A máxima de que problemas complexos requerem soluções complexas pode ser aplicada a vários cenários e situações. Porém, como toda regra, há exceções. Não é de hoje que pesquisadores e gestores públicos no Brasil – e no mundo – buscam encontrar estratégias para o enfrentamento à epidemia de dengue, doença causada pelo mosquito Aedes aegypti.
Não é novidade para ninguém que a principal forma de prevenção da dengue é a eliminação de criadouros do mosquito. Apesar das contínuas políticas públicas e campanhas de conscientização junto à população, também não é novidade que uma das grandes dificuldades é conseguir eliminar os focos no interior das residências, muito em função da urbanização acelerada, falta de saneamento e armazenamento de água que favoreceram o vetor.
No decorrer dos anos, operações em aeroportos e fronteiras, investimento em saneamento básico, vigilância sanitária, desenvolvimento de pesquisas, educação e comunicação não foram suficientes e eficazes. O desafio ainda permanece: descobrir como enfrentar a epidemia de casos, quando a alta variabilidade genética desses insetos e o impacto das mudanças climáticas ajudam a explicar a resistência do mosquito e a sua capacidade de adaptação.
Afinal, qual é o mistério que envolve a dengue e seu vetor? O que falta para termos a solução para um grave problema de saúde pública? Talvez a palavra-chave para essa guerra seja inovação.
E é exatamente neste contexto que o pesquisador Edson Kenji Kawabata, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (PPGCB) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), defendeu recentemente sua dissertação de mestrado, e já inicia o doutorado, que traz um nova forma de uso da ferramenta que se mostrou eficaz e de baixo custo: as ovitrampas.

Primeiro, é preciso saber o que são ovitrampas? O termo ‘ovi’ vem do latim ovum (ovo), referindo-se aos ovos dos mosquitos; já ‘trampa’ tem origem do espanhol ou italiano trampa (armadilha). Trocando em miúdos, são dispositivos utilizados para monitorar e controlar populações de mosquitos, especialmente o A. aegypti, transmissor da dengue, zika, chikungunya e febre amarela.
O funcionamento das ovitrampas é simples e consiste em atrair a fêmea do mosquito para depositar seus ovos em uma superfície, geralmente uma palheta de madeira ou tecido, dentro de um recipiente escuro com água.
No caso da pesquisa de Kawabata, a inovação veio com a proposta de espalhar as ovitrampas fora dos domicílios, em vários locais no território e em grande quantidade, com rigoroso monitoramento efetuado por agentes de endemias e de saúde.
De 2023 a 2025, toda a extensão do município de Sertanópolis, cidade localizada a 45 quilômetros de Londrina, teve ovitrampas espalhadas em vários locais e monitoradas por agentes treinados pelo grupo de pesquisa da UEL.
Sob orientação do professor João Antonio Cyrino Zequi, que estuda mosquitos sinantrópicos que estão no ambiente urbano há mais de 25 anos, Edson seguiu o mesmo caminho, monitorando vetores como Aedes aegypti e Aedes albopictus, espécies adaptadas às cidades e que dependem de água parada e restos humanos para sobreviver e se reproduzir.
Problema antigo
A história mostra que no início do século XX ocorreu a primeira campanha para controle do mosquito, uma iniciativa do médico e sanitarista Oswaldo Cruz, mas que teve como foco a febre amarela. A campanha acabou ajudando a conter o avanço da dengue por décadas no país, já que é transmitida pelo mesmo vetor.
Em meados dos anos 1940, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) coordenaram ações de combate ao Aedes aegypti nas Américas. Desta feita, o resultado foi que em 1955 o Brasil conseguiu erradicar o mosquito.
Nos anos seguintes, devido ao relaxamento das medidas, a espécie foi reintroduzida e novamente erradicada em 1973, ela retornou em 1976, desta vez para ficar. Segundo o Instituto Butantan, entre os anos 2000 e 2024, o país acumulou 24 milhões de casos, com 16 mil mortes. Aliás, 2024 foi o pior ano da doença, com mais de 6,5 milhões de casos e aproximadamente 6.000 mortes. Sem dúvidas, esse foi o maior surto já registrado no país, com impacto maior do que muitas doenças infecciosas recentes.

“As ovitrampas, realmente, não são uma novidade. Só que a questão era que um pouco antes de 2025, não havia uma legislação que permitisse aplicar essa metodologia de monitoramento em larga escala”, pontua Kawabata. No ano passado, o Ministério da Saúde definiu novas Diretrizes Nacionais para Prevenção e Controle das Arboviroses Urbanas, o documento técnico voltado principalmente aos funcionários de endemias e aos municípios, que estabeleceu normas técnicas e formas de fazer o monitoramento de arboviroses.
