Sericicultura: tradição e ciência no campo

Colagem ilustrada combina elementos naturais e humanos em tons suaves. Na parte superior, folhas verdes sustentam lagartas brancas alongadas, enquanto à esquerda aparecem casulos ovais claros. À direita, uma lagarta maior se destaca entre formas orgânicas. O fundo alterna entre textura rosada e céu azul com nuvens. Na parte inferior, duas pessoas trabalham manualmente com uma grande quantidade de casulos sobre uma superfície ampla. A composição mistura fotografia e ilustração, com contraste de cores e texturas.
De saberes milenares aos desafios modernos, a seda sustenta e transforma o campo a partir de projetos de pesquisa nas universidades paranaenses

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A criação do bicho-da-seda para produção de fios têxteis, conhecida como sericicultura, é uma atividade que combina tradição agrícola, conhecimento científico e relevância socioeconômica. Embora tenha origem no continente asiático, essa prática milenar encontrou no Brasil, especialmente na região sul, um ambiente propício para seu desenvolvimento, consolidando-se como uma importante alternativa de renda para pequenos produtores rurais.

O que muitos não imaginam é que, por trás de um tecido leve e sofisticado, existe um processo biológico complexo e um sistema produtivo minucioso, no qual milhares de metros de fio são produzidos por um único inseto. Um detalhe que revela como ciência e natureza se entrelaçam de forma surpreendente no cotidiano do campo.

O ciclo de produção da seda

O ciclo de produção da seda, realizado por famílias rurais que praticam a sericicultura, é um processo contínuo que envolve cuidado diário e divisão de tarefas ao longo de várias etapas. 

Tudo começa com a chegada dos ovos do bicho-da-seda (larva da mariposa Bombyx mori), que garantem qualidade e sanidade para a criação. Após a eclosão, as pequenas lagartas passam a ser alimentadas exclusivamente com folhas frescas de amoreira (Morus spp.), exigindo atenção constante, limpeza do ambiente e controle de temperatura durante cerca de três a quatro semanas.

Quando atingem seu ápice do desenvolvimento, as lagartas param de se alimentar e iniciam a formação dos casulos, envolvendo-se em um fio contínuo de seda ao longo de poucos dias. Esse fio é produzido nas glândulas sericígenas, que ocupam grande parte do corpo, e onde os nutrientes das folhas de amoreira são convertidos em proteínas. O material sai, então, em estado líquido e, ao entrar em contato com o ar, se solidifica, formando o filamento com o qual a lagarta se enrola. Esses casulos são, então, colhidos pelas famílias, preservando a integridade do fio, e encaminhados para o processamento, onde passam por processos de aquecimento e desenrolamento. 

A imagem apresenta um infográfico intitulado “Ciclo da produção de seda”, com fundo claro e textura semelhante a tecido. No topo, há ovos amarelos do bicho-da-seda dispostos em bandejas. Setas indicam a sequência do processo: as lagartas pequenas se alimentam em folhas verdes, crescem e atingem o estágio final, tornando-se maiores e mais alongadas. Em seguida, ocorre a formação dos casulos brancos. Na parte inferior, mãos humanas aparecem realizando a colheita manual desses casulos, que depois são reunidos em caixas. O fluxo circular ilustra todo o ciclo produtivo da seda. Fonte: IDR Paraná

Na etapa seguinte, os fios são reunidos e transformados em um material resistente que será utilizado pela indústria têxtil, completando um ciclo produtivo que representa não apenas uma atividade econômica, mas também uma prática integrada ao cotidiano familiar, combinando conhecimento técnico, trabalho coletivo e relação direta com a natureza.

Brasil e Paraná na liderança

O Brasil é o maior produtor de seda do ocidente, com destaque para o estado do Paraná. A atividade foi introduzida no país no início do século XX e ganhou força a partir da imigração japonesa, que trouxe conhecimento técnico e impulsionou a cadeia produtiva, especialmente na região Norte do estado. 

