Que tal fazer um curso EaD, gratuito e de qualidade?

Ilustração mostra uma pessoa sentada diante de um notebook em fundo azul-escuro. Da tela do computador saem faixas coloridas que se conectam a vários círculos com símbolos relacionados à educação, saúde e conhecimento. Entre os ícones aparecem o símbolo do SUS, um monitor com engrenagens, uma pilha de livros, um professor em frente ao quadro, um prédio institucional, um diploma, gráficos, um livro aberto e uma mão segurando uma muda de planta. A personagem veste roupa rosa e está voltada para o computador, enquanto os elementos flutuam ao redor em composição gráfica e colorida.
Modalidade a distância para formação e capacitação profissional já representa mais da metade das matrículas no ensino superior no Brasil

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Pouca gente se dá conta, mas a pandemia da Covid-19 deixou um legado que extrapola as questões de saúde, econômicas e sociais, das quais muitos ainda se ressentem dos impactos psicológicos, individuais e coletivos. Para quase todo o mundo, é inegável que houve uma adesão natural à tecnologia para sobreviver àquele isolamento forçado e de profundas transformações. 

No campo da educação, foi um período em que o distanciamento social colocou a todos em frente de uma tela de computador ou celular, seja para amenizar os impactos na saúde mental provocados pela doença. Diante das telas, foi possível trocar experiências, fazer negócios e, acreditem, continuar a estudar ou até começar um novo curso. 

De certa forma, o coronavírus impôs a professores e alunos, além de gestores e pedagogos, à lógica da Educação a Distância (EaD), usando e abusando da tecnologia disponível em 2020 e 2021, ou seja, nem há tanto tempo assim. Durante estes dois anos, a modalidade de ensino, que ainda hoje faz com que muitos torçam o nariz, acabou sendo a única alternativa possível, e disponível, para não paralisar o sistema de educação em todos os níveis, uma vez que não se tinha ideia de quanto tempo duraria aquele cenário.

O que já se sabe é que aquele tempo de incertezas produziu um fenômeno que só agora podemos ter a exata dimensão. O Censo da Educação 2025, levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministro da Educação (MEC), mostra que as matrículas em EaD foram mais da metade (50,7%) do total de inscritos na graduação, apresentando um aumento de 5,6% entre 2023 e 2024. Enquanto isso, o número de matrículas em cursos presenciais diminuiu 0,5%, no mesmo período. 

Os números confirmam a máxima de que é nas piores crises que as oportunidades nascem e prosperam. E na educação não foi diferente. Até 2024, a matrícula na modalidade EaD estava presente em 3.387 municípios brasileiros (61%), por meio dos campi das instituições de ensino superior ou de pólos com alta de 97%, se comparado com o ano de 2014. E mais: o predomínio do EaD chega a 73,5% dos novos alunos de ensino superior, refletindo numa explosão de matrículas, 286,7% entre os anos de 2014 e 2024.

Infográfico apresenta dados sobre o cenário da Educação a Distância no Brasil entre 2014 e 2024. No centro, uma personagem está sentada diante de um notebook. Ao redor, quatro círculos trazem informações estatísticas. Um deles informa que o país possui 10,2 milhões de estudantes no ensino superior, com 50,7% matriculados no EaD. Outro destaca crescimento de 286,7% na graduação EaD e queda de 22,3% nas matrículas presenciais. Também há dados sobre cursos tecnológicos a distância e cerca de 3 mil cursos EaD em funcionamento no Brasil.

No contexto geral, o Censo da Educação 2025 apurou ainda que o Brasil atingiu, pela primeira vez, a marca de 10.227.226 de estudantes no ensino superior, em 2024, nas três modalidades: presenciais, semipresenciais e a distância. O número é 2,5% maior que o registrado em 2023 (9,97 milhões de matrículas). Entre 2014 e 2024, as matrículas na educação superior aumentaram 30,5%.Do total de matrículas, 5,01 milhões ingressaram no ensino superior no ano passado. 