O pesquisador destaca que foram nestas diretrizes que o monitoramento por ovitrampas pôde ser aplicado de um jeito diferente. Até então, a forma mais usual de ser feito o controle dos vetores era a partir do LIRAa, o Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti, uma metodologia essencial utilizada no Brasil para acompanhar a presença do mosquito, mapeando as áreas com maior infestação, identificando os principais criadouros e direcionando as ações de controle promovidas pelas prefeituras.
“A busca ativa de criadouros e presença de larvas não era eficaz, não só pela dificuldade dos agentes de endemias entrarem nas casas e fazerem toda a vistoria que é necessária. Também havia o fato de muitos criadouros serem em locais escondidos ou de difícil acesso”, conta Kawabata. Foi a partir dessas e outras dificuldades que foram definidos os novos parâmetros para a pesquisa realizada na UEL.
“A ovitrampa é uma armadilha para ovos de mosquito. A gente vai fazer a instalação das armadilhas, que simula um criador, vem o vetor e bota os ovos. A partir do número de ovos coletados nessas armadilhas, a gente tem uma noção do índice de infestação na região. O meu projeto de mestrado, no caso, visou tentar fazer essa instalação de armadilhas ao longo de todo o município (de Sertanópolis) durante dois anos”, explica o pesquisador.
A escolha por Sertanópolis se deve ao fato de ser um município de pequeno porte, com quase 16 mil habitantes, segundo o Censo 2022 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Com base nas estimativas populacionais mais recentes do instituto, dos 399 municípios paranaenses, 305 possuem menos de 20 mil habitantes, conforme dados consolidados até agosto de 2025.
“Desta forma, o resultado da pesquisa em Sertanópolis poderá ser replicado em inúmeros locais similares em população e extensão territorial, uma vez que ficou comprovado que as ovitrampas são uma solução eficiente e de baixo custo para monitorar e combater a avanço da dengue e outras arboviroses transmitidas na cidade pelo gênero Aedes, como o Aedes aegypti e Aedes albopictus”, acredita o aluno.
Universidade + Sociedade
“A importância da universidade no contexto da pesquisa e extensão é simplesmente desenvolver novas tecnologias de baixo custo, acessíveis e que possam ser aplicadas aos municípios e à população, de forma geral”, enfatiza o orientador de Edson Kenji Kawabata, João Antonio Cyrino Zequi.
Na UEL, o Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas trabalha de forma em que os alunos vão a campo, como os mestrandos, doutorandos e também os alunos de iniciação científica, aplicando uma metodologia de monitoramento de vetor e arbovírus com ações estratégicas e controle biológico.
Além de Sertanópolis, há pesquisas de instalação de ovitrampas, coleta ovos e elaboração de relatórios nas cidades de Florestópolis, Porecatu, no Porecatu Assentamento, e mesmo em Londrina, onde alunos da pós-graduação desenvolvem seus projetos, levando até esses locais a instalação das ovitrampas. O projeto no assentamento integra o Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Biodiversidade: Serviços Ecossistêmicos e já foi pauta aqui no Conexão Ciência, com fomento da Fundação Araucária e apoio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti).
“O monitoramento dessas armadilhas e o acompanhamento é um aprendizado enorme para o nosso acadêmico, possibilitando que ele viva a realidade que é de uma cidade”, enfatiza o professor.
Para ilustrar a importância das pesquisas, o professor da UEL cita como exemplo outra ferramenta de monitoramento que é a coleta de mosquitos em área de bloqueio, uma região que se sabe ter circulação de arbovírus para dengue, chikungunya e Zika.
Assim, antes de se aplicar o inseticida, que é um procedimento padrão para fazer esse bloqueio, os alunos vão a campo, coletam esses mosquitos e fazem pesquisas de vírus. Com os resultados, os agentes de saúde da cidade recebem os relatórios e podem definir qual a melhor estratégia para enfrentar a infestação.
“Entendo que a proximidade da universidade em relação à própria sociedade, levando as tecnologias de baixo custo e que resolvem o problema da população, é muito pertinente ao papel da universidade pública, além de formar pessoal qualificado nessa área”, conclui Zequi.
Para saber mais sobre a pesquisa desenvolvida na UEL, o Conexão Ciência – C² preparou o podcast “Conexão Ovitrampas”, que traz mais detalhes da metodologia aplicada no estudo de controle biológico. Confira!
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Texto: Silvia Calciolari
Revisão de texto: Milena Massako Ito
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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