O que acontece com uma ideia depois que ela sai do laboratório?
Entre um experimento bem-sucedido e um produto disponível para a sociedade existe um longo caminho. Tudo para entregar o melhor resultado para o consumidor e para os produtores.
Agora, imagine a trajetória de um pedaço de frango até chegar ao seu prato. Antes de ser alimento, ele movimentou produtores, cooperativas, transportadoras, indústrias e pesquisadores. O que talvez você não saiba é que aquilo que normalmente seria descartado durante esse processo (penas, pele, resíduos e outros subprodutos) pode dar origem a fertilizantes, ingredientes alimentícios e até produtos para a saúde.
O Paraná é reconhecido como um dos maiores produtores de alimentos do país. Quanto ao frango, o estado detém a liderança nacional, com 34,4% de toda a produção brasileira. Isso quer dizer que mais de um terço dos frangos abatidos no Brasil são paranaenses!
O frango consumido no mundo todo, os grãos exportados para diferentes continentes e boa parte dos produtos que abastecem supermercados começam sua trajetória em propriedades rurais. Mas, com o tempo, passou a ser necessário produzir mais, desperdiçar menos e criar novos produtos a partir dos recursos que já existem.

Esse processo não acontece por acaso e, como você já deve ter visto aqui pelo C2, a inovação raramente nasce de forma isolada. Foi para aproximar expertises multidisciplinares e acelerar o caminho entre pesquisa e aplicação prática que surgiu o projeto AgriTech Symbiosis, iniciativa que mais tarde daria origem ao Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) AgriTech Symbiosis.
Uma rede para resolver problemas reais
O AgriTech Symbiosis integra pesquisadores de diversas áreas do conhecimento e tem como foco principal fortalecer a cadeia agroalimentar por meio da inovação, da sustentabilidade e da aproximação entre universidade e setor produtivo.
Segundo a coordenadora do Arranjo e professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Mônica Fiorese, a origem do projeto se deu pela constatação de que muitos pesquisadores trabalhavam em temas semelhantes, mas de forma desconectada.
A partir dessa necessidade de integração, surgiu o AgriTech Symbiosis, uma rede de pesquisadores que desenvolvem projetos de pesquisa, ensino e extensão, reunindo áreas como Engenharia Química, Engenharia Agrícola, Química, Biotecnologia, Medicina, Farmácia, Processos Químicos, Engenharia de Alimentos, Zootecnia, Agronomia, Microbiologia e Nutrição.
“O nosso combinado enquanto rede era que todos os projetos precisavam fazer sentido para a sociedade. Nossa pretensão era fazer pesquisa para resolver problemas reais”, diz Mônica.
Logo a proposta atraiu o interesse das empresas, que passaram a participar ativamente da construção das pesquisas e do direcionamento das demandas.
Do laboratório para a indústria
Ao longo do processo, os pesquisadores identificaram a ausência de uma estrutura intermediária entre os experimentos realizados nos laboratórios e a aplicação industrial das tecnologias desenvolvidas.

De acordo com a professora, “a estrutura laboratorial era excelente, mas faltava a transição para uma escala piloto. Faltava um espaço onde a empresa pudesse enxergar aquele produto em uma escala mais próxima da realidade industrial”. Para suprir essa lacuna, nasceu o projeto do laboratório de escalonamento de processos do AgriTech Symbiosis, cuja construção teve início em maio de 2026, no campus da Unioeste em Toledo.
O espaço funcionará como uma espécie de mini-indústria voltada à validação de tecnologias desenvolvidas na universidade. “Nós não vamos produzir toneladas, mas vamos produzir quilos. Isso permite que a empresa pegue o produto, entregue para um cliente testar e tenha uma perspectiva real de mercado. O Governo do Paraná nos deu o prédio. As empresas produtoras de equipamentos fornecerão os equipamentos de escalonamento de processos. É uma parceria público-privada em que todos ganham”, esclarece Mônica.
O hub
A consolidação da rede e do laboratório levou à criação de uma nova estrutura: o Hub AgriTech Symbiosis.
Segundo a professora, o hub foi concebido para conectar pesquisadores, empresas e governo em torno de projetos de inovação compartilhados. “A ideia é que as empresas tragam as demandas e que o risco seja dividido. Elas investem junto com o governo e com a universidade para desenvolver tecnologias que, sozinhas, talvez não tivessem coragem de testar.”
Nesse modelo, recursos públicos podem financiar parte dos projetos enquanto as empresas investem o restante, compartilhando riscos e acelerando processos de inovação. “O objetivo é fazer com que as empresas se arrisquem mais. Se elas se arriscarem mais, elas vão criar novos empreendimentos, novas indústrias e o Paraná tende a crescer ainda mais”, defende Mônica.

