Durante o mês de agosto, o lilás ganha espaço nas ruas, nas redes sociais e em campanhas de conscientização. A cor marca uma mobilização que chama atenção para um problema que atravessa o restante do calendário: a violência contra as mulheres.
No Paraná, somente em 2025, o Monitor de Feminicídios no Brasil identificou 355 feminicídios consumados e tentados. Foram 122 mortes e 233 tentativas. Por trás de cada número, no entanto, existe uma história e um conjunto de informações que pode ajudar a compreender como essa violência acontece e, principalmente, em que momento ela ainda pode ser interrompida.
É esse um dos trabalhos do Laboratório de Estudos de Feminicídios (LESFEM), da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que reúne pesquisadores de diferentes áreas e regiões do país para estudar a violência letal contra as mulheres.
Para Silvana Mariano, professora da UEL e coordenadora do laboratório, o Agosto Lilás é uma oportunidade de ampliar esse debate, mas não pode concentrar sozinho uma mobilização que precisa acontecer durante todo o ano.
“Campanhas como o Agosto Lilás são muito importantes porque ampliam a visibilidade do problema, incentivam a denúncia e mobilizam a sociedade. Mas elas não substituem políticas públicas permanentes”, acrescenta a docente.

Quando uma notícia vira dado científico
Todos os dias, notícias sobre feminicídios consumados e tentados publicadas por veículos de comunicação de diferentes estados chegam ao radar do LESFEM. Encontrar uma reportagem, porém, é apenas o começo.
Antes de um caso entrar na base do Monitor de Feminicídios no Brasil, a equipe verifica se existem elementos suficientes para classificá-lo. A análise utiliza como referências as Diretrizes Nacionais para Investigar, Processar e Julgar com Perspectiva de Gênero as Mortes Violentas de Mulheres e a legislação brasileira. Só então são registradas dezenas de variáveis, como município, idade da vítima, relação com o agressor, meio empregado no crime, local, existência de medidas protetivas e presença de filhos.
Por isso, Mariano diferencia o trabalho de um simples levantamento de notícias. O monitoramento segue critérios padronizados de identificação, classificação, validação e atualização, capazes de revelar tendências que nem sempre aparecem nas estatísticas oficiais. “Mais do que contabilizar casos, nosso objetivo é produzir conhecimento científico que contribua para aperfeiçoar as políticas públicas de prevenção, proteção das mulheres e acesso à justiça.”
Atualmente, segundo atualização repassada pela equipe, o laboratório reúne 20 colaboradores. O trabalho passa pelo monitoramento dos casos, revisão, análise quantitativa, produção de informes, comunicação, memória, extensão e pesquisa acadêmica.
A rede ultrapassa as fronteiras do Paraná. Durante a entrevista, as integrantes citaram pesquisadores da Bahia, Minas Gerais, Maranhão, Paraná, São Paulo, Ceará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Roraima, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. As formações também são diversas, com profissionais do Direito, Psicologia, Sociologia, História, Antropologia e Serviço Social.
Essa pluralidade permite que um mesmo fenômeno seja observado por diferentes perspectivas. As frentes não funcionam de maneira isolada. Um dado produzido por determinada equipe pode alimentar pesquisas, informes e ações desenvolvidas pelas demais.
Entre as integrantes está Lilia Cardoso da Silva e Silva, de Curitiba, no Paraná, mestranda em Direitos Humanos e Políticas Públicas, pela PUCPR. No LESFEM, atua na Comunicação Institucional, contribuindo para a articulação com a imprensa e outras instituições.

De Salvador, na Bahia, Samantha de Araújo Carvalho é advogada, pesquisadora e mestre em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo. Ela integra a frente de Pesquisa Acadêmica e Apoio Bibliográfico, responsável por selecionar referências e aprofundar temas que podem subsidiar informes e outras produções científicas do laboratório.

Já Leomara Lima, de Petrolina, em Pernambuco, é estudante de Psicologia, na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), e atua na produção de briefings e relatórios mensais. Sua formação aproxima as pesquisas de questões relacionadas ao ciclo da violência e aos impactos sobre a saúde mental.

