Luteria: fazer manual na era da tecnologia

Ilustração de uma oficina de luteria, com três pessoas trabalhando na construção e no reparo de instrumentos de cordas. Uma jovem segura um violino, enquanto outras duas pessoas trabalham com violoncelos. Sobre a bancada há ferramentas, peças e instrumentos em montagem. Ao fundo, aparecem violinos, desenhos de notas musicais e outros elementos relacionados à música. A cena tem cores quentes, traços desenhados à mão e ambiente artesanal.
Curso tecnológico da UFPR forma profissionais especializados na construção, restauração e manutenção de instrumentos musicais de cordas

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Pare tudo o que você está fazendo no computador/celular e venha com a gente nesta viagem a um passado que insiste em permanecer entre nós. Mesmo agora imersos na sociedade do algoritmo conduzido por Inteligência Artificial (IA), do machine learn (aprendizado de máquina), da imagem full HD 4K, do celular 5G ou da TV OLED/QLED, é incrível como em algum lugar do planeta alguém está investindo seu tempo e habilidades numa prática, digamos, genuinamente medieval.

Vamos falar da Luteria, a arte e a técnica de construir e reparar instrumentos musicais de corda, especialmente os que possuem caixa de ressonância. Tudo começa com o violino, que teve a sua época de ouro entre os séculos XVI e XVII, em cidades como Cremona, na Itália, com mestres como Stradivari e Amati. 

A prática artesanal tem origem em tempos remotos da Idade Média, na Europa, a partir da confecção do alaúde, instrumento musical antigo de cordas dedilhadas ou palhetadas, com uma caixa de ressonância em formato de meia-pêra e costas abauladas. Com raízes árabes, a palavra luthier, artesão profissional em Luteria, vem do francês luth, que significa exatamente ‘alaúde’. Diante da expansão industrial e artesanal, o ofício se adaptou para contemplar violões, violoncelos e, no século XX, guitarras elétricas. 

A história da Luteria no Brasil começa no período colonial, século XVI, com os portugueses trazendo violas e alaúdes, quando a necessidade de reparos dos instrumentos deu início à profissão em solo nacional. O uso de madeiras nativas fez com que os artesãos adaptassem técnicas europeias, utilizando matéria-prima local como jacarandá e cedro. Mas foram os imigrantes italianos como Giannini, Di Giorgio e Del Vecchio que consolidaram a fabricação industrial e artesanal de violões no país no século XX.

Infográfico intitulado “Principais instrumentos da luteria”, com fundo amarelo e pautas musicais preenchidas por notas. O texto apresenta três categorias: cordas friccionadas orquestrais, como violino, viola, violoncelo e contrabaixo; cordas dedilhadas acústicas, como violão, viola caipira, rabeca, cavaquinho e bandolim; e instrumentos eletrificados e contemporâneos, como guitarra, baixo e violão elétricos. Ilustrações de violinos e guitarras estão distribuídas pela composição.

Neste 1º de outubro, em que se comemora o Dia Internacional da Música, o Conexão Ciência marca a data ao tratar de uma atividade manual, a Luteria, que resiste ao tempo e tem vital importância para a história da música e dos instrumentos musicais de corda. 

Antes, uma questão: Você sabia que o Paraná possui o único curso superior de formação tecnológica em Luteria no Brasil? 

Desde 2009, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) oferta a alunos de todo o país uma opção profissional inédita como carreira autônoma com diploma superior tecnológico, dentro de uma universidade pública gratuita. O curso atende uma demanda existente há décadas por construtores de instrumentos musicais, em todos os níveis, uma vez que houve o crescimento da música entre crianças e jovens na América Latina. 

A luteria é uma atividade que envolve conhecimentos em várias áreas como Química, Física, Música, Arte, Desenho, entre outros, além da habilidade no trabalho com madeira e ferramentas manuais. Particularmente, o aluno deve ser observador, interessado, concentrado, com boas noções espaciais e disposto ao trabalho com ferramentas manuais. 

Agora, qual aptidão levaria um aluno, um jovem, ao curso? Ele precisa, necessariamente, ser um musicista? Ou pode ser alguém que gosta de instrumentos?

