Há exatos 50 anos, o Brasil conquistava a sua primeira medalha na história dos Jogos Paralímpicos. Você pode até achar que o país demorou muito para alcançar esse feito, mas, na verdade, foi muito rápido, afinal, a primeira edição do evento aconteceu apenas em 1960, quase uma década depois dos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna.
Nas Paralimpíadas de Toronto 1976, no Canadá, a dupla de brasileiros Robson Sampaio de Almeida e Luiz Carlos da Costa foram medalhistas de prata na modalidade Lawn Bowls, formavam uma dupla. O começo de uma linda trajetória até a mais recente Paralimpíada, em Paris 2024, que consagrou a melhor campanha brasileira da história, com um total de 89 medalhas.
25 ouros, 26 pratas e 38 bronzes. Esse também foi o maior número de ouros para o Brasil em uma única edição. Além disso, conseguimos a nossa melhor colocação até então, terminando em 5º lugar no quadro geral de medalhas.
Infelizmente, muitas pessoas nem ficam sabendo da grandiosidade de nossas participações, prendendo a atenção apenas aos Jogos Olímpicos. Se você ainda tem dúvidas sobre a história dos Jogos Paralímpicos, confira esse vídeo especial sobre o tema:
É de encher de orgulho como o Brasil é uma potência nos esportes paralímpicos, não é mesmo?
Isso se deve – e muito – a diversas organizações que atuam na promoção dessas modalidades, como a Associação Desportiva Para Deficientes (ADD). A entidade foi fundada em 1996, pelo professor de educação física Steven Dubner e a administradora Eliane Miada. Nos Jogos Paralímpicos de Paris 2024, a ADD foi responsável por levar seis atletas, todos do atletismo, que trouxeram quatro medalhas para casa.

Mas a Associação não foca apenas nos atletas de alto rendimento, já que o esporte pode mudar histórias desde os primeiros momentos da vida. Por isso, também foi a instituição pioneira na educação esportiva de crianças com deficiência, ao final da década de 1990.
Pouco depois, em 2001, surgiu um projeto de aulas de natação para crianças com deficiência. A então mestranda em Educação Física e Esportes, pela Universidade de São Paulo (USP), Márcia Greguol, participava da equipe técnica do projeto e se encantou pelas possibilidades geradas com ele.
Em 2006, após a conclusão do doutorado, Márcia ingressou como professora adjunta do Departamento de Ciências do Esporte (DES), da Universidade Estadual de Londrina (UEL), e não pensou duas vezes em reproduzir o aprendizado na ADD para as novas levas de universitários da área.

Assim, o projeto de extensão “Natação Para Todos” passou a integrar a piscina do Centro de Educação Física e Esporte (CEFE/UEL), coordenado pela professora Márcia – atualmente, também coordenadora do curso de Educação Física da UEL – e tendo como auxiliares os estudantes do curso. O objetivo é oferecer e aplicar atividades aquáticas gratuitamente para crianças e adolescentes com diagnósticos de deficiência visual, auditiva, intelectual, motora, múltipla ou Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A fila de espera é imensa, afinal, o projeto é um dos únicos gratuitos nessa vertente, na cidade de Londrina. Atualmente, eles atendem 64 crianças e adolescentes, focando em casos mais graves e adaptando o meio líquido para o ato de nadar de cada pessoa.
É um projeto que ensina que não devemos nos prender ao nosso entendimento do que é um ‘nado peito’ ou ‘nado costas’, por exemplo. Cada criança vai ter a sua possibilidade diferenciada e a sua forma de entender cada modalidade.
“A gente atende, por exemplo, crianças com paralisia cerebral tão grave que se alimentam por sonda. Então, elas talvez não tenham a autonomia para executar os nados exatamente como conhecemos. Mas, ainda assim, é possível fazer uma série de movimentações no ambiente aquático com elas, manipulando objetos, movimentando o corpo, tendo contato com outras pessoas… E, no fim, a ideia é que todo mundo se divirta e se beneficie das propriedades da água”, conta a coordenadora.
A professora Márcia explica que o objetivo do projeto nunca foi oferecer terapia, mas que, inevitavelmente, isso acaba acontecendo. Muitas famílias atendidas têm essa única oportunidade do momento da natação para oferecer algo de viés terapêutico para os filhos. É um respiro na semana para que a criança saia de casa e se conecte com uma atividade diferente e prazerosa.
O projeto atende crianças e adolescentes que necessitam do uso diário de cadeiras de rodas e muletas, bem como passam a semana deitados em camas hospitalares, sendo o momento da piscina algo especial para que eles tenham outra percepção dos seus corpos e suas capacidades.
Os atendimentos, por requererem uma atenção diferenciada, acabam sendo no sistema de um-para-um, ou seja, com certa individualização. Isso permite oferecer o melhor acompanhamento para cada participante, adaptando o procedimento às suas necessidades e possibilidades, bem como promovendo segurança dentro da piscina. No entanto, no final das aulas, os monitores sempre acabam desenvolvendo atividades em grupo, criando momentos de integração e partilha entre as crianças e os adolescentes.
