Inovação na cura de feridas em pets vem dos peixes

Ilustração em estilo artístico mostra dois cães de pequeno porte, de pelagem marrom com áreas bege no focinho e acima dos olhos. Ambos aparecem lado a lado, com expressão tranquila e olhos semicerrados. O cão da esquerda usa um colar de pérolas, enquanto o da direita tem uma mancha rosada visível na orelha. Uma mão humana, de pele escura, toca delicadamente a orelha do cão à esquerda. O fundo é azul com elementos decorativos coloridos, como flores, espirais e formas abstratas em tons de laranja, rosa e amarelo, criando um visual lúdico e vibrante.
Um hidrogel feito à base de pele de tilápia, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), pode salvar um pet

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Em um dia você é uma gatinha andando livremente e saudável pelas ruas de Ponta Grossa no Paraná, no outro está gravemente ferida e sem cuidados, ansiando por ajuda. Algumas pessoas te encontram e te encaminham para uma clínica veterinária, mas você não pode contar para elas o que lhe ocorreu. O que elas sabem e conseguem ver é que quase a totalidade da pele da sua barriguinha não existe mais, além da pele em partes das suas patinhas. A situação é extremamente delicada, mas as pessoas estão totalmente dispostas a te ajudar e a te proteger.

As veterinárias que te acompanham veem que você não tem forças para levantar nem para usar a caixinha de areia ou para comer. Elas precisam te alimentar, levando a comida diretamente na sua boca, e limpar o xixi que você faz em si mesma. Mas, elas começam a aplicar um produto nas suas feridas e você começa a perceber que elas já não doem tanto quanto no dia que você conheceu essas pessoas. 

Após mais de um mês, suas feridas estão super cicatrizadas e você já está instaurando o caos na clínica, subindo nos armários e ouvindo alguns “Pixel, desce já daí”. Você não liga muito, até porque ninguém está realmente bravo, afinal, você está tendo uma nova oportunidade de vida e vai aproveitá-la o máximo que puder!

Uma gata, Pixel, está deitada de costas sobre uma toalha rosa com estampas de patinhas coloridas. A gata tem pelagem tricolor (branco, preto e tons de laranja). O rosto está voltado para a câmera, com olhos grandes, verdes/amarelados, bem abertos. Duas pessoas estão manipulando o animal: Uma segura o corpo e outra segura gaze ou algodão próximo a uma área lesionada. Na região traseira da gata (próximo à cauda), há uma área avermelhada, que é uma ferida já cicatrizada. Ao lado, há um frasco transparente (possivelmente solução de limpeza ou antisséptico).
Gatinha Pixel após receber tratamento com hidrogel à base de pele de tilápia (Foto/Jéssica Natal)

E será que você sabe de onde veio todo o seu tratamento, Pixel?

Bom, voltando bem no início, tudo começou anos atrás, há mais de três mil quilômetros de Ponta Grossa, em Fortaleza, quando pesquisadores viram na pele da tilápia um imenso potencial cicatrizante. Esse é um tecido nobre, rico em colágeno, substância muito importante no processo de cicatrização e que acabava sendo descartado ao invés de ter o seu potencial explorado.

Isso porque a pele acaba sendo um subproduto de um comércio muito importante no Brasil, que é a pesca da tilápia, visando, unicamente, a comercialização de sua carne. O país é o quarto maior produtor de tilápia do planeta, gerando toneladas de um tecido tão especial todos os anos. Então, por que não explorar os seus benefícios ao invés de só descartá-los?

Infográfico em fundo azul apresenta a “Linha do tempo de pesquisas com o uso da pele da tilápia”, com textos em branco e elementos ilustrados em cores vibrantes. Em 2015, a Universidade Federal do Ceará indica o uso da pele de tilápia in natura para tratar queimaduras e ferimentos humanos, representado por um peixe e uma mão. Em 2018, a UFPR mostra a transformação da pele em pó hidrolisado. Em 2020, a UEPG converte esse pó em hidrogel e testa em ratos. Em 2021, o hidrogel é aplicado em feridas de castração de cães e gatos. Em 2022, surge uma biomembrana de quitosana. Em 2023, há aplicação em animais silvestres. Em 2026, prevê-se uso em feridas abertas de cães e gatos. Setas laranjas conectam as etapas com ícones de peixe, pó, mãos e animais.

Assim, pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), campus Jandaia do Sul, sob orientação do Prof. Dr. Eduardo César Meurer, foram instigados pelo potencial dessa pele e desenvolveram um hidrolisado para, posteriormente, testar e comprovar se as propriedades curativas e regeneradoras do tecido seriam mantidas se não fossem utilizadas diretamente, mas, sim, transformadas em outro produto. 

