Onde antes muitos viam apenas mato, hoje nasce ciência

A ilustração mostra estudantes participando de atividades de um clube de ciências em ambientes interno e externo, realizando observações em laboratório, cultivando mudas e acompanhando o desenvolvimento de plantas em uma horta experimental. Cercada por elementos gráficos que remetem à natureza, a cena destaca a integração entre investigação científica, educação ambiental e aprendizagem prática.
Clubistas transformam o Horto Municipal de Vera Cruz do Oeste em espaço de pesquisa, descobertas e educação ambiental

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Quem passa pelo Horto Municipal José Januário Pereira, de Vera Cruz do Oeste, talvez veja apenas árvores, plantas e um espaço verde no meio da cidade. Para os clubistas do Mentes Curiosas, no entanto, o local se tornou espaço de investigação científica, onde surgem perguntas, descobertas e ideias voltadas à preservação ambiental da cidade.

O clube de ciências na Escola Estadual Vital Brasil, vinculado à Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), nasceu justamente com essa proposta: mostrar que a ciência não acontece só nos livros ou dentro do laboratório da escola. Ela também aparece quando alguém observa um problema da cidade e decide investigar o que pode ser feito para transformá-lo. Foi assim que surgiu a pergunta que deu início ao projeto: 

“E se a gente olhasse mais para o nosso Horto?”

A escolha do local não foi por acaso. Segundo a professora Rosineia Saragoza Costa Silva, responsável pelo Clube, o Horto reúne uma grande diversidade de fauna e flora, mas ainda é pouco conhecido até mesmo pelos moradores de Vera Cruz do Oeste. Transformá-lo em espaço de pesquisa foi também uma forma de aproximar os estudantes de um patrimônio ambiental existente no próprio município.

A imagem mostra um grupo de estudantes caminhando em uma rua durante um desfile, segurando uma faixa de identificação do clube de ciências da escola. Ao centro, a faixa traz o nome "Colégio Estadual Vital Brasil – Clube de Ciências Mentes Curiosas" e o slogan "Pequenas mentes, grandes descobertas". Os participantes usam camisetas verdes, em sua maioria, e caminham em formação, transmitindo um clima de integração e entusiasmo. Ao fundo, há casas, postes de iluminação, árvores e um céu com nuvens ao entardecer, compondo o cenário urbano. A fotografia destaca a participação dos estudantes em uma atividade coletiva, representando o clube de ciências e incentivando a valorização da educação, da pesquisa e da divulgação científica.
Clubistas do ‘Mentes Curiosas’ transformaram o Horto Municipal de Vera Cruz do Oeste (Foto/Arquivo pessoal)

O grupo de 32 alunos iniciou realizando levantamentos sobre o uso da água, geração de resíduos, impacto das atividades agrícolas da região e a relação entre as ações humanas e a conservação da natureza. E, quanto mais pesquisavam, mais perguntas apareciam:

  • ‘Como proteger melhor as nascentes? ‘
  • ‘Quais impactos a atividade agrícola pode causar no ambiente? ’
  • ‘Como aproximar a comunidade para ajudar na preservação do Horto? ‘

Essas dúvidas acabaram virando combustível para novas pesquisas e ações do clube. A partir delas, os estudantes passaram a vivenciar a investigação científica na prática, percebendo que os desafios ambientais do cotidiano também podem ser pesquisados e modificados por meio da ciência.

Um horto que virou espaço de aprendizagem 

Os hortos geralmente são espaços destinados ao cultivo, preservação e estudo de plantas ou espécies vegetais de uma região. Além de contribuir para a conservação ambiental, esses locais podem funcionar como áreas de pesquisa, educação ambiental e aproximação da comunidade com a natureza, servindo até de espaços de lazer em algumas cidades.

Em Vera Cruz do Oeste, porém, o espaço ganhou um significado maior. Passou a funcionar como um ambiente de circulação de ciência, onde os clubistas observam a biodiversidade local, registram informações do que observam e buscam compreender melhor a relação entre o meio ambiente e a população.

Uma nova trilha ecológica 

Entre todas as ações desenvolvidas pelo clube durante o projeto, uma das principais é a criação de uma trilha ecológica dentro do Horto. Para muito além de um caminho no meio das árvores, a proposta é fazer do percurso um ambiente de aprendizado, capaz de aproximar estudantes, escolas e moradores da biodiversidade local para que todos se envolvam e entendam a importância da preservação ambiental.

Os próprios clubistas participaram do planejamento da trilha: ajudaram a identificar espécies vegetais e estudam formas de tornar o espaço mais acessível e informativo. Na prática, os estudantes pesquisam, observam, registram dados e discutem soluções, ou seja, participam diretamente da construção e das decisões do projeto. 

A imagem retrata uma trilha em meio a uma área de mata, cercada por árvores de grande porte e vegetação densa. O caminho, coberto por folhas secas, segue entre a floresta formando um corredor natural sombreado pela copa das árvores. A cena transmite a preservação do ambiente, destacando um espaço propício para atividades de educação ambiental, observação da biodiversidade e contato direto com a natureza.
Trilha em meio à vegetação do Horto Municipal de Vera Cruz do Oeste (Foto/Mentes Curiosas)

Segundo a professora Rosineia, todos os trabalhos do clube são voltados para o processo científico. “Os trabalhos são de investigação científica. Eles já identificaram uma trilha ecológica e, até o momento, catalogaram cerca de 40 espécies de vegetais, incluindo erva-mate e pau-brasil”, explica. Outro ponto de atuação é na água e nascentes. “Trabalhamos ações de preservação [de nascentes] e realizamos estudos sobre a qualidade da água. Assim, os estudantes têm aulas em ambiente aberto, em meio à vegetação. Eles também participam do projeto da Itaipu para conservar recursos hídricos”. Atualmente, esse programa é chamado Itaipu Mais que Energia e se estende por quase 30 municípios da região da bacia do Rio Paraná, na qual Vera Cruz do Oeste está inserida.

