Muito mais que uma proteção para o nosso corpo, nos vestimos para comunicar quem somos no espaço-tempo. Seja para ficar charmoso para um encontro com o possível amor das nossas vidas, para uma entrevista de emprego que pode nos proporcionar uma nova fase profissional, para uma caminhada no parque com uma roupa confortável ou simplesmente para nos sentirmos bem conosco mesmos.
Mas, diferente da maioria dos produtos que compramos, o prazo de validade das roupas tem um aspecto que vai além da durabilidade que têm pois a “aceitabilidade” que lhes é imposta vence de acordo com o calendário da moda. E qual é o preço a ser pago? Adianto que é bem mais do que o dinheiro pode pagar.
Particularmente, eu não pensava muito no impacto ambiental que as minhas roupas causavam, até que um dia, andando pela universidade, parei em frente a um interessante estande do PET-Química, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), intitulado “AmbPET: Os impactos da produção e dos resíduos da indústria têxtil no meio ambiente”.
Em poucas palavras, PET significa Programa de Educação Tutorial. Esse programa é promovido pelo Ministério da Educação e tem como intuito a promoção do desenvolvimento acadêmico de estudantes de graduação, com foco nos três pilares que formam a base das universidades brasileiras: o ensino, a pesquisa e a extensão. É a partir disso que os integrantes do PET, os petianos, realizam suas atividades dentro e fora da universidade.
Entre as atividades realizadas pelos petianos da graduação em Química, há uma de recorrência anual focada na conscientização de problemas ambientais chamada AmbPET. A professora Débora Nobile Clausen, que é a atual tutora do PET Química da UEM, explicou que a edição de 2026 visou conscientizar as pessoas sobre os impactos da indústria têxtil no meio ambiente. A atividade que apresentou formas de reciclagem e descarte correto dos resíduos têxteis produzidos pelo consumidor também proporcionou aos alunos participantes do PET a oportunidade de desenvolver novas habilidades.

De acordo com a professora, os petianos escolheram esse tema justamente por estarem em Maringá, polo da indústria de confecções no estado do Paraná, e próximos a outras cidades famosas pela indústria de confecções, como Apucarana e Cianorte, amplamente conhecida como a Capital Nacional do Vestuário.
Com o tema escolhido, os petianos se dividiram em quatro subtemas para realizarem pesquisa bibliográfica em revistas e periódicos para assim desenvolverem atividades interativas de conscientização. Assim, a exposição abordou “Aspectos gerais da produção industrial”, “Resíduos gerados pela indústria e a poluição”, “Descarte, reciclagem e economia circular” e “Fast fashion”.
Achei tão interessante que fiz questão de ver cada um dos subtemas expostos lá. Entre experimentos sobre o impacto dos pigmentos presentes nos tecidos, atividades de reutilização de tecidos e pesca interativa relacionada aos resíduos que iam parar nas águas, os estudantes de Química falaram sobre a Fast Fashion ou, em tradução literal, a moda rápida.
Exposição do PET Química sobre os impactos da produção e dos resíduos da indústria têxtil no meio ambiente (Foto/Arquivo PET Química) Exposição do PET Química sobre os impactos da produção e dos resíduos da indústria têxtil no meio ambiente (Foto/Arquivo PET Química) Exposição do PET Química sobre os impactos da produção e dos resíduos da indústria têxtil no meio ambiente (Foto/Arquivo PET Química) Exposição do PET Química sobre os impactos da produção e dos resíduos da indústria têxtil no meio ambiente (Foto/Arquivo PET Química) Exposição do PET Química sobre os impactos da produção e dos resíduos da indústria têxtil no meio ambiente (Foto/Arquivo PET Química)
A moda rápida
A Amanda Gonçalves, que participa do PET-Química há dois anos, explicou que muitos dos problemas ambientais causados pela indústria da moda são resultado da produção em larga escala de peças de roupas, muitas vezes, produzidas em condições inadequadas de trabalho e feitas para serem utilizadas no período da tendência do momento. Tendências pensadas, fabricadas, vendidas e descartadas pelas grandes marcas do mercado têxtil.