Para o desenvolvimento desse novo recurso, formalizou-se uma parceria com o Departamento de Ciências Farmacêuticas (Defar) e com o Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas (PPGCF), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), que resultou em um hidrogel. 

Esse estudo foi realizado no Laboratório de Análise Química de Produtos de Origem Natural, da UEPG, quando o médico veterinário e pós-graduado em Clínica Cirúrgica de pequenos animais, Rodrigo Tozetto, resolveu ingressar no mestrado, em 2020, sob orientação do Prof. Flávio Luis Beltrame, formado em Farmácia com habilitação na área de indústria e doutor na área da Química de Produtos Naturais.

Foi proposto o desenvolvimento de um hidrogel com potencial para o tratamento de feridas e queimaduras em animais, tendo como princípio um hidrolisado de peptídeos, na versão em pó, adquirido a partir de transformações químicas da pele de tilápia. Essa base é formada por pedaços de proteína do colágeno, que são adquiridos com o processo de hidrólise, ou seja, a quebra de uma molécula em partes menores pela adição de uma molécula de água.

A cena ocorre em um laboratório. No lado direito da imagem, há o Prof. Dr. Flávio Luis Beltrame, pele clara, usando jaleco branco. Ele tem cabelo grisalho, médio, penteado para trás, e usa óculos. Ele está de pé, ligeiramente inclinado para frente, abrindo a porta de um equipamento grande (parecido com uma estufa ou incubadora), de cor clara. Ao fundo, há estantes cheias de frascos de vidro, muitos com líquidos de diferentes cores (tons de âmbar, transparente, etc.). Os frascos estão organizados em fileiras. A iluminação é clara e clínica, típica de ambiente científico.
Prof. Dr. Flávio Luis Beltrame em laboratório durante pesquisa do hidrogel (Foto/Jéssica Natal)

O formato do hidrogel foi escolhido por ser uma das formas farmacêuticas tópicas mais utilizadas no mundo, juntamente das pomadas e dos cremes. Mas, diferentemente destes, ele possui a vantagem de ter uma absorção muito mais rápida pela pele, já que é um produto à base de água. 

Assim, pensando no uso veterinário, o hidrogel se torna uma das melhores opções, pois  impede que o produto fique na pele do animal por mais tempo, incomodando-o ou fazendo com que ele lamba a área, prejudicando o potencial medicamentoso. Ainda, há uma facilidade na produção, já que são amplamente estudados e populares no meio farmacêutico, além do bônus dos peptídeos encontrados na pele da tilápia serem solúveis em água. 

Então, para começar o desenvolvimento do produto, Tozetto realizou no laboratório da UEPG ensaios in vitro, ou seja, em culturas de células, para analisar as reações geradas após a aplicação do produto em gel. De cara, os resultados já foram muito positivos, pois foi constatado que as propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, cicatrizantes e estimulantes de vascularização da pele da tilápia eram mantidas quando transformadas em pó e, posteriormente, em gel. 

Com esses resultados, os pesquisadores foram impulsionados a realizar os testes pré-clínicos em animais de laboratório, com cerca de 80 ratinhos. Isso só é possível após a liberação e aprovação pelo Comitê de Ética de Experimentação Animal da universidade, que foi concedida com base na relevância e no potencial da pesquisa.

A imagem é organizada como uma tabela visual, com várias fotos pequenas distribuídas em linhas e colunas. No topo, há quatro colunas identificadas por tempos: D1 (dia 1), D7 (dia 7), D14 (dia 14), D21 (dia 21). Na lateral esquerda, há quatro grupos identificados como: A – G1, B – G2, C – G3, D – G4. Cada linha mostra o mesmo tipo de ferida ao longo do tempo. As fotos mostram a parte traseira de ratos brancos, com uma área raspada onde foi feita uma ferida retangular. Algumas linhas mostram cicatrização mais rápida que outras, sugerindo comparação entre tratamentos. Os grupos B-G2 e C-G3 tiveram evolução de cicatrização do machucado mais eficaz do que os outros dois.
Ratos de laboratório testados, com os grupos B-G2 e C-G3 recebendo o tratamento com o hidrogel (Foto/Arquivo pessoal)

As análises pré-clínicas continuaram tendo respostas muito favoráveis e, por isso, os testes passaram a ser realizados diretamente nos animais de companhia, que era o objetivo inicial da pesquisa. Aqui começaram, então, os ensaios clínicos, em animais que já possuíam feridas que precisavam ser tratadas. 