Dar nome à violência também faz parte da prevenção
Desde 2024, o feminicídio é um crime autônomo no Código Penal brasileiro. A legislação considera que há razões da condição do sexo feminino quando o crime envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
Nomear esse crime importa porque permite enxergar uma dinâmica que não se explica apenas pela violência letal em geral. Os estudos do LESFEM mostram a forte presença de relações íntimas e familiares marcadas por controle, dominação e desigualdade de gênero.
E o episódio mais extremo raramente começa no dia do crime. “O feminicídio raramente acontece de forma repentina. Na maioria das vezes, ele é precedido por um histórico de violências, ameaças, controle, perseguição, agressões físicas ou psicológicas e tentativas de restringir a autonomia da mulher”, explica a coordenadora.
Na Psicologia, a estudante Leomara Lima chama atenção justamente para aquilo que pode acontecer muito antes de uma agressão física. “A violência, muitas vezes, nasce de algo muito sutil. […] Começa com comentários simples sobre a roupa que ela está usando, ou ‘você não vai sair hoje’. É tentar cercar aquela pessoa, tirar ela da sua rede de apoio”, acrescenta Leomara.
Para a estudante de Psicologia, reconhecer esses comportamentos é importante porque situações de controle e isolamento podem ser naturalizadas até que a violência se torne mais evidente.
O Paraná por trás dos números
Em 2025, o LESFEM identificou 355 feminicídios consumados e tentados no Paraná. Desse total, 122 foram consumados e 233 foram tentativas.

Para Mariano, acompanhar as tentativas muda a maneira de interpretar o cenário. “Elas representam mulheres que sobreviveram, mas permanecem em situação de elevado risco, constituindo a principal oportunidade para que a rede de proteção interrompa a escalada da violência antes que ela resulte em um feminicídio consumado”, explica.
O monitoramento também produz o que integrantes do laboratório chamam de “contradados”. São informações construídas a partir de fontes independentes que podem complementar e qualificar as estatísticas oficiais. Nesse processo, a imprensa ocupa um lugar importante, tanto como uma das fontes utilizadas para encontrar casos quanto como ponte para fazer os resultados das pesquisas chegarem à sociedade.
Um novo alerta em 2026
Se 2025 apresentou uma redução dos casos no Paraná em relação ao ano anterior, os primeiros dados de 2026 pedem cautela. Segundo a coordenadora do LESFEM, os registros voltaram a crescer, mostrando que uma queda pontual não necessariamente representa uma transformação duradoura.
No primeiro trimestre de 2026, o levantamento do laboratório apontou crescimento de cerca de 1,6% no Paraná em comparação ao mesmo período de 2025, segundo Leomara Lima, integrante da equipe de briefings e relatórios mensais.
Outro resultado desloca o olhar das grandes cidades. No panorama nacional do primeiro trimestre, pouco mais da metade dos feminicídios consumados e tentados ocorreu em municípios com até 100 mil habitantes. Mais de um terço foi registrado em cidades com até 50 mil moradores.
A diferença territorial importa porque a estrutura disponível para uma mulher em situação de violência não é a mesma em todos os lugares. Municípios menores podem ter menos serviços especializados, o que exige estratégias de proteção adaptadas às diferentes realidades.
“O feminicídio é um problema nacional, mas as respostas são construídas localmente”, pontua a professora da UEL, ao defender que o acompanhamento das diferenças entre os estados pode ajudar a identificar experiências capazes de subsidiar políticas públicas mais eficazes.
Quando o fogo se torna parte da violência
Entre as produções recentes do laboratório está o informe técnico sobre feminicídios com emprego de fogo ou combustível. O estudo analisou 512 casos identificados no Brasil entre 2023 e 2025.

