Imagine uma usina que funciona 24 horas por dia, processando tudo o que entra na cidade, eliminando resíduos, armazenando recursos e mantendo os serviços essenciais em funcionamento. Se ela parar, toda a cidade sente as consequências. No corpo humano, essa usina é o fígado.
Este importante órgão do corpo humano desempenha centenas de funções essenciais para manter o organismo em funcionamento. É responsável por filtrar substâncias, produzir proteínas, armazenar energia, além de ajudar a eliminar toxinas. Silencioso, trabalha todos os dias, geralmente sem chamar muita atenção. Por isso, quando algo começa a falhar, o fígado raramente apresenta sinais imediatos. É aí que mora o perigo!
É justamente nesse silêncio que as hepatites virais encontram a oportunidade perfeita para se desenvolverem e avançarem contra nosso sistema imunológico. A doença pode permanecer por anos sem causar sintomas, enquanto provoca inflamações e lesões que comprometem o funcionamento do órgão.
Segundo a enfermeira e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Dra. Flávia Meneguetti Pieri, o fígado possui grande capacidade de compensação e regeneração. Mesmo quando há uma inflamação crônica provocada por um vírus, o órgão continua desempenhando suas funções normalmente por muito tempo.

“A hepatite parece acabar ficando um pouco esquecida. Normalmente as pessoas lembram mais de doenças como HIV, sífilis ou tuberculose”, observa a pesquisadora.
O problema é que o silêncio não significa ausência de doença. Uma pessoa pode conviver com uma hepatite viral por anos, ou até décadas, sem perceber.
Um problema que ainda afeta milhões de pessoas
Apesar dos avanços da medicina, as hepatites virais continuam sendo um importante desafio para a saúde pública mundial.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que 304 milhões de pessoas viviam com infecções crônicas pelos vírus das hepatites B ou C, em 2022. No mesmo ano, essas doenças foram responsáveis por cerca de 1,3 milhão de mortes no mundo.
No Brasil, entre 2000 e 2024, foram registrados mais de 826 mil casos confirmados de hepatite viral. A hepatite C representa a maior parcela das notificações, seguida pela hepatite B e pela hepatite A.
Diante desse cenário, a OMS estabeleceu a meta de eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública até 2030. O desafio, porém, não está apenas em desenvolver tratamentos ou vacinas. Está em encontrar pessoas que sequer sabem que estão infectadas.
Mas o que, de fato, são as hepatites virais? O C² te explica!
Hepatites virais: tipos e características
As hepatites virais são doenças infecciosas causadas por diferentes vírus que infectam o fígado e provocam inflamação.
Embora compartilhem o mesmo órgão-alvo, cada tipo apresenta formas distintas de transmissão, prevenção e tratamento. Os principais vírus são identificados pelas letras A, B, C, D e E.
Algumas formas costumam causar infecções agudas e temporárias. Outras podem evoluir lentamente ao longo de anos, aumentando o risco de complicações graves, como cirrose e câncer hepático.
Hepatite A
A hepatite A é transmitida, principalmente, pela chamada via fecal-oral, geralmente associada ao consumo de água ou alimentos contaminados e a condições inadequadas de saneamento básico.
Os sintomas costumam aparecer entre 15 e 50 dias após a infecção e incluem febre, mal-estar, dores musculares, náuseas, vômitos, dor abdominal e, em alguns casos, amarelado da pele e dos olhos.
Diferentemente das hepatites B e C, a evolução da hepatite A costuma ser rápida. “Na hepatite A, rapidamente esse paciente vai ficar ictérico, vai perder o apetite, pode ter perda de peso e um emagrecimento acentuado”, explica a professora.
A boa notícia é que a doença raramente se torna crônica e pode ser prevenida por meio de medidas simples, como a higiene adequada das mãos, o acesso à água tratada e a vacinação.
A vacina faz parte do calendário vacinal brasileiro e também está disponível, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), para grupos específicos. Segundo a pesquisadora, a ampliação da vacinação ajudou a reduzir significativamente os casos da doença nos últimos anos.
Hepatite B
A hepatite B talvez represente um dos maiores paradoxos da saúde pública. Existe uma vacina gratuita, segura e altamente eficaz há décadas. Mesmo assim, ela continua sendo uma das formas mais frequentes da doença no Brasil.
O vírus pode ser transmitido por relações sexuais desprotegidas, contato com sangue contaminado, compartilhamento de objetos perfurocortantes e da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto.
