Real ou Fake? Projeto da UEPG pesquisa desinformação

Ilustração com fundo laranja e azul mostrando um mapa estilizado da região dos Campos Gerais em amarelo, sobre um mapa maior em roxo. No centro há um marcador de localização e a inscrição “CAMPOS GERAIS”. Ao redor aparecem celulares, notebooks e jornais representando circulação de informações. Alguns dispositivos exibem ícones azuis de aprovação, enquanto outros mostram símbolos vermelhos de reprovação. Jornais trazem selos verdes de verificação ou o texto “Fake News” com símbolo de proibição. No canto inferior direito está o crédito: “© Conexão Ciência | Arte: Madu Tenório”.
Estudantes realizam combate à desinformação nos Campos Gerais junto à comunidade por meio de projeto de extensão

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Imagine ter uma dúvida e não poder recorrer à internet para encontrar a resposta? 

Ou precisar confirmar uma informação e depender só de livros e uma visita à biblioteca para resolver? 

Sem nenhum mecanismo de busca, redes sociais ou inteligência artificial, antigamente, para encontrar uma informação exigia muito tempo e paciência. 

O que parece distante da realidade atual em que vivemos, foi por muito tempo a maneira como tínhamos acesso ao conhecimento.

Hoje, com o avanço da tecnologia e a facilidade do acesso digital, o desafio deixou de ser a escassez de informação e passou a ser um outro cenário. 

Agora, com o excesso de conteúdos que circulam diariamente e são compartilhados a todo instante, transformaram a busca pelo conhecimento em uma tarefa cada vez mais complexa, na qual distinguir o que é confiável do que é falso se tornou o novo obstáculo a ser superado.

E é nesse contexto que nasce o projeto de extensão ‘’Combate à Desinformação nos Campos Gerais”, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Criado em 2022, ele surgiu a partir das necessidades de compreender e enfrentar um problema cada vez mais presente na sociedade: a desinformação.

Coordenado pelo professor Manoel Moabis Pereira dos Anjos, doutor em Ciências da Comunicação, mestre em Jornalismo e docente do curso de Jornalismo da UEPG, o projeto busca desenvolver estratégias de educação midiática, formação crítica e qualificação da circulação da informação em toda a região dos Campos Gerais. 

“Mais do que combater casos isolados de notícias falsas, o projeto Combate à Desinformação nos Campos Gerais procura compreender como a desinformação atinge diferentes esferas da vida social e influencia a maneira como as pessoas interpretam acontecimentos, tomam decisões e constroem suas percepções sobre o mundo” afirma o coordenador. 

Foto de grupo em um auditório. Cerca de vinte pessoas, entre estudantes, professores e convidados, posam diante de um palco com cortinas pretas. Ao fundo, há dois banners sobre combate à desinformação, um deles relacionado às eleições e outro aos Campos Gerais. A maioria está em pé, enquanto algumas pessoas estão agachadas na frente. O ambiente tem piso de madeira e cadeiras de auditório visíveis no primeiro plano. A cena transmite um momento de encontro institucional e registro coletivo de um projeto acadêmico.
Evento do projeto Combate a Desinformação nos Campos Gerais nas eleições 2024 (Foto/Arquivo pessoal)

Como o projeto uniu a universidade e a comunidade

O professor contou que o fenômeno da desinformação normalmente se intensifica em épocas eleitorais e isso ocorre devido à atuação de muitos grupos que produzem e disseminam conteúdos enganosos, para, assim, causarem efeitos em suas campanhas de maneira estratégica.

Por isso, motivados por esse período e pela preocupação de como a desinformação poderia influenciar a decisão pública naquele momento, o projeto surgiu e uniu-se à comunidade a partir da percepção de que a universidade também possui um papel social no enfrentamento desse fenômeno.

Para Manoel, apesar da desinformação não ser um problema recente, o contexto em que vivemos aumenta significativamente seus impactos.

“Ela não surge com as redes sociais, mas a gente identifica que o cenário atual amplifica gravemente esse problema, principalmente, pela forma de consumo e circulação que as notícias são feitas pelas plataformas digitais”, explica.

Então, buscando combater esse tipo de ação, as primeiras iniciativas do projeto tiveram como foco conquistar primeiramente um ambiente mais informacional e confiável.

Para isso, foram realizados diversos fóruns com a comunidade, debates com candidatos e atividades de esclarecimento sobre o funcionamento do processo eleitoral, a fim de transmitir segurança  para o eleitor no momento do processo de votação.

“A gente começou realizando eventos para colaborar com a sociedade justamente nesse momento de decisão, tentando oferecer informações seguras e debates qualificados”, relatou o professor.

Auditório lotado durante um evento acadêmico. Centenas de pessoas estão sentadas em fileiras de cadeiras de madeira, voltadas para um palco ao fundo. No palco, uma mesa com palestrantes participa de um debate ou mesa-redonda, acompanhada por uma tela de projeção e banners institucionais. O espaço é amplo, com paredes cinzas, cortinas pretas altas e iluminação direcionada ao palco. A cena transmite grande participação do público e um ambiente de discussão e compartilhamento de conhecimento.
Evento de debate entre candidatos das eleições (Foto/Arquivo pessoal)

Como o projeto atua no combate à desinformação

Na prática, o projeto funciona por meio de diferentes frentes de atuação. Tendo um caráter multidisciplinar, a iniciativa reúne professores dos cursos de Jornalismo, História,  Direito e Educação, da UEPG, além da participação da comunidade e de diversos estudantes responsáveis pelas atividades e pesquisas.