A sericicultura local ainda apresenta uma característica marcante: sua forte ligação com a agricultura familiar. Pequenas propriedades concentram a produção, utilizando mão de obra familiar e integrando o cultivo da amoreira com a criação dos insetos, impactando na reorganização populacional em determinadas áreas, estimulando o desenvolvimento de comunidades agrícolas e cadeias produtivas locais.

Close de um bicho-da-seda sendo segurado por mãos com luvas enquanto se alimenta de uma folha verde de amoreira. Ao fundo, desfocado, aparece o rosto de uma pessoa observando o inseto, destacando o manejo cuidadoso na criação para produção de seda.
A lagarta que produz o fio da seda se alimenta das folhas frescas de amoreira (Foto/IDR-Paraná)

Segundo dados do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), a sericicultura é uma atividade estratégica para o estado, com forte inserção na agricultura de base familiar e ampla distribuição territorial. O Paraná se destaca como líder nacional na sericicultura, sendo responsável por cerca de 86% de toda a produção de seda do Brasil, seguido por São Paulo (10%) e Mato Grosso (4%). 

O fio de seda produzido no estado possui alto padrão de qualidade e é exportado para países como França, Itália, Japão, Índia e China. Em 2023, a sericicultura paranaense movimentou aproximadamente R$ 39,2 milhões, com a produção de 1,4 mil toneladas de casulos, segundo dados do Departamento de Economia Rural (Deral) do Paraná. 

Nesse cenário, o município de Nova Esperança, localizado no Noroeste do estado e reconhecido como a capital nacional da seda, lidera a produção, com 138,8 toneladas de casulos em uma área de 277,6 hectares. Ao todo, dos 399 municípios paranaenses, 153 desenvolvem atividades ligadas à sericicultura, evidenciando sua ampla presença e importância regional, segundo dados do IDR-Paraná

Impacto educacional

No campo educacional, a sericicultura também tem se mostrado uma ferramenta pedagógica relevante, especialmente no Clube de Ciências Conexão, da Escola do Campo Barão de Lucena, situada no Distrito de Barão de Lucena, município de Nova Esperança. 

Durante as atividades, os alunos identificaram que a criação do bicho-da-seda possibilita a integração prática de conteúdos de Biologia, Ecologia e até Química, ao permitir a observação direta do ciclo de vida do inseto e da formação dos casulos.

Três participantes de um projeto científico sobre sericicultura posam ao lado de um estande de apresentação. Um professor e dois estudantes, vestindo camisetas vermelhas do evento, estão em frente a um pôster intitulado “Do casulo à seda: agrotóxicos como vilões das famílias de sericicultores de Nova Esperança”. Sobre a mesa, há garrafas transparentes contendo casulos de bicho-da-seda, fios de seda enrolados, amostras do material produzido, um manual de criação do bicho-da-seda e peças artesanais feitas com fios de seda.
Com o trabalho “Do casulo à seda: agrotóxicos como vilões das famílias de sericicultura de Nova Esperança”, alunos e professor do clube Conexão debateram o tema em feiras científicas (Foto/Anna Julia Sbardelott)

Orientada pelo professor Gilvan Andrade e pela bolsista pedagógica Bruna Marques Duarte, a pesquisa investigou os impactos do uso de agrotóxicos na produção de seda na região de Nova Esperança. O estudo não apenas identificou os riscos e prejuízos associados ao uso inadequado de defensivos agrícolas, como também desenvolveu materiais educativos voltados à orientação e conscientização de produtores rurais, promovendo a adoção de práticas mais seguras e sustentáveis na sericicultura.

“A sericicultura faz parte da história e da identidade de Nova Esperança, município que já foi reconhecido como capital da seda no Paraná, um dos principais produtores no cenário mundial. No entanto, a redução da produção, associada à deriva de agrotóxicos1 que contaminam as folhas de amoreira e comprometem a qualidade dos casulos, têm trazido novos desafios aos produtores”, destaca a bolsista pedagógica Bruna Marques Duarte que acompanha os trabalhos do clube. Diante desse contexto, o clube Conexão tem buscado resgatar a importância histórica e cultural da atividade, e ao mesmo, promover a reflexão sobre os impactos dos agrotóxicos e a busca por soluções sustentáveis para preservar a sericicultura local.