Este ano, um decreto presidencial estabeleceu a Nova Política de Educação a Distância (EAD), em que os cursos superiores de Medicina, Direito, Odontologia, Enfermagem e Psicologia devem ser ofertados exclusivamente no formato presencial e estabelece regras mais rígidas para a oferta da modalidade visando garantir qualidade.

Formação e qualificação

Para além dos números, o que nos ajuda a entender esse movimento de busca pela modalidade EaD é a possibilidade de garantir uma formação técnica, superior ou de pós-graduação, e melhorar a qualificação profissional fora do formato presencial.  Sim, porque das mais de 3 mil instituições que oferecem a modalidade, a maioria esmagadora é de cursos particulares, enquanto nos últimos anos verifica-se a adesão às instituições públicas de ensino, federais e estaduais, com um atrativo a mais: ser gratuita e com qualidade.

“A pandemia foi aquele movimento em que todo mundo entrou nas ferramentas virtuais e foi muito desafiador, pois tivemos que promover muitas capacitações necessárias para o uso do Google Meet, muito popular naquele momento”, relembra o  professor Alexandre Dullius, diretor para EaD do Instituto Federal do Paraná (IFPR), do campus Paranaguá.

A imagem é de um homem sorrindo para a câmera em um ambiente interno. Ele tem pele clara, cabelo curto e escuro penteado para trás, barba e bigode bem aparados. Usa óculos de armação redonda e expressão amistosa. Está vestido de forma social, com terno azul-marinho, camisa branca e gravata azul texturizada. A foto parece ter sido tirada em estilo selfie, mostrando parte do tronco e do ombro. Ao fundo, há um painel colorido com faixas verticais em tons vibrantes de roxo, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho, além de linhas geométricas pretas formando um desenho moderno. O ambiente transmite um clima alegre e profissional.
Alexandre Dullius, professor e diretor do Ensino a Distância do IFPR (Foto/Arquivo pessoal)

Na pandemia, a sala virtual tinha o professor e estudantes, a grande maioria com as câmeras desligadas, e não havia interação. “Hoje, o grande desafio é promover essa interação, tornando o processo de aprendizagem mais inclusivo e flexível, chegando a públicos que nossos cursos presenciais não conseguem alcançar”, salienta Dullius.   

O diretor enfatiza ainda que o processo pedagógico específico para o EaD foi sendo aprimorado, a partir da experiência da pandemia, para adaptar conteúdos e formatos de vídeo, por exemplo, com tempo menor, para que o ambiente virtual facilite a aprendizagem do estudante de acordo com o curso.

“Por meio de novas ferramentas, nós temos um acompanhamento contínuo, com tutoria ou mediação, sempre pensado para que alunas e alunos possam concluir etapas, respeitando o público diverso que busca formação no instituto e as suas particularidades”, complementa. 

Para ingressar nos cursos EaD do IFPR, sejam técnicos, graduação ou pós-graduação, é necessário participar de um processo seletivo, que não é um vestibular tradicional com provas. A aceitação costuma ser feita por sorteio público eletrônico ou análise de histórico escolar, dependendo do edital vigente. 

É preciso ter o Ensino Médio completo para os cursos técnicos subsequentes. A seleção também prevê vagas para ampla concorrência e políticas de cotas, como alunos oriundos da escola pública, baixa renda, pretas/pardas, indígenas, quilombolas e Pessoa de Deficiência (PCD).

Mas afinal, qual é o público que hoje procura os cursos na modalidade a distância?

O professor Alexandre conta a própria experiência familiar para explicar quem está aderindo ao EAD. Único com curso superior na família, ele orientou a irmã, que aos 52 anos concluiu, recentemente, uma graduação a distância, após criar os filhos e desejar voltar ao trabalho.

