Perder alguém de forma repentina é incompreensível e doloroso. Porém, passar por um sofrimento intenso sem fim, é sufocante. Para quem está imerso nessa angústia, o suicídio, muitas vezes, apresenta-se como a única forma de alívio.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que cerca de 720 mil pessoas tiram a própria vida anualmente no mundo. Aliás, essa é uma das principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Um estudo divulgado na Revista Brasileira de Criminalística aponta que, no Brasil, a taxa de suicídio foi de 8,1 por 100 mil habitantes, no ano de 2022, maior para os homens (13,1 por 100 mil habitantes) do que para mulheres (3,39 por 100 mil habitantes).
Os psicólogos do Núcleo de Apoio e Assistência Estudantil (NAE), da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), Luan Martins Tavares Ferreira e Maria Clara Valente, em conversa com o C², afirmaram perceber um aumento dos casos. Eles também afirmam, no entanto, que a busca por apoio se expandiu, o que pode explicar a percepção do crescimento.
É inegável que buscar ajuda é possível quando projetos viabilizam a melhora na saúde mental das pessoas, como o projeto do NAE. Conversar sobre o suicídio, contudo, é entender que o tópico passa por múltiplos fatores e trespassa questões socioeconômicas.
O Setembro Amarelo
Nascida de uma tragédia real, a campanha global do Setembro Amarelo, que conscientiza as pessoas sobre a importância de pedir ajuda, foi inspirada no caso de Mike Emme, de 17 anos, um jovem norte-americano que tirou a vida em setembro de 1994. Em meio à dor da despedida, amigos e familiares do jovem distribuíram cartões amarrados com fitas amarelas e a mensagem “Se você precisar, peça ajuda”. A iniciativa ganhou uma rede de apoio e originou o Yellow Ribbon (Fita Amarela). No Brasil, o movimento vem por iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e do Conselho Federal de Medicina (CFM). A data 10 de setembro ficou marcada oficialmente como o Dia Mundial de Prevenção ao suicídio. Para saber mais sobre o assunto, confira o podcast “Conexão Setembro Amarelo”.

Algumas das intenções do Setembro Amarelo são: reduzir o preconceito em torno da saúde mental, conscientizar a população em relação aos fatores de risco para comportamentos suicidas e orientar tratamentos adequados. Afinal, o suicídio é multifatorial. Nos dados de pesquisas, a ABP diz que 96,8% dos casos de morte por suicídio estão ligados a transtornos mentais. Luan Martins, psicólogo, explica que relacionamentos, vínculos familiares fragilizados e dificuldades acadêmicas são exemplos de fatores que podem levar à ideação suicida. Já a OMS aponta como fatores: conflitos, desastres, violências, abusos, perdas e isolamento. Ou seja, não é uma ciência exata. Por isso, a organização elaborou medidas variadas para os países prevenirem casos de suicídio, a iniciativa Live Life:

Mesmo assim, ainda há uma barreira entre as pessoas e o apoio adequado. Mas, nos últimos anos, iniciativas como o NAE vêm florescendo. Cada vida perdida pelo suicídio é uma tragédia que afeta famílias e comunidades inteiras, com consequências duradouras sobre as pessoas que ficam.
O que é o Núcleo de Apoio e Assistência Estudantil (NAE)?
Inspirado no Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), o NAE é uma resposta. O Núcleo tem ações interdisciplinares e multifacetadas, voltadas à inclusão, ao apoio estudantil, à permanência, à equidade e ao bem-estar dos estudantes (de graduação e pós-graduação) em situação de vulnerabilidade socioeconômica, conforme o artigo publicado na revista Temas & Matizes.
Ao todo, a equipe conta com seis psicólogos distribuídos em três campi da UENP, dois no Campus de Jacarezinho, dois no Campus Luiz Meneghel, localizado no município de Bandeirantes e dois no Campus de Cornélio Procópio. Além de pedagogos e assistentes sociais, explica a psicóloga Maria Clara. A atuação do NAE foca em indígenas, negros, pessoas com deficiência, LGBTQIAP+ e pessoas de baixa renda, com campanhas de conscientização, acolhimento psicológico e social e fortalecimento de redes de apoio.