Esse aspecto multitarefa vai desde a produção de conteúdos audiovisuais e podcasts, até a realização de encontros, debates e grupos de estudo voltados à compreensão do processo da desinformação. 

Há também eventos dedicados à discussão de temas históricos e políticos, como por exemplo o “Ciclo Descomemorar Golpes”, que ocorreu em abril deste ano, na UEPG, com diversas atividades, como painéis, exposições artísticas, diálogos, mostra documental e lançamentos de livros.  

Além da produção acadêmica e dos espaços de debate, o projeto também atua diretamente nas escolas, trabalhando principalmente com estudantes do ensino médio. 

Uma das atividades levadas a essa comunidade é o jogo educativo “Real ou Fake?”,  uma brincadeira aplicada por meio da dinâmica com cartas que incentiva discussões sobre notícias falsas, fomentando o diálogo entre jovens que estão entrando em uma fase de maior participação cidadã, que é o período de decisão do voto. 

Sala de aula iluminada, com dezenas de estudantes sentados em carteiras organizadas em fileiras. Na frente da sala, um grupo de jovens e professores está alinhado diante de um grande quadro verde, apresentando uma atividade ou palestra. Os alunos observam atentamente, enquanto alguns anotam ou acompanham a fala. O ambiente possui piso de madeira, janelas amplas com cortinas claras e um clima de interação educativa entre universidade e escola.
Aplicação de atividades do projeto nas escolas (Foto/Arquivo pessoal)

Os impactos da desinformação 

O projeto trabalha na tentativa de amenizar os efeitos que podem ser ocasionados pela desinformação, já que, muitas vezes, o senso comum tende a considerar a mentira como algo menor, sem impactos significativos. 

Porém, o coordenador afirmou: “como profissional da área do jornalismo, eu tenho que dizer que sim, informação ela é um elemento essencial para estruturar o modo como a sociedade funciona. Uma sociedade mal informada, uma sociedade desinformada, tomam as piores decisões possíveis.”

Um exemplo disso foi observado durante a pandemia de Covid-19, quando a circulação de informações falsas sobre tratamentos, prevenção e vacinação atingiu significativamente a saúde pública e representou um perigo de risco à vida.  

Na época, como consequência dessa disseminação, muitas famílias perderam parentes e pessoas próximas por acreditarem em fake news.

Dentro dessa perspectiva, um dos programas desenvolvidos pelo projeto é o Saúde e Cidadania, realizado em parceria com o Conselho Municipal de Saúde de Ponta Grossa, a iniciativa consiste em discutir sobre os principais desafios da saúde pública no município e contribuir para um melhor entendimento social sobre essas questões. 

Estúdio improvisado de gravação em uma sala branca. Duas mulheres estão sentadas em cadeiras voltadas para a câmera: uma jovem à esquerda, com blusa azul e calça jeans, e outra mulher ao centro, usando vestido vermelho. Ao lado delas, uma televisão exibe a identidade visual do programa “Saúde & Cidadania”. Em primeiro plano, uma câmera profissional e um monitor de gravação ocupam parte da imagem, evidenciando a produção audiovisual. O ambiente é simples, com piso branco, poucos móveis e equipamentos de filmagem visíveis.
Gravação do programa Saúde e Cidadania (Foto/Arquivo pessoal)

Mais além da saúde, questões que são ligadas ao interesse público, como as decisões governamentais, a condução de políticas públicas e a forma como temas sociais são debatidos e compreendidos pela população, também podem ser impactadas pela desinformação. 

Outro efeito também seriam os danos à reputação e à imagem das pessoas, especialmente grupos mais vulneráveis, como mulheres, por exemplo, que estão entre as principais vítimas da disseminação de conteúdos manipulados.

A relevância para a sociedade

Segundo o coordenador, a legislação eleitoral avançou muito nos últimos anos no combate à desinformação, porém esse ainda é um problema que apresenta desafios a serem superados no Brasil.

“Para comunidade, o projeto contribui muito ao provocar reflexões sobre o fenômeno da desinformação, pois muitas vezes, a desinformação é vista apenas como um meme que está circulando na internet. No entanto, a ideia busca mostrar que um simples meme não é algo tão banal assim quanto parece e que, na realidade, possui implicações mais graves do que se imagina.” explica Manoel.

Por este motivo, vinculado também à Rede Nacional de Combate à Desinformação, iniciativa apoiada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o projeto busca colaborar para o fortalecimento de uma sociedade mais informada e preparada para lidar com conteúdos que podem ser enganosos na internet. 

E essa relação que se dá entre a universidade e a sociedade acontece de maneira mútua. Além dos resultados que o projeto oferece, há também aquilo que a própria comunidade proporciona ao projeto, como a capacidade de experienciar diferentes contextos e poder compreender dinâmicas em que a desinformação circula. 

