“No livro da vida não se volta, quando se quer, a página já lida, para melhor entendê-la; nem pode-se fazer a pausa necessária à reflexão”, escreve Paulo, narrador e protagonista da obra Lucíola, de José de Alencar.
Na obra, publicada em 1862, a personagem desabafa, em uma carta à Sra. G.M., a respeito de seu envolvimento com a personagem Lúcia. No trecho, o narrador argumenta acerca da irreversibilidade do tempo e a maneira como a vida, muitas vezes, não nos permite revisar os erros do passado ou realizar uma pausa para entender as situações no momento em que elas acontecem.
O paralelo com a literatura é interessante, uma vez que a leitura nos permite justamente o contrário, aquilo que a vida muitas vezes nos nega: a pausa para reflexão. É possível ler, reler, revisar e debater com um mesmo livro uma centena de vezes.

A ideia expressa por José de Alencar dialoga diretamente com a própria experiência literária e, não por acaso, no dia 01 de maio comemora-se, nacionalmente, o Dia da Literatura brasileira, data escolhida em homenagem ao nascimento do escritor cearense.
José de Alencar, popularmente conhecido como o “pai da literatura brasileira”, foi jornalista, advogado, político e escritor. O autor é o principal expoente do Romantismo no Brasil e desenvolveu um projeto literário de dimensão nacional.
Se o “livro da vida” é tão duro quanto pontua o autor, os outros livros caminham na direção contrária: eles, na verdade, nos convidam à reflexão. É nesse espírito de pausa, diálogo e análise que nasce o projeto Sábados Literários, da Unicentro.
Sábados Literários: 14 anos de história
A ideia do Projeto de Extensão Sábados Literários, liderado pelo Departamento de Letras do Câmpus de Irati (Delet/I) da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), foi concebida em uma conversa entre professores em sala de aula. “Discutíamos como seria importante falar de literatura para além dos muros da universidade”, explica o professor Edson Santos Silva, coordenador do projeto e um dos idealizadores da iniciativa.
Edson é professor associado de Literatura portuguesa na graduação do curso de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), nos campi de Irati e Guarapuava, além de ser Coordenador de Cultura do Câmpus de Irati.

Os Sábados Literários já somam catorze anos de existência e essa história foi construída com a colaboração de diferentes entidades, como a Prefeitura Municipal de Irati, a Secretaria Municipal de Cultura e diferentes órgãos dentro da própria universidade.
“Praticamente toda a universidade se envolve: a comunicação, a tecnologia, o setor do Centro de línguas; o coordenador geral sou eu, mas conto com vários professores do Departamento de Letras (Delet), de Extensão, de Cultura e a diretoria de cultura”, afirma o professor.
Além disso, o projeto também tem parceria com a Academia de Letras e Artes do Centro Sul do Paraná (ALACS), a Fundação e Cineclube Denise Stoklos e o Sebo Centenário. A seguradora de carros MM é responsável pelo patrocínio dos livros que são fruto do projeto.
Ao longo desses catorze anos, o projeto já publicou onze livros. Anualmente, esses livros são resultado dos temas discutidos nos encontros, e publicados pela Editora Todas as Musas. Além disso, todos os exemplares se encontram disponíveis nas bibliotecas da Unicentro dos campi Irati e Guarapuava.
Os encontros: uma vida de mão dupla
Os encontros do projeto, inicialmente, aconteciam de maneira presencial. Durante a pandemia da Covid-19, o projeto passou para o formato on-line, com encontros sempre nos últimos sábados do mês, das 14h às 17h. O professor Edson argumenta que a mudança de formato foi positiva, devido ao aumento no alcance de pessoas de várias localidades.
“Um ano antes, a gente convida os professores, que são sempre muito generosos e não recebem nada, e a gente escolhe um tema. Geralmente, o palestrante tem uma hora ou mais para falar acerca do assunto e depois abre para perguntas. A gente fica na sala do Google Meet batendo esse papo, essa conversa é transmitida para o mundo inteiro e fica gravada via YouTube”, explica o coordenador.
De acordo com Edson, o perfil do público é vasto e diversificado: “Tem de tudo… Há alunos do Ensino Fundamental e Médio, professores da rede pública e professores universitários, alunos universitários, mestrandos e doutorandos, alunos de vários cursos. É um público muito variado, e há também os amantes da literatura”, enfatiza.
Nesse sentido, o professor explica que o projeto atinge não só a comunidade interna da universidade, mas, principalmente, a comunidade externa. De acordo com o coordenador, a depender do encontro, os números da comunidade externa ultrapassam os números da comunidade acadêmica da Unicentro.

“Nós temos um público de fora muito fiel ao projeto. Mas, claro, é um evento que a gente pensa muito nessa via de mão dupla. A gente já pensa muito no público da universidade e no público de fora da universidade, senão não teria sentido ser um projeto de extensão”, conclui o professor.
Curadoria, do latim curare
Toda edição do projeto Sábados Literários se desenvolve acerca de um tema específico. A escolha desse tema, bem como a curadoria dos convidados e a escolha das obras, é feita pelo coordenador do projeto, Edson, junto a outros professores parceiros, sempre no ano que antecede a cada edição.
O evento de 2026 tem como tema “Literatura Infantil e Juvenil”, e conta com uma programação completa, que vai de março a dezembro.

“Este ano, a curadoria é minha e de Sonia Pascolati, professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ela já é minha parceira em outros projetos e participou dos Sábados Literários em outros anos. Ano passado, ela me perguntou se não seria bom realizar encontros com o tema literatura infantil e juvenil, e eu amei. Ela convidou dez palestrantes e eu, dois”, relembra o coordenador.
O professor explica ainda que os convites aos palestrantes são feitos por e-mail ou WhatsApp, e que o retorno é bastante positivo por parte dos convidados, que participam sempre de maneira voluntária.
Desde 2012, o projeto publica livros na temática dos encontros. Ao todo, já são dez edições e, ainda no ano de 2026, o 11º livro será publicado, com o tema ‘Literatura Paranaense’, que guiou os encontros de 2025.
Qual o final dessa história?
Projetos de extensão como os Sábados Literários são, sobretudo, uma ponte entre a universidade e a sociedade. Quando a comunidade possibilita a existência dos espaços universitários, é necessário que a academia siga devolvendo e contribuindo com a produção interna para a sociedade.
E a manutenção de projetos como esse nunca é simples e, tampouco, fácil. Entretanto, o coordenador do projeto acredita que cercar-se de pessoas que acreditam nesse trabalho é fundamental.
“O desafio é acreditar que a cultura torna a nossa vida melhor, né? E aí eu fico muito à vontade para pensar na música que o Arnaldo Antunes canta: ‘A gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão e arte’. A arte é um dos elementos da vida. A gente precisa dela. Acreditando nisso, eu estou ecoando muitas pessoas à minha frente e atrás de mim”, reflete Edson.
E o professor ainda completa que “quando a gente acredita que a cultura é fundamental na vida humana, todos os desafios se tornam pequenos… Enquanto essa crença for viva em nós, não tem desafio que a gente não enfrente.”
Ano após ano, o projeto segue usando a poderosa ferramenta do livro para fazer aquilo que a vida, tantas vezes, como sugere o narrador de Lucíola, parece não nos permitir: dialogar, revisitar, debater e recomeçar.
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Texto: Camila Lozeckyi
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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