Ciência e ancestralidade na saúde indígena

Painel ilustrativo composto por vários quadros com bordas pretas e padrões geométricos nas cores laranja, vermelho, branco e preto. As imagens apresentam objetos e elementos relacionados à área da saúde, como um estetoscópio, uma seringa e uma cobra sobre uma seta horizontal. Também aparecem duas ilustrações de mulheres indígenas com os olhos cobertos por grafismos, uma vestindo jaleco branco e outra usando roupa amarela, enquanto recebe uma aplicação de injeção no braço. Há ainda a representação de um prédio público com fachada branca e estrutura triangular na parte superior. A composição reúne símbolos da assistência médica e da saúde indígena.
Conheça a Liga Acadêmica que está levando a Saúde Indígena para a Universidade e a população

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Já pensou como a saúde passa por questões não só biológicas, mas também sociais, espirituais, históricas e territoriais? A Medicina Tradicional Chinesa, por exemplo, possui métodos e práticas específicas, fruto da história de mais de 4 mil anos de um povo. Por sua vez, a saúde da mulher passa por questões biológicas próprias e até interferência de fatores socioeconômicos.

Não é diferente para a saúde indígena e, para discuti-la, deve-se entender sobre todos os fatores relacionados aos cuidados com os povos tradicionais. É um tema biológico, social, histórico, espiritual e territorial complexo, por muito tempo deixado de lado nas áreas da ciência. Isso porque o indígena nunca foi visto como parte da nossa sociedade, mas como objeto, lá longe, só foco de estudo. Essa reversão de quadro é uma das propostas da Liga Acadêmica de Saúde Indígena (LASI). Porém, antes de conhecê-la, vamos entender um pouco sobre a saúde indígena no Brasil.

Saúde Indígena no Brasil 

No Brasil, a saúde indígena é concebida no Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), um componente do Sistema Único de Saúde (SUS), contemplando a diversidade social, cultural, geográfica, histórica e política e é um resultado da luta dos povos indígenas. O subsistema é composto por 34 Distritos Especiais de Saúde Indígena (DSEI), localizados em todas as regiões do território brasileiro. Cada DSEI é delimitado a partir de critérios epidemiológicos, geográficos e etnográficos, com equipamentos para casos simples e de alta ocorrência.

Mapa do Brasil que mostra os 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) em áreas coloridas e numeradas, com legenda listando cada distrito e seu município-sede. Os distritos maiores se concentram na Amazônia, enquanto no Nordeste, Sudeste e Sul aparecem em manchas pequenas e dispersas. Áreas em branco indicam regiões sem cobertura de DSEI, e linhas alaranjadas marcam as divisas estaduais.
Mapa dos 34 DSEIs do Brasil (Fonte/Plano Nacional de Saúde 2020-2023)

Dos 34 distritos, dois estão situados em regiões que englobam o estado do Paraná. O primeiro é o nº. 17, do Litoral Sul; o segundo, o nº. 13, do Interior Sul. Só o primeiro tem sede na capital, Curitiba. O segundo tem sede em Florianópolis, Santa Catarina. Inclusive, a LASI participou de uma capacitação no DSEI do Litoral Sul.

Os DSEIs são parte da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), criada em 2010. O controle social é feito pelo Conselhos Indígenas de Saúde (Condisi), que garante a participação dos povos indígenas na gestão dos distritos, conforme Povos Indígenas no Brasil. Além disso, segundo os dados do Ministério da Saúde, o SasiSUS é composto desta forma: 

Vale mencionar que a criação da área de Saúde Indígena se deu nove anos após a criação do Sistema Único de Saúde. As demandas apontavam que o formato geral do SUS não englobava as necessidades dos povos indígenas. Um dos respaldos para auxiliar na luta dos povos originários foi os direitos reconhecidos pela Constituição Federal de 1988. Com a Constituição Cidadã veio a afirmação de que a saúde dos povos originários deve ter atenção diferenciada, territorializada e intercultural, segundo o artigo “O desafio da atenção primária na saúde indígena no Brasil”.

Infográfico com fundo laranja e o título “Organização Nacional da Saúde Indígena no Brasil”. Na parte superior, apresenta a Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), vinculada ao Ministério da Saúde. Abaixo, aparecem três departamentos responsáveis pela atenção primária, pelos projetos e determinantes ambientais e pela gestão da saúde indígena. No centro, estão os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). Na parte inferior, são apresentados setores administrativos e de apoio, além da Divisão de Atenção à Saúde Indígena e das Casas de Apoio à Saúde Indígena (CASAI). O esquema demonstra como os diferentes setores estão organizados para atender à saúde dos povos indígenas.

