Em um dia você é uma gatinha andando livremente e saudável pelas ruas de Ponta Grossa no Paraná, no outro está gravemente ferida e sem cuidados, ansiando por ajuda. Algumas pessoas te encontram e te encaminham para uma clínica veterinária, mas você não pode contar para elas o que lhe ocorreu. O que elas sabem e conseguem ver é que quase a totalidade da pele da sua barriguinha não existe mais, além da pele em partes das suas patinhas. A situação é extremamente delicada, mas as pessoas estão totalmente dispostas a te ajudar e a te proteger.
As veterinárias que te acompanham veem que você não tem forças para levantar nem para usar a caixinha de areia ou para comer. Elas precisam te alimentar, levando a comida diretamente na sua boca, e limpar o xixi que você faz em si mesma. Mas, elas começam a aplicar um produto nas suas feridas e você começa a perceber que elas já não doem tanto quanto no dia que você conheceu essas pessoas.
Após mais de um mês, suas feridas estão super cicatrizadas e você já está instaurando o caos na clínica, subindo nos armários e ouvindo alguns “Pixel, desce já daí”. Você não liga muito, até porque ninguém está realmente bravo, afinal, você está tendo uma nova oportunidade de vida e vai aproveitá-la o máximo que puder!

E será que você sabe de onde veio todo o seu tratamento, Pixel?
Bom, voltando bem no início, tudo começou anos atrás, há mais de três mil quilômetros de Ponta Grossa, em Fortaleza, quando pesquisadores viram na pele da tilápia um imenso potencial cicatrizante. Esse é um tecido nobre, rico em colágeno, substância muito importante no processo de cicatrização e que acabava sendo descartado ao invés de ter o seu potencial explorado.
Isso porque a pele acaba sendo um subproduto de um comércio muito importante no Brasil, que é a pesca da tilápia, visando, unicamente, a comercialização de sua carne. O país é o quarto maior produtor de tilápia do planeta, gerando toneladas de um tecido tão especial todos os anos. Então, por que não explorar os seus benefícios ao invés de só descartá-los?

Assim, pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), campus Jandaia do Sul, sob orientação do Prof. Dr. Eduardo César Meurer, foram instigados pelo potencial dessa pele e desenvolveram um hidrolisado para, posteriormente, testar e comprovar se as propriedades curativas e regeneradoras do tecido seriam mantidas se não fossem utilizadas diretamente, mas, sim, transformadas em outro produto.
Para o desenvolvimento desse novo recurso, formalizou-se uma parceria com o Departamento de Ciências Farmacêuticas (Defar) e com o Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas (PPGCF), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), que resultou em um hidrogel.
Esse estudo foi realizado no Laboratório de Análise Química de Produtos de Origem Natural, da UEPG, quando o médico veterinário e pós-graduado em Clínica Cirúrgica de pequenos animais, Rodrigo Tozetto, resolveu ingressar no mestrado, em 2020, sob orientação do Prof. Flávio Luis Beltrame, formado em Farmácia com habilitação na área de indústria e doutor na área da Química de Produtos Naturais.
Foi proposto o desenvolvimento de um hidrogel com potencial para o tratamento de feridas e queimaduras em animais, tendo como princípio um hidrolisado de peptídeos, na versão em pó, adquirido a partir de transformações químicas da pele de tilápia. Essa base é formada por pedaços de proteína do colágeno, que são adquiridos com o processo de hidrólise, ou seja, a quebra de uma molécula em partes menores pela adição de uma molécula de água.

O formato do hidrogel foi escolhido por ser uma das formas farmacêuticas tópicas mais utilizadas no mundo, juntamente das pomadas e dos cremes. Mas, diferentemente destes, ele possui a vantagem de ter uma absorção muito mais rápida pela pele, já que é um produto à base de água.
Assim, pensando no uso veterinário, o hidrogel se torna uma das melhores opções, pois impede que o produto fique na pele do animal por mais tempo, incomodando-o ou fazendo com que ele lamba a área, prejudicando o potencial medicamentoso. Ainda, há uma facilidade na produção, já que são amplamente estudados e populares no meio farmacêutico, além do bônus dos peptídeos encontrados na pele da tilápia serem solúveis em água.
Então, para começar o desenvolvimento do produto, Tozetto realizou no laboratório da UEPG ensaios in vitro, ou seja, em culturas de células, para analisar as reações geradas após a aplicação do produto em gel. De cara, os resultados já foram muito positivos, pois foi constatado que as propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, cicatrizantes e estimulantes de vascularização da pele da tilápia eram mantidas quando transformadas em pó e, posteriormente, em gel.
Com esses resultados, os pesquisadores foram impulsionados a realizar os testes pré-clínicos em animais de laboratório, com cerca de 80 ratinhos. Isso só é possível após a liberação e aprovação pelo Comitê de Ética de Experimentação Animal da universidade, que foi concedida com base na relevância e no potencial da pesquisa.