“Esse é o nosso público, mulheres, mães que têm as suas rotinas diárias, e também trabalhadores de todas as idades que buscam formação em cursos com maior flexibilidade de horários, ou mesmo profissionais, como professores que podem estar vinculados com o presencial ou somente trabalhar com tutoria ou mediação a distância”, explica. 

Diante de tanta diversidade e particularidades, o professor diz que também há aquelas pessoas que ainda pensam que no EaD vão encontrar uma formação mais rápida ou mais facilitada. “É uma coisa que está ultrapassada, principalmente dentro da nossa instituição.  A gente nunca teve uma oferta de um curso auto-instrutivo, por exemplo, que não tivesse uma mediação humana”, reforça Alexandre.

Importante saber que além da oferta da Educação a Distância e da Presencial, existem também a modalidade Híbrida, que mistura os dois formatos. Para conhecer mais como funciona, o Conexão Ciência produziu um vídeo que traz as diferenças e vantagens dos tipos de ensino no Brasil. Confira abaixo!

Letramento Digital 

Com a proposta de promover a educação de qualidade, proporcionando acesso ao conhecimento para pessoas de diferentes regiões e realidades socioeconômicas, a EaD já está presente em muitos cursos presenciais, graças às novas tecnologias. 

Além da flexibilidade que permite uma educação inclusiva, outro desafio que se apresenta é promover o letramento digital de alunos e professores para que possam dominar essas tecnologias. No caso dos docentes, é preciso estar preparado para atender estudantes, dos quais muitos já lidam com as ferramentas. 

Porém, as tecnologias não fazem o trabalho de ensino e aprendizagem sozinhos.  O que precisa ser abordado e inserido nos conteúdos é a preparação do aluno para o mundo do trabalho, que vai além das questões técnicas e práticas. É aqui que entra a professora do curso de Pedagogia do IFPR, Vanessa Lopes Ribeiro, formada em Letras, Português e Inglês, com doutorado em Tecnologia e Sociedade pela UTFPR, campus Curitiba. 

A imagem traz um retrato em close de uma mulher sorrindo para a câmera. Ela tem pele clara, cabelos longos e lisos em tom castanho claro com mechas mais claras, repartidos de lado. Seus olhos parecem castanhos claros, e ela usa maquiagem discreta. Está vestindo uma camisa branca de tecido leve, com a gola aberta, e um colar delicado dourado. A iluminação é quente e suave, dando um tom acolhedor à imagem. Ao fundo, aparece parte de uma janela branca, com o exterior escuro, sugerindo que a foto foi tirada à noite em um ambiente interno.
Vanessa Lopes Ribeiro, professora de Pedagogia do IFPR, campus Curitiba (Foto/Arquivo pessoal)

Vivendo no México há quase dois anos, a professora está responsável pelo atendimento de alunos do EaD que estão com dificuldade em lidar com a tecnologia. Com experiência de mais de 35 anos em sala de aula, dos quais 15 no IFPR. Vanessa conta que agora está podendo colocar em prática toda a experiência acumulada para ajudar no letramento digital.

“No curso de Pedagogia vi a oportunidade de trabalhar essa minha paixão, que é alfabetização e letramento. Isso porque, antes mesmo de iniciar a minha atuação no instituto, fiz uma formação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa de quatro anos semipresencial, enquanto atuava como professora. Então, eu vivi do outro lado como estudante da Educação a Distância”, salienta. “Quando se tem a experiência de metodologias, estratégias, intervenções pedagógicas e, também, de avaliação, diz, em que “você acaba se colocando também do outro lado, não só como no papel de estudante”, completa.

A partir desta vivência, Vanessa se dedica ao trabalho de atender aos estudantes com dificuldade de letramento digital, como postar as atividades na plataforma, entender a execução das atividades, as propostas e têm dificuldade de produzir material escrito.

“Comecei fazendo esses atendimentos através de uma divulgação de planilha em que os estudantes iam se inscrevendo e eu atendia à noite, que é o horário que eles tinham livre. Porque são estudantes que trabalham durante o dia e muitos deles já estavam sem estudar há muito tempo e resolveram retornar e fazer um curso técnico”, explica a professora.

