Pare tudo o que você está fazendo no computador/celular e venha com a gente nesta viagem a um passado que insiste em permanecer entre nós. Mesmo agora imersos na sociedade do algoritmo conduzido por Inteligência Artificial (IA), do machine learn (aprendizado de máquina), da imagem full HD 4K, do celular 5G ou da TV OLED/QLED, é incrível como em algum lugar do planeta alguém está investindo seu tempo e habilidades numa prática, digamos, genuinamente medieval.
Vamos falar da Luteria, a arte e a técnica de construir e reparar instrumentos musicais de corda, especialmente os que possuem caixa de ressonância. Tudo começa com o violino, que teve a sua época de ouro entre os séculos XVI e XVII, em cidades como Cremona, na Itália, com mestres como Stradivari e Amati.
A prática artesanal tem origem em tempos remotos da Idade Média, na Europa, a partir da confecção do alaúde, instrumento musical antigo de cordas dedilhadas ou palhetadas, com uma caixa de ressonância em formato de meia-pêra e costas abauladas. Com raízes árabes, a palavra luthier, artesão profissional em Luteria, vem do francês luth, que significa exatamente ‘alaúde’. Diante da expansão industrial e artesanal, o ofício se adaptou para contemplar violões, violoncelos e, no século XX, guitarras elétricas.
A história da Luteria no Brasil começa no período colonial, século XVI, com os portugueses trazendo violas e alaúdes, quando a necessidade de reparos dos instrumentos deu início à profissão em solo nacional. O uso de madeiras nativas fez com que os artesãos adaptassem técnicas europeias, utilizando matéria-prima local como jacarandá e cedro. Mas foram os imigrantes italianos como Giannini, Di Giorgio e Del Vecchio que consolidaram a fabricação industrial e artesanal de violões no país no século XX.

Neste 1º de outubro, em que se comemora o Dia Internacional da Música, o Conexão Ciência marca a data ao tratar de uma atividade manual, a Luteria, que resiste ao tempo e tem vital importância para a história da música e dos instrumentos musicais de corda.
Antes, uma questão: Você sabia que o Paraná possui o único curso superior de formação tecnológica em Luteria no Brasil?
Desde 2009, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) oferta a alunos de todo o país uma opção profissional inédita como carreira autônoma com diploma superior tecnológico, dentro de uma universidade pública gratuita. O curso atende uma demanda existente há décadas por construtores de instrumentos musicais, em todos os níveis, uma vez que houve o crescimento da música entre crianças e jovens na América Latina.
A luteria é uma atividade que envolve conhecimentos em várias áreas como Química, Física, Música, Arte, Desenho, entre outros, além da habilidade no trabalho com madeira e ferramentas manuais. Particularmente, o aluno deve ser observador, interessado, concentrado, com boas noções espaciais e disposto ao trabalho com ferramentas manuais.
Agora, qual aptidão levaria um aluno, um jovem, ao curso? Ele precisa, necessariamente, ser um musicista? Ou pode ser alguém que gosta de instrumentos?
Professor desde o início do curso de Luteria da UFPR, Juarez Bergmann Filho é violinista profissional com mestrado em Teoria e Criação Musical e o doutorado é em design. Ele, que fez parte da Camerata Antiqua de Curitiba, explica que é o curso mais prático da Universidade. Ali no Centro Politécnico, reúnem-se alunos egressos do ensino médio de 17 ou 18 anos, além de muitos aposentados que buscam desenvolver uma atividade manual.
“Eu brinco que temos uma gama gigantesca de gente, sendo impossível fechar um perfil. Agora, temos um aluno com 80 anos! Mas o que une essas pessoas é o interesse pela música, com certeza!”, afirma Bergmann Filho. E acrescenta: “Não precisa ter formação musical, mas ajuda quando for construir ou reparar um violão se você é violonista e já incorporou algumas características do instrumento, como medidas, peso, ergonomia, timbre, coisas assim”.
De acordo com o professor, o aluno, ou aluna, deve ser alguém com uma vocação para desenvolver a habilidade manual, precisa de paciência porque, às vezes, é um desenvolvimento lento. Mas nem sempre isso é um pré-requisito.

Renascença
Enquanto muitas mãos estão ocupadas com os teclados e os olhos voltados para as telas, os alunos do curso de Luteria estão no laboratório-ateliê aprendendo uma profissão que tem se expandido a partir do crescente comércio de instrumentos musicais. Ou seja, usando a Inteligência Natural para fazer arte. “A Luteria é um trabalho que envolve muita tecnologia, mas é uma tecnologia lá da Renascença”, brinca Bergmann Filho.
O curso de Tecnologia em Construção de Instrumentos Musicais da UFPR dura três anos e a cada vestibular são oferecidas 30 vagas na modalidade ‘Educação Profissional Tecnológica de Graduação Presencial’. As disciplinas estão divididas em três módulos: Humanidades, Profissionalizante Fixo e Ciências Exatas.