Uma máxima é A de que nenhum sofrimento sobrepõe-se a outro, mas as intersecções precisam ser observadas. Como é ser uma pessoa LGBTQIA+ no contexto universitário ou uma pessoa indígena cuja cultura colide com a dos pares? “Essas situações influenciam diretamente na saúde mental dessas pessoas”, destaca Luan Martins. “Situações de violência, de LGBTfobia, racismo e capacitismo, que estão presentes no nosso nível social, dentro da universidade também acontecem”, acrescenta o psicólogo.
Para esses grupos, casos de transtornos mentais costumam ser agravados diante de preconceitos, violências e negligências sofridas. De acordo com Luan, no contexto universitário, quando se deparam com colegas ou professores despreparados para respeitar e acolher suas singularidades, essas pessoas sofrem ainda mais.
“Passar pela universidade é quebrar uma barreira étnica, política, de inserção no ambiente que nem sempre foi feito para eles. Primeiro, existe uma barreira institucional sendo quebrada ali, uma barreira cultural também”, exemplifica Maria Clara.
Um aspecto otimista para a comunidade LGBTQIA+ é a criação de uma rede de apoio. A psicóloga aborda a questão de que “muitas vezes a gente foca na violência, mas é dentro da universidade que conhecemos pessoas e nos identificamos com grupos. Isso acontece muito na comunidade LGBT. Uma sensação de pertencimento, de acolhimento grande, que muitas vezes não tem com a família. Então, é na universidade que eu faço amigos, que me comunico com pares e consigo me permitir ser quem eu sou”.

Sobre o trabalho psicológico do NAE, Luan explica que não é uma psicoterapia de longo ou curto prazo. O padrão é de oito atendimentos, mas “se a gente chegar na oitava sessão e perceber que é um caso que demanda um acompanhamento maior, a gente pode estender esse número até termos garantia de que esse paciente foi atendido”, diz.
Quando a conversa entrou na questão do suicídio, o psicólogo explicou que, na psicologia, há duas vertentes da suicidologia: uma trabalha a prevenção e a outra a pós-venção. O segundo caso é desenvolvido após a tentativa e tem o desafio de ofertar o acolhimento para a pessoa em sofrimento psíquico intenso. Maria Clara afirma que, nesse caso, a pessoa poderá ser encaminhada para o órgão competente, como o CAPS ou psiquiatra, incluindo a família no atendimento, se necessário.
A ação do NAE privilegia, sempre, a prevenção. “Estar com os direitos assistidos, o direito de ir para a faculdade com segurança, de estar em um ambiente universitário em que você não sofre assédio moral, assédio sexual ou qualquer tipo de violência, é um caminho para a prevenção”, explica a psicóloga.
Como perceber e ajudar quem precisa?
E para prevenir, é preciso perceber. O primeiro passo, talvez o mais difícil, deve ser dado logo que identificada a tendência à ideação suicida. Em alguns casos, por medo ou vergonha, as pessoas não se sentem confortáveis em pedir ajuda. Por isso, é preciso entender que o pedido é sinônimo de força e coragem. Além disso, é importante estar ligado ao comportamento de quem está ao redor.
Por mais que não exista um padrão comportamental específico, existem alguns sinais que podem servir como um alerta, segundo os psicólogos. Esses sinais são mudanças de comportamento bruscas, uma pessoa muito comunicativa e participativa, torna-se quieta e isolada; um colega passa a ficar muito triste e cansado, queda do rendimento acadêmico, faltas em excesso ou diz frases com teor de despedida.
Em casos de pacientes com ideações suicidas, é importante entender que eles não querem acabar com a própria vida, o que querem é terminar uma situação de sofrimento e, para eles, não há outra alternativa para se livrar da dor. É em casos como esses que a rede de apoio se torna fundamental, com ajuda de psicólogos, amigos, família e outros profissionais, “para que, de alguma forma, exista uma possibilidade da pessoa enxergar uma outra potência de vida e outra possibilidade que não seja a morte”, destaca Luan.
O importante é não passar por isso sozinho
A equipe do NAE busca promover ações de prevenção ao suicídio, com rodas de conversa, que são realizadas em conjunto com outros coletivos, como por exemplo coletivos feministas, coletivos de pessoas pretas e ONGs para pessoas LGBTQIA+. E atividades como essas são realizadas com foco na interseccionalidade, visando o apoio psicológico para os estudantes da universidade.
Para o Setembro Amarelo, o NAE promove o II Ciclo de Encontros sobre a Prevenção ao suicídio, o Diálogos pela Vida. A primeira edição foi em 2025, em formato de bate-papo com psicólogos convidados. No segundo ciclo, que começou dia 8 e terminou dia 10 de setembro, o formato foi diferente. Luan contou para a gente que eles escolheram convidados para dar falas direcionadas em cada campus. Além de apresentar como funciona o NAE e como agir, quando acionar a emergência ou quando levar para órgãos responsáveis.

Os canais oficiais do NAE contêm as informações, e também um tutorial completo de como pedir atendimento psicológico e, no site da UENP, há todas as informações sobre a segunda edição do Diálogos pela Vida.
Não passe por um sofrimento sozinho, peça apoio.
EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto: Carla Rabelo e Carlisle Ferrari
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Carlisle Ferrari
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

Gostou do nosso conteúdo? Nos siga nas nossas redes sociais: Instagram, Facebook e YouTube.