Da sala de aula para os desafios da cidade

No clube Mentes Curiosas, os alunos investigam problemas reais e desenvolvem pesquisas conectadas ao território onde vivem, sem estarem limitados a conteúdos prontos das aulas teóricas. Esse contato direto com problemas reais do local onde vivem torna o aprendizado mais significativo e mostra que fazer ciência também é buscar respostas para melhorar o lugar onde estão.

Para Rosineia, a proposta também busca resgatar a relação dos jovens com a natureza em um cotidiano cada vez mais mediado pelas telas. “Trazer os alunos para a realidade do Horto e para o contato com a natureza cria novos desafios. A vivência na prática reforça a teoria”, resume. 


As atividades práticas incluem realizar análises da qualidade da água, estudar espécies vegetais e desenvolver ações de educação ambiental voltadas para a população. Assim a pesquisa deixa de ser apenas atividade escolar e gera conhecimento e também impacto na realidade deles e de outras pessoas.


Para o aluno Leomar Lindolfo Lehnhardt, participar do clube mudou completamente a forma como ele enxerga a ciência. “A ciência nunca foi o meu forte, mas com o clube eu criei uma paixão muito forte. A vivência no horto foi muito importante para descobrir coisas como plantar árvores, características de raízes e várias outras coisas. Gosto demais de participar porque sempre aprendo coisas novas”, conta o clubista.

Impactou as famílias e chegou à TV 

O trabalho dos clubistas ultrapassou a escola e chegou ao programa Plug, da RPC TV, afiliada Globo no Paraná, quando retratou as atrações da cidade de Vera Cruz do Oeste. Além de mostrar o Horto, as mudas cultivadas alí e o espaço onde os alunos iriam construir um jardim sensorial, a equipe entrevistou João de Jesus Domingos, funcionário do Horto, que apresentou a importância da área para a preservação ambiental e para a produção de mudas distribuídas gratuitamente à comunidade. 

A imagem mostra um jardim sensorial organizado em canteiros elevados, divididos por placas que identificam os diferentes sentidos, como visão, olfato e tato. Cercado por vegetação e árvores, o espaço reúne diversas espécies de plantas destinadas a estimular experiências sensoriais, promovendo a educação ambiental, o contato com a natureza e a aprendizagem de forma interativa.
Um jardim sensorial com placas indicando as mudas que estimulam o sentido da visão, feito pelos clubistas no Horto de Vera Cruz do Oeste (Foto/MentesCuriosas)

A reportagem também ouviu duas mães de alunas clubistas, relatando mudanças no comportamento das filhas desde que frequentam o Mentes Curiosas. Ivone Miotto, mãe das gêmeas Alice e Yasmin, contou que a experiência fortaleceu ainda mais o cuidado das filhas com o meio ambiente e despertou um novo olhar para a natureza. “Sempre incentivei a cuidar da natureza e colocar o lixo na bolsa para descartar em casa. Acho muito importante porque o mundo depende de novas visões, que a juventude está trazendo”, defendeu. Já Cleci Villela, mãe de Maria Eduarda, lembrou que a filha tinha medo de insetos e de tocar em plantas antes de participar do projeto. “Hoje ela consegue encostar em uma borboleta. Isso é uma superação para ela e para nós também”, relatou. 

A ilustração apresenta um modelo de jardim sensorial em formato de mandala, dividido em cinco setores dedicados aos sentidos — olfato, tato, visão, paladar e audição. Cada área reúne sugestões de plantas e elementos naturais que estimulam diferentes percepções sensoriais, promovendo a educação ambiental, o contato com a natureza e a aprendizagem por meio da exploração dos sentidos.

Para a professora Rosineia, o reconhecimento da comunidade e das famílias representa uma das principais conquistas do projeto. “Quando eles vêm e os olhinhos brilham, isso é uma satisfação pessoal que não tem explicação”, afirma orgulhosa. 

Ao investigar o próprio território, os estudantes do Mentes Curiosas mostram que a ciência pode nascer de uma simples pergunta e transformar a realidade ao redor. Aos poucos, o Horto Municipal deixou de ser apenas uma área verde para se tornar um espaço de pesquisa, aprendizados e aproximação da escola com a comunidade. Mudam comportamentos e ensinam até os familiares. Para a professora, esse é justamente o objetivo do trabalho. “O clube de ciências tem o intuito de formar novos cientistas protagonistas dentro da educação ambiental, buscando soluções para os impactos ambientais que vivenciamos no dia a dia”.

As ações dos clubes de ciências em seus territórios já foram retratados aqui no C2 Conexão Ciência em reportagens sobre a Cultura do Bicho da Seda em Nova Esperança, os óleos essenciais e Aromaterapia em Inajá e o clube Cultura Local que cria podcasts a partir de narrativas de sua comunidade, com ainda um podcast sobre o mesmo tema, o Conexão Memória.

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Texto:
Victor Alves
Revisão de texto: Ana Elisa Frings e Ana Paula Machado Velho
Arte: Carlisle Ferrari
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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