Sábados Literários: a literatura para além dos muros

Colagem artística sobre fundo lilás reúne elementos ligados à leitura. Livros empilhados formam uma estrutura em níveis, com lombadas e páginas visíveis. Sobre eles, quatro pessoas em preto e branco aparecem em diferentes posições: uma jovem sentada lendo no topo, outra sentada na base à esquerda, um homem apoiado em pé lendo e outro sentado com um notebook. Uma escada encostada nos livros sugere acesso aos níveis. Há ainda um vaso com planta sobre a pilha e, à direita, um poste de luz. Recortes gráficos com letras e texturas completam a composição, criando um cenário criativo e contemporâneo.
Com 14 anos de história, o projeto de extensão da Unicentro democratiza o acesso à leitura e dialoga com a comunidade

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“No livro da vida não se volta, quando se quer, a página já lida, para melhor entendê-la; nem pode-se fazer a pausa necessária à reflexão”, escreve Paulo, narrador e protagonista da obra Lucíola, de José de Alencar. 

Na obra, publicada em 1862, a personagem desabafa, em uma carta à Sra. G.M., a respeito de seu envolvimento com a personagem Lúcia. No trecho, o narrador argumenta acerca da irreversibilidade do tempo e a maneira como a vida, muitas vezes, não nos permite revisar os erros do passado ou realizar uma pausa para entender as situações no momento em que elas acontecem. 

O paralelo com a literatura é interessante, uma vez que a leitura nos permite justamente o contrário, aquilo que a vida muitas vezes nos nega: a pausa para reflexão. É possível ler, reler, revisar e debater com um mesmo livro uma centena de vezes.

Retrato em tom sépia de um homem do século XIX, com barba cheia e bigode bem aparados. Ele usa óculos de aro fino, veste terno escuro com camisa clara e gravata borboleta. A imagem tem aparência antiga, com textura granulada típica de fotografias ou gravuras da época.
Escritor cearense José de Alencar (Gravura/Reprodução)

A ideia expressa por José de Alencar dialoga diretamente com a própria experiência literária e, não por acaso, no dia 01 de maio comemora-se, nacionalmente, o Dia da Literatura brasileira, data escolhida em homenagem ao nascimento do escritor cearense. 

José de Alencar, popularmente conhecido como o “pai da literatura brasileira”, foi jornalista, advogado, político e escritor. O autor é o principal expoente do Romantismo no Brasil e desenvolveu um projeto literário de dimensão nacional. 

Se o “livro da vida” é tão duro quanto pontua o autor, os outros livros caminham na direção contrária: eles, na verdade, nos convidam à reflexão. É nesse espírito de pausa, diálogo e análise que nasce o projeto Sábados Literários, da Unicentro. 

Sábados Literários: 14 anos de história

A ideia do Projeto de Extensão Sábados Literários, liderado pelo Departamento de Letras do Câmpus de Irati (Delet/I) da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), foi concebida em uma conversa entre professores em sala de aula. “Discutíamos como seria importante falar de literatura para além dos muros da universidade”, explica o professor Edson Santos Silva, coordenador do projeto e um dos idealizadores da iniciativa.

Edson é professor associado de Literatura portuguesa na graduação do curso de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), nos campi de Irati e Guarapuava, além de ser Coordenador de Cultura do Câmpus de Irati.

Homem em pé, de perfil, falando para um pequeno grupo de pessoas sentadas. Ele segura alguns papéis e gesticula enquanto fala, vestindo camiseta com estampa, blazer escuro e jeans. O ambiente é interno, simples e acolhedor, com parede clara ao fundo, um piano ao lado e uma mesa com flores, sugerindo um encontro ou atividade cultural.
Professor de Letras Edson Santos Silva (Foto/Arquivo pessoal)

Os Sábados Literários já somam catorze anos de existência e essa história foi construída com a colaboração de diferentes entidades, como a Prefeitura Municipal de Irati, a Secretaria Municipal de Cultura e diferentes órgãos dentro da própria universidade. 

“Praticamente toda a universidade se envolve: a comunicação, a tecnologia, o setor do Centro de línguas; o coordenador geral sou eu, mas conto com vários professores do Departamento de Letras (Delet), de Extensão, de Cultura e a diretoria de cultura”, afirma o professor. 

Além disso, o projeto também tem parceria com a Academia de Letras e Artes do Centro Sul do Paraná (ALACS), a Fundação e Cineclube Denise Stoklos e o Sebo Centenário. A seguradora de carros MM é responsável pelo patrocínio dos livros que são fruto do projeto. 

Ao longo desses catorze anos, o projeto já publicou onze livros. Anualmente, esses livros são resultado dos temas discutidos nos encontros, e publicados pela Editora Todas as Musas. Além disso, todos os exemplares se encontram disponíveis nas bibliotecas da Unicentro dos campi Irati e Guarapuava.

Os encontros: uma vida de mão dupla

Os encontros do projeto, inicialmente, aconteciam de maneira presencial. Durante a pandemia da Covid-19, o projeto passou para o formato on-line, com encontros sempre nos últimos sábados do mês, das 14h às 17h. O professor Edson argumenta que a mudança de formato foi positiva, devido ao aumento no alcance de pessoas de várias localidades.