Professor desde o início do curso de Luteria da UFPR, Juarez Bergmann Filho é violinista profissional com mestrado em Teoria e Criação Musical e o doutorado é em design. Ele, que fez parte da Camerata Antiqua de Curitiba, explica que é o curso mais prático da Universidade. Ali no Centro Politécnico, reúnem-se alunos egressos do ensino médio de 17 ou 18 anos, além de muitos aposentados que buscam desenvolver uma atividade manual.

“Eu brinco que temos uma gama gigantesca de gente, sendo impossível fechar um perfil. Agora, temos um aluno com 80 anos! Mas o que une essas pessoas é o interesse pela música, com certeza!”, afirma Bergmann Filho. E acrescenta: “Não precisa ter formação musical, mas ajuda quando for construir ou reparar um violão se você é violonista e já incorporou algumas características do instrumento, como medidas, peso, ergonomia, timbre, coisas assim”. 

De acordo com o professor, o aluno, ou aluna, deve ser alguém com uma vocação para desenvolver a habilidade manual, precisa de paciência porque, às vezes, é um desenvolvimento lento. Mas nem sempre isso é um pré-requisito.

A imagem mostra Juarez Bergmann Filho, homem branco de cabelos curtos e escuros, usando óculos de armação preta, camisa social azul-clara e blazer escuro. Ele está de frente para a câmera, com uma expressão serena e um leve sorriso. Ao fundo, há uma grande decoração com muitas flores em tons de rosa, vermelho e magenta.
Professor Juarez Bergmann Filho, professor do curso de Luteria da UFPR (Foto/Arquivo pessoal)

🎙️ Perguntamos e o professor Juarez Bergmann Filho responde o que mais se precisa para ser aluno do curso de Luteria da UFPR? Entenda!

Renascença

Enquanto muitas mãos estão ocupadas com os teclados e os olhos voltados para as telas, os alunos do curso de Luteria estão no laboratório-ateliê aprendendo uma profissão que tem se expandido a partir do crescente comércio de instrumentos musicais. Ou seja, usando a Inteligência Natural para fazer arte. “A Luteria é um trabalho que envolve muita tecnologia, mas é uma tecnologia lá da Renascença”, brinca Bergmann Filho.

O curso de Tecnologia em Construção de Instrumentos Musicais da UFPR dura três anos e a cada vestibular são oferecidas 30 vagas na modalidade ‘Educação Profissional Tecnológica de Graduação Presencial’. As disciplinas estão divididas em três módulos: Humanidades, Profissionalizante Fixo e Ciências Exatas. 

“Há um mercado relativamente grande no Brasil, porque penso que a prática musical tem se mantido, pelo menos, como uma atividade estável no país e crescido nos últimos anos”, destaca o professor. Neste contexto, o perfil do egresso do curso de Luteria, em geral, é de um aluno que abre o seu ateliê para fazer manutenção e construção de instrumentos  dentro de algumas áreas que sente mais afinidade. 

“O importante do aluno, desde o início, é tentar achar o lugar dele, a janela onde vai se enquadrar, pois não adianta tentar construir tudo para todos. A Luteria é uma atividade especializada, devidamente constituída para atender músicos profissionais. Quanto antes entender isso e conseguir buscar esse lugar, logo estará inserido numa rede maior do que ele”, salienta.

