Desde que o mundo é o mundo que conhecemos e vivemos, a história da humanidade tem se confundido com a história do tabaco e seus derivados. Do rapé, passando pelo charuto e narguilé, até os Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs), essa substância sempre foi ‘vendida’ como uma ideia que representa glamour, charme e sucesso. E mais: atualmente, como escape para problemas, ansiedade e frustrações.
Se voltarmos no tempo, a partir de 1500, período dos grandes descobrimentos e da colonização européia na África e na Ásia, vemos que foi nesta época que o tabaco se difundiu por todos os continentes. O toque inicial veio com o botânico francês Jean Nicot, que estudou e atribuiu propriedades medicinais à planta. Pela relevância, a planta acabou sendo batizada com seu nome e ficou conhecida cientificamente como Nicotiana tabacum.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo do tabaco deixa um rastro de doenças e mortes evitáveis que pavimenta o caminho dos mais de 1,1 bilhão de fumantes em todo o mundo. Deste total, 80% vivem em países de baixa e média renda, onde o fumo tem aprofundando as desigualdades sociais e econômicas.
Pesquisas apontam que o tabaco é responsável pela morte de mais de 7 milhões de pessoas por ano no planeta. Isto, sem contar os mais de 1,2 milhão de mortes como resultado de não-fumantes expostos ao fumo passivo.
Só não é pior porque, há décadas, os cientistas vêm alertando para os riscos à saúde causados pela dependência da nicotina, substância psicoativa altamente viciante que atua de forma rápida no sistema nervoso central, sendo a principal responsável pela dependência do fumo e de outros produtos derivados do tabaco. A ciência começou a relacionar o tabagismo com o câncer de pulmão e o aumento da mortalidade de forma definitiva no início da década de 1950, por meio de estudos pioneiros conduzidos por Richard Doll e Austin Bradford Hill, no Reino Unido, e por Ernst Wynder e Evarts Graham, nos Estados Unidos.
Para conter a queda nas vendas a partir da divulgação dos estudos, a indústria adotou estratégias que foram do negacionismo sobre os impactos do cigarro na saúde, financiamento de ciência falsa e ocultação de dados sobre vício, além de ‘garantir’ que os cigarros com filtro e as versões ‘Light’ eram opções seguras.

Já imaginou como seria a vida sem o tabaco? Muita gente já projetou esse cenário e segue pesquisando e trabalhando para livrar as futuras gerações da dependência da nicotina.
Tanto é verdade que, para marcar a importância do movimento antitabagismo, em 1986, foi instituído no Brasil a data de 29 de agosto como o Dia Nacional de Combate ao Fumo, com o objetivo principal de conscientizar a população sobre os riscos à saúde.
Desde então, há leis regulando o consumo para menores de 18 anos (1996), além de proibir o consumo em locais fechados e públicos (2014), a propaganda de produtos com nicotina e a produção e a comercialização e consumo de DEFs (2024). Nestes termos, mesmo que tardiamente, o país tem seguido a tendência mundial de combate ao tabagismo, inclusive com tratamento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Porém, especialistas dizem que ainda há muito o que alcançar, mesmo em países que aprovaram leis severas que proíbem o consumo de cigarros. Este ano, o Reino Unido e as Maldivas aprovaram proibições geracionais que impedem a venda de tabaco para os nascidos a partir de 2009 e 2007, respectivamente, mesmo quando forem adultos.
Ainda assim, a indústria do tabaco não dorme no ponto. Quanto mais se avança em políticas públicas antitabagistas e na conscientização da população para os efeitos nocivos do cigarro, mais o setor fumeiro inova na busca de novos e fiéis ‘consumidores’. E o prejuízo só aumenta para os cofres públicos. Dados de 2025, do Instituto Nacional de Câncer (Inca), apontam que, para cada R$ 1 de lucro para os fabricantes, o sistema de saúde público gasta R$ 5 com doenças relacionadas ao fumo, muitas delas evitáveis.
Universidades em ação
Nesta história, é aqui que entra o papel fundamental das universidades na pesquisa, projetos de extensão, capacitação e formação de novos professores para o Ensino Básico. O foco é evitar a experimentação e conscientizar crianças e adolescentes, no ambiente escolar, para os riscos à saúde física e mental que a dependência ao tabaco provoca no organismo.
“Quando estamos avançando em projetos e atividades de prevenção, a indústria já está lançando outro. A gente tem a sensação de sempre estar enxugando gelo, mas não desistimos, nunca”, afirma o professor de Anatomia Humana, da Universidade Estadual de maringá (UEM), Celso Ivam Conegero, coordenador do Museu Dinâmico interdisciplinar (Mudi), vinculado à universidade.

O Mudi é um dos únicos museus universitários no país que mantém, há mais de duas décadas, um ambiente exclusivo para o Projeto Antitabagismo. “Meu envolvimento com a temática começou quando era graduando de Biologia e estagiário, bem no início do Centro Interdisciplinar de Ciências (CIC), que originou o Mudi. No Laboratório de Anatomia Humana, nós tínhamos no nosso acervo pulmão de fumante e de não fumante. Então, comecei a mostrar isso para os visitantes e me envolver com as questões relacionadas ao tabagismo”, relembra Conegero.
