Ciência sem jaleco nas histórias da comunidade

Na ilustração da capa, seis cientistas de desenhos animados famosos foram redesenhados. Eles encontram-se de pé, olhando para um microfone de gravação de podcast e expressam dúvida sobre o que é aquilo. Entre os personagens, um menino baixinho de cabelo laranja e luvas roxas, um homem com grandes olhos e cabelo grisalho desgrenhado e outro muito parecido mas de cabelo castanho, todos à esquerda. À direita, um homem alto careca de cachecol listrado - o único dos seis que está sem jaleco - outro com queixo e nariz alongado e outro menino com franjinha loira. Se os cientistas de desenho animado se deparassem com um ambiente científico real, eles entenderiam o que está acontecendo?
Investigando histórias da comunidade, um clube revela que a ciência pode acontecer em lugares e de formas longe do senso comum

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A cena começava assim: uma menina de vestido rosa, com seus cabelos loiros presos em maria-chiquinhas, saltitava por um corredor. Serelepe, ela atravessava uma porta com avisos de “não entre” e, dentro do quarto, entrava em uma passagem secreta. O cenário mudava rapidamente para um laboratório ultra tecnológico, as paredes metálicas e equipamentos de última geração, computadores, robôs, raios lasers, cobaias e explosões nucleares.  

Essa é a descrição da cena de abertura de um desenho dos anos 1990, cujo protagonista vive em constantes brigas com sua irmã, essa que invade seu laboratório secreto. O personagem de oito anos de idade pode não ser conhecido pelas crianças de hoje – foi exibido em TV aberta e fez mais sucesso no Brasil nos anos 2000 – mas é um exemplo de uma imagem tradicional e estereotipada de cientista, de espaço de trabalho e de modo de fazer ciência que ainda perdura no imaginário popular.  

Um estudo publicado em 2024 indicou que a forma como os cientistas são retratados nos desenhos animados e na mídia em geral difere da realidade. A imagem tradicional é de um homem – ou menino – de jaleco e pele branca, com inteligência fora do comum, e por vezes com personalidade peculiar ou socialmente isolado. Ele trabalha em um laboratório, onde passa os dias conduzindo experimentos mirabolantes e fazendo descobertas totalmente inesperadas. 

Longe desse estereótipo, o Clube de Ciências ‘Cultura Local: histórias de vida e construção de podcasts’ realiza suas pesquisas em um modesto espaço dividido com caixas de arquivos, na Escola Hália Terezinha Gruber, em Ponta Grossa. Vinculado à Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e parte da Rede de Clubes Paraná Faz Ciência, o Clube dispõe de uma mesa, um computador, microfones e outros equipamentos de som.

Sem jalecos, sem vidrarias, sem experimentos mirabolantes. Os estudantes trabalham divididos em grupo, usam uniforme escolar ou a camiseta do clube. Eles estão no cantinho mais silencioso da escola, preenchido por muitas ideias, debates e pesquisas.

Em uma foto, três clubistas estão sentados ao redor de uma mesa com microfones, de costas para a câmera, olhando para um notebook. Ao fundo é possível observar uma janela e na lateral esquerda, caixas com arquivos.
O pequeno espaço onde nascem os podcasts do clube (Foto/Talula Boldt)

O Cultura Local trabalha com a criação de podcasts a partir de narrativas de sua comunidade. Funciona assim: no ano passado, os clubistas coletaram relatos de seus pais, avós, amigos e outras pessoas da comunidade. Os temas são diversos, como adoção tardia, fé, a mulher como provedora da família, entre outros. Essas histórias viraram podcasts. Nesses programas, o objetivo é registrar e valorizar as histórias e a cultura da comunidade. Embora os podcasts sejam um dos principais produtos do clube, as pesquisas também dão origem a conteúdos para redes sociais e histórias em quadrinhos.

Nessa jornada pelas raízes do coletivo local, eles são acompanhados por Luiz Câmara Cascudo — ou, como o chamam os clubistas, Mestre Cascudo. Considerado um dos maiores estudiosos da cultura popular brasileira, Cascudo dedicou décadas à pesquisa e ao registro de tradições, narrativas e práticas culturais que ajudam a compreender a formação da identidade do país. Suas obras servem de referência para os podcasts e pesquisas desenvolvidos pelo clube, inspirando investigações sobre memórias, histórias e manifestações culturais da própria comunidade.

Na lateral esquerda e direita da foto é possível observar os clubistas, sentados ao redor de uma mesa, eles estão realizando uma leitura com folhas impressas. Ao centro da foto, a professora Simone, também sentada e lendo. a cena ocorre em uma sala de aula.
Clubistas durante leitura sobre Mestre Cascudo (Foto/Talula Boldt)

DA ESCUTA À INVESTIGAÇÃO 


Toda comunidade guarda histórias. Algumas são contadas à mesa do café. Outras aparecem em conversas de família, lembranças de infância ou relatos compartilhados entre vizinhos. Durante grande parte do século XX, ouvir vozes contando histórias, transmitindo notícias e compartilhando conhecimento fazia parte da rotina de milhões de brasileiros. Um aparelho que ocupava espaço sobre a geladeira, ou acompanhava viagens de ônibus, ou  transmitia partidas de futebol, foi indispensável para a comunicação. Hoje, as vozes que antes chegavam pelas ondas do rádio agora atravessam aplicativos, plataformas de streaming e redes digitais. O radinho de pilha deu lugar ao smartphone. A programação fixa cedeu espaço aos conteúdos sob demanda. Ainda assim, algo familiar permanece nesse gesto de ouvir alguém contar histórias, compartilhar notícias ou explicar o mundo do outro lado do fone. A tecnologia mudou, mas a prática de ouvir narrações continua viva.