Devido à conveniência de se comprar o que é mais barato e todo mundo considera bonito, as marcas que apostam nesse modelo de produção são as dominantes no mercado global, o que faz com que o tamanho do problema seja elevado à nível global: a indústria da moda é uma das mais poluentes do planeta!
Em geral, a indústria têxtil consome uma quantidade enorme de água – aqui, destaco a produção de calças jeans que pode consumir até 10 mil litros de água por peça. A produção de roupas também faz o uso de diversos produtos químicos para a fabricação e tingimento das roupas. Na maioria das vezes, o descarte dos químicos é feito de maneira irregular, contaminando o ar, o solo, as águas e, consequentemente, toda uma cadeia alimentar.
Além disso, há de se destacar o impacto que causam após terem seu “prazo de validade” vencido. Tradicionalmente, o calendário da moda é dividido entre a temporada de primavera/verão e a de outono/inverno. Hoje, nota-se que, para além delas, inúmeras macrotendências surgem para acompanhar as novas estéticas que o mundo digital fabrica sem parar. Por serem produzidas em larga escala e feitas para durarem pouco, toneladas de roupa vão parar em lugares como o “cemitério de roupas” do Deserto do Atacama, um lixão a céu aberto de roupas que não foram vendidas a tempo. Estima-se que 39 mil toneladas de roupas são depositadas anualmente por lá.

De acordo com a professora Débora, muitos dos cerca de 100 participantes que visitaram a exposição mostraram um desconhecimento acerca dos impactos sociais e ambientais da fast fashion, das possibilidades de reaproveitamento dos tecidos e alternativas para o descarte correto das peças.
“Outra informação da atividade que gerou impacto foi mencionar que apenas 1 kg de tecido pode consumir entre 100 e 200 litros de água e, dentre os participantes da comunidade da UEM, 78,7% dos entrevistados alegaram que não conheciam essa informação. Esses resultados sugerem que a associação entre a experimentação e a apresentação de informações sobre os impactos ambientais pode ter contribuído para ampliar as compreensões dos participantes sobre a problemática, o que reforça o potencial educativo da atividade”, contou a tutora do programa.
A moda lenta
Em contrapartida ao fast fashion, há a slow fashion, que vai, de fato, na direção oposta. A Amanda explicou que as peças de moda lenta são produzidas levando em conta a sustentabilidade: elas são fabricadas em um escala muito menor e com uma maior duração.
“A slow fashion é essa moda lenta justamente porque ela prioriza a qualidade e a durabilidade do produto, permitindo que as peças de roupa, mesmo que estejam velhas, possam ser reutilizadas e, de certa forma, reaproveitadas. A sustentabilidade está tanto na sua produção quanto na vida útil da roupa”, completa a estudante.
As marcas preocupadas com a sustentabilidade de suas peças também evitam os tecidos sintéticos, como o poliéster, elastano, nylon (poliamida) e acrílico. Francisco Campos Hungaro, que fez parte do PET-Química por mais de um ano e participou da exposição do AmbPET, explicou que esses tecidos são compostos de plásticos que vão parar até no nosso corpo. “Em qualquer lugar de descarte inadequado, há alguma contaminação por microplásticos de tecidos”, disse ele.

Na exposição, a fast fashion e a slow fashion foram apresentadas ao público por meio de um teste sensorial: duas calças jeans (uma de cada modelo de produção) foram apresentadas para que o público pudesse distingui-las. Qual é resultado de uma produção ecológica, ética e durável e qual foi fabricada para seguir tendências da moda… E de qual indústria você geralmente compra?
Grande maioria afirmou que não consome e não conhece (ou não conhecia) a slow fashion, além de serem minoria que realizam o descarte das peças de forma adequada. Com tantos problemas ambientais, por que não deixamos de comprar de marcas fast fashion e a substituímos por da slow fashion de uma vez por todas?
Além da facilidade de encontrar essas peças e do status imaginário associado às grandes marcas, há o fator preço: a moda lenta é mais cara.
Contudo, a Amanda destaca que, pela qualidade das peças, elas são mais propensas a terem uma “segunda vida”. “É justamente por elas serem produzidas em lojas mais independentes e marcas pequenas que podem ser encontradas de maneira mais acessível em feiras e brechós. São peças de segunda mão, mas com uma qualidade ainda assim muito boa”, resume.
Com isso posto, vamos dar uma retomada geral no porquê abrir mão das grandes marcas do mercado e optar por opções mais duradouras:

Sempre que precisar de uma nova peça de roupa, vale a pena pensar no processo que a fez chegar na forma final e qual destino ela terá quando não servir mais. Afinal, o estilo de cada um não precisa ser refém das temporadas da moda, muito menos o nosso planeta!
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Texto: Gustav Bartmann
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Matheus de Paula
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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