Com o apoio da Aliança de Controle do Tabagismo e Promoção da Saúde ACT Promoção da Saúde, na exposição permanente, e de Itaipu Binacional para as ações de itinerância, o idealizador do Projeto Antitabagismo do Mudi/UEM recorda o que o levou a ser uma das maiores referências em estratégias e ações no enfrentamento ao tabaco.
“Começamos a levar esse acervo e fazer pequenas intervenções nas escolas de Maringá e região. Então, a gente viu uma grande demanda e uma oportunidade fantástica de realizarmos atividades de prevenção para conscientizar as crianças a não iniciarem com o hábito do tabagismo e, também, mostrar para os fumantes o estrago que o tabaco ocasiona no corpo humano”, conta o professor.
A partir do interesse e volume de solicitações de escolas, o grupo de professores envolvido na criação do Museu começou a ofertar cursos de capacitação e especialização nas Ciências Biológicas, com disciplinas sobre o Tabagismo, para professores na Rede Estadual de Educação do Paraná.
“No início dos anos 2000, nós começamos a perceber que o trabalho de prevenção estava muito forte e inúmeras pessoas começaram a procurar a Universidade pedindo ajuda para parar de fumar. A prevenção a gente tava dando conta. Mas, e o tratamento?”, diz Conegero.
I Simpósio Antitabagismo Mudi/UEM 2025 (Fotos/Acervo Mudi) Visita ao ambiente Antitabagismo Mudi/UEM 2025 (Fotos/Acervo Mudi) Exposição Antitabagismo na Expo Umuarama 2026 (Fotos/Acervo Mudi) Ação ACT Promoção da Saúde em Maringá (Fotos/Acervo Mudi) Parceira com o Palhaçaria no combate aos DEFs (Fotos/Acervo Mudi)
Nasce uma nova frente de atuação, junto com a Secretaria Estadual de Saúde (SESA/PR), para trabalhar de forma ainda mais organizada por todo o Paraná. “Comecei a receber material do Ministério da Saúde e me envolver com os trabalhos no âmbito nacional, recebendo todo o apoio do Inca, da SESA/PR, da 15ª Regional de Saúde que atende Maringá e região, parceria com outras universidades… de tal maneira, que nós chegamos onde estamos e vamos avançar”, enfatiza o professor.
Para saber mais sobre o Projeto ‘Tabagismo: Tratamento e Acompanhamento de Usuários de Tabaco de Maringá e Região’, basta acessar o site do Mudi. De acordo com Conegero, mais de 1.500 pessoas já passaram pelo projeto, seja no formato remoto ou em um grupo presencial.
Atualmente, o portfólio de ações do Projeto Antitabagismo do Mudi/UEM envolve várias estratégias fora do Museu e com diversos parceiros, por meio do Projeto Muditinerante. Partes do acervo são expostas em escolas, praças, feiras agropecuárias, eventos nacionais e feiras de Ciências. Também há frentes como o Projeto ‘Pare de Fumar Correndo’, uma corrida de rua em parceria com a Prefeitura de Maringá, que já teve 17 edições, parou na pandemia e deve ser retomada em breve.
Cigarro eletrônico
Especialistas que atuam na área de combate ao tabagismo afirmam, categoricamente, que o Brasil vive uma pandemia pelo uso dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar. Apesar de proibidos no país, a variedade de modelos e acesso ilegal têm possibilitado que a insdústria se modernize e alcance pessoas cadas vez mais jovens e, principalmente, mais mulheres. Desde os anos 1970, quando as campanhas antitabagistas começaram a esclarecer a população sobre os malefícios do cigarro, é a primeira vez, em duas décadas, que a curva de consumo de tabaco está na ascendência.
Após muitos anos trabalhando na prevenção do uso do tabaco, a equipe liderada pelo professor Conegero vem desenvolvendo atividades interdisciplinares que valorizam a saúde, tanto física quanto mental.

“Nosso processo é conscientizar as nossas crianças, da mesma forma que tem a conscientização em relação às questões ambientais, quando propomos a valorização e defesa da saúde e da vida humana”, explica o professor.
Para Conegero, tudo está interligado. “Por isso que nós começamos a desenvolver atividades como a Aromaterapia e outras Práticas Integrativas, o projeto da Matemática e a parceria com outros departamentos da Universidade como Odontologia, Educação Física, prática esportiva”.
O objetivo é trabalhar em parceria para que as pessoas se conscientizem da importância de ter um organismo saudável, de buscar a felicidade, abandonando hábitos que acabam trazendo prejuízo para o organismo humano. “O que me motiva em todos os projetos que eu desenvolvo é o bem-estar e a melhoria da qualidade de vida da população, não só das crianças, mas da população de uma forma geral”, salienta o professor.