O grupo selecionado foi composto por 40 cães e gatos que foram submetidos à cirurgia de castração. Assim, as feridas em questão estavam na categoria “feridas que cicatrizam por primeira intenção”, ou seja, elas foram suturadas, existindo a união do tecido por pontos. E, mais uma vez, bons resultados foram obtidos, comprovando que o hidrogel desenvolvido carregava as características curativas que a pele de tilápia in natura possui, concluindo a pesquisa de mestrado de Tozetto. 

Mas e a lacuna das “feridas que cicatrizam por segunda intenção”, ou seja, as que não são suturadas e, por isso, possuem uma recuperação mais complexa?

Esse foi o pontapé inicial de uma outra pesquisa de mestrado, desenvolvida pela farmacêutica Ana Carolina Terso Ventura, ainda na UEPG, também sob orientação de Beltrame. Em 2024, Ana Carolina começou os estudos com uma avaliação físico-química de diferentes propostas de formulações de hidrogéis, para encontrar a melhor opção. Durante 180 dias, a pesquisadora avaliou os parâmetros como pH, viscosidade, a espalhabilidade, bem como promoveu análises visuais, observando a existência de alteração de odor ou coloração. Assim foi possível constatar algum tipo de degradação do peptídeo ou alguma perda de estabilidade da formulação.

É um retrato em fundo neutro (cinza claro), sem elementos ao redor. No centro da imagem está uma mulher jovem, Ana Carolina Terso Ventura, enquadrada do peito para cima. Ela tem pele clara e cabelo castanho escuro, longo e levemente ondulado, dividido ao meio e caindo sobre os ombros. O rosto é oval, com expressão séria e neutra. Os olhos são escuros e estão olhando diretamente para a câmera, criando uma sensação de contato direto. As sobrancelhas são bem definidas. Os lábios estão fechados, sem sorriso. Ela veste uma blusa preta de tecido elegante, com detalhes de babados na parte frontal. A gola é fechada e há pequenos botões ou adornos discretos. Os braços estão cruzados à frente do corpo, sugerindo uma postura firme e confiante. A iluminação é suave e uniforme, sem sombras fortes, destacando bem os traços do rosto.
Mestranda Ana Carolina Terso Ventura, uma das pesquisadoras do hidrogel à base de pele de tilápia (Foto/Arquivo pessoal)

Com a melhor formulação do hidrogel encontrada, a próxima fase foi iniciada: o estudo clínico em cães e gatos com feridas complexas, comparando com um produto que já existia comercialmente. O objetivo foi analisar as vantagens da utilização do novo medicamento em relação aos já encontrados no mercado nacional, o que é chamado de ‘controle positivo’.

“Nós estamos observando que o hidrogel está tendo uma resposta positiva já na primeira semana de tratamento, que é um estágio em que tem uma maior inflamação. E, após apenas um mês, muitos animais com grandes feridas já estão tendo uma cicatrização completa”, conta a mestranda. 

Além disso, há também uma melhora no comportamento do animal, porque no início do tratamento muitos nem levantavam, ficavam só deitados e encostadinhos num canto por conta da dor. “Depois de uma semana do início do tratamento, eles já tem mais ânimo para brincar e para correr, promovendo uma grande ajuda na qualidade de vida desses animais também”, completa Ana Carolina.

A pesquisa está sendo realizada em parceria com clínicas veterinárias de Ponta Grossa e também com protetores de animais, que resgatam animais debilitados e utilizam o hidrogel para o tratamento dos ferimentos. No momento, 13 animais estão sendo tratados, com aplicação do produto duas vezes ao dia, ou já finalizaram o tratamento. A expectativa é que mais 27 sejam submetidos ao uso de hidrogel até o fim de 2027. 

Todos esses resultados positivos só evidenciam a importância do desenvolvimento da pesquisa, que é fruto de estudos de anos e envolve pesquisadores de diferentes regiões do Brasil. Unidos pela ciência, eles têm conseguido desenvolver produtos que ajudam diretamente a sociedade. O dinheiro público retorna novamente para a comunidade na forma de um novo item muito valioso, colaborando para o bem estar de vários animais de companhia e, consequentemente, de seus tutores.

