Cetras: espaço de cuidado com a fauna silvestre

Uma ilustração colorida mostra um pássaro preto à beira de um lago, cercado por plantas e folhas de diferentes cores. Ao fundo, há montanhas, vegetação e um céu azul com nuvens e um grande sol amarelo. No canto superior direito, uma mão rosa gigante oferece alimento ao corvo. A cena apresenta traços artesanais, cores vibrantes e textura granulada, criando um visual lúdico e imaginativo.
Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres da Unicentro atua em prol dos animais silvestres

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Quem circula pelas áreas urbanas certamente já observou a grande quantidade de estruturas que utilizam o vidro em sua composição. Seja em casas, apartamentos ou lojas, esse material está presente em janelas, portas, vitrines, fachadas, e em muitos outros lugares. Seu uso pode atender tanto a necessidades funcionais, como a entrada de luz natural e a divisão de ambientes, quanto a finalidades estéticas, trazendo às construções um elemento mais moderno e sofisticado.

Você, assim como eu, já deve ter visto, enquanto navegava pelas redes sociais, vídeos de aves tentando sair de ambientes que possuem janelas de vidro e, muitas vezes, elas acabam colidindo repetidamente contra a vidraça, sem perceber que aquela superfície é uma barreira, e, mesmo tendo o outro lado da janela aberta, elas continuam insistindo em sair pelo mesmo local.

Esses vídeos podem parecer inofensivos, porém, evidenciam um problema que, muitas vezes, passa despercebido: a dificuldade que as aves possuem em identificar superfícies de vidro e o quanto esse material ‘invisível’ representa uma ameaça perigosa à vida delas.

Por conta de seu aspecto transparente, o vidro reflete o céu e as árvores, dando a falsa impressão de um espaço livre para os pássaros trafegarem, e, quando eles menos esperam, acabam colidindo com esses materiais, sem saber de onde aquele obstáculo surgiu, causando desde ferimentos até a morte.

Esse é, inclusive, um caso recorrente atendido pelo Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetras), da Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro). O local recebe e faz o resgate da fauna silvestre paranaense vitimada, atendendo desde de animais que foram atropelados, atacados por cães ou gatos, caçados, vítimas de tráfico, de posse ilegal até os que bateram em estruturas de vidro.

O Cetras

Nem sempre o Cetras foi o Cetras. O coordenador do Centro, Rodrigo Antonio Martins de Souza, formado em medicina veterinária, conta que entrou na Unicentro como professor efetivo em 2009 e, desde então, colaborava com o antigo Serviço de Atendimento a Animais Selvagens (SAAS), iniciativa da Clínica Escola de Medicina Veterinária da Universidade.

A partir de 2017, ele passou a coordenar o SAAS que, em 2020, se tornou um Centro de Apoio à Fauna Silvestre (Cafs), outra designação legislativa para unidades mais simplificadas. Mas, desde 2023, ele se transformou no Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetras), uma unidade especializada no recebimento, identificação, marcação, diagnóstico, tratamento, reabilitação e apoio à soltura dos animais silvestres.

Homem de pele clara, com cabelos grisalhos curtos e barba também grisalha, usa óculos de armação preta e veste uma camisa de manga longa com estampa camuflada sobre uma camiseta branca. Ele está sentado e concentra-se em um pequeno animal, segurado por outra pessoa que usa luvas brancas. O homem utiliza luvas azuis e segura cuidadosamente o animal, cujas asas e penas são parcialmente visíveis. Ao fundo, há uma parede clara, uma janela e um quadro decorativo.
Professor Rodrigo Antonio Martins de Souza (Foto/Arquivo pessoal)

Para os animais chegarem até o Centro existem duas formas. A primeira é a entrega voluntária da população. Por exemplo, se alguma pessoa resgatar um quero-quero ferido que não está voando, pode levar até o Cetras, que fica localizado em Guarapuava – Paraná, no Câmpus Cedeteg, da Unicentro (Alameda Élio Antonio Dalla Vecchia, 838, no bairro Vila Carli). O atendimento ao público acontece de segunda a sexta-feira, das 8 às 18 horas, e 24 horas para o atendimento dos animais internados. 

