Imagine uma universidade com mais de 3 mil unidades de discos de vinil! É o caso da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Por lá, o projeto de extensão Arte na Capa está a caminho de catalogar o extenso acervo de “bolachas” do Museu da Bacia do Paraná.
Fruto de um feat entre o departamento de História e o curso de Comunicação e Multimeios, a ideia surgiu quando o professor de história, David Netto, observou uma quantidade considerável de discos de vinil armazenados no acervo do museu. Além de não estarem adequadamente catalogados, as condições de conservação dos discos não eram as melhores.

Por estarem parados há tanto tempo, os discos não receberam o cuidado devido, e a falta de uma listagem dificultava saber quais artistas e álbuns poderiam ser encontrados. Mas isso não duraria para sempre.
Lado A: um pouco sobre o projeto
Nenhuma ideia se desenvolve sozinha. O docente de História contou com a colaboração dos professores de Comunicação, André Bonsanto e Roger Colacios, que propuseram o projeto de extensão e envolveram alunos na recuperação do material.
Lucas Saruhashi, aluno do 3º ano de História e participante do Arte na Capa, demonstrou entusiasmo no projeto desde o começo. “Sou louco por música, sempre admirei as diferentes maneiras históricas de reprodução fonográfica e, como artista, também me interessei muito em enxergar a gigante e extraordinária variedade de vinis”. Convidado por uma amiga, em 2025, conta que acha divertido “ter esse cuidado com um patrimônio histórico tão simbólico, ainda mais para alguém apaixonado por ouvir diferentes sons”.
O processo está em andamento e, a cada dia, recebe mais material. O Museu da Bacia do Paraná, recentemente, liberou mais de mil discos para os participantes. Nessa coleção, estão obras nacionais e internacionais dos anos 50 até os anos 90!

Além disso, o acervo conta com parte da cultura paranaense. Há discos de música regional, incluindo duplas sertanejas, grupos de samba e pagode, álbuns da Mostra de Música Cidade Canção (FEMUCIC), da UEM e de outros festivais musicais maringaenses.
Para acelerar o processo, um grupo de alunos faz a conservação das capas e discos, enquanto o outro grupo cataloga os vinis on-line, conta Lucas. Ter contato com o registro histórico trouxe não só parte da história regional, mas também resquícios de épocas anteriores. “Certos discos são especiais por haver assinaturas, dedicatórias e até um que encontramos com um pequeno registro de que passou pela ditadura militar”. De fato, é uma viagem musical pela história da cidade e das pessoas que a habitam.
Um olhar analógico
Para não deixar tudo só no museu, os coordenadores tiveram a ideia de organizar exposições temáticas. No mês de junho de 2026, entre os dias 16 e 30, quem passou pela Galeria de Artes da Biblioteca Central da UEM (BCE) conseguiu ver parte do acervo. Para a mostra “Olhares sobre o vinil!”, foram selecionados 96 discos, divididos por quatro décadas: 60, 70, 80 e 90. No último biombo, um espaço para a releitura das capas.
E não foi a única. Em maio, foi realizada uma exposição no Espaço Solagasta, voltada para os discos da cantora brasileira Rita Lee, consagrada como a “Rainha do Rock Brasileiro”. Quem visitou a exposição, além de poder ver alguns discos da cantora, também encontrou “bolachas” de outras artistas brasileiras, como Gal Costa, Maria Bethânia e Xuxa.
Os planos não param por aí. O coordenador adjunto do projeto diz haver interesse em outras iniciativas, “pretendemos levar essa e outras exposições para outros locais da cidade e, também, da região”.
Lado B: música e arte como pesquisa
Tudo que os participantes catalogaram pode ser encontrado neste perfil do Arte na Capa, do site Discogs. Trata-se de um catálogo colaborativo mundial mantido pelos usuários ao adicionar discos, CDs e fitas cassete. É uma forma de organizar coleções e buscar raridades.
O site “conta com uma base de dados imensa e nos auxilia a criar uma ficha catalográfica completa das obras, além de permitir o acesso público do que temos no acervo e também a inclusão de obras ainda não catalogadas no aplicativo”, diz Roger. O acervo digital servirá de base para eles trabalharem a parte da pesquisa, quando terminarem a catalogação e restauração.
“Observamos entre nós mesmos as diferenças estéticas, sonoridade, origem do material, sua condição atual e principais características entre eles ao longo dos anos. Desta forma, executamos empiricamente a interdisciplinaridade proposta pelos coordenadores, que nos ajudaram a investigar sobre a evolução histórica, artística, comunicativa e visual dos discos”, relata Lucas. Embora a pesquisa estética, comunicacional e das sonoridades desses produtos inicie só em uma segunda fase, “o olhar apurado esteve presente nos diálogos, aprendizado e trocas de experiência”, diz o estudante.
Projetos como o Arte na Capa ajudam a preservar a história e cultura regionais. Sem o trabalho e entusiasmo dos professores e alunos, a história da música de Maringá e Paraná permaneceria guardada nas prateleiras. E quem quiser fazer parte desta empreitada, e for aluno da UEM, pode entrar em contato com os coordenadores, pelo e-mail rdcolacios@uem.br. Os encontros ocorrem às terças, quartas e quintas-feiras, das 16h30 às 18 horas.
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Texto: Carla Rabelo e Carlisle Ferrari
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Hellen Vieira
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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