A imagem está dividida horizontalmente em duas partes. Parte superior – “ANTES”: Mostra uma ferida grande e aberta sobre a pele de um animal. A lesão é alongada, com bordas irregulares e tecido exposto. Há áreas escuras (possivelmente necrose ou sujeira) e coloração vermelho-escura. A superfície parece úmida e inflamada. Parte inferior – “DEPOIS (Após 4 semanas de tratamento)”: A mesma região aparece muito mais cicatrizada. A ferida está menor, com coloração rosada mais uniforme, indicando tecido novo saudável. As bordas estão mais definidas e se fechando. Não há mais áreas escuras ou necrosadas visíveis. A pele ao redor parece mais limpa e seca. O contraste entre as duas imagens evidencia uma melhora significativa após o tratamento.
Antes e depois de 4 semanas de tratamento de ferida em cachorro com hidrogel (Foto/Arquivo pessoal)

Assim, Ana Carolina busca concluir os estudos do seu mestrado, finalizando os testes em cães e gatos e expondo a eficácia do hidrogel também no tratamento de feridas complexas. Enquanto isso, Tozetto também amplia os efeitos descritos na sua dissertação em seu doutorado, sendo orientado pela Prof. Dra. Priscileila Colerato Ferrari e coorientado por Beltrame.

No Laboratório Tecnologia e Desenvolvimento de Fármacos (TECFAR), da UEPG, o doutorando realiza o desenvolvimento de uma biomembrana a partir do hidrolisado em pó e já conseguiu realizar os testes clínicos em cerca de 80 ratinhos. Ainda, a membrana já foi emprestada para pesquisadores da UFPR – campus Curitiba, para ser testada em feridas de animais silvestres. 

“No caso do laboratório, que eu coordeno, temos muitos alunos envolvidos de mestrado, doutorado e graduação. A participação faz com que eles se desenvolvam e cresçam muito cientificamente, aplicando na prática conhecimentos que aprendem durante a faculdade. Tudo isso agrega na formação desses alunos, que estão numa universidade pública e é nosso dever ajudá-los a se formar de modo adequado para que eles sejam bons profissionais e possam contribuir pro crescimento e a melhoria da nossa sociedade”, comenta o orientador das duas pesquisas, Prof. Dr. Flávio Luis Beltrame.

Ainda, Tozetto espera, com a continuidade dos estudos, em um projeto de pós-doutorado, a produção de novos materiais que auxiliem nos processos de coagulação e contenção de hemorragias, como as esponjas de fibrina e outros tipos de membrana, incorporando medicamentos como antibióticos. 

É um avanço científico capaz de oferecer uma nova chance de vida para diversos pets. Algo que não se limita apenas ao tratamento ofertado, mas vai além de sua conclusão, já que muitos dos animais que foram resgatados e tratados também conseguiram ser adotados e encontraram um lar para chamar de seu, como é o caso da gatinha Pixel.

A imagem mostra a gata Pixel vista bem de perto, como se estivesse espiando alguém com curiosidade. Ela está posicionada atrás de uma mesa, deixando visível apenas a parte superior do corpo. A gato tem pelagem tricolor, com manchas bem definidas em preto, branco e tons de laranja. O rosto é especialmente marcante: metade dele é mais escura, com preto predominando, enquanto a outra parte mistura branco e laranja. O focinho é claro, quase branco, com pequenas manchas escuras. Os olhos são grandes, redondos e de um amarelo muito intenso, quase dourado, que se destacam fortemente contra o restante do rosto. As pupilas estão bem abertas, dando uma expressão de alerta e curiosidade. As orelhas estão levantadas e levemente inclinadas para os lados, sugerindo atenção ou interesse no que está acontecendo. O fundo é uma parede bege, sem detalhes que distraiam. A iluminação é suave, mas suficiente para realçar as cores do pelo e o brilho dos olhos.
Gatinha Pixel em seu novo lar (Foto/Arquivo pessoal)

“Eu considero essa melhora na qualidade de vida desses animais um dos fatores principais dessa pesquisa. A gente vê um animal que poderia morrer caso aquela ferida não fosse tratada e, depois de um tempo, já com o tratamento, aquele animal está bem, disposto, brincando, ativo e com a ferida já cicatrizando. E é super gratificante para nós como pesquisadores ver que realmente está tendo um efeito positivo”, enfatiza Ana Carolina. 

De acordo com o orientador das pesquisas, o próximo passo é a formalização de uma startup para a produção do hidrolisado em larga escala, além de buscar parceiros para realizar a posterior comercialização do hidrogel no Brasil e, futuramente, também no exterior. 

E, pode aguardar, em pouco tempo veremos o sucesso da aplicação do hidrogel em feridas humanas!

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Texto:
Mariana Manieri Pires Cardoso
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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