Cada aluno tem a sua ficha técnica, onde são anotadas informações sobre controle respiratório, flutuação, propulsão de perna, propulsão de braço e critérios específicos visualizados durante as aulas. O registro permite analisar a evolução e adaptação de cada um dos participantes, mas claro, não há “certo ou errado” nessas avaliações, com as particularidades sendo respeitadas.
“Eu sempre explico para os monitores que não podemos deixar nosso ensino preso dentro de uma caixinha. Que um nado deve começar de um jeito e terminar de outro ou que um critério de nado deve ter um resultado específico, por exemplo. Às vezes, em alguns momentos, determinadas habilidades vão ser mais difíceis e outras, talvez, nem sejam alcançadas. Mas, dentro da possibilidade de cada um, nós analisamos se o aluno está em um estágio iniciante ou intermediário, ou mesmo se já consegue fazer alguma execução de forma independente”, explica Márcia.
E os benefícios para os alunos vão desde aqueles que são óbvios para até os inesperados. Há melhorias na resistência respiratória, no tônus muscular, na coordenação motora, na postura e no equilíbrio. Mas as mães também relatam grandes melhoras no desempenho escolar, na percepção cognitiva, na sociabilidade e na própria relação em família.
Inclusive, para além de olhar para essas crianças e adolescentes com deficiência, a equipe do projeto passou a olhar para as pessoas ao redor de cada uma delas. O que motivou a criação, em 2023, de mais um projeto de extensão especial para as mães de crianças e adolescentes com diagnóstico severo do TEA, também coordenado pela professora Márcia.
O “Cuidando de Quem Cuida” oferece e aplica exercícios físicos gratuitamente, na academia do CEFE/UEL. Atualmente, são atendidas cerca de 20 mães e, enquanto praticam musculação, os filhos são atendidos por monitores em um espaço separado, onde desenvolvem atividades funcionais.
Essas mães, diariamente, exigem muito do próprio físico, auxiliando no transporte e deslocamento de seus filhos e necessitam de um corpo forte e resistente. Muitas delas relatam que acabam desenvolvendo problemas de coluna, nos ombros e joelhos, tornando fundamental que também deem atenção para a própria saúde.
Infelizmente, muitas negligenciam esse aspecto, em detrimento da saúde dos próprios filhos. Por isso, o projeto chega com a missão de oferecer o protagonismo a essas mulheres, avaliando sua aptidão física, composição corporal, capacidade cardiorrespiratória, qualidade de vida, força, flexibilidade e, até mesmo, nível de depressão.
“O foco é saúde e não estética, mas, muitas dizem que começaram a se olhar mais, dar mais atenção para si próprias, pensando na autoestima e começaram a cuidar mais da alimentação. Além disso, elas também criaram vínculos entre si, formando uma grande rede de apoio e a amizade é uma das coisas que a gente mais percebe que colabora na melhora da qualidade de vida”, comenta a coordenadora.
Márcia conta que os monitores percebem as melhorias conforme realizam o acompanhamento, com as mães desenvolvendo mais força e resistência física, diminuindo dores no corpo e, o mais importante, enxergando-se para além da maternidade atípica.
Para além dos projetos de extensão, a docente também coordena o Grupo de Estudos e Pesquisa em Atividade Física e Deficiência (GEPAFID), que, por meio de intervenções práticas, investiga o impacto de diferentes atividades físicas e esportivas em indicadores de saúde de Pessoas com Deficiência (PCDs).
O grupo também tem o propósito de disseminar informações sobre a aptidão física e a prática de atividade física e esportiva de PCDs para a comunidade em geral, enfatizando a importância do processo de inclusão social entre a população e dos Esportes Adaptados para PCDs.
Todos os monitores do “Natação para Todos” e do “Cuidando de Quem Cuida” fazem parte do GEPAFID, conectando diretamente a teoria à prática. São desde alunos da graduação, desenvolvendo iniciações científicas, até doutorandos, no processo de elaboração de suas teses.
“Trabalhar ou não com pessoas com deficiência, hoje em dia, não é uma opção, graças a Deus! Você vai lidar com esse público nas escolas, nas academias, nos clubes, nos condomínios… Então, por isso, minha maior preocupação nos dois projetos é desenvolver nos alunos uma formação mais humana, mais voltada pro olhar ao outro e que eles saiam capacitados para lidar com diversidade, que é algo que eu acho que falta tanto na área de saúde”, afirma a coordenadora dos projetos.
As aulas do “Natação para Todos” acontecem às terças-feiras, das 9h às 10h ou das 13h às 14h, bem como nas quintas-feiras, das 13h às 14h. Já as aulas do “Cuidando de Quem Cuida” ocorrem de segunda e quarta-feira, das 9h às 10h. Caso você tenha interesse em participar, entre em contato pelo Instagram dos projetos: @adaptada.uel.
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Texto: Mariana Manieri Pires Cardoso
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de vídeo: Anna Júlia Proença
Arte: Lorena Mendonça
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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