A princípio pode parecer estranho, mas quando o assunto é violência contra a mulher, precisamos pensar que a mesma mente e mãos humana que promove as mais variadas formas de violência, também é capaz de produzir ferramentas que podem salvar vidas.
Isto porque a palavra violência refere-se ao uso intencional da força física ou de poder, por ameaça ou ação, contra si mesmo, outra pessoa ou um grupo. Esse comportamento resulta, ou tem alta probabilidade, em lesão, morte, sofrimento psicológico, ou privação. A origem da palavra vem do latim violentia, que significa ‘força, vigor ou o emprego da força em ação’.
Já o termo tecnologia, que surge da união do grego tekhne que significa ‘técnica, arte ou ofício’, e logia, ‘estudo’, significa a aplicação prática de conhecimentos científicos e técnicos para criar ferramentas, métodos ou processos que resolvem problemas e facilitam a vida humana.
Enquanto os números da violência contra as mulheres explodem no Brasil, homens e mulheres integram, desde 2022, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que está testando um aplicativo que busca criar uma tecnologia para dar apoio à decisão e planejamento de segurança para mulheres em situação de Violência por Parceiro Íntimo (VPI).
O projeto ‘Eu Decido’ vem sendo desenvolvido desde 2018, com uma equipe diversa e multidisciplinar de várias instituições como a Casa da Mulher Brasileira, o Sistema Único de Saúde (SUS) e a Fiocruz; universidades como a Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), de São Paulo (USP) e do Amazonas (UFAM), capitaneadas pela UFPR. E dos Estados Unidos, a Emory University e a Florida State University, todas com vasta experiência em violência de gênero, saúde, justiça e políticas públicas.
Trata-se de uma ferramenta que permite às mulheres avaliar sua situação com privacidade, receber informações confiáveis e encontrar apoio de forma segura, ajudando-as a tomar decisões mais conscientes sobre sua própria segurança e destino.

“Neste percurso, foram ouvidas mais de 130 pessoas, entre entrevistas e grupos focais, mulheres e profissionais que fizeram várias sugestões a partir da versão 1.0 do app. Este ano, lançamos o 2.0, já melhorado e refinado, com base em todas as sugestões”, explica o idealizador e coordenador do projeto, professor Marcos Claudio Signorelli, da UFPR. O aplicativo está na fase de testagem, que se chama ‘Avaliação de Usabilidade’, e consiste em acompanhar 500 mulheres de todo o Brasil que farão parte da pesquisa.
Há apenas dois requisitos para participar: ser maior de 18 anos e morar no Brasil. O perfil é bem amplo, podendo ser jovem, adulta ou idosa, de qualquer classe social e econômica; indígena, quilombola ou Pessoa com Deficiência (PCD); casadas, divorciadas ou solteiras; mulheres trans também podem participar.
Quem se inscrever vai usar a plataforma ao longo de seis meses, pois trata-se de um estudo longitudinal. A mulher acessa, responde alguns questionários em que se auto-avalia, por exemplo, sobre a saúde mental, tipos de violência como física, psicológica, assédio ou patrimonial, e o risco de feminicídio. Assim, ela obtém um resultado através de um gráfico com as cores verde, amarelo, vermelho e laranja, que remete ao velocímetro. Os pesquisadores o chamam de ‘violentômetro’.
“A partir dessa auto-avaliação, ela consegue definir um plano de segurança pessoal. O ‘Eu Decido’ ajuda a se preparar para sair de casa emergencialmente, já deixando uma mochila preparada, e onde ir sozinha ou com crianças. Também a prepara para definir a quem ligar no meio da noite ou ir até um equipamento público de Saúde ou Assistência Social, delegacias de polícias, hospitais de referência em violência mais próximos dela”, complementa Signorelli.
Acessibilidade
A plataforma dispõe ainda de um mapa de cada cidade brasileira com os serviços da rede de apoio, além de um telefone clicável, caso a mulher quiser, e puder, marcar um horário para uma consulta ou pedir informação, uma opção a mais além dos canais oficiais. São quase 200 mil estabelecimentos marcados no aplicativo. Basta autorizar o compartilhamento da sua localização e navegar pelo mapa.
E para aumentar a acessibilidade e amplitude do projeto, há audiodescrição para não videntes, com textos em português, espanhol ou inglês, numa linguagem acessível e acolhedora para incluir mulheres imigrantes que estejam em situação de vulnerabilidade para a violência de gênero.