Os podcasts tornaram-se uma das formas contemporâneas de compartilhar conhecimento e relatos. Foi pensando a partir desse canal via aplicativos de celular que os estudantes do Cultura Local transformam suas investigações em episódios sonoros, e essas narrativas em objeto de pesquisa científica.

A opção pelo formato não surgiu por acaso. A professora Simone Carvalho do Prado dos Santos, doutora em Letras pela Universidade Estadual de Maringá e coordenadora do Clube em Ponta Grossa, conta que a ideia de projeto para o Clube veio da união entre sua pesquisa de mestrado e a demanda da própria disciplina escolar. “Trabalhei com identidade e letramento na minha tese, e a opção de usar podcast no Clube de Ciências veio da prática prevista na disciplina de linguagens, que pede para que o trabalho seja na área de tecnologia. Assim, teríamos uma ampla divulgação das pesquisas e ainda seria uma forma de interessar mais os clubistas”, explica.

A escolha do podcast também dialoga com uma tradição antiga de circulação do conhecimento por meio da comunicação sonora. E a divulgação científica já estava lá. Quando a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro entrou no ar, em 1923, seus idealizadores defendiam que o novo meio poderia ampliar o acesso ao conhecimento. O médico, antropólogo e educador Edgar Roquette-Pinto defendia o rádio como uma “escola dos que não têm escola”. Em uma época de acesso muito restrito à educação formal, as ondas radiofônicas transportavam não apenas música e entretenimento, mas também conferências, programas educativos e conteúdos científicos. Mais de um século depois, porém com tecnologia diferente, a mesma tentativa de aproximar diferentes públicos da ciência persiste.

O infográfico detalha o processo de criação dos podcast do Clube Cultura Local. A imagem está dividida em ilustrações à esquerda e texto à direita. As ilustrações mostram o processo, da entrevista com uma pessoa e leitura de referências, passando por escolha do ponto de vista e escrita do roteiro, até gravação, edição e compartilhamento. Por entre as ilustrações passa um fio, que inicia no microfone na primeira imagem até o fone de ouvido, na última.

É justamente a palavra “investigação” que costuma despertar uma dúvida entre quem conhece o clube pela primeira vez: onde está a ciência nesse processo?

O conceito do fazer científico a partir de podcasts e histórias contadas foi sendo compreendida aos poucos pelos estudantes. Afinal, produzir um podcast não significa apenas ligar um microfone e começar a falar. Antes da gravação, existe um processo de pesquisa que envolve perguntas, objetivos, métodos de coleta de informações, análise dos relatos e organização dos dados obtidos.

Sobre essa descoberta, a clubista Nicole dos Santos, de 13 anos, conta que também chegou ao projeto com expectativas diferentes. “Bom, eu imaginava uma coisa completamente diferente. Imaginava a famosa ciência do jaleco branco, que a gente ia ter tubos de ensaios, ia fazer cálculos difíceis e coisas do tipo. Chegando aqui, vi que era bem diferente e, finalmente, depois de muito tempo, entendi que ciência não é só isso. Ciência é uma coisa que tem a nossa famosa frase, que a gente sempre fala: para ter ciência, precisa de uma pergunta e de um método de pesquisa”.

O relato de Nicole sintetiza uma transformação que acontece ao longo do percurso dos clubistas. A ciência não é um conjunto de equipamentos ou procedimentos espetaculares, mas sim uma forma de produzir conhecimento. O efeito vai além do registrar memórias da comunidade; os estudantes aprendem a formular perguntas, a buscar evidências e a produzir conhecimento a partir das narrativas que encontram.

As perguntas feitas dentro daquela pequena sala já ultrapassaram os muros da escola e os
resultados desse processo já começam a ganhar novos públicos. Recentemente, os clubistas foram selecionados para participar do 6º Vale da Ciência, uma Feira de Ciências em Jandaia do Sul, promovida pela Universidade Federal do Paraná. Foram apresentados quatro trabalhos e os clubistas receberam o primeiro prêmio na categoria Ensino Fundamental I. 

A circulação dessas pesquisas não acontece apenas em feiras e eventos científicos, o conhecimento produzido pelo clube também chega ao público por meio do podcast Camaradas do Cascudo, que teve seu segundo episódio lançado recentemente. Os programas estão disponíveis gratuitamente na plataforma BandLab e ampliam o alcance das histórias, memórias e reflexões construídas pelos estudantes. 

A foto mostra o canto de uma sala de aula, ao centro duas carteiras com notebook e equipamentos de som. Ao redor, quatro pessoas, duas delas sentadas ouvindo atentamente as clubistas, que estão de pé e gestualizam, explicando algo.
Clubistas durante apresentação no Vale da Ciência (Foto/Talula Boldt)

De certa forma, esse retorno ao público fecha o ciclo iniciado pelas entrevistas com a comunidade. As histórias compartilhadas por familiares, vizinhos e moradores transformam-se em pesquisa, geram conhecimento, são apresentadas em eventos científicos e voltam à sociedade em forma de podcast.

Os clubistas estão em um espaço fechado, bem iluminado, em uma fila atrás, de pé, e outra na frente, de joelhos ou cócoras. A maioria sorri para a foto, todos olham para a câmera.
Jovens cientistas do Clube Cultura Local (Foto/Talula Boldt)

Entre o laboratório secreto dos desenhos animados e a pequena sala ocupada pelos estudantes existe uma diferença importante: a ciência nem sempre nasce de explosões, invenções revolucionárias ou máquinas futuristas. Nem sempre é feita por homens brancos e excêntricos trabalhando sozinhos em um laboratório. Às vezes, ela começa com uma pergunta, uma entrevista e a disposição para ouvir.

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Texto:
Talula Boldt e Marilaine Martins
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Beatriz Sayuri
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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