Antes de aprender técnicas de reabilitação, eles aprendem nomes, histórias e preferências. Ficam conhecendo quem gosta de música, quem prefere pintar e quem gosta de contar histórias ou relembrar passagens da vida. No projeto FisioArte, da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) campus Jacarezinho, o primeiro passo da formação em Fisioterapia é criar vínculos.
Desenvolvido no Lar São Vicente de Paulo, em Jacarezinho, todas as quartas-feiras com cerca de 12 moradores, o projeto de extensão reúne estudantes e idosos em oficinas de artesanato que estimulam criatividade, convivência e troca de experiências. Em sintonia com o Dia dos Avós, celebrado em 26 de julho, o projeto mostra como a ciência e a extensão universitária podem contribuir para um envelhecimento mais ativo e humanizado.
A ideia é que antes de tratá-los como pacientes, os alunos dos anos iniciais da graduação aprendam primeiro a conhecê-los, escutá-los e, principalmente, construir vínculos que tornam o atendimento mais humanizado e eficaz em cada caso. O artesanato é apenas um ponto de partida.
“Pensei em criar o projeto, para que desde o primeiro ano da faculdade, os alunos pudessem se aproximar dos idosos, e antes de pacientes, os tivessem como amigos”, explica a coordenadora do FisioArte, Ana Carolina Ferreira Tsunoda Del Antonio. Havia muita dificuldade dos alunos compreenderem a real dimensão das limitações de cada idoso, “e quanto isso impactava na prática clínica deles. Então, criar um vínculo beneficia tanto os idosos, quanto os próprios alunos”, relata.

Ciência por trás do artesanato
“As oficinas escolhidas têm um fim terapêutico escondido por trás da simples técnica de artesanato”, expõe a coordenadora. Uma atividade de colagem, por exemplo, também estimula coordenação olho-mão1, concentração, percepção visual e outras habilidades psicomotoras. Entre os benefícios ao corpo e ao movimento, os ganhos estão em estimular a coordenação motora fina, movimento das mãos, força, amplitude articular, postura e habilidades como atenção, trabalho em equipe, paciência e capacidade de improvisar. No entanto, ela destaca que o principal objetivo das oficinas não é a evolução fisioterapêutica dos participantes, mas fortalecer vínculos.
Como os idosos já recebem acompanhamento clínico dos estudantes dos últimos anos da graduação, os encontros permitem que alunos dos primeiros períodos desenvolvam a escuta ativa, o acolhimento e a aproximação com os moradores. A criatividade é um dos fios condutores das ações.

Das tintas às cartas
As oficinas incluem pinturas, colagens, confecção de peças artesanais com objetos reaproveitados. Há ainda oficinas que incluem música e trabalhos de acordo com a época do ano, como Páscoa, Festa Junina e Natal. Mas talvez o dia mais aguardado seja o “Dia da Beleza”. A cada dois meses, os graduandos oferecem cuidados como pintar as unhas das moradoras e fazer a barba e o cabelo dos moradores, em mais um momento de cuidado também da autoestima.
Em outro momento, é a vez de reavivar memórias e emoções. Pelo relato da coordenadora, um dos dias mais especiais foi quando os idosos escreveram cartas, ou receberam ajuda, endereçadas às pessoas das quais sentiam saudade. “Muitas histórias bonitas saíram nesse momento”, relembra. Ao compartilhar lembranças e histórias de vida com os estudantes, os idosos encontram novas formas de expressar sentimentos e resgatar afetos.
Quando as oficinas são novas, também costumam despertar mais interesse. “Alguns idosos não têm interesse em participar das oficinas, por não se identificarem de cara com as atividades. Mas com essas pessoas, os alunos usam o tempo conversando, acolhendo e aos poucos vão inserindo os idosos nas atividades, até que eles acabam se tornando participantes, sem nem perceber”, diz a professora. “O acolhimento e a escuta ativa são formas de vincular idosos e alunos através da arteterapia.”
Quando o vínculo acontece
Essa proximidade também é compreendida pelos estudantes. “Desde o primeiro momento percebemos que não era apenas pintar e colar. Cada palavra trocada de forma gentil já transformava o humor dos idosos e do ambiente”, conta Beatriz Eland de Moraes, aluna de Fisioterapia e atuante no projeto. Para ela, uma das mudanças mais marcantes foi acompanhar idosos que tinham dificuldade de comunicação voltarem a tentar falar. “Alguns que mal conseguiam se comunicar começaram a balbuciar palavras. Muitos passaram a se expressar mais, seja pela fala, pelos gestos ou pelas expressões”, enfatiza Beatriz.
A convivência semanal transformou a relação entre universitários e moradores da instituição. Segundo a estudante, cada retorno é marcado por demonstrações de carinho. “Toda vez que voltamos somos recebidos com sorrisos e alegria. O ambiente ficou mais leve, com muitas risadas, histórias e trocas”, reforça. Essa experiência também modifica a formação dos futuros fisioterapeutas. “Estamos aprendendo a ter uma escuta cada vez mais ativa, com mais empatia e paciência. Cada um possui seu tempo e devemos respeitá-lo”, afirma a graduanda.

Os resultados observados são os idosos mais alegres e com maior aceitação da fisioterapia, “pois quando se deparam com alunos que já conheceram nas oficinas, e com certa vinculação, fazem a terapia de forma mais empolgada”, retoma a coordenadora. Ela defende que as oficinas fortalecem a convivência entre os próprios moradores, em que as idosas até se ajudam e cuidam umas das outras.
Já a graduanda Beatriz, resume a ação: “Quando nos permitimos e pedimos permissão para que o outro nos deixe entrar, tudo irá fluir”, resume a graduanda do projeto.
No mês em que o Dia dos Avós convida à valorização das diferentes gerações, a experiência do FisioArte mostra que cuidar também é ouvir, compartilhar histórias e que sempre há tempo para criar novos laços. Com afeto e estímulos terapêuticos, o projeto de extensão da UENP mostra que essa fase também pode ser vivida com novas possibilidades e ensina que a formação em saúde começa, antes de tudo, pelo encontro com o outro.
O tema do envelhecimento ativo já foi abordado aqui no C2 Conexão Ciência, com o Podcast Conexão Pessoas Idosas e nessa matéria sobre o direito das pessoas idosas e as atividades da Universidade Aberta à Terceira Idade (Unati) na Unicentro, em Guarapuava.
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Texto: Ana Elisa Frings
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Coordenação olho-mão – É um conceito neurofuncional, que descreve a capacidade de integrar a percepção visual com o movimento motor, permitindo que o cérebro processe o que os olhos veem e oriente as mãos na execução de tarefas precisas. Chamada também de coordenação óculo-manual (ou viso-motora), é uma capacidade necessária para atividades rotineiras da nossa vida, como segurar talheres, escrever, manipular pequenos objetos ou praticar esportes. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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