Isso para o Brasil inteiro. Aqui no Paraná, uma iniciativa acadêmica busca valorizar os saberes ancestrais, promover o protagonismo indígena e a defesa incondicional do direito à saúde. Essa é a LASI, que atua para aprofundar o entendimento sobre saúde indígena, integrar a Universidade e os povos indígenas paranaenses e promover uma formação crítica e humanizada dos profissionais da área de saúde sobre o tema.

Nasce, então, a LASI

Com mais de um ano de vida, a Liga Acadêmica de Saúde Indígena da Universidade Federal do Paraná (UFPR) é um espaço de articulação, formação e resistência. É uma iniciativa de estudantes indígenas da UFPR e tem uma diretoria composta de quatro acadêmicas de medicina: a presidente e fundadora, Hermínia Henrique, a diretora científica Lara Henrique e a secretária, Valdirene dos Santos, todas da etnia Baré; e a tesoureira Aline Rodrigues, da etnia Tariana. Apesar dos títulos, todas fazem um pouquinho de tudo para a LASI se mover.

A Liga começou a ser pensada e tomou forma quando os estudantes notaram uma lacuna de formação na grade curricular no curso de medicina da Universidade, que refletia negativamente em suas atividades e nos atendimentos nos territórios. Os acadêmicos de medicina que tiveram essa percepção faziam parte do PET Litoral Indígena, um grupo do Programa de Educação Tutorial (PET), também da UFPR, que promove a inserção, permanência e o protagonismo de estudantes indígenas no ensino superior, unindo saberes tradicionais e acadêmicos por meio de ensino, pesquisa e extensão.

Uma Liga Acadêmica é um projeto de extensão da universidade, responsável por permitir a conexão entre os acadêmicos, seus projetos, ideias e atividades e voltar o conhecimento produzido na Universidade para a população. Assim, as pessoas conseguem ter acesso aos programas e descobertas científicas produzidas em ambiente acadêmico.

Diante disso, os alunos começaram a estudar o funcionamento de outras ligas de saúde  indígena pelo país para viabilizar o projeto focado em aproximar a comunidade acadêmica da realidade prática de profissionais e comunidades de povos originários. O grande diferencial da proposta foi estabelecer um espaço onde os estudantes indígenas assumissem o papel de verdadeiros protagonistas, revertendo um cenário histórico em que essas populações eram tratadas apenas como alvos de pesquisas acadêmicas, e não como produtoras de conhecimento. 

A presidente da Liga, Hermínia Henrique, explica que o papel de protagonismo “é importante, porque a maioria [estudantes e docentes] ainda tem esse racismo estrutural, que faz com que os indígenas se tornem alvo de pesquisa, mas não os próprios protagonistas”, destaca a aluna. 

A presidente evidencia outro caráter da LASI: a permanência dos estudantes na universidade. Ela explica que “o estudante indígena já tem uma grande dificuldade para permanecer na universidade, são diversos fatores. A Liga vem para tentar mantê-los na graduação”. E mais, existe uma dificuldade da própria Liga para se manter. “Tocar a LASI funcionando é uma demanda grande. Afinal, é uma atividade além do currículo acadêmico de saúde. As estudantes relatam a correria e o trabalho de correr atrás de produzir os eventos, pegar editais e conciliar com a medicina. Mas, mesmo com as dificuldades, a Liga já conseguiu muitas conquistas”.

É importante destacar que a Liga não é formada apenas por estudantes de medicina. Uma das propostas é  trazer uma abordagem multidisciplinar, ou seja, trazer estudantes de outras áreas da saúde para conseguir atingir um dos objetivos, a promoção do cuidado integral, sensível e intercultural. Os outros cursos que fazem parte são: enfermagem, psicologia, terapia ocupacional, psicologia, odontologia, nutrição e até medicina veterinária.