Entre os objetos que podem representar risco estão alicates de unha, lâminas de barbear, agulhas, seringas, equipamentos para tatuagem e materiais utilizados em procedimentos sem esterilização adequada.
“O risco existe em qualquer situação em que haja contato com sangue contaminado”, explica a professora. A transmissão vertical, da mãe para o bebê, também preocupa. Por isso, a testagem faz parte do protocolo de pré-natal. Mas o principal problema continua sendo a ausência de sintomas.

Na maioria dos casos, a hepatite B não provoca sinais perceptíveis logo após a infecção. Muitas pessoas descobrem a doença apenas anos depois, quando já há danos importantes ao fígado.
Por isso, a vacinação continua sendo a principal estratégia de prevenção. “Hoje, ninguém deveria ficar sem proteção contra a hepatite B, pois a vacina está disponível gratuitamente”, reforça Meneguetti.
Embora a hepatite B não tenha cura definitiva, os tratamentos atuais conseguem controlar a replicação do vírus, reduzir o risco de complicações e melhorar significativamente a qualidade de vida dos pacientes.
Hepatite C
Se a hepatite B preocupa pela necessidade de ampliar a vacinação, a hepatite C chama a atenção por outro motivo: é considerada uma das doenças mais silenciosas que afetam o fígado.
Cerca de 80% das pessoas infectadas não apresentam sintomas. A infecção evolui lentamente. O vírus se replica ao longo dos anos, provocando inflamações que podem passar despercebidas por décadas.
“Na hepatite C, o período de incubação do vírus é lento. Consequentemente, os sintomas também demoram muito para surgir”, explica a pesquisadora.
Essa característica faz com que muitas pessoas convivam com a doença sem saber disso. Durante a pandemia de Covid-19, por exemplo, diversos casos foram identificados incidentalmente em investigações clínicas relacionadas à infecção pelo coronavírus.
“Muita gente nem sabia que tinha hepatite C. Nós acabamos descobrindo vários casos durante as investigações realizadas na pandemia”, relata Flávia.

Quando o diagnóstico finalmente ocorre, o paciente pode já apresentar cirrose ou até câncer de fígado. “Isso vai levando à possibilidade de o paciente receber o diagnóstico de carcinoma, câncer, em uma fase mais avançada da doença.”
A principal forma de transmissão ocorre por contato com sangue contaminado. Compartilhamento de seringas, materiais de manicure não adequadamente esterilizados, instrumentos de tatuagem e procedimentos sem biossegurança adequada estão entre os principais fatores de risco.
Apesar disso, a hepatite C traz uma notícia animadora: pode ser curada. Os medicamentos atuais apresentam taxas de cura superiores a 95% e são oferecidos gratuitamente pelo SUS. “O próprio Ministério da Saúde fala em cura da hepatite C”, destaca a professora.
Hoje, o maior desafio já não é tratar a doença. É encontrar as pessoas que ainda não sabem que estão infectadas. Não à toa, a hepatite C se destaca como a forma crônica mais frequente no Brasil, o que torna o conhecimento sobre ela ainda mais necessário.
Hepatite D
Se as hepatites B e C já são silenciosas por natureza, a hepatite D acrescenta uma camada extra de complexidade a essa história. Conhecida também como Delta, ela é causada pelo vírus HDV, mas apresenta uma característica incomum no mundo das doenças virais: não consegue agir sozinha. Para infectar uma pessoa, o vírus D depende, obrigatoriamente, da presença do vírus B.
Na prática, isso significa que apenas quem já tem hepatite B, ou quem se infecta pelos dois vírus ao mesmo tempo, pode desenvolver a hepatite D. As formas de transmissão seguem o mesmo caminho: relações sexuais desprotegidas, contato com sangue contaminado, compartilhamento de seringas, alicates, lâminas ou materiais de tatuagem sem esterilização adequada, e transmissão da mãe para o bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação.
Os sintomas, quando aparecem, se assemelham aos das outras formas da doença, como cansaço, tontura, náuseas, febre, dor abdominal, urina escura, fezes claras e pele e olhos amarelados. Mas a gravidade do quadro pode variar bastante, dependendo do momento em que a infecção pelo vírus D ocorre.
Quando ambos os vírus chegam ao mesmo tempo, a doença costuma manifestar-se como hepatite aguda. Já quando o vírus D infecta alguém que já convive com a hepatite B crônica, o cenário pode ser bem mais sério. O fígado, que já vinha sendo sobrecarregado, passa a enfrentar um segundo ataque, e os danos podem evoluir rapidamente para cirrose ou para formas fulminantes da doença.