O contato também pode ser feito por meio do telefone fixo, que é o (42) 3629-8240, ou pelo telefone celular, no número (42) 98877-7849, que também conta com o WhatsApp. “As pessoas podem escrever uma mensagem para conseguir orientação e apoio, principalmente, para manter os animais e a população em segurança. Nós já tivemos várias situações em que as pessoas entraram em contato, solicitaram uma orientação e assim o resgate foi o mais adequado possível, tanto para o animal como para as pessoas”, conta Rodrigo de Souza.

Por esses meios, a equipe do Centro consegue fazer o recebimento formal dos animais e colocar no sistema, que funciona em conjunto com o Instituto Água e Terra (IAT), o órgão ambiental do Paraná.

Além dessas formas, o Cetras também recebe os animais prestando apoio às autoridades ambientais, como o próprio IAT, a Polícia Militar Ambiental, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), com quem o Centro também possui um acordo de cooperação técnica. Além disso, a equipe atua junto com o o corpo de bombeiros que, apesar de não serem especializados em fauna, também recebem ocorrências por conta das situações de risco. Tem ainda a parceria com a Defesa Civil, que atua em situações de desastres nas quais esses animais também podem ser vítimas, embora essa dimensão dos impactos, muitas vezes, seja esquecida.

  • Quatro profissionais, usando máscaras e luvas, estão reunidos em um espaço cercado, realizando atendimento a um macaco. Uma mulher de azul segura o animal, enquanto as demais manipulam suas patas durante o procedimento. O macaco está sobre uma camada de palha e coberto parcialmente por um tecido colorido. Ao redor, há materiais utilizados no atendimento, como seringas, recipientes, frascos e outros instrumentos. O ambiente possui estruturas metálicas e paredes claras.
  • Na imagem, um pequeno mamífero silvestre está deitado sobre uma maca azul, enquanto uma profissional de veterinária realiza um procedimento de avaliação. Ela usa luvas e equipamentos de ausculta, examinando o animal cuidadosamente. Ao fundo, outras duas pessoas auxiliam no atendimento, utilizando luvas e instrumentos. A cena ocorre em um ambiente interno, com piso claro e estrutura de madeira ao redor.
  • A imagem mostra uma equipe de profissionais da área veterinária realizando o atendimento de um pequeno animal silvestre, semelhante a um tamanduá-mirim. As profissionais usam máscaras, luvas e aventais de proteção. Uma delas segura o animal, enquanto outra realiza sua avaliação com um estetoscópio. O procedimento ocorre em uma sala clínica, sobre uma mesa de atendimento, com equipamentos e armários ao fundo.
  • A imagem mostra um pequeno felino silvestre envolto em um cobertor vermelho, mantendo apenas a cabeça e uma das patas expostas. O animal apresenta uma faixa de gaze branca envolvendo a cabeça, aparentemente para proteger uma região lesionada. Seus olhos estão abertos e voltados para a câmera. A cena transmite cuidado e proteção, provavelmente durante a recuperação ou atendimento veterinário do animal.
  • Um pequeno macaco de pelagem escura está envolto em um tecido colorido e sendo segurado cuidadosamente por uma pessoa. O animal olha diretamente para a câmera, com olhos grandes e expressão tranquila. Ao fundo, aparece parte da camiseta da pessoa. A cena transmite cuidado e proteção, destacando o pequeno primata entre tecidos de cores vibrantes.

Da triagem a soltura

Quando um animal é encaminhado ao Cetras, a pessoa que o levou, seja uma autoridade ou um civil, precisa preencher e assinar um documento chamado Solicitação de Atendimento. “Essas informações vão ser colocadas no sistema que a gente tem junto com o IAT. Se o animal estiver estável, vai passar por identificação, então, que espécie é? O que está acontecendo? Por que esse animal veio parar aqui? Ele está ferido? Ele não está conseguindo voar? Depois vai para a parte de diagnóstico, com exame físico e exames complementares, como raio-x e ultrassom”, explica o coordenador. 

Após o diagnóstico, é iniciado o tratamento. Nessa etapa, os alunos do Centro desempenham um papel importante, sendo responsáveis pela alimentação e pela manutenção do ambiente em que os animais ficam. A limpeza do espaço é realizada, pelo menos, duas vezes ao dia, garantindo condições adequadas para a recuperação deles.