“A Rede existe para conectar expertises diferentes e gerar resultados para a sociedade. O Lab existe para transformar pesquisas em produtos que possam chegar às empresas. E o Hub conecta tudo isso ao governo e ao setor produtivo”, resume.
É nesse cenário firme que surge o NAPI AgriTech Symbiosis.
O NAPI
Embora a rede já existisse antes da criação do NAPI, a aprovação do projeto pela Fundação Araucária representou um marco importante para a consolidação da iniciativa.
“Nós tínhamos uma rede, mas não tínhamos tantos recursos para trabalhar de forma integrada. Cada pesquisador tinha seus projetos individuais. O NAPI veio justamente para permitir essa integração”, esclarece Mônica.
De acordo com ela, o financiamento possibilita que pesquisadores de diferentes instituições atuem de forma sincronizada em torno de objetivos comuns. “Agora todos precisam seguir o mesmo cronograma. Se uma etapa atrasa, ela impacta diretamente as outras. É um trabalho realmente colaborativo”, diz.
As ações do NAPI estão organizadas em diferentes metas de pesquisa que dialogam diretamente com demandas da agroindústria e da agricultura paranaense. Uma das linhas envolve o desenvolvimento de hidrolisados proteicos destinados à saúde humana, produção de alimentos, agricultura e nutrição animal.
“A ideia é pegar uma matéria-prima e avaliar todas as possibilidades de aplicação. Quanto mais mercados ela atingir, maior é o potencial de inovação para a empresa”, explica.

Também estão previstos estudos com plantas alimentícias não convencionais e extratos naturais voltados ao desenvolvimento de alimentos mais saudáveis, reduzindo a utilização de aditivos sintéticos em produtos cárneos, à geração de ingredientes bioativos, fotossensibilizadores e compostos funcionais para alimentos, fitoterápicos, dermocosméticos e controle microbiológico.
Além disso, o projeto contempla pesquisas em tecnologias emergentes como os vidros bioativos com polifosfatos e nutrientes, aplicáveis como fertilizantes de liberação controlada e antimicrobianos em saúde animal, nanofibras e sistemas de liberação controlada, voltados à aplicação gradual de fertilizantes, bioestimulantes e ativos antimicrobiano e tecnologias voltadas ao aproveitamento de resíduos agroindustriais.
Uma das metas consideradas mais estratégicas pela equipe envolve o uso da radiação ionizante (feixe de elétrons) para tratamento de efluentes agroindustriais e descontaminação microbiológica de sementes.
Segundo a professora Mônica, “a intenção dessas pesquisas é criar um portfólio de tecnologias que possam beneficiar várias empresas do Paraná ao mesmo tempo, como a instalação da tecnologia em um porto, principalmente pensando em exportação, ou na sustentabilidade das indústrias por meio do reuso de água, pensando na escassez hídrica futura que podemos enfrentar”.
Cooperação internacional
Além das parcerias nacionais, o NAPI também fortaleceu colaborações internacionais com instituições de Portugal, Japão e Arábia Saudita.
Em Portugal, a parceria com o Instituto Politécnico de Bragança (IPB) permitirá intercâmbio de pesquisadores e auxiliará em ações efetivas para apoiar a criação de um doutorado internacional. “Eles têm expertise em áreas que nós ainda não dominamos completamente, e nós também temos conhecimentos que eles querem aprender. É uma via de mão dupla”, diz Mônica.
Comitiva da Unioeste no Instituto Politécnico de Bragança (IPB), em Portugal (Foto/Agritech Symbiosis) Comitiva da Unioeste no Instituto Politécnico de Bragança (IPB), em Portugal (Foto/Agritech Symbiosis) Comitiva da Unioeste no Instituto Politécnico de Bragança (IPB), em Portugal (Foto/Agritech Symbiosis) Comitiva da Unioeste no Instituto Politécnico de Bragança (IPB), em Portugal (Foto/Agritech Symbiosis) Comitiva da Unioeste no Instituto Politécnico de Bragança (IPB), em Portugal (Foto/Agritech Symbiosis)
No Japão, a aproximação ocorreu durante uma missão organizada pela Fundação Araucária e resultou em acordos de cooperação com a Universidade de Kyoto. Já as colaborações com instituições da Arábia Saudita estão voltadas principalmente para pesquisas relacionadas à agricultura e ao uso de biochar1.
Ciência para gerar desenvolvimento
Ao resumir a essência do Agritech Symbiosis, Mônica destaca os pilares fundamentais: o modelo da quádrupla hélice da inovação, integrando universidade, empresas, governo e sociedade civil em torno de um objetivo comum: promover o desenvolvimento científico, tecnológico, socioeconômico e ambiental sustentável.
Para a coordenadora, o objetivo final vai além da produção científica, o verdadeiro sucesso do projeto ocorre quando o conhecimento gerado nas universidades chega ao setor produtivo e se transforma em desenvolvimento.
“Eu costumo brincar que queremos que as empresas gerem muitas notas fiscais. Mas isso significa muito mais do que faturamento. Significa que novas tecnologias foram incorporadas, novos negócios foram criados, empregos e renda foram gerados, resíduos foram valorizados, recursos naturais foram utilizados de forma mais eficiente e a inovação passou a contribuir efetivamente para o desenvolvimento sustentável do Estado e para a melhoria da qualidade de vida da população”, conclui.
Ao conectar pesquisadores, empresas, governo e sociedade civil, o Agritech Symbiosis busca reduzir a distância entre a descoberta científica e sua aplicação prática. Isso porque, no fim das contas, toda ciência produzida dentro da universidade precisa voltar como benefício para a vida da população.
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Texto: Guilherme de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lorena Mendonça
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- biochar – carvão vegetal de alta porosidade produzido a partir da queima de biomassa orgânica (como resíduos agrícolas ou florestais) ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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