Quando o tratamento oncológico chega ao fim e o barulho do sino anuncia a cura, um novo capítulo, muitas vezes silencioso, se inicia.
Vencer o câncer não significa retornar ao ponto de partida. Para milhares de sobreviventes, ser resiliente é a chave para continuar a caminhada e redefinir o próprio futuro. Entre o receio do retorno da doença e as marcas deixadas pelo tratamento, surge a urgência de olhar para a vida que continua.
Pensar no pós-tratamento é pensar em como as pessoas estão lidando com as cicatrizes invisíveis. Nesse momento, pequenas ações ganham um grande significado e viver a vida tem um sentido diferente.
Em busca da conexão com essas pessoas, a enfermeira, mestre e doutora em Ciências da Saúde, Luciana Puchalski Kalinke, pesquisa a qualidade de vida dos sobreviventes de câncer. Junto ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENF) e à área de Oncologia e Hematologia, integrada ao Complexo Hospital de Clínicas (CHC-UFPR/Ebserh), ela coordena a Rede de Pesquisa em Cuidados e Qualidade de Vida de Sobreviventes de Câncer (ReCANCER).
A Rede apoia os sobreviventes da doença com foco na melhoria da qualidade de vida, seja por meio de informes e conteúdos voltados ao dia a dia, materiais educativos ou orientações gerais. Uma das ações produzidas pelo grupo foi o e-book “Sou estomizado. E agora? Como cuidar?”, que apresenta informações necessárias para os cuidados após o processo cirúrgico, de forma rápida, simples e gratuita.
A ideia também é promover ações que possam melhorar a qualidade de vida dos sobreviventes de câncer. Segundo profissionais, mesmo após vários anos do diagnóstico, muitas pessoas ainda têm medo da recorrência da doença, já que algumas sofrem com efeitos adversos ou tardios oriundos da quimioterapia, da cirurgia ou dos impactos emocionais do tratamento.
“Com todo esse surgimento de novas tecnologias, de novas formas de diagnóstico, de novos tipos de tratamento, nós observamos que, com diagnósticos cada vez mais precoces, nós observamos que os pacientes que têm câncer, eles têm uma sobrevida muito maior. Então, muitos serão curados e serão sobreviventes, logo, vão sempre estar precisando de um atendimento diferenciado. O foco então, é fortalecer ações que possam minimizar esses impactos que o câncer causou nestas pessoas, que de alguma forma que eles tenham uma qualidade de vida melhor”, enfatiza a coordenadora da rede.

Explorando a pesquisa
Outros estudos relacionados à qualidade de vida destacam a importância de pensar nas outras áreas em que os pacientes precisam de suporte, como a dor física, as questões emocionais e sociais e o desempenho de papéis, como a volta à rotina e as suas funções cotidianas.
É nesse contexto que a professora Luciana comenta sobre outras formas de cuidado que podem contribuir para o bem-estar dessas pessoas, como terapias não farmacológicas, que trabalham a mente e o corpo. A auriculoterapia, por exemplo, é uma prática que pode auxiliar nesse cuidado.
Para aproximar esse conhecimento do cotidiano dos pacientes, o projeto estruturou um portal institucional vinculado à UFPR e um perfil oficial no Instagram, com duas frentes integradas de atuação. De um lado, o site disponibiliza dados e materiais científicos para pesquisadores interessados no estudo da sobrevida. De outro, oferece aos sobreviventes um canal direto com conteúdos educativos, curiosidades e orientações práticas de especialistas, abordando temas que vão de nutrição e rotina de exercícios físicos até depoimentos de superação.
Com essa estratégia de comunicação contínua, as evidências científicas e as possibilidades de cuidado deixam de ser conceitos teóricos e se transformam em ferramentas acessíveis de acolhimento, garantindo que os sobreviventes possam usufruir de um suporte efetivo em sua rotina.

A extensão universitária
Rede atua por meio de cinco Grupos de Trabalho (GTs) específicos:
- GT1: centrado no cuidado integral e na qualidade de vida abrangendo aspectos físicos, emocionais e sociais;
- GT2: voltado ao desenvolvimento e aplicação de tecnologias inovadoras para monitoramento e suporte à saúde;
- GT3: focado em investigar aspectos legais, políticas públicas e desigualdades sociais;
- GT4: direcionado à educação, capacitação e formação profissional de pesquisadores e profissionais da saúde;
- GT5: focado na expansão das ações para diferentes tipos de câncer e suas especificidades.
Dessa forma, a ReCANCER consolida uma rede colaborativa nacional e internacional que integra pesquisa, cuidado e políticas públicas para transformar a vida dos sobreviventes de câncer. Cada instituição participante contribui com suas competências, linhas de pesquisa e infraestrutura para o fortalecimento científico da rede.