O fim do tratamento não significa que o animal está pronto para voltar à natureza. “É igual uma pessoa, quando ela recebe alta do hospital vai para casa ficar mais alguns dias, ou até algumas semanas em repouso, para então voltar a trabalhar. Com os animais, acontece algo semelhante. Aqueles que já pararam o tratamento veterinário, mas ainda precisam se fortalecer, iniciam esse processo de reabilitação para poder desenvolver todos os seus comportamentos e, de certa forma, assim, nós conseguimos garantir uma certa segurança na soltura desses animais, já que o animal não reabilitado solto está condenado, e isso não pode acontecer”, enfatiza Rodrigo de Souza.

A equipe do Cetras precisa garantir que os animais que serão soltos estejam sadios, pois um animal doente na natureza pode transmitir doenças às populações de vida livre. Outro ponto considerado pelo Centro é se o ambiente está preparado para receber o bicho reabilitado. “Por exemplo, no período em que estamos agora, o inverno, é uma época ruim para realizar a soltura de aves, porque há poucos insetos, que são fonte de alimento para os insetívoros, além de poucas sementes, flores e frutos. Então, o que existe na natureza está em equilíbrio com os animais que já vivem nela. Por isso, precisamos devolver os animais à natureza no momento mais oportuno”, acrescenta o professor. É importante frisar que o Cetras NÃO realiza a soltura dos animais silvestres, mas sim, presta apoio ao órgão ambiental que pode fazer essa tarefa.

A imagem apresenta um infográfico intitulado “Etapas da triagem até a soltura”, mostrando o fluxo de atendimento de animais silvestres. As seis etapas são: 1) solicitação de atendimento; 2) identificação de espécie; 3) diagnóstico; 4) tratamento; 5) reabilitação; e 6) reintrodução à natureza. Uma linha branca conecta todas as fases, acompanhada por ícones de telefone, binóculos, prontuário, medicamentos, ave e paisagem natural.

Uma observação é que a ordem dos procedimentos é alterada quando o animal chega desestabilizado, ou seja, em estado de emergência. Nesses casos, sempre é considerado o melhor para a manutenção da vida do animal. Assim, ele vai direto para terapia intensiva e lá recebe o atendimento primeiro para depois ser feita a tomada de questões burocráticas.

E quando o animal não pode ser reintroduzido no ambiente?

Existem casos em que os animais, mesmo após passarem por todos os procedimentos, ainda não estão aptos a retornar à natureza. É o caso de aves que não conseguem mais voar ou voam com dificuldade; animais que possuem doenças crônicas ou limitações que os impedem de se deslocar adequadamente, seja para perseguir uma presa ou fugir de um predador; e aqueles que apresentam alterações comportamentais a ponto de tolerar ou até desenvolver certa afinidade com seres humanos. Esses bichinhos não podem ser devolvidos à natureza e precisam ser encaminhados para outros empreendimentos de fauna.

O professor Rodrigo explica que o Cetras é um local de passagem, “nós não ficamos com o animal indefinidamente. Ele permanece durante o tratamento e, depois, precisa ser destinado. Pode ir para um criadouro, um mantenedouro ou até mesmo um zoológico. De preferência, quando se trata de uma espécie ameaçada de extinção, que entre em um plano de manejo voltado à reprodução, para que, de repente, seus filhos e netos tenham chances de voltar para a natureza”. 

Animais mais recebidos pelo Cetras

Os grupos de animais que mais chegam no Cetras são as aves, principalmente devido ao tráfico e à posse ilegal. Elas chegam tanto por apreensões realizadas por autoridades ambientais quanto por entregas voluntárias e, quando possível, passam por reabilitação antes de retornar à natureza.

Em seguida, estão os mamíferos, como cervídeos, felinos, canídeos e roedores, além dos répteis, como cágados e serpentes, inclusive espécies peçonhentas. Após o tratamento e a recuperação, esses animais são devolvidos à natureza, onde desempenham funções ecológicas essenciais.

A imagem apresenta um infográfico intitulado “Grupos de animais silvestres mais recebidos pelo CETRAS”. Os animais estão divididos em três grupos: 1) aves, representadas por um pássaro; 2) mamíferos, ilustrados por um lobo-guará, um felino e uma capivara; 3) répteis, representados por uma tartaruga e uma cobra. As categorias aparecem em formas coloridas, com ilustrações em preto e branco e fundo claro.