Manoel nos contou que essa troca tem apresentado diversas realidades para o projeto, revelando que estratégias que são pensadas para determinados públicos mostram que nem sempre funcionam da mesma forma quando aplicadas em outros ambientes. 

“Um exemplo disso ocorreu durante uma ação realizada em uma escola localizada fora da área urbana. Na ocasião, aplicamos o jogo educativo “Real ou Fake?”, mas a atividade não apresentou os resultados que esperávamos, porque ela havia sido pensada especificamente para estudantes que são do meio urbano, já que foram considerados temas e formas de circulação da informação próprias dessa realidade. Essa experiência, então, demonstrou a importância de adaptarmos as estratégias às especificidades de cada público” relata o coordenador.

Espaço comunitário simples, com estrutura de madeira e iluminação natural entrando pelas frestas das paredes. Crianças e adultos estão sentados em cadeiras organizadas em fileiras, assistindo atentamente a uma projeção exibida em uma tela ao fundo. O ambiente tem chão de terra batida e aspecto rural, criando uma atmosfera acolhedora de encontro e aprendizado coletivo. A cena transmite um momento de educação, lazer e compartilhamento de conhecimento com a comunidade.
Atuação nas escolas distantes da área urbana (Foto/Arquivo pessoal)

As expectativas do projeto para a comunidade

“O projeto está sempre se renovando”, explica dos Anjos. Segundo ele, a interação entre a universidade e a sociedade demonstra de maneira concreta como diferentes grupos são movidos pela desinformação.

Em ações realizadas pelo projeto em cidades como Teixeira Soares foi possível observar que grupos sociais são afetados de maneiras distintas uns dos outros. 

“Uma experiência é trabalhar com estudantes em escolas, por meio da aplicação do jogo educativo “Real ou Fake?”, já outra, bastante diferente, é discutir o tema com grupos da terceira idade, que demandam abordagens mais específicas, por exemplo”, conta o coordenador. 

Uma sala de aula ampla e iluminada, com dezenas de adultos e idosos sentados em fileiras de mesas azuis, atentos a uma apresentação projetada na frente. Três pessoas estão em pé próximo ao quadro, conduzindo a atividade. A luz entra pelas janelas à esquerda, criando um ambiente acolhedor e participativo.
Evento com idosos (Foto/Arquivo pessoal)

Essa participação da comunidade é fundamental para evolução do projeto, pois a forma e o método em que ele desenvolve se alteram de público para público. 

Por isso, a expectativa agora está em ampliar o envolvimento da sociedade e em construir ações cada vez mais adequadas às diferentes realidades sociais.

Caminhos para combater a desinformação

A primeira dica que o professor compartilhou é sempre ter uma perspectiva de dúvida. 

“Ao receber um conteúdo, primeiramente, deve-se verificar se ele está devidamente identificado e se está preocupado em informar ou em apelar para as suas emoções, pois esses são indicadores de que o conteúdo pode ser falso”, alerta ele. 

Normalmente, esses conteúdos que apelam para a emoção, apresentam chamadas sensacionalistas e circulam em grupos de WhatsApp ou em páginas de redes sociais muito específicas, não fazem parte do jornalismo profissional.

A ideia é justamente saber diferenciar uma informação que circulou em um grupo, que por vezes tenta sustentar uma teoria conspiratória, do trabalho de um jornalista profissional, que atua cotidianamente trazendo aquilo que, de fato, interessa à vida das pessoas.

Infográfico com fundo laranja intitulado “Como combater a desinformação? Passo a passo”. Abaixo do texto “Antes de compartilhar:”, apresenta cinco orientações em balões azuis: 1 – Desconfie!, ilustrado por uma pessoa pensativa; 2 – Verifique a fonte, com notebook e lupa; 3 – Analise o conteúdo, com celular exibindo “URGENTE”; 4 – Fique atento onde circula, com celular mostrando aplicativos de redes sociais; 5 – Diferencie informação de qualidade, com tela de TV marcada como verificada e uma pessoa ao lado de símbolo de proibição e da expressão “Fake News”. No rodapé está o crédito: “© Conexão Ciência | Arte: Madu Tenório”.

Portanto, um dos caminhos para evitar que o fenômeno da desinformação continue se espalhando é: antes de compartilhar, verifique as informações, mantenha uma postura de dúvida, avalie se esse conteúdo faz sentido e procure fontes de jornalismo profissionalizado.

Isso pode ajudar bastante a construirmos um sistema de divulgação de informação mais qualificado, íntegro e próspero para todos.

Para a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e para toda a região dos Campos Gerais, projetos de extensão como este são muito mais do que produzir conhecimento, eles são fundamentais para fortalecer o papel social que a universidade possui e mostrar como a pesquisa é importante, tanto para os estudantes quanto para a comunidade, pois representa uma oportunidade de ampliar e promover o desenvolvimento social e a cidadania.

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Texto:
Vitória Luiza Gomes de Oliveira Pimentel
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Madu Tenório
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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