O Centro-Oeste do Brasil ainda é a única região do país sem instituições participantes do projeto. Mas além do Brasil, a ReCANCEFR está representada internacionalmente em 3 instituições, na Escuela de Enfermería Universidad del Vall, na Colômbia, na Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra em Portugal e na Fondazione IRCCS Ca’ Granda, Ospedale Maggiore Policlinico di Milano na Itália.
Além desses pesquisadores e profissionais, a Rede de Pesquisa é composta por profissionais de diversas áreas e instituições pelo Brasil, indo além de colaboradores de universidades públicas, mas com hospitais de referência e centros de pesquisa.
O setor de Oncologia do Complexo Hospital de Clínicas (CHC) da UFPR é um dos parceiros da iniciativa. O enfermeiro Leonel dos Santos Silva, que atua há alguns anos no hospital, pensava, desde o mestrado, em estratégias para melhorar a qualidade de vida de pessoas que vivem com doenças hemato-oncológicas. Com o surgimento do ReCANCER, encontrou uma oportunidade de aproximar seus interesses profissionais dos objetivos da rede, voltada à pesquisa e à melhoria da vida dessas pessoas.
Ele comenta que o CHC é como um livro de incontáveis páginas com lindas histórias de vida, e que apesar de diariamente vivenciar muito sofrimento, eles sempre são agraciados com lindas histórias de superação e resiliência.
“Lembro que há muitos anos atrás eu tive a grata oportunidade de cuidar de uma criança, que veio do norte do país para transplante de medula óssea, e que ao finalizar seu tratamento retornou para sua cidade, e acabou que não tive mais notícias. Muitos anos se passaram e a mesma criança, agora adolescente, retorna devido à doença e com a necessidade de um novo transplante. Já se passaram anos após esse segundo procedimento e, mesmo com algumas sequelas decorrentes do tratamento, ela segue sobrevivendo e seguindo a vida na cidade dela. De tempos em tempos ainda nos falamos. É muito gratificante lembrar que ela é uma sobrevivente e muitos profissionais participaram do cuidado”, expõe Leonel dos Santos Silva.
Outubro Rosa
É de conhecimento público que, no mês de outubro, acontece a campanha de conscientização ao câncer de mama. O foco está em mostrar a importância do diagnóstico precoce e do tratamento. Luciana, que também faz parte do GEMSA, desenvolveu, junto de alunos do programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFPR, um artigo sobre mulheres sobreviventes de câncer de mama atendidas em um centro de referência do Paraná.
O estudo identificou um número expressivo de mulheres com menos de 50 anos entre as sobreviventes de câncer de mama. Os resultados apontaram que, mesmo após um ano da conclusão do tratamento, sequelas e sintomas continuavam afetando a vida dessas mulheres, que estavam retornando para o mercado de trabalho, voltando para suas casa, cuidando dos filhos e mantendo uma vida profissional ativa, ainda que convivessem com os reflexos da doença no seu dia a dia. O levantamento reforça a importância de políticas de saúde que olhem para além da cura e ofereçam suporte contínuo à reintegração social e ao retorno ao mercado de trabalho.
Desde 2025, o Ministério da Saúde passou a recomendar a realização de mamografia a partir dos 40 anos, via Sistema Único de Saúde (SUS), mesmo sem sinais ou sintomas. O exame, que antes era feito após 50 anos, se tornou necessário já que cada vez mais jovens estão passando por isso. Atualmente, mulheres de 40 a 49 concentram 23% dos casos da doença, de acordo com o órgão público.
Essa nova diretriz reforça a urgência de respostas eficazes, e é com esse propósito que pesquisas em universidades vêm somando esforços para o avanço do conhecimento da saúde pública. Estudos voltados ao tratamento são ótimos exemplos desse progresso, como mostra a pesquisa com um composto natural que está focado no tratamento do câncer de mama.
“O Outubro Rosa é o mês de conscientização para falar sobre o assunto, para ele não ficar esquecido e para as pessoas irem atrás e que cada vez mais seja espalhada a conscientização da importância da prevenção do câncer de mama”, ressalta a professora Luciana.

O Conexão Ciência – C² também conversou com Luciana sobre o mês do Outubro Rosa em um podcast, você pode conferir aqui.
Além disso, o projeto está alinhado com propriedades nacionais e internacionais de pesquisa e inovação, como o Plano de Ação Global da Organização Mundial da Saúde (OMS), os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, a Cancer – World Health Organization, entre outras iniciativas. O projeto sempre busca envolver esse cuidado integral dos sobreviventes e a promoção de qualidade de vida.
Como apresentado no site oficial da ReCANCER, o ODS 17, que visa fortalecer parcerias e meios de implementação, é contemplado refletindo o caráter colaborativo, interinstitucional e internacional da rede. A iniciativa promove parcerias entre universidades, centros de pesquisa, hospitais e organizações governamentais e não governamentais.
Assim como as pessoas que conheci e superaram o câncer, percebo que a verdadeira cura não se encerra no fim do tratamento. Viver como sobrevivente é um processo contínuo de reconstrução, que exige empatia, muito suporte e respeito ao tempo de cada história, que é única.
Projetos como a Rede ReCANCER nos lembram que a ciência mais transformadora é aquela que não abandona o paciente após a alta, mas que caminha ao seu lado para garantir que cada dia reconquistado seja vivido com dignidade e esperança.
EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto: Bernardo Vená e Guilherme Nascimento dos Santos
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Matheus de Paula
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

Gostou do nosso conteúdo? Nos siga nas nossas redes sociais: Instagram, Facebook e YouTube.