Formação e ações de educação ambiental

Outra atividade importante realizada pelo Centro é voltada à educação ambiental. A equipe vai até as escolas, levando animais empalhados para explicar a importância biológica e ecológica de cada uma das espécies para as crianças. “Nós também recebemos visitas no Cetras, não na parte dos animais internados, mas na parte externa, onde temos uma área em que nós mostramos para os visitantes, sejam crianças, adolescentes ou adultos, a história dos animais, como que acontecem os resgates, o processo de reabilitação, quando que o animal pode voltar para a natureza e quando não pode”, detalha o coordenador.

Além disso, o professor conta que o Centro está se transformando em um Cetras Escola, com o objetivo de atender os animais e, ao mesmo tempo, formar novos profissionais. Atualmente, alunos de graduação em Medicina Veterinária e Ciências Biológicas acompanham todas as etapas, desde a chegada do animal até a soltura, desenvolvendo, desde do início do curso, habilidades ao lado de biólogos, veterinários e residentes.

A formação também se estende à pós-graduação, especialmente aos alunos do aprimoramento em Medicina Veterinária, na área de animais silvestres, que têm a oportunidade de se especializar na prática. “Nós temos um círculo virtuoso de formação, tanto na graduação como na pós-graduação. Eventualmente, algum aluno de mestrado ou doutorado desenvolve as suas atividades ali no Centro, mas é algo que pretendemos fortalecer”, acrescenta o coordenador.

O cuidado com a fauna é responsabilidade de todos!

O Cetras possui uma importante função social e ecológica, afinal, presta um serviço à comunidade e também contribui para a formação dos alunos, que acompanham os atendimentos na prática. Além disso, ao apoiar a devolução dos animais à natureza, permite que eles continuem exercendo seu papel ecológico.

Por isso, há uma importante contribuição para a conservação da biodiversidade. “Quando devolvemos um animal à natureza, não estamos apenas devolvendo um indivíduo, mas também o seu material genético, que poderá ser transmitido às próximas gerações. Dessa forma, trabalhamos tanto pela proteção e pela dignidade dos animais quanto pela conservação da biodiversidade”, afirma o professor.

Um grupo de cerca de 20 pessoas posa em frente ao Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (CETRAS). Parte da equipe está em pé e outra parte sentada sobre a grama. Algumas pessoas usam camisetas verdes, enquanto outras vestem roupas casuais e jalecos brancos. Ao centro, há uma placa identificando o local. A foto foi registrada em um dia ensolarado, com céu azul, árvores ao fundo e o prédio do centro atrás do grupo.
Parte da equipe do Cetras da Unicentro (Foto/Arquivo do Cetras)

Os atendimentos do Cetras começaram em 2005, ainda como SAAS, poucos anos após a criação do curso de Medicina Veterinária da Unicentro, em 2003. De acordo com os registros disponibilizados pelo coordenador, a demanda vem crescendo ano a ano. Foram 180 animais atendidos em 2021, 250 em 2022, 330 em 2023, 430 em 2024 e 574 em 2025. Em 2026, mesmo com o ano ainda em andamento, o Centro já se aproxima de 400 atendimentos.  

Os próximos planos do Centro envolvem a manutenção e melhora dos equipamentos ano a ano, para prestar cada vez mais um serviço de qualidade. Para isso, o Cetras tem participado de vários editais e fechado parcerias com órgãos estaduais.

Apesar do aumento no número de atendimentos realizados pela Cetras, Rodrigo de Souza destaca que o principal recado é a necessidade de aprender a conviver com os animais silvestres e reduzir os impactos causados pelo nosso estilo de vida. “Precisamos diminuir o tráfico e os atropelamentos. Não adianta apenas melhorar o atendimento. É necessário reduzir as ocorrências. E isso só é possível por meio da coexistência e da convivência entre os seres humanos e as demais espécies!”, conclui. 

Outro projeto paranaense que também tem voltado seu olhar a fauna silvestre é o “OLHA O BICHO! Monitoramento Participativo de Fauna no Entorno de Unidades de Conservação Urbanas”. Saiba mais sobre ele na matéria “Atenção: desacelere! Tem bicho atravessando a rua…”, disponível, aqui, no C².

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Texto:
Milena Massako Ito
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Hellen Vieira
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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