Infográfico apresenta dados da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica em 2025, com fundo azul-escuro e elementos gráficos coloridos. Em um círculo, aparecem informações do Brasil: 38 Institutos Federais e CEFETs, 661 estruturas com matrículas e mais de 2,3 milhões de alunos atendidos. Outro círculo mostra dados do Paraná e do IFPR, com 22 campi, 2 Centros de Referência, atuação em 26 cidades, cerca de 38 mil matrículas e mais de 2,7 mil profissionais. Um terceiro destaque informa a criação de 6 novos campi e 7 mil novas vagas.

Mundo do Trabalho

Além de tecnologias, a metodologia para os cursos técnicos subsequentes está amparada na teoria desenvolvida na Pedagogia Histórico Crítica, em que o estudante se torna o protagonista da sua própria aprendizagem.

“Essa abordagem pedagógica não anula o papel do professor! Ele detém o conhecimento e se torna um ‘provocador’. É diferente da escola em que o aluno senta e recebe as informações, que depois faz uma atividade avaliativa numa prova, sem muita autonomia e organização para o estudo”, esclarece a pedagoga. 

No Ead do IFPR, as estratégias, intervenções e a escolha da metodologia são as metodologias ativas. “Assim, permite-se que o estudante possa desenvolver uma leitura crítica, no sentido mais amplo, do mundo, para que ele não leia apenas o que está escrito, mas também em tudo que ele olha e, principalmente, o seu ambiente de trabalho”, explica. Neste sentido, mais que preparar para o mercado de trabalho, os cursos técnicos orientados pela professora Vanessa permitem que o aluno se encontre no ‘mundo do trabalho’.

“Ao final, a proposta é que ele, o estudante, desenvolva autonomia, seja um executor, que se encontre como ser humano integral, faça leituras críticas da realidade a sua volta e busque mais conhecimentos para poder solucionar uma situação-problema ali do trabalho”, destaca. São alunos que cursam Técnico em Meio Ambiente, Geografia, determinada Engenharia, procurando complementar algo mais da prática, mais específico, que a engenharia muito ampla na graduação não dá conta tão rapidamente.

A imagem é de um grupo de cerca de dez pessoas reunidas em um evento ao ar livre, sob uma tenda branca. Algumas pessoas estão em pé e outras agachadas, todas olhando para a câmera e sorrindo. O grupo usa crachás pendurados no pescoço, sugerindo participação em congresso ou seminário. No centro da imagem, as pessoas seguram uma faixa branca com a sigla “ead IFPR” em letras grandes e coloridas. Acima delas há um grande banner do evento “X SEPIN”, decorado com vários quadrados coloridos relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. O banner também mostra a data “22 a 24 OUT” e a cidade de Foz do Iguaçu. As roupas são variadas, desde camisetas e blusas casuais até roupas mais sociais. À direita, um homem veste camiseta laranja esportiva; à esquerda, uma mulher usa blusa estampada em tons terrosos. O ambiente parece ensolarado, com árvores e luz natural visíveis ao fundo.
Alunos do EaD participam do Seminário de Integração do Núcleo Base (SIPEN), um evento anual promovido no IFPR, campus Paranavaí (Foto/Arquivo Alexandre Dullius)

Além de atender aos estudantes da modalidade EaD, Vanessa também está envolvida na criação e coordenação de um curso de formação de professores mediadores, desafio que conta com a assessoria do professor Silvio Tacara. “Depois de ver as dificuldades dos docentes, recebi essa demanda do diretor Alexandre [Duillis] e estamos finalizando a primeira turma e nos preparando para a segunda”, informa. 

Para saber mais sobre a modalidade a distância, o C² preparou o podcast “Conexão EaD” com o professor Alexandre Dullius. Dê um play e confira!

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Texto:
Silvia Calciolari
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Maria Eduarda Tenório Calvi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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