“Há um mercado relativamente grande no Brasil, porque penso que a prática musical tem se mantido, pelo menos, como uma atividade estável no país e crescido nos últimos anos”, destaca o professor. Neste contexto, o perfil do egresso do curso de Luteria, em geral, é de um aluno que abre o seu ateliê para fazer manutenção e construção de instrumentos dentro de algumas áreas que sente mais afinidade.
“O importante do aluno, desde o início, é tentar achar o lugar dele, a janela onde vai se enquadrar, pois não adianta tentar construir tudo para todos. A Luteria é uma atividade especializada, devidamente constituída para atender músicos profissionais. Quanto antes entender isso e conseguir buscar esse lugar, logo estará inserido numa rede maior do que ele”, salienta.
Tecnologia em Construção de Instrumentos Musicais (Foto/Luteria/UFPR) Tecnologia em Construção de Instrumentos Musicais (Foto/Luteria/UFPR) Tecnologia em Construção de Instrumentos Musicais (Foto/Luteria/UFPR) Tecnologia em Construção de Instrumentos Musicais (Foto/Luteria/UFPR) Tecnologia em Construção de Instrumentos Musicais (Foto/Luteria/UFPR) Tecnologia em Construção de Instrumentos Musicais (Foto/Luteria/UFPR) Tecnologia em Construção de Instrumentos Musicais (Foto/Luteria/UFPR)
Muitos graduados trabalham para lojas especializadas em instrumentos musicais, onde mantém um ateliê. O profissional constrói, faz manutenção, curadoria e até pode ser um consultor para compra de equipamentos de qualidade, inclusive no exterior.
Outros profissionais fazem mestrado e doutorado em diversas áreas e acabam ensinando e indo para a área de pesquisa. E na Universidade, há ainda a possibilidade de se conciliar vários projetos paralelos como projetos de extensão, que são tão importantes para ampliar a ação para fora dos portões da universidade.
“A gente tem vários luthiers que são músicos e estão inseridos numa rede, o que amplia mais a clientela, porque ele está em contato com os possíveis clientes. Se você é um músico, um guitarrista, por exemplo, toca com a sua banda e circula nesse meio, você vai ter contato com outros guitarristas, com outras bandas, com outros instrumentistas. Então, pro luthier, é uma estratégia bem interessante e dá pra conciliar”, reflete o docente.
Museu de Instrumentos Musicais
Além de atuar no curso de Luteria, Bergmann Filho também é coordenador do Museu dos Instrumentos Musicais da UFPR (MIMU), que está passando por uma fase de reestruturação. O espaço museal foi um projeto de extensão ligado ao curso de Tecnologia em Luteria, localizado em Curitiba, capital do Paraná.
“O museu é um projeto que eu criei lá no início do curso de Luteria, já com esse nome ‘MIMU’, Museu dos Instrumentos Musicais da UFPR, no início de 2009, ou um pouquinho depois. E a ideia inicial era que ele servisse como um lugar, uma plataforma para valorizar os trabalhos, principalmente dos alunos do curso”, relembra o professor.
Em 2024, os gestores do MIMU aprovaram junto à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência de fomento ligada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o primeiro projeto de financiamento federal para acervos culturais. Recentemente, o Tribunal de Contas da União (TCU) incluiu a UFPR numa iniciativa para a institucionalização do Museu.
“O TCU escolheu uma universidade de cada região do país para fazer um projeto piloto para entender a visibilidade dos seus acervos. Nesse processo, a Universidade Federal foi escolhida e mapeou todos os seus acervos científicos e culturais e nós passamos por um processo de institucionalização”, esclarece o professor.
Mais que um espaço de exposição, a proposta é dar um retorno para à comunidade do investimento feito num ambiente de cuidado, um repositório do patrimônio musical e do saber produzido dentro da universidade. “Cada instrumento ali é uma materialização de muitos conhecimentos que a gente expõe sempre de uma maneira muito próxima e com muito carinho”, explica Bergmann Filho.
Assim, a UFPR passará a ter quatro museus institucionalizados: Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), Museu de Arte (MUSA), Museu das Ciências Naturais (MCN) e o MIMU. Para o coordenador, é uma importante oportunidade para ampliar o alcance do MIMU e abre a porta para que outros acervos científicos e culturais também passem por esse processo de musealização. Desta forma, mais espaços museais da UFPR poderão compor, no futuro, a Rede de Museus Paraná Faz Ciência.
Por fim, sobre a provocação inicial em relação à Inteligência Artificial (IA) e à Natural no campo da arte, é provável que você já tenha ouvido música feita por IA e nem sabe. E isso não tem problema, pois parece ser o novo normal.
Mas de uma coisa você pode ter certeza: a IA precisa de humanos para existir.
Já nós, existimos e produzimos música e arte!
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Texto: Silvia Calciolari
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de áudio: Bernardo Vená
Arte: Natalia Fermiano
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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