Moda devagar porque já tive pressa (e o mundo pede!)

A imagem apresenta uma composição com grandes montes de roupas usadas espalhados sobre um terreno seco e rachado. No lado esquerdo, há uma pilha de peças variadas, incluindo calças jeans, camisetas, blusas, roupas íntimas e tênis. Ao fundo e à direita, aparece um monte maior, formado por roupas de diversas cores, como branco, preto, vermelho, rosa, azul e verde. Algumas peças possuem pequenas etiquetas. No canto inferior direito, há outra pilha de roupas coloridas. O céu aparece parcialmente encoberto por uma faixa azul.
Você sabe como suas roupas afetam o meio ambiente? Os petianos de Química da UEM te explicam!

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Muito mais que uma proteção para o nosso corpo, nos vestimos para comunicar quem somos no espaço-tempo. Seja para ficar charmoso para um encontro com o possível amor das nossas vidas, para uma entrevista de emprego que pode nos proporcionar uma nova fase profissional, para uma caminhada no parque com uma roupa confortável ou simplesmente para nos sentirmos bem conosco mesmos.

Mas, diferente da maioria dos produtos que compramos, o prazo de validade das roupas tem um aspecto que vai além da durabilidade que têm pois a “aceitabilidade” que lhes é imposta vence de acordo com o calendário da moda. E qual é o preço a ser pago? Adianto que é bem mais do que o dinheiro pode pagar.

Particularmente, eu não pensava muito no impacto ambiental que as minhas roupas causavam, até que um dia, andando pela universidade, parei em frente a um interessante estande do PET-Química, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), intitulado “AmbPET: Os impactos da produção e dos resíduos da indústria têxtil no meio ambiente”.

Em poucas palavras, PET significa Programa de Educação Tutorial. Esse programa é promovido pelo Ministério da Educação e tem como intuito a promoção do desenvolvimento acadêmico de estudantes de graduação, com foco nos três pilares que formam a base das universidades brasileiras: o ensino, a pesquisa e a extensão. É a partir disso que os integrantes do PET, os petianos, realizam suas atividades dentro e fora da universidade. 

Entre as atividades realizadas pelos petianos da graduação em Química, há uma de recorrência anual focada na conscientização de problemas ambientais chamada AmbPET. A professora Débora Nobile Clausen, que é a atual tutora do PET Química da UEM, explicou que a edição de 2026 visou conscientizar as pessoas sobre os impactos da indústria têxtil no meio ambiente. A atividade que apresentou formas de reciclagem e descarte correto dos resíduos têxteis produzidos pelo consumidor também proporcionou aos alunos participantes do PET a oportunidade de desenvolver novas habilidades.

Fotografia de quatro pessoas em frente a uma mesa de exposição, em uma área externa arborizada e ensolarada. À esquerda está a professora Débora Nobile Clausen, usando uma camiseta azul e sorrindo para a câmera. Ao lado dela, há uma jovem de camiseta preta e, atrás, um jovem usando camiseta cinza. À direita, sentado, está um jovem usando camiseta preta e boné, também voltado para a câmera. A cena registra integrantes da equipe durante uma atividade ou exposição ao ar livre.
Professora Débora Nobile Clausen (de azul) com petianos no AmbPET (Foto/Arquivo pessoal)

De acordo com a professora, os petianos escolheram esse tema justamente por estarem em Maringá, polo da indústria de confecções no estado do Paraná, e próximos a outras cidades famosas pela indústria de confecções, como Apucarana e Cianorte, amplamente conhecida como a Capital Nacional do Vestuário.

Com o tema escolhido, os petianos se dividiram em quatro subtemas para realizarem pesquisa bibliográfica em revistas e periódicos para assim desenvolverem atividades interativas de conscientização. Assim, a exposição abordou “Aspectos gerais da produção industrial”, “Resíduos gerados pela indústria e a poluição”, “Descarte, reciclagem e economia circular” e “Fast fashion”.

Achei tão interessante que fiz questão de ver cada um dos subtemas expostos lá. Entre experimentos sobre o impacto dos pigmentos presentes nos tecidos, atividades de reutilização de tecidos e pesca interativa relacionada aos resíduos que iam parar nas águas, os estudantes de Química falaram sobre a Fast Fashion ou, em tradução literal, a moda rápida.