Captura de tela de uma videochamada com quatro participantes em quadrantes, identificados pelos nomes na tela. Herminia Henrique, no alto à esquerda, sorri com cabelos longos e blusa de tricô azul. Lara Henrique, no alto à direita, usa óculos e tem expressão serena, com pratos de palha trançada na parede atrás dela. Aline Pena Rodrigues, embaixo à esquerda, aparece de óculos e blusa preta, falando. Val Vilagelim, embaixo à direita, está com a câmera desligada e exibe uma foto de perfil circular de uma mulher sorrindo, de óculos.
Hermínia Henrique, presidente, no topo à esquerda; ao lado, a diretora científica Lara Henrique; à esquerda, embaixo, a tesoureira, Aline Rodrigues e ao lado a secretária, Valdirene dos Santos; cedem entrevista para o Conexão Ciência – C² (Foto/Arquivo pessoal)

E como a LASI atua?

Porém, não é só fazer a conexão universidade/comunidade. A  atuação da Liga vai além da medicina tradicional ocidental. A LASI entende que, para comunidades de povos originários, os saberes tradicionais de seu povo também são essenciais na preservação da cultura e de sua ancestralidade. 

Aline Rodrigues, estudante de medicina, do povo Tariano, relata que a interdisciplinaridade é trabalhada na prática dentro da Liga. Cada povo tem uma cultura, uma crença diferente, logo as abordagens também devem ser diferentes. “Na LASI, a gente orienta a como chegar no território e se posicionar. Ter uma postura adequada dentro dos territórios é um fator primordial […], respeitar os bisnetos, as crianças de cada povo também é importante”. Para 

A estudante relembra um episódio em que uma aluna de medicina relatou não saber como tratar um indígena em um hospital de clínicas. Naquele momento, as discentes entenderam a importância do preparo. Aline destaca que “nós, como indígenas, procuramos saber sobre a medicina tradicional, mas o contrário não existe”. Por isso, a Liga busca instruir não apenas futuros profissionais da medicina, mas também de outras áreas. É muito mais do que o saber técnico, é a prática e o atendimento. 

Com pouco mais de um ano de formação e atuação da liga, as alunas responsáveis pelo projeto já conseguem identificar mudanças na mentalidade dos estudantes, no que diz respeito à saúde de povos indígenas e na estrutura pedagógica da instituição. O principal reflexo das palestras, workshops e atividades promovidas pelo projeto é a desconstrução de uma abordagem genérica e superficial, dando espaço a uma formação médica e assistencial baseadas nas singularidades e especificidades de cada território e população. 

A mudança na postura dos participantes da Lasi fica evidente na forma como passaram a enxergar as especificidades das comunidades. De acordo com as integrantes do projeto, a visão dos participantes, principalmente dos não indígenas, passou de uma concepção mais homogênea para a percepção de que cada etnia possui uma vivência cultural, uma organização política e um um perfil epidemiológico totalmente diferentes.  

Herminia destaca que a atuação prática nesses territórios exige um exercício de escuta ativa. E que esse respeito à diversidade cultural permite acolher as demandas desses povos de forma mais efetiva e humanizada. Tanto dentro das comunidades quanto quando pacientes indígenas procuram atendimento no sistema público de saúde, como em hospitais e Unidades Básicas de Saúde (UBS). 

Além de respeitar os conhecimentos tradicionais dos povos, o modelo disciplinar também ajuda a afastar a ideia inicial de que o estudo e a assistência às populações originárias deveriam ficar restritos apenas aos estudantes e profissionais de Medicina. A dinâmica das atividades práticas e teóricas é fundamentada na compreensão de que a saúde humana não pode ser analisada de forma isolada, dando atenção somente às patologias. Já que no contexto dos povos indígenas a saúde e bem-estar também estão ligados à fatores externos (sociais, políticos, ambientais e territoriais). Essa percepção ampliada é trabalhada na Liga por meio das aulas teóricas e das discussões coletivas, espaços onde os participantes analisam a atuação de diferentes profissionais dentro do campo da saúde indígena.

Ao descentralizar o cuidado e integrar outras áreas do conhecimento, o projeto proporciona uma abrangência de assistência muito maior. O modelo adotado pela Liga reforça que, para compreender e atender às demandas complexas das comunidades tradicionais, a universidade precisa caminhar em direção a um atendimento integral, em que variadas frentes de saúde dialoguem e atuem de forma conjunta nos territórios. 

Os frutos sendo colhidos 

Além de reformatar o discurso dos discentes, a atuação da Lasi começou a exercer uma certa influência no corpo docente e nas disciplinas formais da universidade. Devido à constante mobilização dos estudantes, que chamou a atenção dos professores, provocando a inclusão de debates mais profundos nas salas de aula. Uma das grandes conquistas foi a introdução de aulas específicas sobre o funcionamento dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas. Herminia destaca que isso foi uma grande vitória, essencial para que os futuros profissionais compreendam como eles podem, atender, encaminhar ou direcionar essa população. 

