Em Foz do Iguaçu, garrafas de vinho e azeite apreendidas em operações policiais na fronteira deixaram de ser um problema ambiental para se tornar matéria-prima na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila). Isso mostra que, no contexto do Dia Mundial da Reciclagem, celebrado em 17 de maio, iniciativas que vão além da separação de resíduos mostram ao público, na prática, caminhos viáveis para concretizar a sustentabilidade.
Em um projeto que une ação sustentável e impacto social, o material reciclado em Foz é transformado em sabão e álcool 70%, provando que as pesquisas nas universidades servem para gerar aplicações concretas e úteis à sociedade.
A iniciativa nasce de uma parceria da Unila com a Receita Federal, órgão responsável pela apreensão de mercadorias que entram de forma irregular no país. Como não podem ser comercializados, muitos desses itens iriam para o lixo e o que se tentou fazer foi encontrar uma outra solução, com a ajuda da universidade.

“A ideia veio justamente dessa necessidade de encontrar um destino mais sustentável para esses materiais”, explica a pesquisadora Marciana Uliana Machado, docente de Química Orgânica, na Unila, e uma das responsáveis pelo projeto.
“O azeite passou a ser utilizado na fabricação de sabão e o vinho, que já era aproveitado para produção de álcool 70% e usado dentro dos nossos laboratórios, foi incorporado à formulação. Conseguimos melhorar algumas propriedades do produto e, assim, ampliar ainda mais esse reaproveitamento”, conta Marciana.
Nem tão simples quanto parece
Apesar de lembrar uma receita caseira, o processo exige precisão. A produção do sabão envolve a reação de saponificação1, que depende do equilíbrio correto entre óleo e soda cáustica.
O processo de produção leva de 30 a 40 dias. A maior parte do tempo é dedicada à etapa de cura, que é a espera até que o processo se complete. Tudo começa com a mistura dos óleos com a soda cáustica, responsável por iniciar a reação química que dá origem ao sabão (saponificação). Os ingredientes são processados numa batedeira e colocados para estabilizar em formas de silicone e depois levada para estufas, onde permanecem em repouso. É nesse período de estabilização que a saponificação se completa e o produto ganha consistência e segurança para uso. Somente após esse descanso é que o sabão pode ser testado e avaliado para uso.
Chegar a essa medida ideal não foi simples. O azeite apreendido nem sempre é puro, pode ser uma mistura de diferentes óleos, como o de soja, de girassol e algum traço de oliva, e cada um desses têm propriedades específicas. “Pequenas variações influenciam diretamente na qualidade do novo produto final. Foi necessário ajustar concentrações, temperatura, tempo de agitação e cura para garantir um produto seguro e eficiente”, explica a pesquisadora.
A equipe realizou vários testes e levou quase dois meses para ajustar a fórmula e garantir um produto seguro, com pH adequado – menor que 11 -, de acordo com os padrões exigidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a indústria de limpeza.

Depois de pronto, o sabão passa por testes de qualidade, incluindo análises de pH (quão ácido ou quão básico) e alcalinidade livre, para garantir que não haja excesso de soda cáustica residual, além de avaliação das características como espuma, resistência à água, perda de massa, peso médio e qualidade microbiológica. Tudo para garantir um produto seguro e adequado para uso em limpezas e uso laboratorial na própria Unila. Nos aspectos organolépticos2, são avaliados fatores como cor, odor e aparência.
O impacto invisível
Se o descarte dos vinhos e dos azeites apreendidos fosse concretizado de forma inadequada, esses resíduos orgânicos poderiam chegar à rede de esgoto, contaminar a água de consumo da população e danificar ecossistemas gravemente.
Isso porque óleos e gorduras formam películas na água, reduzindo a oxigenação e prejudicando a vida aquática (fauna e flora aquáticas). Ainda podem contaminar lençóis freáticos e causar entupimentos, o que eleva o risco de enchentes por dificuldade de escoamento das águas.
“Substâncias como o vinho, embora orgânicas, possuem alta carga poluidora quando descartadas em grandes volumes, podendo causar alteração de pH da água (acidez ou basicidade), desestabilizando nichos ecológicos sensíveis”, explica Marciana.
Educação ambiental e transformação social
Iniciativas de reaproveitamento de material são ferramentas pedagógicas poderosas que transformam conceitos abstratos de sustentabilidade em recursos úteis à sociedade. É o que defende a professora Marciana. “Quando um material deixa de ser ‘resíduo’ e passa a ser ‘matéria prima’, ocorre uma mudança na percepção de valor. A produção de sabão a partir de óleos vegetais é um exemplo clássico e eficaz de educação ambiental, assim como a obtenção de etanol a partir da destilação de bebidas alcoólicas. É onde o cidadão percebe que o possível agente poluidor pode se tornar um produto útil, de limpeza”, esclarece a pesquisadora da Unila.
Com o compromisso de desenvolver tecnologias e novos produtos que proporcionem o bem-estar da população e a preservação ambiental, nas palavras de Marciana a universidade pública se consolida como um motor de transformação social, também por não seguir interesses comerciais. “Quando o conhecimento ultrapassa os muros da universidade através destas parcerias, ela proporciona uma formação de profissionais com uma visão crítica da realidade e que visam buscar soluções éticas, economicamente viáveis e ainda, preocupados com a preservação do meio ambiente”, reforça.

Além do ganho ambiental, a iniciativa também tem alcance social. O sabão e o álcool produzidos podem ser destinados a pessoas em situação de vulnerabilidade, auxiliando na higiene doméstica e reduzindo custos de quem precisa. “Com isso conseguimos mostrar que a pesquisa não fica restrita ao laboratório. Ela chega até a comunidade e faz diferença no dia a dia”, afirma a pesquisadora.
O caráter inovador também está presente na proposta. “A inovação está justamente em transformar um problema em solução, usando ciência e criatividade para gerar novos produtos a partir de resíduos”, descreve. Soluciona problemas complexos com eficiência e criatividade.
Expansão e futuro
A iniciativa apresenta potencial para se tornar um projeto permanente de extensão com participação estudantil, embora essa estrutura ainda não tenha sido implementada na universidade. O aproveitamento integral dos produtos encaminhados pela Receita Federal ainda tem viabilidade limitada, pela falta de equipamentos e de mão de obra suficiente para dar andamento às ações na Unila. E como o volume apreendido é geralmente grande, no momento, não é possível fazer a transformação de 100% dessas apreensões.
Ilustrando o Dia Mundial da Reciclagem, a parceria da Unila com a Receita Federal mostra que a sustentabilidade depende de esforço coletivo e de soluções que vão além da simples separação do lixo. Ao transformar produtos condenados em soluções para a vida cotidiana e com valor agregado, essa iniciativa ensina sobre como reciclar e expõe seu potencial ambiental, social e acadêmico. A ciência, nessa dinâmica, assume papel central ao conectar problemas reais da sociedade com resultados úteis, concretos e que contribuem diretamente para a conscientização das pessoas e para a construção de práticas mais sustentáveis no cotidiano.
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Texto: Ana Elisa Frings
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Leonardo Rosa
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Saponificação: Saponificação é a reação química que transforma gordura ou óleo em sabão. É a etapa central da fabricação de sabão, responsável por dar ao produto suas propriedades de limpeza. ↩︎
- Organolépticos: são características que podem ser percebidas pelos sentidos humanos, como: cor, odor, textura, aparência ou sabor. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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