  • Fotografia de uma atividade educativa realizada pelo PET Química da UEM, montado sob uma estrutura inflável vermelha e branca. Em primeiro plano, há uma mesa coberta com tecido preto, sobre a qual estão copos, pequenos recipientes, pinças e uma cartela com diferentes cores. À esquerda, duas jovens conversam e demonstram materiais para os visitantes. Ao centro, outra jovem gesticula enquanto explica a atividade para duas pessoas. Ao fundo, há um painel com o título “Etapas de Fabricação Têxtil”, acompanhado de um esquema ilustrativo do processo de produção de tecidos.
  • Foto de uma oficina intitulada “Resíduos Têxteis”, com informações e ilustrações sobre diferentes tipos de resíduos e seu reaproveitamento. No centro, algumas pessoas participam de uma atividade prática. Em primeiro plano, duas crianças seguram varas compridas e brincam de pescar objetos coloridos em uma pequena piscina inflável azul. Ao redor, estudantes e visitantes acompanham a atividade.
  • Fotografia de uma atividade educativa sobre fast fashion e slow fashion. Em primeiro plano, duas estudantes usando camisetas azuis da UEM conversam com visitantes e apresentam peças de roupas dispostas sobre uma mesa coberta com tecido preto. Sobre a mesa também há pequenas placas, materiais coloridos e um cesto. Diversas pessoas participam da atividade e observam as roupas e os materiais expostos.
  • Fotografia de um estande da Universidade Estadual de Maringá, identificado pela sigla “UEM” em uma grande faixa branca instalada sobre uma estrutura inflável vermelha. O estande está em uma área externa, arborizada e ensolarada. Várias pessoas, principalmente jovens, estão reunidas dentro e ao redor do espaço, algumas conversando e outras observando materiais expostos em painéis. Ao fundo e nas laterais, há cartazes informativos e banners relacionados às atividades do estande. A imagem mostra o movimento de visitantes durante um evento.
  • Foto de grupo com 18 pessoas, entre jovens e adultos, reunidas em frente a um grande arco inflável vermelho. O grupo posa para a câmera e usa camisetas nas cores azul e preta, algumas com o símbolo do PET Química, um átomo. Ao fundo, há uma faixa branca com o logotipo e o nome “UEM – Universidade Estadual de Maringá”. A fotografia foi tirada à noite, em um espaço externo, com iluminação artificial.

A moda rápida

A Amanda Gonçalves, que participa do PET-Química há dois anos, explicou que muitos dos problemas ambientais causados pela indústria da moda são resultado da produção em larga escala de peças de roupas, muitas vezes, produzidas em condições inadequadas de trabalho e feitas para serem utilizadas no período da tendência do momento. Tendências pensadas, fabricadas, vendidas e descartadas pelas grandes marcas do mercado têxtil.

Fotografia de Melissa Okabayashi, à esquerda, e Amanda Gonçalves, à direita, lado a lado e sorrindo para a câmera durante a exposição do PET Química. As duas usam camisetas polo azul-marinho com detalhes roxos e com o símbolo do PET, representado por um átomo. Melissa tem cabelos lisos e escuros, na altura dos ombros, e franja. Amanda usa óculos de armação clara e tem cabelos longos, cacheados e escuros. Ao fundo, há outras pessoas circulando pelo espaço do evento, além de mesas e uma estrutura inflável vermelha. A fotografia foi feita em um ambiente iluminado e movimentado.
Melissa Okabayashi e Amanda Gonçalves (Foto/Arquivo pessoal)

Devido à conveniência de se comprar o que é mais barato e todo mundo considera bonito, as marcas que apostam nesse modelo de produção são as dominantes no mercado global, o que faz com que o tamanho do problema seja elevado à nível global: a indústria da moda é uma das mais poluentes do planeta!

Em geral, a indústria têxtil consome uma quantidade enorme de água – aqui, destaco a produção de calças jeans que pode consumir até 10 mil litros de água por peça. A produção de roupas também faz o uso de diversos produtos químicos para a fabricação e tingimento das roupas. Na maioria das vezes, o descarte dos químicos é feito de maneira irregular,  contaminando o ar, o solo, as águas e, consequentemente, toda uma cadeia alimentar.

Além disso, há de se destacar o impacto que causam após terem seu “prazo de validade” vencido. Tradicionalmente, o calendário da moda é dividido entre a temporada de primavera/verão e a de outono/inverno. Hoje, nota-se que, para além delas, inúmeras macrotendências surgem para acompanhar as novas estéticas que o mundo digital fabrica sem parar. Por serem produzidas em larga escala e feitas para durarem pouco, toneladas de roupa vão parar em lugares como o “cemitério de roupas” do Deserto do Atacama, um lixão a céu aberto de roupas que não foram vendidas a tempo. Estima-se que 39 mil toneladas de roupas são depositadas anualmente por lá.

Fotografia de um enorme acúmulo de roupas descartadas formando uma grande montanha no Deserto do Atacama. Centenas de peças de roupas de diferentes cores e tipos estão espalhadas pelo terreno, incluindo camisetas, calças, blusas e tecidos. Ao fundo, há grandes dunas de areia e outras pilhas de resíduos têxteis. A imagem evidencia a grande quantidade de roupas descartadas acumuladas no ambiente.
Pilha de roupas descartadas no Deserto do Atacama (Foto/Reprodução Martin Bernetti/AFP)

De acordo com a professora Débora, muitos dos cerca de 100 participantes que visitaram a exposição mostraram um desconhecimento acerca dos impactos sociais e ambientais da fast fashion, das possibilidades de reaproveitamento dos tecidos e alternativas para o descarte correto das peças.

