa

A base tecnológica do projeto também reflete a colaboração entre universidade e indústria. Enquanto a IPE Aeronaves concentra sua expertise na construção aeronáutica, as universidades atuam no desenvolvimento eletrônico e de software, uma etapa complexa do projeto. “O software é bem mais trabalhoso de desenvolver do que a eletrônica propriamente dita, então três universidades estão colaborando com a parte eletrônica e uma na pesquisa de materiais” ”, afirma.

Embora o protótipo em escala reduzida represente um avanço importante, o objetivo final segue sendo a aeronave em tamanho real. Segundo o professor, ela já está em estágio adiantado de construção. “A fuselagem e as asas estão muito avançadas. A expectativa é que antes do final do ano a gente consiga voar com ele”, afirma.

A imagem mostra um protótipo de aeronave exposto em um ambiente interno. O modelo, identificado como AgroVANT, está apoiado sobre uma mesa coberta por um tecido preto, com uma estrutura compacta, asas fixas e hélice na parte frontal. À frente da mesa, há um banner com o nome do projeto “AgroVANT – NHAPECAN / IPETEC”, além de logotipos de instituições parceiras, como a Fundação Araucária. Um pequeno cartaz com QR code e fichas informativas acompanham a exposição.
Protótipo da AgroVANT, exposto na Semana Araucária 2026 (Foto/Arquivo pessoal)

Para além dos aspectos técnicos, o projeto também se insere em uma discussão mais ampla sobre soberania tecnológica. Segundo o professor Douglas, desenvolver tecnologia local significa também fortalecer a economia e o mercado de trabalho. “Ele melhora o número de empregos de alta qualidade que a gente tem aqui”, diz. Ao mesmo tempo, contribui para a autonomia produtiva do país.

Construir um avião está longe de ser uma tarefa simples. Ainda assim, a articulação entre universidades e setor produtivo paraense, possibilitado pelo NAPI Aeronaves, avança de forma consistente, apontando para um novo modelo de operação na aviação agrícola brasileira.

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Texto:
Guilherme de Souza
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Carlisle Ferrari
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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