  • A imagem mostra uma oficina de luteria, com o corpo claro e inacabado de um instrumento de cordas, provavelmente um violino, em primeiro plano. Ao redor estão diversas ferramentas de corte, limas e formões, além de peças de madeira. Ao fundo, ferramentas de diferentes formatos estão organizadas em suportes sobre uma parede de madeira.
  • A imagem mostra o painel central de ferramentas de uma oficina de Luteria. O painel de madeira possui bordas amarelas e exibe diversas ferramentas organizadas em fileiras verticais: plainas manuais na base, arcos de serra amarelos e azuis logo acima, martelos alinhados ao meio, limas e grosas dispostas verticalmente, além de réguas, esquadros e outros acessórios no topo. Na parte superior da parede clara, acima do painel, estão pendurados em sequência sete instrumentos de corda em diferentes estágios de produção, incluindo violões e uma guitarra semiacústica. Ao fundo, avista-se a estrutura da oficina com bancadas de madeira e armários claros.
  • A imagem mostra em detalhe o processo de colagem do corpo de um instrumento de cordas. A estrutura de madeira, com contorno em formato de violão, está fixada em um molde de compensado claro. Diversos grampos metálicos curvos em formato de gancho estão pressionando as bordas de madeira ao redor de toda a extensão da caixa acústica para garantir a fixação precisa. O fundo e o plano da bancada aparecem levemente desfocados.
  • A imagem mostra o plano detalhado de uma bancada de trabalho em madeira, onde uma pessoa segura uma régua metálica sobre uma peça de madeira clara. Sobre a superfície da mesa estão espalhadas três plainas manuais de tamanhos diferentes, algumas aparas de madeira (maravalhas) e outras peças e réguas auxiliares. A pessoa veste uma camiseta escura e segura a régua firme com ambas as mãos para realizar uma medição precisa.
  • A imagem mostra uma mesa de madeira escura com corpos de guitarras elétricas no modelo Telecaster em diferentes estágios de produção. À esquerda, há uma guitarra em fase avançada de montagem, com o corpo de madeira clara já unido ao braço de escala escura, equipado com ponte cromada, cordas e um cabo conectado. À direita, estão dispostas duas pilhas de corpos de madeira maciça recortados, exibindo variações de tonalidades e nós da madeira, além das cavidades já usinadas para o encaixe dos captares, ponte e fiação eletrônica.
  • A imagem mostra um homem, visto da cintura para cima e vestindo um jaleco branco, inclinado sobre uma bancada de trabalho de madeira. Ele está focado na moldagem do corpo de um instrumento de cordas, como um violão, que está fixado dentro de uma fôrma robusta de compensado claro, que segue o contorno do instrumento. Com a mão direita, ele manuseia uma ferramenta pequena, parecida com um raspador ou lixa, para refinar a borda interna de madeira curvada. Sua mão esquerda segura a borda do instrumento ou da fôrma para estabilizá-la. A área interna do instrumento está coberta de pequenas aparas de madeira (maravalhas) claras, resultado do trabalho de desbaste. Sobre a bancada, ao lado esquerdo, estão algumas ferramentas com cabos de madeira, uma fita métrica azul e outros materiais de oficina desfocados. A iluminação parece ser natural ou artificial vinda de cima. O fundo é uma oficina com outros elementos de marcenaria borrados.

Muitos graduados trabalham para lojas especializadas em instrumentos musicais, onde mantém um ateliê. O profissional constrói, faz manutenção, curadoria e até pode ser um consultor para compra de equipamentos de qualidade, inclusive no exterior. 

Outros profissionais fazem mestrado e doutorado em diversas áreas e acabam ensinando e indo para a área de pesquisa. E na Universidade, há ainda a possibilidade de se conciliar vários projetos paralelos como projetos de extensão, que são tão importantes para ampliar a ação para fora dos portões da universidade. 

“A gente tem vários luthiers que são músicos e estão inseridos numa rede, o que amplia mais a clientela, porque ele está em contato com os possíveis clientes. Se você é um músico, um guitarrista, por exemplo, toca com a sua banda e circula nesse meio, você vai ter contato com outros guitarristas, com outras bandas, com outros instrumentistas. Então, pro luthier, é uma estratégia bem interessante e dá pra conciliar”, reflete o docente.

Museu de Instrumentos Musicais

Além de atuar no curso de Luteria, Bergmann Filho também é coordenador do Museu dos Instrumentos Musicais da UFPR (MIMU), que está passando por uma fase de reestruturação. O espaço museal foi um projeto de extensão ligado ao curso de Tecnologia em Luteria, localizado em Curitiba, capital do Paraná.

“O museu é um projeto que eu criei lá no início do curso de Luteria, já com esse nome ‘MIMU’, Museu dos Instrumentos Musicais da UFPR, no início de 2009, ou um pouquinho depois. E a ideia inicial era que ele servisse como um lugar, uma plataforma para valorizar os trabalhos, principalmente dos alunos do curso”, relembra o professor.