“Outra informação da atividade que gerou impacto foi mencionar que apenas 1 kg de tecido pode consumir entre 100 e 200 litros de água e, dentre os participantes da comunidade da UEM, 78,7% dos entrevistados alegaram que não conheciam essa informação. Esses resultados sugerem que a associação entre a experimentação e a apresentação de informações sobre os impactos ambientais pode ter contribuído para ampliar as compreensões dos participantes sobre a problemática, o que reforça o potencial educativo da atividade”, contou a tutora do programa.

A moda lenta

Em contrapartida ao fast fashion, há a slow fashion, que vai, de fato, na direção oposta. A Amanda explicou que as peças de moda lenta são produzidas levando em conta a sustentabilidade: elas são fabricadas em um escala muito menor e com uma maior duração.

“A slow fashion é essa moda lenta justamente porque ela prioriza a qualidade e a durabilidade do produto, permitindo que as peças de roupa, mesmo que estejam velhas, possam ser reutilizadas e, de certa forma, reaproveitadas. A sustentabilidade está tanto na sua produção quanto na vida útil da roupa”, completa a estudante.

As marcas preocupadas com a sustentabilidade de suas peças também evitam os tecidos sintéticos, como o poliéster, elastano, nylon (poliamida) e acrílico. Francisco Campos Hungaro, que fez parte do PET-Química por mais de um ano e participou da exposição do AmbPET, explicou que esses tecidos são compostos de plásticos que vão parar até no nosso corpo. “Em qualquer lugar de descarte inadequado, há alguma contaminação por microplásticos de tecidos”, disse ele.

Fotografia de uma atividade educativa sobre metanol, realizada pelo PET Química da UEM. Na frente da imagem, o estudante Francisco Campos Hungaro está inclinado sobre uma mesa e conversa com um menino que veste uma camiseta esportiva azul e laranja e observa atentamente a atividade. Francisco usa uma camiseta azul-marinho com o símbolo do PET. Sobre a mesa, coberta com uma toalha azul-escura, há modelos de moléculas, tubos e recipientes utilizados para a demonstração. Ao fundo, um grande painel informativo apresenta o título “Metanol” e informações sobre o que é a substância, sua adulteração em bebidas e seus efeitos no organismo.
Francisco Campos Hungaro em uma exposição sobre o Metanol (Foto/Arquivo pessoal)

Na exposição, a fast fashion e a slow fashion foram apresentadas ao público por meio de um teste sensorial: duas calças jeans (uma de cada modelo de produção) foram apresentadas para que o público pudesse distingui-las. Qual é resultado de uma produção ecológica, ética e durável e qual foi fabricada para seguir tendências da moda… E de qual indústria você geralmente compra?

Grande maioria afirmou que não consome e não conhece (ou não conhecia) a slow fashion, além de serem minoria que realizam o descarte das peças de forma adequada. Com tantos problemas ambientais, por que não deixamos de comprar de marcas fast fashion e a substituímos por da slow fashion de uma vez por todas?

Além da facilidade de encontrar essas peças e do status imaginário associado às grandes marcas, há o fator preço: a moda lenta é mais cara.

Contudo, a Amanda destaca que, pela qualidade das peças, elas são mais propensas a terem uma “segunda vida”. “É justamente por elas serem produzidas em lojas mais independentes e marcas pequenas que podem ser encontradas de maneira mais acessível em feiras e brechós. São peças de segunda mão, mas com uma qualidade ainda assim muito boa”, resume.

Com isso posto, vamos dar uma retomada geral no porquê abrir mão das grandes marcas do mercado e optar por opções mais duradouras:

A imagem mostra, em primeiro plano, uma etiqueta de tecido branca sobre uma peça de roupa azul. No topo, está escrito “Por que aderir à moda lenta?”. Abaixo, aparecem os textos: “Questão ética de trabalho na produção”, “Preocupação com pegada ecológica”, “Valorização de marcas menores e independentes”, “Maior qualidade”, “Peças exclusivas”, “Charme atemporal” e “Facilidade em encontrar brechós com preços baixos”. No canto inferior esquerdo, há um símbolo verde de reciclagem.

Sempre que precisar de uma nova peça de roupa, vale a pena pensar no processo que a fez chegar na forma final e qual destino ela terá quando não servir mais. Afinal, o estilo de  cada um não precisa ser refém das temporadas da moda, muito menos o nosso planeta!

EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto:
Gustav Bartmann
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Matheus de Paula
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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