De acordo com o coordenador do projeto, a ideia é que a mulher decida o que fazer, sem pressão. Deve partir dela sentir se quer procurar ajuda profissional. Outro aspecto importante a ser destacado é que não é obrigatório baixar o aplicativo. Se quiser só olhar e interagir com a versão web, para não deixar nada salvo no celular, é possível acessar a versão que é uma página da internet.
Todos os detalhes do aplicativo foram pensados a partir da experiência de cada um dos pesquisadores com o tema da violência contra a mulher, mesmo de forma transversal ou multidisciplinar, durante as trajetórias na universidade. O próprio Signorelli fez uma pesquisa etnográfica em uma UBS em Matinhos, cidade do litoral do Paraná. Ao entender o problema da violência de gênero como um caso de saúde pública, e não de segurança como muitos ainda insistem em abordar, ele pode aprofundar seus estudos e participar de várias ações e iniciativas que contemplavam a questão.
“Trabalhei muito em parceria com a rede intersetorial, promovendo capacitações, cursos, oficinas para profissionais da rede, tanto da área da Saúde quanto da Assistência Social, da Justiça, em todos os municípios da região do litoral do Paraná. Em 2017, fui fazer esse pós-doutorado na Austrália, na Universidade de Melbourne, para me reciclar, capacitar e conhecer outras realidades”, recorda o professor.
Foi a partir desta experiência que ele teve contato com a proposta do aplicativo, que já estava acontecendo em vários países. “Pensei: vamos trazer essa proposta para o Brasil”, afirma. A própria criadora do projeto, a professora Nancy Glass, da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, apoiou a versão brasileira desde o início.
Mulheres reais
A vice-coordenadora do projeto Eu Decido, pós-doutoranda pela UFPR, Acácia M. Pereira de Lima, atua na Saúde Coletiva há cerca de duas décadas. Assistente social de formação, iniciou sua trajetória científica ainda na graduação e, desde então, desenvolve pesquisas voltadas à epidemiologia social e crítica, à avaliação de intervenções em saúde e às desigualdades sociais, articulando abordagens quantitativas e qualitativas para compreender problemas complexos de saúde pública.

“A temática de violência aparece no meu mestrado, quando tive uma aproximação maior ao definir como população de estudo as mulheres trabalhadoras do sexo (MTS), focando no uso da profilaxia após exposição ao HIV e episódios de violência sexual a partir de um estudo de abrangência nacional, com 4.188 MTS, coordenado pela Fiocruz”, diz Acácia. Nos últimos três anos, ela viveu no Paraná, onde trabalhou no Departamento de Saúde Coletiva, ao qual está vinculada até o momento no segundo pós-doutorado.
O grande desafio do projeto nesta etapa de teste do aplicativo, segundo a vice-coordenadora, é ampliar a usabilidade para mulheres de diferentes perfis, principalmente em áreas mais remotas, com barreiras de acesso, mulheres que comumente não são contempladas nesses processos.
“Ainda produzimos muito conhecimento a partir de referenciais centrados no Norte Global. Quando falamos em violência de gênero, muitas vezes partimos da ideia de uma mulher universal, geralmente branca e com maior escolaridade, o que invisibiliza outras realidades”, esclarece Acácia.
Por meio de uma abordagem transversal e multidisciplinar, o objetivo é levar a tecnologia para mulheres reais e que respondem a esses níveis alarmantes de violência, ou apresentam uma prevalência muito maior de violência, considerando diferentes marcadores sociais, como raça, território, deficiência, orientação sexual e identidade de gênero.
“A ideia é chegar a mulheres em locais mais remotos, que também são vítimas de violência. A gente pensa nas mulheres quilombolas, indígenas, sejam elas em aldeias urbanas ou rurais, ou aldeias mais tradicionais, as ribeirinhas, com deficiência e as mulheres pretas, especialmente”, acrescenta a pesquisadora.
Após a fase de escuta ativa e observação, a inovação da tecnologia é ser formatada num contexto de ameaça e ocorrência de feminicídio, onde apenas uma a cada sete mulheres que sofrem violência procura um serviço de saúde. E mais: dados do IBGE também reforçam o aumento do uso ampliado de smartphones e demais tecnologias pela população.
“Além de oferecer ferramentas para o planejamento de segurança, buscamos ampliar o conhecimento das mulheres sobre a rede de proteção e os serviços disponíveis. O ‘Eu Decido’ foi desenvolvido com base nos princípios da autonomia, do sigilo e da confidencialidade, reduzindo barreiras como o medo do julgamento e fortalecendo o acesso à rede intersetorial de enfrentamento à violência”, enfatiza Acácia.