Com essa bagagem teórica e de vivência dentro da Liga, hoje, os estudantes demonstram mais segurança quando o assunto é saúde de povos indígenas, como conta Hermínia “Diferente do começo, quando eles tinham medo de falar, de perguntar as coisas, hoje eles têm muito mais confiança. Pesquisam sobre o assunto, participam de debates”. E, para ela, como indígena, isso é muito importante. 

O trabalho da LASI tem se mostrado fundamental na formação desses futuros profissionais ligados à área da saúde. As coordenadoras trabalham para que os estudantes, principalmente os não indígenas, consigam chegar até os territórios com a abordagem correta, sempre respeitando as singularidades de cada povo e cada cultura. Para que assim essas pessoas também possam ter um atendimento digno e de qualidade. 

Claro, a formação se dá fora da universidade. Hermínia conta que os ligantes participam de outros projetos, como o Afirma SUS e, atualmente, a Liga é contemplada com o projeto “Cor da Cultura”, cuja ação iniciou no segundo semestre de 2026. A LASI também promove e participa de eventos, um dos exemplos dados pela presidente é a participação no Congresso Brasileiro de Atenção Básica à Saúde (CONABS). A presidente e uma ligante de medicina veterinária apresentaram a Liga. 

Infográfico intitulado “Marcos Legais e Históricos”, organizado em três colunas sobre um fundo predominantemente vermelho e laranja. A primeira apresenta a Constituição Federal de 1988, destacando o reconhecimento dos direitos originários dos povos indígenas e a saúde como direito universal e dever do Estado. A segunda aborda a Lei nº 9.836/1999, conhecida como Lei Arouca, que criou o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), e a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), aprovada em 2002, que orienta um atendimento intercultural, respeitando as práticas tradicionais de cuidado e a diversidade étnica. A terceira coluna apresenta o Decreto nº 7.336/2010, relacionado à estrutura da Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), responsável pela gestão e coordenação das ações do SasiSUS e dos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs).

O que esperar do futuro da LASI? 

Pensando no que vem pela frente, um dos objetivos da LASI é que toda essa bagagem possa se transformar em uma matéria com a temática “Saúde Indígena” na grade curricular da universidade. A ideia é fazer com que as discussões que hoje acontecem na liga, ganhem mais espaço e possam se tornar uma disciplina oficial ou até mesmo uma optativa, na UFPR. E que seja ofertada não apenas aos estudantes de medicina, mas também de outros cursos da área. Isso porque o trabalho com o cuidado da saúde em comunidades indígenas depende de uma equipe com especialistas de todas às áreas.

Para que esse projeto saia do papel, o grupo está focado em organizar e estruturar cada passo da Liga. No fim das contas, transformar esse tema em uma matéria oficial seria uma conquista histórica, garantindo que os futuros profissionais já saiam da faculdade sabendo acolher e respeitar a realidade dos povos originários de forma mais humanizada. 

Aline Rodrigues destaca que a Lasi cumpre um papel de representatividade. A aluna lembra que, na maioria das vezes, a história é contada por pessoas brancas que trazem pesquisas e dados sobre povos originários, deixando os indígenas em uma posição de quem é assistido ou estudado. A Liga vem justamente para mudar isso, abrindo espaço para que os próprios estudantes indígenas falem de suas culturas e mostrem a realidade que eles mesmos vivenciaram a vida toda, com a propriedade de quem vive e conhece a própria ancestralidade. 

Ao abrir o debate e a vivência na saúde indigena, a LASI preenche uma lacuna histórica na formação médica assistencial. Os nossos futuros médicos e demais profissionais da área da saúde que passam pela liga entendem qual é a sensibilidade necessária para atender às comunidades indígenas de forma digna e de acordo com o contexto de cada uma delas. O trabalho da Liga reafirma que o futuro da saúde pública depende da capacidade de compreender, valorizar e proteger os povos originários. E fortalecer a saúde indígena dentro da UFPR é construir um sistema de saúde mais justo, acolhedor e, acima de tudo, consciente da riqueza e da pluralidade que formam o nosso país. 

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Texto:
Carlisle Ferrari e Carla Rabelo
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Carlisle Ferrari
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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