As análises pré-clínicas continuaram tendo respostas muito favoráveis e, por isso, os testes passaram a ser realizados diretamente nos animais de companhia, que era o objetivo inicial da pesquisa. Aqui começaram, então, os ensaios clínicos, em animais que já possuíam feridas que precisavam ser tratadas.
O grupo selecionado foi composto por 40 cães e gatos que foram submetidos à cirurgia de castração. Assim, as feridas em questão estavam na categoria “feridas que cicatrizam por primeira intenção”, ou seja, elas foram suturadas, existindo a união do tecido por pontos. E, mais uma vez, bons resultados foram obtidos, comprovando que o hidrogel desenvolvido carregava as características curativas que a pele de tilápia in natura possui, concluindo a pesquisa de mestrado de Tozetto.
Mas e a lacuna das “feridas que cicatrizam por segunda intenção”, ou seja, as que não são suturadas e, por isso, possuem uma recuperação mais complexa?
Esse foi o pontapé inicial de uma outra pesquisa de mestrado, desenvolvida pela farmacêutica Ana Carolina Terso Ventura, ainda na UEPG, também sob orientação de Beltrame. Em 2024, Ana Carolina começou os estudos com uma avaliação físico-química de diferentes propostas de formulações de hidrogéis, para encontrar a melhor opção. Durante 180 dias, a pesquisadora avaliou os parâmetros como pH, viscosidade, a espalhabilidade, bem como promoveu análises visuais, observando a existência de alteração de odor ou coloração. Assim foi possível constatar algum tipo de degradação do peptídeo ou alguma perda de estabilidade da formulação.

Com a melhor formulação do hidrogel encontrada, a próxima fase foi iniciada: o estudo clínico em cães e gatos com feridas complexas, comparando com um produto que já existia comercialmente. O objetivo foi analisar as vantagens da utilização do novo medicamento em relação aos já encontrados no mercado nacional, o que é chamado de ‘controle positivo’.
“Nós estamos observando que o hidrogel está tendo uma resposta positiva já na primeira semana de tratamento, que é um estágio em que tem uma maior inflamação. E, após apenas um mês, muitos animais com grandes feridas já estão tendo uma cicatrização completa”, conta a mestranda.
Além disso, há também uma melhora no comportamento do animal, porque no início do tratamento muitos nem levantavam, ficavam só deitados e encostadinhos num canto por conta da dor. “Depois de uma semana do início do tratamento, eles já tem mais ânimo para brincar e para correr, promovendo uma grande ajuda na qualidade de vida desses animais também”, completa Ana Carolina.
A pesquisa está sendo realizada em parceria com clínicas veterinárias de Ponta Grossa e também com protetores de animais, que resgatam animais debilitados e utilizam o hidrogel para o tratamento dos ferimentos. No momento, 13 animais estão sendo tratados, com aplicação do produto duas vezes ao dia, ou já finalizaram o tratamento. A expectativa é que mais 27 sejam submetidos ao uso de hidrogel até o fim de 2027.
Todos esses resultados positivos só evidenciam a importância do desenvolvimento da pesquisa, que é fruto de estudos de anos e envolve pesquisadores de diferentes regiões do Brasil. Unidos pela ciência, eles têm conseguido desenvolver produtos que ajudam diretamente a sociedade. O dinheiro público retorna novamente para a comunidade na forma de um novo item muito valioso, colaborando para o bem estar de vários animais de companhia e, consequentemente, de seus tutores.

Assim, Ana Carolina busca concluir os estudos do seu mestrado, finalizando os testes em cães e gatos e expondo a eficácia do hidrogel também no tratamento de feridas complexas. Enquanto isso, Tozetto também amplia os efeitos descritos na sua dissertação em seu doutorado, sendo orientado pela Prof. Dra. Priscileila Colerato Ferrari e coorientado por Beltrame.
No Laboratório Tecnologia e Desenvolvimento de Fármacos (TECFAR), da UEPG, o doutorando realiza o desenvolvimento de uma biomembrana a partir do hidrolisado em pó e já conseguiu realizar os testes clínicos em cerca de 80 ratinhos. Ainda, a membrana já foi emprestada para pesquisadores da UFPR – campus Curitiba, para ser testada em feridas de animais silvestres.
“No caso do laboratório, que eu coordeno, temos muitos alunos envolvidos de mestrado, doutorado e graduação. A participação faz com que eles se desenvolvam e cresçam muito cientificamente, aplicando na prática conhecimentos que aprendem durante a faculdade. Tudo isso agrega na formação desses alunos, que estão numa universidade pública e é nosso dever ajudá-los a se formar de modo adequado para que eles sejam bons profissionais e possam contribuir pro crescimento e a melhoria da nossa sociedade”, comenta o orientador das duas pesquisas, Prof. Dr. Flávio Luis Beltrame.
Ainda, Tozetto espera, com a continuidade dos estudos, em um projeto de pós-doutorado, a produção de novos materiais que auxiliem nos processos de coagulação e contenção de hemorragias, como as esponjas de fibrina e outros tipos de membrana, incorporando medicamentos como antibióticos.
É um avanço científico capaz de oferecer uma nova chance de vida para diversos pets. Algo que não se limita apenas ao tratamento ofertado, mas vai além de sua conclusão, já que muitos dos animais que foram resgatados e tratados também conseguiram ser adotados e encontraram um lar para chamar de seu, como é o caso da gatinha Pixel.

“Eu considero essa melhora na qualidade de vida desses animais um dos fatores principais dessa pesquisa. A gente vê um animal que poderia morrer caso aquela ferida não fosse tratada e, depois de um tempo, já com o tratamento, aquele animal está bem, disposto, brincando, ativo e com a ferida já cicatrizando. E é super gratificante para nós como pesquisadores ver que realmente está tendo um efeito positivo”, enfatiza Ana Carolina.
De acordo com o orientador das pesquisas, o próximo passo é a formalização de uma startup para a produção do hidrolisado em larga escala, além de buscar parceiros para realizar a posterior comercialização do hidrogel no Brasil e, futuramente, também no exterior.
E, pode aguardar, em pouco tempo veremos o sucesso da aplicação do hidrogel em feridas humanas!
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Texto: Mariana Manieri Pires Cardoso
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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