Com o trabalho “Do casulo à seda: agrotóxicos como vilões das famílias de sericicultura de Nova Esperança”, os alunos Maria Helena Gozzer e João Henrique Teixeira apresentaram a pesquisa em feiras científicas pelo Paraná em 2025. NaFeira de Inovação das Ciências e Engenharias – FIciências 2025, realizada em setembro na cidade de Foz do Iguaçu, o clube garantiu a segunda colocação na categoria Júnior. Já na Feira de Cultura Científica Paraná Faz Ciência (FECCI), em novembro de 2025, os alunos também ficaram em segundo lugar na categoria que premiou Ciências Agrárias – Júnior. O trabalho premiado foi “A Sericicultura em Nova Esperança-PR: história, cultura e tradição do casulo de seda”.  

A sericicultura, investigada pelos alunos, mostrou como a pesquisa escolar pode transformar conhecimento em protagonismo juvenil. “A oportunidade de apresentar o trabalho e trocar experiências com projetos de outras regiões ampliou horizontes, fortaleceu a confiança dos estudantes e reforçou a escola pública como espaço de transformação social. A experiência dos alunos renovou o compromisso com a investigação científica, a inovação na educação e o incentivo ao protagonismo deles”, relatou o professor e orientador Gilvan Andrade.  

No ambiente do ensino superior, a cultura da seda também é destaque, com o projeto Seda Brasil, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O projeto de extensão universitária tem caráter tecnológico e produtivo, com transferência de conhecimento e apoio à cadeia produtiva da seda. Atua diretamente no fortalecimento e na valorização dessa cadeia produtiva. 

Em se tratando do Seda Brasil, ainda em 2025, pesquisadoras do Laboratório de Inovação e Tecnologia Cosmecêutica (Labitec), da UEL, desenvolveram um sérum facial a partir da fibroína, uma proteína extraída do casulo do bicho-da-seda. O produto apresentou resultados promissores como hidratante, contribuindo para o equilíbrio, a hidratação e a saúde da pele. O projeto já foi apresentado em detalhes aqui pelo Conexão Ciência – C².

Frasco de sérum facial com conta-gotas, colocado sobre diversos casulos brancos de bicho-da-seda, apoiados em um tronco de madeira. O rótulo do produto indica “Seda Brasil - Sérum Facial”.
Pesquisadoras da UEL desenvolvem sérum com proteína extraída de casulo do bicho-da-seda (Foto/divulgação Labtec – UEL)

Desafios e perspectivas 

A sericicultura é frequentemente considerada uma atividade de baixo impacto ambiental, especialmente quando comparada a fibras sintéticas derivadas do petróleo. O cultivo da amoreira pode ser integrado a sistemas agroecológicos, contribuindo para a conservação do solo e da biodiversidade.

Entretanto, o setor enfrenta desafios importantes, como a concorrência com materiais artificiais, a necessidade de modernização tecnológica e a deriva de agrotóxico, problema recorrente na produção de sericicultura no Paraná.

O uso inadequado de inseticidas pode contaminar as amoreiras, principal alimento das lagartas, comprometendo a produção de casulos, o que impacta em perdas econômicas aos produtores rurais.

A sericicultura representa um sistema complexo que articula ciência, economia e cultura. No Brasil, especialmente no Paraná, ela continua desempenhando papel estratégico no desenvolvimento rural. Diante das transformações do mercado e das demandas por sustentabilidade, a seda mantém-se como um símbolo da capacidade humana de transformar conhecimento biológico em produção e riqueza social.

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Texto:
Anna Julia Sbardelott
Revisão de texto: Ana Elisa Frings e Silvia Calciolari
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

Glossário

  1. Deriva de agrotóxico – termo técnico da agricultura para a contaminação indireta causada pela dispersão do agrotóxico, que pode vir com o vento de localidade próxima e pode matar as lagartas do bicho-da-seda, que são muito sensíveis. ↩︎

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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