Capacitações Antitabagismo Mudi/UEM
Em 29 de agosto de 2025, para marcar o Dia Nacional de Combate ao Fumo, o Mudi realizou o I Simpósio de Capacitação sobre Cigarros Eletrônicos, em parceria com a 15ª Regional de Saúde e a Prefeitura Municipal de Maringá. O evento teve como objetivo reunir profissionais da Saúde, Educação e comunidade acadêmica para discutir os riscos dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) e estratégias de prevenção, especialmente no ambiente escolar.
Em abril e junho deste ano, houve as edições II e III do Simpósio Antitabagismo que trouxe palestrantes para apresentarem suas experiências e promoverem o intercâmbio de informações e abordagens. Entre os diversos convidados da terceira edição estava a fisioterapeuta, doutora em Ciências da Saúde, pesquisadora do tema, a professora Fernanda Dal’Maso Camera, que compartilhou o trabalho desenvolvido no PREVDroga, que agora passou a ser chamado de PREV AÇÃO.
De forma contínua, o programa de extensão e educação em saúde está sendo desenvolvido há sete anos na Escola de Educação Básica da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), campus Erechim/RS, focado na prevenção do uso de substâncias psicoativas entre crianças e adolescentes.
“No início, o projeto começou com uma abordagem sobre bebida energética com alunos do 6º ano, consumida muito frequentemente e de forma precoce. Percebemos também que tem pais que não sabem os efeitos no corpo juvenil. Para alunos do 7º, 8º e 9º ano, falamos sobre alguns tipos de substâncias psicoativas”, explicou a professora.
Em tempos de internet, quando tudo acontece de forma rápida, intensa e repetitiva, as estratégias de abordagem foram sendo atualizadas. “Antigamente, no início do projeto, nós tínhamos deixado o álcool para o 9º ano. E, com o decorrer do tempo, a gente viu o quanto nós precisaríamos antecipar as falas sobre o álcool, a maconha e todos os tipos de droga lícitas”, esclarece a especialista. No caso da maconha, uma pesquisa com os alunos apontou o uso e, por isso, o produto foi inserido no programa. Assim, a cada ano é realizada uma nova pesquisa que orienta as ações de prevenção e conscientização.
As ações do PREV AÇÃO não se limitam a palestras expositivas formuladas por um grupo multidisciplinar. O programa utiliza métodos interativos para engajar os jovens com gincanas educativas, atividades práticas como experimentos e dinâmicas que demonstram os efeitos nocivos do tabaco e do álcool no organismo e a integração acadêmica entre cursos de graduação e pós-graduação da URI Erechim. Este ano, foi inaugurado o Ambulatório de Cessação do Tabagismo da universidade, em parceria com o Programa de Pós-graduação em Atenção Integral à Saúde (PPGAIS) e o curso de Medicina.
O grande diferencial da iniciativa gaúcha é a continuidade do trabalho de conscientização, iniciado com alunos do Fundamental II, aos 11 anos, até o Ensino Médio. “Em 2026, temos o fechamento de um ciclo em que o aluno sai da escola, aos 17, 18 anos, tendo participado de todo o programa de prevenção desenvolvido na instituição, assim como pais e responsáveis”, explica Fernanda.
Fernanda enfatizou a importância vital de uma verdadeira conexão entre escola e a família para reforçar o que é ensinado em termos de aconselhamento aos jovens para a prevenção ao uso de cigarros eletrônicos e outros tipos de drogas. Há ainda a disposição em trabalhar elementos para estimular a espiritualidade dos estudantes, como uma nova estratégia de abordagem a partir do 6º ano.
“Nossa meta é fazer com que o aluno tenha consciência dos riscos e danos à saúde, assim como a família, mesmo que ele escolha usar alguma substância psicoativa”, completa a especialista.
Dr. Bartô
Para ampliar a discussão e trazer novas experiências, o Conexão Ciência preparou o podcast ‘Conexão Antitabagismo’, a partir do Programa Dr. Bartô, desenvolvido pelo médico pediatra da Universidade de São Paulo (USP), João Paulo Becker Lotufo. Como representante da Sociedade Brasileira de Pediatria e membro da Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira (AMB), ele se transformou uma referência por suas publicações ao longo dos anos com uma série de livretos de apoio a educadores e familiares.

Participante do I Simpósio e parceiro do Mudi, Lotufo enfatiza no podcast a influência da internet no comportamento e hábitos de crianças e adolescentes e como os pais podem estabelecer limites para as telas, ao mesmo tempo em que professores, devidamente capacitados, devem trabalhar a temática do cigarro inserida no conteúdo programática das disciplinas. Dê um play e saiba mais sobre a luta antitabagismo.
De certa forma, as atividades que visam despertar a consciências para os riscos e perigos do consumo do tabaco podem ajudar os jovens a ter uma visão crítica sobre outros produtos que causam dependência, para além dos cigarros eletrônicos. As propagandas e os sites de apostas também estão despertando e disputando o interesse, infelizmente não só de adultos. No ambiente escolar, a luz amarela já está acesa!
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Texto: Silvia Calciolari
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Hellen Vieira e Lorena Mendonça
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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