Diferentemente de abordagens centradas exclusivamente na mudança de comportamento individual, o aplicativo integra estratégias de reconhecimento da violência, planejamento de segurança e fortalecimento da autonomia, preparando a mulher para buscar ajuda quando considerar que esse é o momento mais seguro.
Toda a formatação do projeto que resultou na versão 2.0 do app ‘Eu Decido’ teve a participação de um Comitê Consultivo, composto por representantes de diferentes regiões do país. A maioria é de mulheres que representam tanto a esfera acadêmica, como movimentos sociais, profissionais da rede de Saúde, gestoras e pessoas que possam influenciar na tomada de decisão dentro desse contexto.
“O Comitê Consultivo nos apoia no aprimoramento científico e estratégico do projeto, contribuindo para que a plataforma seja disponibilizada ao final da pesquisa e gere evidências capazes de subsidiar sua incorporação às políticas públicas de enfrentamento à violência contra as mulheres”, adianta a pesquisadora.
Além de orientar e instrumentalizar as mulheres em vulnerabilidade, o aplicativo também irá subsidiar gestores e servidores da Saúde na elaboração de políticas públicas para enfrentar este cenário.
Comunicação da ciência
Mas como fazer o aplicativo ‘Eu Decido’ chegar a mulheres de todas as regiões do país?
É aqui que entra um diferencial do projeto de pesquisa. Ao entender que a divulgação de um estudo requer a expertise de um profissional habilitado na área, a coordenação do projeto definiu que toda a estratégia de comunicação seria feita com a ajuda de jornalistas. Assim, o perfil escolhido teria que ter experiência na área da Saúde.
Assim, Aline de Oliveira Gonçalves, jornalista por formação e atualmente pós-doutoranda em Saúde Coletiva pela UFPR, entra no projeto, trazendo na bagagem a pesquisa de doutorado sobre violência obstétrica, realizada na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus Curitiba.
“Ter a participação de jornalistas é justamente para vencer os desafios dessa etapa do projeto, que é angariar a participação de muitas mulheres, centenas de mulheres na testagem da plataforma. Neste contexto, estamos construindo juntos as estratégias com uma equipe multidisciplinar para sensibilizar as mulheres a participarem”, explica Aline.

Junto com outras duas jornalistas, Jéssica Guanabara e Carolina Barreto, todas as informações estão sendo disponibilizadas em várias mídias e com conteúdos em formatos diversos, especialmente para as redes sociais, sempre levando em consideração o território e aspectos linguísticos de cada região.
O grupo de comunicadores já desenvolveu produtos como sumários executivos em vários formatos, um mais extenso para enviar a outros pesquisadores e núcleos de pesquisa, além de se valer da comunicação institucional, através de assessoria de imprensa. Contudo, a própria plataforma disponibiliza muitas informações que podem ser acessadas na internet ou no próprio aplicativo.
“A gente tem visto que consegue sensibilizar e conquistar até a participação de outros pesquisadores, que têm algum envolvimento com os nossos processos de pesquisa. Eles se identificam, têm disponibilidade para ouvir e acabam colaborando”, acrescenta a jornalista.
Houve uma atenção especial para ‘traduzir’ os termos em português, a partir da língua inglesa. Por exemplo, usa-se bastante o termo ‘violência por parceiro íntimo’, que não é tão comum no Brasil. “Foi necessário fazer esses recortes, digamos, na tradução, tanto da linguagem científica para a linguagem um pouco mais coloquial, como também cuidar com essas expressões que vêm de línguas estrangeiras do inglês, principalmente”, esclarece Aline. Até porque, na mídia brasileira é mais recorrente usar violência doméstica.

Nesta etapa, a ideia é sensibilizar e buscar parcerias para dar maior visibilidade ao projeto, seja com instituições de ensino superior no país, em eventos relacionados ao tema da violência contra a mulher, como congressos e encontros, e aproveitar datas como 8 de março, Dia Internacional da Mulher.
“A gente usa esses momentos para divulgar o projeto e angariar novas participantes, além de resultar em divulgações, de certa forma, espontâneas, o que aumenta o acesso à plataforma e a participação nos questionários”, afirma a jornalista.
Por fim, vamos recapitular: se você é mulher, tem mais de 18 anos e vive no Brasil, inclusive estrangeiras e mulheres trans, o aplicativo ‘Eu Decido’ está sendo testado para informar e conscientizar sobre as forma de violência de gênero e dar dicas de como romper com o ciclo de violência. Todas podem participar, sem distinção!
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Texto: Silvia Calciolari
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de áudio: Maria Eduarda Tenório
Arte: Lorena Mendonça
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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