A pesquisa buscou compreender o que diferencia essa modalidade de outras formas de feminicídio. Os casos mantêm características já observadas pelo laboratório, como a forte presença dentro das residências e a relação próxima entre vítima e agressor.
O meio empregado, entretanto, acrescenta outra dimensão. “O fogo não produz apenas a morte. Ele prolonga o sofrimento, provoca queimaduras extensas, desfigura o corpo, amplia o número de pessoas atingidas e deixa marcas permanentes quando a vítima sobrevive”, afirma Mariano.
Por isso, o estudo utiliza a expressão “mais do que matar”. A pesquisa também encontrou situações em que ameaças anteriores, o emprego de combustível e a escolha do momento da agressão indicavam planejamento, contrariando a ideia de que esses crimes seriam apenas explosões momentâneas de emoção.
A estudante de Psicologia Leonara chama atenção para outra característica observada no informe. O fogo exige proximidade e, muitas vezes, acesso à rotina da vítima. Em alguns casos analisados, familiares relataram ameaças anteriores que não haviam sido reconhecidas como sinais de uma possível escalada.
“A sociedade, no geral, acaba pecando em não nomear esses comportamentos como violência. A gente vai deixando essas coisas que são consideradas pequenas passarem batido e só se atenta, de fato, quando acontece o feminicídio”, explicou a acadêmica.
Uma vida não cabe em uma estatística
Em meio a planilhas, classificações e percentuais, uma das frentes do LESFEM segue por outro caminho: reconstruir memórias. O memorial “A Falta que Faz” é dedicado às vítimas de feminicídio no Paraná. Enquanto o monitoramento acompanha casos de todo o Brasil, o memorial busca lembrar quem eram essas mulheres para além da forma como morreram.
Na entrevista, as colaboradoras explicaram que a proposta é combater a culpabilização e a objetificação das vítimas, devolvendo a elas um lugar de sujeito e reconstruindo suas histórias de vida.
O memorial lembra o que uma base de dados, sozinha, não consegue contar. Cada registro corresponde a uma trajetória. Nos casos consumados, uma vida interrompida. Nas tentativas, uma vida que precisa encontrar condições para continuar.
“Feminicídio é evitável”
Se o monitoramento permite identificar padrões, a pergunta seguinte é o que fazer antes que a violência alcance seu estágio mais extremo. Para a coordenadora do LESFEM, isso exige deslocar parte da atenção que costuma se concentrar apenas depois do crime.
“A responsabilização é indispensável, mas ela chega tarde para quem perdeu a vida. O maior investimento precisa estar na prevenção, para impedir que a violência alcance esse desfecho, e também na reparação dos danos sofridos pelas mulheres sobreviventes, pelas crianças órfãs e pelas famílias atingidas”, aponta Mariano.
Prevenção também envolve condições concretas para romper um ciclo de violência. Leomara Lima explica que há mulheres que reconhecem a situação em que vivem, mas não conseguem sair porque não têm renda, emprego, rede de apoio ou com quem deixar os filhos. A autonomia, nesse sentido, também se transforma em uma forma de proteção.
No campo jurídico, a advogada Samantha de Araújo Carvalho chama atenção para a maneira como as próprias instituições recebem mulheres que chegam ao sistema de Justiça. Uma das ferramentas citadas pela pesquisadora é o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero.
“A ideia não é favorecer mulheres nas sentenças. […] A questão é que você, na análise do caso, não gere mais violências, não revitimize essas mulheres e tenha consciência das nossas desigualdades”, explica Samantha.
A discussão ocorre no ano em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Sancionada em 7 de agosto de 2006, a legislação criou mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher.
Lilia Cardoso também chamou atenção durante a entrevista para a adesão do Paraná a um pacto de enfrentamento ao feminicídio, que, segundo a colaboradora, teria sido formalizada em 4 de agosto.
Quando a violência geral cai, mas o feminicídio cresce
Os números mais recentes da segurança pública ajudam a mostrar por que o feminicídio exige um olhar específico. Em 2025, o Brasil registrou 40.775 Mortes Violentas Intencionais, redução de 8,2% em comparação com o ano anterior. No mesmo período, os feminicídios cresceram 4%, chegando a 1.571 mulheres mortas, segundo a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Para Mariano, movimentos diferentes entre os indicadores revelam que o feminicídio possui determinantes próprios. “Reduzir homicídios não significa, por si só, reduzir feminicídios.”
Enquanto a violência letal pode estar relacionada a diferentes contextos, o feminicídio aparece fortemente associado às relações afetivas e familiares, ao controle e às desigualdades de gênero. Por isso, políticas gerais de segurança pública não substituem ações específicas de prevenção e proteção às mulheres.
É justamente aí que o trabalho científico desenvolvido pelo LESFEM ultrapassa os limites da universidade. Monitorar, comparar e compreender padrões permite produzir evidências que podem orientar políticas públicas e mostrar onde a violência acontece e em que momento ainda existe possibilidade de intervenção.
Para a mestranda em Direitos Humanos e Políticas Públicas, integrar esse esforço também tem um significado pessoal. “A gente está aqui pelas que já foram, mas para evitar que outras se partam dessa trajetória de vida. […] Contribuir para mostrar os dados, ajudar nas políticas, monitorar e, de certa forma, conseguir às vezes até evitar um feminicídio já é uma grande conquista.”
Para Leomara Lima, pesquisar violência contra as mulheres também passou a fazer parte da maneira como imagina sua futura atuação profissional. “Estudar sobre esse tema e poder participar de projetos como o LESFEM é o que dá sentido à minha prática da Psicologia.”
Já a advogada e pesquisadora Samantha Carvalho relaciona sua participação no laboratório ao combate ao apagamento histórico das mulheres, algo que identifica também dentro do Direito. Para a pesquisadora, reconhecer as contribuições femininas e as lutas que garantiram direitos faz parte da transformação das estruturas que ainda sustentam desigualdades.
Transformar notícias em dados é apenas o começo. O desafio é fazer com que esses dados se tornem conhecimento e que esse conhecimento ajude a enxergar a violência antes que ela chegue ao seu desfecho mais extremo.
Onde buscar ajuda
A Central de Atendimento à Mulher, Ligue 180, funciona gratuitamente 24 horas por dia, todos os dias da semana. O canal recebe e encaminha denúncias, oferece orientações sobre direitos e informa onde encontrar serviços especializados da rede de atendimento. Também é possível buscar atendimento pelo WhatsApp no número (61) 9610-0180. Em situações de emergência, a orientação oficial é acionar a Polícia Militar pelo 190.
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Texto: Yumi Aoki
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lorena Mendonça
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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