Em 2024, os gestores do MIMU aprovaram junto à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência de fomento ligada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o primeiro projeto de financiamento federal para acervos culturais. Recentemente, o Tribunal de Contas da União (TCU) incluiu a UFPR numa iniciativa para a institucionalização do Museu.

“O TCU escolheu uma universidade de cada região do país para fazer um projeto piloto para entender a visibilidade dos seus acervos. Nesse processo, a Universidade Federal foi escolhida e mapeou todos os seus acervos científicos e culturais e nós passamos por um processo de institucionalização”, esclarece o professor. 

  • A imagem mostra o interior de uma exposição do Museu dos Instrumentos Musicais (MIMU) através do vidro de uma vitrine, destacando em primeiro plano um alaúde minuciosamente trabalhado. O instrumento tem o tampo em madeira clara decorado com detalhes incrustados em madrepérola e padrões geométricos pretos ao redor das rosetas e do espelho. Ao lado dele, dentro da mesma vitrine, estão dispostos outros instrumentos de corda, como um violão de madeira escura e um cavaquinho. Do outro lado do vidro, ao fundo, uma mulher de blusa preta observa atentamente a exposição enquanto segura um copo descartável.
  • A imagem mostra uma galeria de exposição bem iluminada e com ambiente meia-luz do MIMU, apresentando cinco grandes vitrines verticais de vidro com bases e estruturas de madeira clara, dispostas em fileira do primeiro plano até o fundo. Dentro de cada vitrine, sob luzes direcionadas focadas de cima, estão expostos diversos instrumentos musicais de corda, como violões, guitarras elétricas, violinos e cavaquinhos, alguns apoiados em suportes e outros suspensos no ar. O chão reflete suavemente a luz quente das cúpulas de iluminação das vitrines, criando uma atmosfera elegante de museu.
  • A imagem mostra o canto de uma sala de exposição do MUMI, iluminada por pontos de luz quentes e spots direcionados, em ambiente à meia-luz. Em primeiro plano, do lado esquerdo, destaca-se uma grande vitrine vertical com base de madeira clara e paredes de vidro. Dentro dela, expostos sob a luz superior, estão diversos instrumentos de corda, incluindo um alaúde suspenso e uma viola ou violão antigo de madeira clara apoiado em um suporte. Ao fundo, ao longo de uma parede clara, está alinhada uma sequência de cartazes informativos escuros na horizontal, que exibem fotos detalhadas de partes de instrumentos musicais. O chão de piso polido reflete suavemente as sombras e as luzes da vitrine.

🎙️ Juarez Bergmann Filho explica como será o MUMI após a reestruturação. Dê um play!

Mais que um espaço de exposição, a proposta é dar um retorno para à comunidade do investimento feito num ambiente de cuidado, um repositório do patrimônio musical e do saber produzido dentro da universidade. “Cada instrumento ali é uma materialização de muitos conhecimentos que a gente expõe sempre de uma maneira muito próxima e com muito carinho”, explica Bergmann Filho.

Assim, a UFPR passará a ter quatro museus institucionalizados: Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), Museu de Arte (MUSA), Museu das Ciências Naturais (MCN) e o MIMU. Para o coordenador, é uma importante oportunidade para ampliar o alcance do MIMU e abre a porta para que outros acervos científicos e culturais também passem por esse processo de musealização. Desta forma, mais espaços museais da UFPR poderão compor, no futuro, a Rede de Museus Paraná Faz Ciência.

Por fim, sobre a provocação inicial em relação à Inteligência Artificial (IA) e à Natural no campo da arte, é provável que você já tenha ouvido música feita por IA e nem sabe. E isso não tem problema, pois parece ser o novo normal.

Mas de uma coisa você pode ter certeza: a IA precisa de humanos para existir. 

Já nós, existimos e produzimos música e arte!

EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto:
Silvia Calciolari
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de áudio: Bernardo Vená
Arte: Natalia Fermiano
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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