  • Sala com várias pessoas sentadas em cadeiras de madeira, vistas de costas, assistindo a um homem em pé na frente. Ele lê ou fala a partir de um papel, próximo a um quadro-negro, enquanto uma apresentação é projetada na parede. O ambiente lembra uma aula, palestra ou encontro literário.
  • A imagem mostra um grupo de pessoas sentadas em cadeiras, organizadas como em uma sala de aula ou auditório. A maioria parece jovem, possivelmente estudantes, e muitos estão com cadernos ou folhas nas mãos, como se estivessem assistindo a uma aula ou palestra. As expressões variam entre atenção, concentração e leve desinteresse. O ambiente é interno, com paredes claras e iluminação natural.
  • A imagem mostra uma estante de madeira cheia de livros organizados em várias prateleiras. As capas são variadas, com destaque para obras de autores clássicos da literatura, como José Saramago e Eça de Queirós. Os livros estão expostos de forma frontal, como em uma livraria ou biblioteca, permitindo ver bem os títulos e capas coloridas.

“Um ano antes, a gente convida os professores, que são sempre muito generosos e não recebem nada, e a gente escolhe um tema. Geralmente, o palestrante tem uma hora ou mais para falar acerca do assunto e depois abre para perguntas. A gente fica na sala do Google Meet batendo esse papo, essa conversa é transmitida para o mundo inteiro e fica gravada via YouTube”, explica o coordenador.

De acordo com Edson, o perfil do público é vasto e diversificado: “Tem de tudo… Há alunos do Ensino Fundamental e Médio, professores da rede pública e professores universitários, alunos universitários, mestrandos e doutorandos, alunos de vários cursos. É um público muito variado, e há também os amantes da literatura”, enfatiza.

Nesse sentido, o professor explica que o projeto atinge não só a comunidade interna da universidade, mas, principalmente, a comunidade externa. De acordo com o coordenador, a depender do encontro, os números da comunidade externa ultrapassam os números da comunidade acadêmica da Unicentro.

A imagem mostra uma apresentação on-line. À esquerda, aparece um slide com o título “A tradução da literatura infantil: desafios e estratégias”, acompanhado de ilustrações, como esferas laranjas e pequenos coelhos. À direita, há a tela de uma videochamada com quatro participantes visíveis, incluindo o palestrante e outras pessoas assistindo ou mediando o encontro. O layout sugere um evento virtual ou aula transmitida ao vivo.
Encontro da 14ª edição dos Sábados Literários (Captura de tela/Reprodução)

“Nós temos um público de fora muito fiel ao projeto. Mas, claro, é um evento que a gente pensa muito nessa via de mão dupla. A gente já pensa muito no público da universidade e no público de fora da universidade, senão não teria sentido ser um projeto de extensão”, conclui o professor.

Curadoria, do latim curare

Toda edição do projeto Sábados Literários se desenvolve acerca de um tema específico. A escolha desse tema, bem como a curadoria dos convidados e a escolha das obras, é feita pelo coordenador do projeto, Edson, junto a outros professores parceiros, sempre no ano que antecede a cada edição.

O evento de 2026 tem como tema “Literatura Infantil e Juvenil”, e conta com uma programação completa, que vai de março a dezembro.

A imagem é um cartaz de divulgação da 14ª edição dos “Sábados Literários”, com foco em Literatura Infantil e Juvenil. O fundo é verde e traz informações sobre um evento on-line, gratuito e com certificação, que acontece aos sábados a partir das 14h. O cartaz apresenta uma programação com datas entre março e dezembro, listando temas e palestrantes relacionados à literatura, educação e leitura. Na parte inferior, há um QR code para inscrição, além de um site, e-mail de contato e logotipos institucionais (Unicentro e Governo do Paraná).
Cronograma dos encontros de 2026 (Imagem/Reprodução)

“Este ano, a curadoria é minha e de Sonia Pascolati, professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ela já é minha parceira em outros projetos e participou dos Sábados Literários em outros anos. Ano passado, ela me perguntou se não seria bom realizar encontros com o tema literatura infantil e juvenil, e eu amei. Ela convidou dez palestrantes e eu, dois”, relembra o coordenador.

O professor explica ainda que os convites aos palestrantes são feitos por e-mail ou WhatsApp, e que o retorno é bastante positivo por parte dos convidados, que participam sempre de maneira voluntária. 

Desde 2012, o projeto publica livros na temática dos encontros. Ao todo, já são dez edições e, ainda no ano de 2026, o 11º livro será publicado, com o tema ‘Literatura Paranaense’, que guiou os encontros de 2025. 

Qual o final dessa história?

Projetos de extensão como os Sábados Literários são, sobretudo, uma ponte entre a universidade e a sociedade. Quando a comunidade possibilita a existência dos espaços universitários, é necessário que a academia siga devolvendo e contribuindo com a produção interna para a sociedade.

E a manutenção de projetos como esse nunca é simples e, tampouco, fácil. Entretanto, o coordenador do projeto acredita que cercar-se de pessoas que acreditam nesse trabalho é fundamental.

“O desafio é acreditar que a cultura torna a nossa vida melhor, né? E aí eu fico muito à vontade para pensar na música que o Arnaldo Antunes canta: ‘A gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão e arte’. A arte é um dos elementos da vida. A gente precisa dela. Acreditando nisso, eu estou ecoando muitas pessoas à minha frente e atrás de mim”, reflete Edson. 

E o professor ainda completa que “quando a gente acredita que a cultura é fundamental na vida humana, todos os desafios se tornam pequenos… Enquanto essa crença for viva em nós, não tem desafio que a gente não enfrente.”

Ano após ano, o projeto segue usando a poderosa ferramenta do livro para fazer aquilo que a vida, tantas vezes, como sugere o narrador de Lucíola, parece não nos permitir: dialogar, revisitar, debater e recomeçar.

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Texto:
Camila Lozeckyi
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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