O vírus D no Brasil
No Brasil, 169 casos do vírus foram registrados em 2024, segundo o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais. Mas esse número provavelmente subestima a realidade, já que a subnotificação é um problema recorrente. A distribuição geográfica também chama a atenção: 123 desses casos, mais de 72% do total, foram registrados na região Norte. Rondônia lidera o ranking, com 56 diagnósticos, seguida pelo Amazonas, com 52.
Essa concentração geográfica ajuda a explicar por que a hepatite D ainda é pouco conhecida, inclusive entre profissionais de saúde. Por estar restrita a determinadas regiões do mundo, ela acaba sendo marginalizada e, muitas vezes, esquecida no momento do diagnóstico, mesmo em pacientes que já chegam com hepatite B confirmada.
A prevenção, no entanto, segue a mesma lógica: como o vírus D não sobrevive sem o vírus B, quem está vacinado contra a hepatite B está automaticamente protegido contra a Delta também.
Hepatite E
A última da lista também é a mais distante da realidade brasileira. A hepatite E existe por aqui, mas em casos esporádicos. É na Ásia e na África que ela se faz mais presente, em regiões onde o acesso à água tratada e ao saneamento básico ainda é um privilégio. Assim como a hepatite A, o vírus E se espalha pela via fecal-oral: água contaminada, alimentos mal higienizados e saneamento precário.
Os sintomas seguem um padrão familiar: cansaço, tontura, náuseas, vômitos, febre, dor abdominal, urina escura, fezes claras e icterícia. Eles costumam aparecer entre 15 e 60 dias após a infecção.
Na maioria das situações, a doença não exige tratamento específico. O protocolo envolve repouso, dieta pobre em gorduras e a suspensão total do consumo de álcool. Na maior parte dos casos, o organismo dá conta de eliminar o vírus por conta própria.
A prevenção, assim como na hepatite A, passa por medidas básicas: lavar bem as mãos, consumir apenas água tratada e evitar contato com água de valões, de enchentes ou de esgotos a céu aberto.

Se existem vacinas e tratamentos, por que ainda temos tantos casos?
Talvez essa seja a pergunta mais importante quando se fala em hepatites virais. Afinal, existem vacinas contra as hepatites A e B. Há também testes rápidos gratuitos para as hepatites B e C. Existe tratamento para a hepatite B. Existe cura para a hepatite C.
Então, por que as hepatites continuam matando?
Parte da resposta está no próprio comportamento da doença. Os sintomas costumam surgir apenas quando o fígado já sofreu danos significativos. Muitas pessoas convivem com a infecção por anos, acreditando que estão saudáveis.
Mas há outro fator que preocupa os especialistas: a baixa adesão à vacinação. Segundo a professora, a cobertura vacinal está abaixo do ideal em diversas faixas etárias. “Existe hoje essa divulgação antivacina. Quando analisamos os dados, não alcançamos a cobertura vacinal de 90%, nem mesmo na primeira infância.”
A situação também é observada entre adultos.
Durante as atividades de ensino na UEL, a professora relata ter encontrado estudantes e profissionais da saúde com esquemas vacinais incompletos ou sem os reforços recomendados. “Quando eles apresentam a carteira de vacinação, muitas vezes percebemos que não fizeram os reforços necessários”, compartilha Meneguetti.
Além disso, pessoas que passam por situações de risco nem sempre buscam acompanhamento. “Muitos não notificam os acidentes com material biológico e acabam não reforçando essa prevenção”, explica a professora.
Para a pesquisadora, a vacinação continua sendo uma das ferramentas mais poderosas para reduzir o impacto das hepatites virais.
O diagnóstico que leva minutos pode salvar décadas
Outra estratégia fundamental é a testagem. Os testes rápidos para hepatites B e C estão disponíveis gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde e fornecem resultados em poucos minutos. “Muitas vezes, um teste realizado em poucos minutos pode evitar anos de evolução silenciosa da doença”, alerta.
Para Flávia, a recomendação é simples: todo adulto deveria fazer o teste pelo menos uma vez na vida. Isso porque esperar os sintomas aparecerem pode significar esperar demais. Em muitos casos, a primeira manifestação da doença já é uma complicação grave, como cirrose ou câncer hepático.
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Texto: Sabrina Heck e Yumi Aoki
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lorena Mendonça
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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